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Antónios, primárias e dinheirosas...

por John Wolf, em 29.07.14

António Costa bateu por meia-hora o rival António José Seguro - chegou trinta minutos mais cedo para formalizar a sua candidatura às eleições primárias no Partido Socialista (PS). Mas Seguro, certamente melindrado pelo facto, não foi de meias-medidas e apresentou uma resposta à altura da situação: o orçamento para sua campanha é maior que o de António Costa - 165 mil euros contra 163 mil. Parece-me que somos confrontados com um empate técnico. Contudo, existe uma questão de fundo, menos jocosa e mais pertinente, que deve ser endereçada sem demoras, neste caso ou noutros de índole semelhante: a proveniência dos dinheiros de campanha. Este é o momento mais que indicado para avançar com medidas tendentes à normalização e transparência dos processos eleitorais. O cidadão português, recenseado ou não, tem o direito de saber de onde vêm os valores que ajudam a sentar políticos nas cadeiras do poder. As questões financeiras relacionadas com companhas são sempre apresentadas de um modo convenientemente vago. São frases como; "estimam gastar 328 mil euros" ou "está tudo em aberto", que minam a confiança dos eleitores e dão margem para trafulhices. À americana, sem rodeos ou rodeios, que seja publicada a lista oficial de fundos e donativos concedidos à campanha deste ou daquele (podem inserir o apelido Wolf no motor de busca). O Dr. Solgado passou um cheque de 10 mil euros? Não, não consta na lista. Muito bem. Adiante. O Eng. Santos dos Soares teve uma atenção para com o outro? Sim, senhor - está aqui na terceira página do balancete. Estão a perceber? É simples. Pagou - passa-se recibo (dedutível no IRS logo se vê) e publica-se a folha de pagamentos no diário da república. Bananas. Obrigado. Passe bem. Passa para cá o meu.

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publicado às 18:08

Mais um mamarracho à vista, na Fontes Pereira de Melo

por Nuno Castelo-Branco, em 29.07.14

 

Há uns tempos questionávamos acerca do futuro destes três edifícios sitos na Av. Fontes Pereira de Melo.

 

Parece que há quem anda com as ideias do costume, as que as fotos mais abaixo mostram. Vamos lá a ver quem serão os patrocinadores dos projectados mamarrachos. E pensarmos que durante anos andaram a azucrinar-nos com a "monstruosa volumetria" do demolido Monumental...

 

Apenas em escassos 500 metros, temos: o mamarracho Monumental, o mamarracho "Duque" (aquela rasquíssima coisa branca, no Saldanha), o mamarracho Atrium Saldanha, o mamarracho hotel em construção na mesma praça, o mamarracho Saldanha Residence, os dois mamarrachos Sheraton/Imaviz, o mamarracho PT, e pela avenida F. P. de Melo abaixo, horrores mamarrachados dos anos setenta e oitenta - sim, os da 2ª República/ Marcelo Caetano também contam - , culminando com o recente mamarracho Sana. Tudo isto sob o patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa.  

 

Coitados dos senhores Saldanha, Fontes Pereira de Melo e Sebastião José.  

 

  

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publicado às 18:00

E agora, quem defende os Clássicos?

por Cristina Ribeiro, em 29.07.14


A leitura do comentário ao < Diálogo em louvor da nossa linguagem >, de João de Barros, no boletim de Abril de 1951 da Sociedade de Língua Portuguesa, assinado por M. M. T., lembrou-me que, até que Vasco Graça Moura deixou de nele escrever, apenas abria o Diário de Notícias, na versão digital, para o ler. A incondicional defesa da Língua Portuguesa, não poupando os acordistas de serviço, nas suas muitas incongruências, a revolta contra o escandaloso desaparecimento, nos programas de ensino, dos grandes vultos da nossa literatura. Que falta faz nos tempos que vivemos o azorrague empunhado pelo escritor nortenho.




Post Scriptum : Tenho de ressalvar o esforço que no mesmo sentido tem sido feito por um outro jornal, um dos poucos que teima em não baixar os braços nesta patriótica cruzada: refiro-me ao jornal " O Diabo "

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publicado às 17:06

Lisboa, alegado terreno fértil

por Nuno Castelo-Branco, em 29.07.14

Entre  omissões e esquecimentos, temos agora mais um daqueles casos capazes de levantar a má-língua dos blogistas, vizinhos da zona em questão e uns tantos interessados nos assuntos de apaga fogos.

 

O mais recente episódio que deixa um sabor salgado nestas andanças do imobiliário, respeita ao quartel de Bombeiros na Luz, Benfica. É a mais recente infraestrutura construída para os bombeiros de Lisboa e a Câmara Municipal aventa com "problemas de construção, infiltrações", etc. Pelo contrário, quem lá trabalha diz não ser necessária qualquer demolição, mas tão só algumas obras de remodelação. Existe um problema insolúvel - para os bombeiros - e é fácil percebermos porquê. O grupo Espírito Santo alegadamente quer alargar as suas actividades naquela zona, anexando o terreno onde se ergue o quartel dos bombeiros, contíguo ao seu hospital na Av.dos  Lusíadas.

 

Manuel Salgado, o espirituoso vereador do urbanismo de Costa, santamente assinou a proposta. 

 

Diz a Câmara que esse terreno irá a hasta pública. Estranha alegada hasta pública em que por mero alegado acaso de apelido, já surge um alegado vencedor. 

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publicado às 09:56

Humilhação nacional

por Nuno Castelo-Branco, em 28.07.14

Em Lourenço Marques, durante a I Guerra Mundial, o meu bisavô (2ª fila, o quarto a contar da direita para a esquerda, com bigodes retorcidos "à Kaiser") acompanhado por militares portugueses e britânicos  

 

Querem uma verdadeira e bem mais dolorosa que o recente negócio do ingresso de uma pequena parte do Golfo da Guiné na CPLP? Não se trata de qualquer parlapatonice a comentar na TV a propósito de quebra de protocolo, ou de  amuos salva-faces.

 

Aqui está a esmagadora humilhação, podendo ser acrescentada a outras que nos seriam impostas sessenta anos depois. 

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publicado às 18:26

Sugestão para Belém

por Nuno Castelo-Branco, em 28.07.14

As regras são aquelas que se esperavam após a ascensão ao trono. Oxalá por cá se adoptassem normas de conduta como as agora anunciadas em Madrid e porque não?, uma audição a todas as contas de Belém. Sugere-se uma data de partida para o esmiuçar: 1986. 

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publicado às 18:02

Há cem anos, pelas 11 da manhã

por Nuno Castelo-Branco, em 28.07.14

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publicado às 11:00

Novecento

por Fernando Melro dos Santos, em 26.07.14

Olá amiguinhos,

 

Tarde no pré-Agosto. Camila Kemp, Teresa Bonvalot e uma Carina surfaram com muito gáudio. Havia também um Frederico. É belo o Verão nestas edições da Caras para romenos, bolivianos, hondurenhos e lisboetas despojados, ora rebanho resignado àquilo que sobrevier. É horrivelmente matemático de se assistir à balcanização sovietizante da maralha autóctone, quando regressam do curro com os ovos, o pão e as cervejas comprados à força de brutidade obstinada.

 

Relvas nos terraços do Chiado. Ebola. Gins a 20 euros no Urban Beach. O lobby monhé. Peste bubónica, a primeira forma de guerra biológica. Verão total. Há smartphones a menos de 30 euros, manda SMS para o xxxxx com o texto SOMOSTODASVACASDOREGIME.

 

Mário Soares, múmia suprema, foi há dois anos a esta parte apanhado em pleno usufruto de um carro do Estado, surfando o asfalto a 200 km/h e disse, cito os jornais, que a multa seria paga "pelo mesmo de sempre". E foi, e não consta que o tenham sancionado além. Não é que alguém inquira ou esbugalhe. Os jornaleiros preferem vender o coiro rosáceo de polinésias vivências. É a silly reason. Hillbilly season.

 

O cidadão X, em Janeiro deste ano, foi notificado atempadamente que se encontra acusado, arguido, alvo e recipiente das consequências decorrentes de uma contravenção grave: seguia a 102km/h numa avenida mandada construir pelo edil Costa, esse labrego de espaldas assentes na mais quente escalfeta, de origens perdidas na bruma, noutra época escutado à saciedade em conversas onde se aludia a "um núcleo sinistro", "os outros maiores", "a culpa não morrer solteira" e "o bibi comer por todos" - avenida essa onde o edil Costa mandou que se apusessem placas a delimitar o trânsito a 50 km/h, mas com três modernas faixas, largas, abertas, lhanas. Soube enquanto transeunte, não soube enquanto cidadão. Não podem fazer-me nada. Ademais, estou desempregado. O cidadão X contou-me por entre o pranto e a raiva.

 

Fica o utente feito contribuinte sujeito a coima de €300 e como sombra proactivamente educadora 4 a 48 meses de sanção acessória traduzida na inibição de conduzir.

 

E Soares? E Costa? E o BPP, o BPN, o Salgado, o Ferro, o Costa? E o Cavaco, o Sócrates, o Guterres do PIB, Otelo, Durão, e a festa que foi a Parque Escolar? O que pagam e a que sanções se subjugam os animais merdosos que há quarenta anos chupam da teta dos apanhados na faixa do meio em pleno exercício do sorriso e da bonomia?

 

Quem os inibe? Quousque tandem, Catilina?

 

Deixem estar, as respostas estão todas na mesma pergunta.

 

Grandes filhos da puta. Um dia, que espero para breve, o dinheiro dos outros acabar-se-à. As forquilhas, cujas pontas Bertolucci filmou com a cumplicidade de um moço de estrebaria, terão o seu dia. E depois o dilúvio.

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publicado às 18:16

Moreirando

por Nuno Castelo-Branco, em 26.07.14

"Os nove países integrantes da CPLP são lusófonos. Se entre os seus princípios fundadores estão o primado da paz, da democracia, do estado de direito, dos direitos humanos e da justiça social, também é verdade que a força inspiradora da organização punha os valores na lógica de uma lusofonia em diálogo."

A escriba nunca terá ouvido palavra que fosse a respeito de trivilidades como a chacina de toda a oposição negra não-samorista. Pouco lhe importará a astronómica soma de crimes perpetrados ao longo de vinte anos de regime capitaneado por Samora e sucessores. Para a menina Isabel, as chacinas na Angola de Agostinho Neto, a sua ocupação de facto pelos cataneiros de Fidel, foram coisa pouca ou passageiras brisas da estória. A liquidação de milhares de negros, ex-soldados do exército português na Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, "nunca" existiu, talvez sendo execrandos ecos da influência da propaganda vinda dos tempos em que o seu pai era Ministro do Ultramar do governo de Salazar.

 

Quanto aos roubos e apropriação dos bens públicos pelas oligarquias libertadoras de alguns destes países africanos, deverão para Isabel ser coisa marginal, pois habituada como está a assistir a actividades paralelas na antiga Metrópole, não valerá a pena levantar lebres em capim alto. 

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publicado às 17:50

Conhecer Portugal pelo carrascão e pela patanisca

por Nuno Castelo-Branco, em 25.07.14

Esteve na TVI24 - programa das dez da noite - a sempre excitadíssima Gomes que segundo Carlos Abteu Amorim, é "uma grande especialista nos assuntos dos negócios estrangeiros". É? Uma tirada destas leva-nos imediatamente em viagem no tempo à capital do III Reich, quando Goering dizia que Ribbentrop conhecia a França através do champanhe e a Grã-Bretanha pelo seu brandy*.  Com especialistas como a dona Gomes, está-se mesmo a ver, vamos longe.

 

Como matatempo, vejam o debate(zinho) e concluam acerca do tipo de capoeira em que o país se meteu. 

 

* Era mais ou menos isto, brandy ou whisky, tanto faz.

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publicado às 22:57

Os Senhores do Corisco

por Nuno Castelo-Branco, em 25.07.14

 

Havia de cá voltar o Duarte Pacheco Pereira e logo o seu enervado descendente ficaria com as orelhas a arder.

 

Os comovidos mega cefalópodes do comentório sabe-tudo, têm-se desunhado com o habitual argumento da "não existência de laços históricos" entre Portugal e o território que forma a actual Guiné Equatorial. Várias vezes dei comigo a responder-lhes diante do ecrã, aconselhando-os a uma sumária pesquisa que não demoraria mais que uns escassos minutos. "Toda a gente sabe" que Fernando Pó e Ano Bom foram possessões portuguesas até bem perto do final do século XVIII. Por alguma razão D. João II intitulou-se Senhor do Corisco, venera que hoje em dia pertencerá ao Sr. Obiang. 

 

Para cúmulo do azar dos embarbichados, Portugal alienou a soberania em troca de benefícios territoriais no Brasil, consolidando o domínio sul-americano que hoje é a principal potência da CPLP, o tal Estado sucessor que naturalmente tem a devida proeminência na organização que não pode limitar-se a ser um "centro de afectos" e de charlas saudosistas. Há que ver para além dos sundowns enriquecidos com croquetes, pastéis de bacalhau, chamuças e baji purís. 

 

Embora os nomes de D. Maria I e de Carlos III sejam para os mega cefalópodes, tão estranhos como os de qualquer monarca da Coreia pré-japonesa, nem por isso deixam de ser os que surgem como signatários dos dois Tratados - Santo Ildefonso e do Pardo - que consumaram a transferência daquelas ilhas para a Coroa espanhola e em troca, para benefício de Portugal, de territórios que hoje integram o Brasil. Aqui está um argumento persuasor que graciosamente lembramos aos nossos amigos brasileiros, decerto agradecidos por aquela auspiciosa permuta. 

 

Eis mais uma desculpa airosa para o ingresso da Guiné Equatorial, betões, comes e bebes , gases e petróleos incluídos. Pois sim, berrem à vontade. 

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publicado às 17:53

Boas Férias, Portugal!

por Fernando Melro dos Santos, em 25.07.14

Excisões clitorianas forçadas em Mosul, a tumba de Jonas morteirada, Ebola e peste bubónica à solta, um inverno que vai rivalizar com o do Game of Thrones sem gás nem petróleo Russos, e esta gente bamboleia o bolbo raquidiano entre a praia, o diâmetro das sanitas, as putas do PS e a ficção rebelopintiana da banca salva por investidores crentes - como todos sabemos, uma contradição nos termos. Vai ser lindo e cá estaremos. 

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publicado às 17:45

Waiting for the Sun

por Fernando Melro dos Santos, em 25.07.14

Fui a quatro aviários. Estavam todos fechados para férias. 

Nao me cruzei com um único transeunte capaz de prestar informação acerca dos caminhos para a eles chegar, que não fosse categorizável numa destas quatro alíneas: octogenário, trolha, comercial da edp ou maluquinho da aldeia. 

Devia ter desconfiado logo quando procurava o primeiro. Passei nas seguintes ruas, travessas e até alamedas: Catarina Eufémia; do Operário; do Poder Local; Zeca Afonso; Amigo Trabalhador; Amílcar Cabral; das Indústrias.

É claro que estariam de férias.

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publicado às 13:12

Aqui está...

por Nuno Castelo-Branco, em 25.07.14

...mais um precioso contributo para as indignações de Pacheco Pereira, Lobo Xavier, Zé Carlos Vasconcelos, João Soares e outros bem instalados moraleireiros da nossa praça. Vá, aproveitem esta vergonhosa indecência e enviem um mail de protesto ao Departamento de Estado. No mínimo dos mínimos, façam uma moratória a possíveis férias em NYC. 

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publicado às 12:00

O pragmático

por Samuel de Paiva Pires, em 25.07.14

Um advogado pode escrever disparates como este e afirmar lugares comuns que, para muitos, se tornaram verdades evidentes, ignorando que esquerda e direita são posições relativas e categorias que retêm toda a actualidade na interpretação da política, como Norberto Bobbio explica em Direita e Esquerda. Pode até, crendo na sua própria efabulação, dizer-se pragmático.  E também pode escrever um artigo, 6 dias antes da detenção de Ricardo Salgado, a defender o resgate do BES com dinheiro dos contribuintes, "Sem demagogias e com pragmatismo." Convinha era ter esclarecido que é advogado de Ricardo Salgado (como se defende aqui), ou então, como seria recomendável, não ter escrito sobre o assunto (como se sugere aqui). O dito pragmatismo pode ser visto de diversas perspectivas e utilizado retoricamente para justificar resultados diferentes para o mesmo problema. Neste caso tratar-se-á da modalidade mais vulgar, a que serve apenas para justificar a prossecução de objectivos e interesses pessoais à custa da comunidade, que ganha uma particular ironia por ser protaganizada por um alegado liberal.

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publicado às 10:43

Mais coisa, menos coisa...

por Nuno Castelo-Branco, em 25.07.14

 

...andará pelos 40.000 milhões. É o que consta. 

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publicado às 09:00

Portugal Salgado

por John Wolf, em 24.07.14

Porque é que o caso BES vai dar em nada? Porque Ricardo Salgado soube montar a sua defesa de um modo inexpugnável. Ao longo de décadas a família Espírito Santo foi envolvendo tudo e todos, resgatando para o seu círculo de dependência, políticos, empresários, partidos, instituições, fundações, clubes de futebol e homens de cultura. Quem são então os responsáveis pela promiscuidade e os ilícitos que decorrem de proximidades e conveniências? São todos. São todos os governos de Portugal havidos antes e depois do 25 de Abril. Foram todos os políticos próximos ou extintos pela perda de mandatos. E porque razão apenas agora rebenta a bomba do Grupo Espírito Santo? Em parte, ou integralmente, porque este seria o momento certo para arrasar com a candidatura de António Costa que assentou grande parte da gestão camarária na obra e na empreitada, na conversão imobiliária, e, umas instituições financeiras, mais do que outras, beneficiam com decisões políticas que implicam investimentos que apenas são possíveis com empréstimos da banca. Parece que o país inteiro sabe mas não quer saber quais as implicações desta teia de interesses. Ou é espectador ou participa no esquema. Manuel Salgado é primo de Ricardo Salgado? É apenas um detalhe, mas serve para ilustrar a promiscuidade, o antro de relações perigosas/proibídas em que se transformou Portugal. A pegada do BES é enorme e envolve tantas empresas e grupos económicos que assistiremos a um jogo de soma-zero, o exercício de lavagem colectiva de mãos - uma extensão da lavagem de dinheiros. Depois temos o falso jornalismo do grupo Impresa, pela voz da SIC ou através dos textos assinados no Expresso que ostenta a ilusão de um sistema de justiça implacável para gaudio do povo sedento de sangue. Três milhões para o bailout de Ricardo Salgado pode parecer muito à luz do Euromilhões, mas não passa de uma ninharia quando comparado com os juros que o país irá pagar nos próximos tempos pela quebra de confiança e o descalabro material, efectivo. Que se faça a lista de compras de supermercado para saber quem virou a cara a tanta prevaricação, e nesse longo rascunho estarão todos os convivas em que possam pensar - Sócrates, Cavaco Silva, Guterres, Manuela Ferreira Leite, Mário Soares, Passos Coelho, Duarte Lima (para mencionar apenas alguns), assim como célebres escritórios de advogados e empresas de constituição de offshores. Acreditam mesmo que veremos a luz do dia em relação a este caso? Se o BES cair, cai o país inteiro. Cai a PT. Cai a Caixa. Cai tudo. Caem todos. Seria bom que assim fosse, mas não me parece que Portugal abandonará as práticas que fazem parte da sua matriz, dos poderes que estão instalados e que foram contaminando o resto da paisagem económica e financeira. O Grupo Espírito Santo até pode evaporar, desaparecer da face da terra, mas o dia da ressurreição dará vida a um outro corpo, com outro nome, mas com os mesmos rituais de obediência e recompensa. Extravio, prevaricação, pecado por pouco.

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publicado às 20:14

Talvez fosse bom repensarmos a nossa política externa

por Samuel de Paiva Pires, em 24.07.14

Pese embora seja perfeitamente possível e compreensível alinhar tanto pela posição pragmática que enforma este post do Nuno Castelo Branco, como pela posição idealista resumida nestes dois posts do Pedro Correia, sendo já um facto consumado a adesão da Guiné Equatorial à CPLP parece-me que talvez pudesse ser útil atentar na forma como Portugal foi encostado às cordas e acabou por não ter alternativa a pactuar com este desfecho, para o qual contribuiu decisivamente a pressão exercida por Angola e Brasil. E isto porque foi um processo demonstrativo de que a CPLP está, efectivamente, a transformar-se, a alterar a sua essência, não sendo despiciendo referir que possui o potencial para se tornar um importante bloco económico internacional, com os devidos reflexos no que à influência geopolítica concerne.

 

Talvez fosse boa ideia relegar para segundo plano o idealismo de uma comunidade ancorada na língua - o que os restantes membros da CPLP já fizeram -, e concentrar esforços em recuperar alguma influência política no seio da CPLP. E isto pode-se fazer, para contentamento de muitos, recorrendo precisamente à tão propalada - como se fosse novidade ou invenção recente - diplomacia económica. Para não voltarmos a ser apanhados na curva, o mínimo que o governo português - o actual e os próximos - pode fazer é concentrar esforços em alargar a organização a países com os quais temos boas relações económicas e políticas e que poderão ter interesse em fazer parte da CPLP, em particular pelas oportunidades de negócios que a organização representa.

 

Se o Senegal já é observador associado há uns anos, se Albânia, Ucrânia, Venezuela e Taiwan têm interesse em fazer parte da CPLP, torna-se essencial compreender precisamente a oportunidade que a CPLP pode representar para a economia portuguesa. O mesmo é dizer que deixemos de ser anjinhos e joguemos com as mesmas armas de Brasília ou Luanda. Assim de repente, relembraria apenas que há mais África para lá dos PALOP, que há América Latina e Ásia onde somos estimados e que também há países europeus que poderiam perfeitamente ser membros de pleno direito, atendendo ao precedente aberto com a adesão de um país onde não se fala português. Se não o fizermos, Angola e Brasil continuarão a alargar a organização atendendo essencialmente aos seus interesses e negociando o acordo de Portugal com migalhas. Já vai sendo tempo de termos uma política externa que não ande a reboque de idealismos ingénuos ou dos interesses de terceiros.

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publicado às 17:12

Impérios em Guerra,

por Nuno Castelo-Branco, em 24.07.14

 

A propósito de uma entrevista concedida por Filipe Ribeiro de Menezes à SIC Notícias, o historiador confirmou as minhas primeiras impressões acerca de um livro recentemente publicado e para o qual prestou a sua colaboração no que se refere à participação portuguesa na I Guerra Mundial (Impérios em Guerra, 1911-1923, Dom Quixote). Estava a obra exposta numa estante da Bulhosa do Oeiras Park (Park ou Parque?) e curiosamente, ao seu lado apresentava-se uma outra cuja capa talvez seja um perfeito contraponto: o livro evocador do "Soldado Milhões". 

 

O tema Grande Guerra consiste num daqueles incontornáveis buracos negros da nossa história, buraco esse capaz de sugar qualquer abordagem desapaixonada acerca dos factos e respectivas interpretações. Trata-se de uma matéria susceptível de plena integração no combate político e as ainda recentes e pífias comemorações do Centenário da República, foram demonstrativas do quão longe estamos do encarar da história como ela realmente foi. A I Guerra Mundial salpica a República, daí o tabu que desde logo se construiu, evitando-se o quadro geral dos acontecimentos e cingindo-se toda a atenção a casos isolados justificando a existência de uma meia dúzia de monumentos ao combatente e mais importante, as decisões e actos que levaram a Alemanha a declarar guerra a Portugal.

 

Filipe Ribeiro de Menezes pareceu ciente desta dificuldade de publicamente contrariar superstições e manipulações tecidas em torno do Portugal que foi formalmente beligerante a partir de 1916. O próprio entrevistador SIC-N estava claramente influenciado pela historiografia oficialista e o escasso tempo concedido para a exposição da obra e o seu objecto de estudo, implicaram  uma resenha que apenas aguçou a vontade de melhor conhecer este trabalho. 

 

 

Aníbal Augusto Milhais, o "Soldado Milhões"

Ainda temos bem presentes todas as estorietas que desde a escola primária foram incutidas numa população habituada a velhas glórias de capa e espada, glórias essas muito mais verdadeiras que outras apenas ocorridas na imaginação fértil de publicistas e demagogos que as usaram em proveito ou justificação da sua permanência no poder centralizado no Terreiro do Paço. Se vinte e quatro anos mais tarde Mussolini diria necessitar de "uns milhares de mortos para se sentar à mesa das negociações da paz como vencedor", em Portugal houve quem tivesse cultivado a mesma esperança em relação à contenda que defrontava os Impérios Centrais com a Entente. O prinicipal problema a considerar, consistia na desagradável evidência de nem os ingleses serem os abexins que o exército do Duce encontrou no Corno de África, nem os alemães louras réplicas dos vátuas que Mouzinho venceu. A entrada na guerra teve como sustento a esperança fundada no querer é poder e as publicações da época estavam cheias de evocações a Nun'Álvares, aos cercos de Diu, Colombo e Malaca, à Guerra da Restauração e outros episódios edificantes da nossa história militar. Por outras palavras, os portugueses de agora - do início do século XX -, não podiam ser diferentes daqueles outros que se bateram na Índia, no sertão brasileiro ou nas então ainda recentes campanhas de ocupação pós-Ultimatum. Contou-se como sempre, com o improviso que tão bem nos tinha servido em algumas ocasiões difíceis da nossa história. Tentar explicar a Afonso Costa e aos seus, o que significava uma guerra europeia com o seu complicado cortejo de dificuldades inerentes ao treino, fardamento e equipamento moderno e apropriado a cada teatro de operações, logística, retaguarda industrial, organização da sociedade civil em todos os sectores, transportes, serviços de saúde, coordenação inter-armas e com os aliados, era coisa impossível e Portugal bem cara pagou a aventura. Quanto à I Guerra Mundial, as megalomanias propagandeadas pela gente do poder vigente ou pela normalmente desnorteada Ilustração Portuguesa - apenas um exemplo entre uma miríade de outros -, seriam calorosamente adoptadas pelos seus sucessores da II República. Nada mudou no discurso oficial e nos programas didácticos. O combate do Augusto de Castilho, o soldado Milhais - o Milhões - arrastado até à ribalta da fama nos anos 20 e o sempre trombeteado Milagre de Tancos, confortaram os espíritos e procuraram esquecer vergonhas e abusos, o desleixo e a escandalosa incompetência, a deserção disfarçada "de licença de férias" e não nos esqueçamos, o absurdo papel desempenhado pelos militares na política partidária. A verdade é que os inimigos políticos do regime de Costa, Camacho, Bernardino e A.J. Almeida - os militares e os civis que lhes suceriam em 1926 -, faziam parte da mesma geração, não querendo por isso indirectamente deslustrar-se  pela previsível conotação imposta por aquele velho e conhecido princípio de também serem eles "homens do seu tempo", precisamente daquele tempo de baderna, desorganização e facilitismo.

 

Têm os autores o pleno conhecimento acerca de um conflito que de facto se iniciou logo no alvorecer do século. Se a guerra ítalo-turca de 1911 não chegar para demonstrar esse progressivo resvalar para o conflito global, também podemos então mencionar as gravíssimas contendas ocorridas no flanco sul dos Balcãs, opondo gregos, búlgaros e sérvios. Sem a participação de qualquer uma das grandes potências europeias - Alemanha, Rússia, Áustria-Hungria, Reino Unido e França -, a guerra balcânica serviu sobretudo para o delinear dos alinhamentos na grande guerra que as chancelarias julgavam inevitável. Os tratados estabelecidos nas duas derradeiras décadas do século XIX, não significaram uma perfeita correspondência às alianças que se verificavam a meio da Grande Guerra, pois as irredentistas Itália e Roménia, acabaram por coligar-se à Entente, enquanto a Bulgária, tão próxima dos russos, fez causa comum com as potências centrais, entre as quais figurava o Império Otomano, o seu secular inimigo. 

 

A questão britânica pode ser explicada não apenas pela tradicional política do equilíbrio dos poderes continentais na Europa, mas também - e principalmente - pela ameaça que a Alemanha passou a representar como perigosa concorrente industrial e naval. A partir do momento em que o governo imperial decidiu a construção de uma grande Frota de Alto Mar, teve em contrapartida a animosidade inglesa, obtendo a França a segurança que até ao momento lhe faltara: um essencial suporte naval - a Royal Navy - ao programa de cerco terrestre dos Impérios Centrais. A guerra europeia seria também económica e teria na logística um factor essencial à vitória de qualquer uma das alianças.

 

O longo período de paz entre as grandes potências que vingou entre 1871 e o início da segunda década do século XX, serviu sobretudo para a construção da esperada revanche francesa. A própria visita de Loubet a Lisboa, pode ser inserida nessa política de angariação de potenciais aliados contra a Alemanha e disso mesmo tomaram nota insuspeitas figuras como a rainha D. Amélia, falando-se abertamente na capacidade portuguesa de mobilização de efectivos destinados a combaterem numa guerra europeia. Paris foi incansável no preparar de uma coligação e de um exército capaz de vingar Sedan, o desfile dos hulanos prussianos Campos Elísios abaixo, a proclamação do II Reich na Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes e sobretudo, o arrebatar das províncias da Alsácia e da Lorena. 

 

O caso português deve ser encarado sob o prisma de etapas por vezes contraditórias entre si. Se atendermos à situação da diplomacia e respectivo alinhamento nacional nos primeiros anos do século XX, teremos então a clara evidência de Portugal se encontrar então plenamente integrado - embora informalmente - no esquema da Entente Cordiale encetada pelo pragmático Eduardo VII. As privilegiadas relações estabelecidas por D. Carlos I ao longo do seu reinado, pareciam garantir o status quo imperial português ainda ameaçado por uma longa guerra colonial de consolidação da soberania nos recentemente reconhecidos territórios em África - o hinterland angolano e moçambicano. Há que reconhecer a realidade de uma certa pertença de todo o espaço imperial português à esfera de influência britânica e de forma um tanto abusiva, poderemos até considerar o facto de Portugal ter sido, de facto, um sub-Império da Commonwealth britânica. Na difícil relação com Estados de primeira linha, a situação portuguesa não era assim tão exótica ou embaraçosa, sendo tacitamente aceite pelas chancelarias europeias e sem que isso representasse qualquer tipo de vergonhosa submissão. Embora o país tivesse algum espaço para negociações com outras potências que não a Inglaterra, os essenciais interesses quanto à preservação do património ultramarino e a própria segurança e integridade territorial da Metróploe, dependiam da prossecução da aliança tradicional. Era esta a flagrante realidade e os governos de Lisboa durante muito tempo - após os acordos decorrentes do Ultimatum - puderam contar com a contemporização britânica, também temerosa do sempre problemático caso sul-africano. Tal como a Bélgica, Portugal significava a existência de possessões lusas que serviam de Estados-tampão em regiões vitais à segurança do império britânico, ao mesmo tempo que subtraíam importantes recursos materiais aos principais rivais dos ingleses, os alemães e em menor grau, os franceses..

 

O Regicídio terá sido um dos pontos de viragem da política de Londres relativa ao espaço português. Observadores estrangeiros das cerimónias fúnebres do rei e do príncipe herdeiro, acreditavam que naqueles dois ataúdes também iam a toque de finados, as colónias portuguesas. A coroa britânica encarou o assassinato de D. Carlos  como um agravo directo, conhecendo perfeitamente o tipo de propaganda veiculada pelos autores morais e materiais do crime, ou seja, os republicanos do PRP e organizações satélites (Dissidentes, a Maçonaria e Carbonária). Durante décadas foi a opinião pública portuguesa envenenada por uma campanha sem tréguas contra a Grã-Bretanha, campanha essa que chegaria a influenciar o imprevidente Barros Gomes, ministro dos Negócios Estrangeiros - procurando alianças pontuais com a França e Alemanha - da Monarquia Constitucional. A verdade é que na hipótese do movimento do 31 de Janeiro ter triunfado, bem diferente poderia teria sido o resultado do Ultimatum, pois Portugal não contaria com uma certa benevolência à qual não foi estranha a intervenção da rainha Vitória. Os ingleses sabiam quem eram e o que durante anos proclamaram as cabeças do PRP, subitamente alçadas ao poder através de um violento golpe sedicioso que profundamente desagradou as chancelarias europeias. Nem mesmo o rápido volte face empreendido pelos governos da República podia fazer esquecer o passado bem recente. Pior ainda, os republicanos acabaram por fornecer aos diplomatas britânicos, o argumento da "não confiança" que lhes permitia negociar abertamente com os seus colegas alemães. Em plena época de expansão industrial, comercial e colonial, os ingleses eram a principal potência mundial e nem sequer a França, mesmo que aliada à Rússia, tinha o necessário poder para os enfrentar. Quanto ao reconhecimento do novo regime, sabe-se que Londres pediu a Paris para tomar a dianteira, mostrando assim as claras reticências quanto à nova situação estabelecida após o golpe subversivo de 3-5 de Outubro de 1910. 

 

A posição da República era difícil, senão desesperada. Conhecem-se as negociações estabelecidas entre Londres e Berlim acerca da partilha das colónias portuguesas da África austral, talvez a derradeira tentativa britânica de encontrar um modus vivendi com a expansionista Alemanha do Kaiser Guilherme II. Atendendo à situação interna portuguesa e à imprevisível evolução da mesma, a Londres pode ter parecido aconselhável o encetar de negociações que pelo menos salvassem o essencial da segurança do império britânico naquela parte do mundo onde os alemães pareciam decididos a obter um quinhão relevante e mais valioso que o semidesértico Sudoeste Africano e o insuficiente Tanganica. A Alemanha era uma potência colonial de segunda ordem e nenhuma das suas possessões tinha a potencial importância económica e estratégica de Angola e Moçambique. Todos os crimes, golpes de mão e flagrante inépcia que os governos de Lisboa não conseguiam ocultar, mais convenciam uma boa parte dos políticos britânicos da necessidade de uma modificação da forma como o Reino Unido encarava a sua aliança com Portugal e nem mesmo os protestos de fidelidade manifestados pelos sucessivos governos republicanos, conseguiram convencer homens como Eduard Grey e Winston Churchill - que se relacionavam com D. Manuel II, já exilado em Londres - e muitos outros nomes de relevo da política, finança, economia, cultura e imprensa. Não será muito arriscado afirmar-se que o magnicídio de Sarajevo terá contribuído para a não realização do plano de divisão do nosso património ultramarino, até então completamente à mercê da resolução dos diferendos anglo-alemães. Na sua Legação londrina, o representante do governo do Kaiser, o príncipe Lichnowsky, julgava já praticamente consumada essa partilha que também contribuiria para a resolução de algumas rivalidades entre a Alemanha e o Reino Unido. A Portugal bem serviu a consciência que os ingleses tinham acerca do pesar dos riscos que essa partilha implicava e mesmo nas vésperas do estalar do conflito, talvez já encarassem a soberania portuguesa sobre todo o espaço moçambicano, como o menor dos males, simultaneamente contrariando alemães e sul-africanos. 

 

É ainda hoje muito comum justificar-se a participação nacional na Grande Guerra, com a necessidade da defesa do Ultramar. Parece evidente o alinhamento português com os Aliados, embora essa colaboração seja passível de ser julgada de diferentes formas, estando cada uma delas até agora dependente do alinhamento político dos interessados pela matéria de estudo. Aos saudosos da I República, a Flandres surge como o destino lógico, embora trágico, de uma beligerância que devia plasmar-se no principal cenário da guerra, mesmo que tal tivesse significado um esforço insuportável para este país devastado pelas querelas políticas, violência pública e incapacidade administrativa de um regime fraco e desprovido de confiança interna e externa. A história alternativa ou virtual, parece a todos indicar uma mais conveniente fixação da intervenção portuguesa no norte de Moçambique, aproveitando a experiência do escol de africanistas que tinham consolidado a soberania, submetendo gentes e fixando as fronteiras da África Oriental Portuguesa. Muitos dos oficiais fiéis ao regime da Carta foram expurgados das fileiras e outros tantos decidiram afastar-se das mesmas, opondo-se à nova situação política. Entre estes, contavam-se muitos dos que bem conheciam as colónias africanas, facto que mais tarde pesaria tremendamente nos erros crassos cometidos quando foram enviados os corpos expedicionários para Angola e Moçambique: desconhecimento do terreno, do clima e das populações, uniformes desadequados e serviço logístico miserável, desde a alimentação, até ao essencial aspecto sanitário. Os próprios planos de batalha eram desajustados à realidade, sendo impraticável qualquer tipo de guerra que de longe se assemelhasse à que acontecia nas frentes da Flandres, do Trentino e Venécia, nos Cárpatos austríacos ou na Masúria prussiana. Por muito fértil que fosse a imaginação das autoridades de Lisboa, estas deviam ter tomado boa nota do material humano com que contavam para o travar da primeira verdadeira guerra moderna onde a técnica e a indústria eram decisivas. Ornelas, Couceiro e tantos outros especialistas em combates em África, talvez tivessem sido elementos preciosos de aconselhamento, mas eram ostensivos inimigos do PRP e com eles estavam muitos oficiais do corpo intermédio. O espectáculo oferecido pela tropa era horrendo, participando activamente nos golpes e contra-golpes que se sucediam entre o Terreiro do Paço, a Rotunda e Monsanto, não nos podendo esquecer da inimaginável quantidade de uniformizados que se sentavam nas incandescentes bancadas parlamentares de S. Bento. Tudo isto prenunciava o desastre que inevitavelmente aconteceu.

 

A própria política interna sobrepôs-se sempre ao império da razão que aconselhava a concentração de esforços na frente do Tanganica, algo que nem sequer teria exigido um gigantesco volume de efectivos, mas tão só uma força armada móvel, bem armada e assistida por serviços de manutenção militar, fossem estes de saúde, alimentação, fardamento, instalações adequadas, etc. Há que dizer que a República teve bastante tempo para se preparar para uma intervenção militar deste tipo, pois a tensão na fronteira norte de Moçambique era permanente, servindo Quionga como aviso. Em suma, também havia que atender à evidência de os askaris do general von Lettow-Vorbeck não serem cópias das hostes de D. Reinaldo Gungunhana. A política de Defesa da República era outro daqueles capítulos de um compêndio de ilusionismo, colocando sempre à disposição da opinião pública, projectos desadequados às possibilidades nacionais. Todos pareciam contentar-se com as aparências. A verdade é que os republicanos desde há muito viviam obcecados com a França enquanto modelo a copiar, tendo chegado ao ponto de logo após o golpe do 5 de Outubro, pretenderem uma reforma dos uniformes do exército, tornando-os idênticos aos dos franceses, exotismo que não foi adiante devido ao incomportável preço a pagar. O mesmo poderemos dizer quanto ao extraordinário programa naval, totalmente desfasado da realidade financeira e do interesse nacional. Pretendiam uma frota que batesse a espanhola, imaginando três couraçados e uns tantos cruzadores modernos ancorados diante da estátua de D. José, não esquecendo navios de escolta, submarinos e um grandioso complexo de construção naval militar na zona de Cacilhas. A posse de um vasto domínio colonial implicava antes de tudo, a organização de uma frota de escolta que mantivesse as ligações entre a Metrópole e o Império - ilhas adjacentes incluídas -, não esquecendo navios comerciais e de transporte, precisamente o programa naval que nos anos trinta o novo regime saído do golpe do 28 de Maio procurou realizar. Nada disto foi previsto, as intenções atendiam sempre ao contentar das parangonas dos jornais sofregamente lidos nos cafés do Rossio. 

 

Embora muitos prefiram esquecer, sabemos o que sucedeu em todas as frentes de combate. O improviso e adaptação no terreno que tão bem nos serviria cinquenta anos mais tarde, manifestou-se totalmente inútil num conflito com uma grande potência europeia. À distância de um século, ainda é fácil cair-se na tentação da justificação da história, recorrendo aos mesmos argumentos que apenas procuraram legitimar uma situação política há muito desvanecida, por sinal totalmente oposta à que hoje vivemos. É este mais um daqueles paradoxos em que a nossa inteligentsia se esmera, sempre num anseio de justificação da sua proeminência. Por muito surpreendente que isto possa parecer, a dicotomia amigos-inimigos da República ainda existe, estando o sector de militantes desta estranha causa, firmemente encafuado na sua trincheira de incertezas e de heroísmos contabilizáveis pelos dedos de umas dezenas de mãos. 

 

Há quem erga como pilar essencial da intervenção, a segurança das colónias e o frustrar dos desígnios expansionistas da Espanha de Afonso XIII, a quem um político inglês diria ..."tem V. M. dificuldade em visitar Barcelona e mesmo assim pretende anexar Lisboa?" É indubitável a longa vigência da estratégia britânica quanto à necessidade de manter a costa portuguesa - somada às ilhas atlânticas e ao porto de Lisboa - como essencial área amiga e vital para as comunicações marítimas que garantiam a segurança do Império Britânico. O que era válido em 1808, 1834, 1870 e 1908, continuou a sê-lo em 1914 e mais tarde, em 1939-45. A conservação da independência e do Império, sempre foi um secular jogo de equilíbrios e de aproveitamento de oportunidades em que os estadistas portugueses aperfeiçoaram os seus dotes diplomáticos, também sabendo aproveitar contingências de cada momento. Esta linha condutora da política externa já corre há mais de sete séculos e não consta que mesmo hoje, nos "dias da globalização", algo de muito sensível haja a modificar, apenas parecendo ser necessária mais uma daquelas adaptações que outrora sempre conseguimos sem perder o norte.

 

 

O Monumento aos Combatentes da Grande Guerra, Praça Mac-Mahon, Lourenço Marques (Moçambique)

 

Teria sido possível Portugal manter-se neutral durante a Grande Guerra, conservando a integridade do Ultramar? Teria sido suficiente a garantia da impenetrabilidade das nossas fronteiras do Rovuma e do Cunene, evitando a dispersão e desorganização de forças que prejudicou para o campo dos Aliados, a rápida resolução do problema apresentado pelo Tanganica alemão? Como teria sido a participação de Portugal na Grande Guerra, se em vez de Afonso Costa, Brito Camacho, Manuel de Arriaga ou Bernardino Machado, tivéssemos podido contar com D. Carlos ou D. Luís Filipe - logo, com a plena confiança britânica - e com um exército que desde o início do século se encontrava numa fase de modernização e ainda relativamente afastado das corrosivas paixões partidárias? O que teria sucedido se em vez das ilusões de uma "Flandres em África", Portugal tivesse podido contar com militares experientes  e conhecedores daquele teatro de operações na África Oriental, optando-se por uma guerra de movimentos e por contingentes mais reduzidos, bem armados, abastecidos e adaptados ao combate imposto pelo grande militar que era von Lettow-Vorbeck? Aqui ficam interrogações que jamais terão resposta.

 

 

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Meias brancas de pano turco

por Nuno Castelo-Branco, em 23.07.14

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

 

Aqui estão mais uns tantos preciosismos próprios das entradas e saídas dos embaixadores do Grande Siècle. Sem perucas empoadas, sem moscas cuidadosamente colocadas pelo rosto, sem bengalas de retorcidos castões encomendados em Paris, mas com as mesmas meias brancas - desta vez de pano turco substituindo a seda -, carnicões no nariz, pelo a saltar para fora do pavilhão auricular e dentes amarelos de broa.

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

 

Para único e exclusivo consumo interno, parece ser este o caso dos amuos, surpresinhas e melindres que os media veiculam para contentamento dos pacóvios do actual regime. Tudo isto serve para preencher uns minutos de "tempos de antena de opinião pública" e algumas vozitas dos barbichas das indignações do "hoje há caracóis". As besteiras saídas da reaparecida boca de José Carlos de Vasconcelos - "a CPLP é uma comunidade linguística", quer acreditar este pobre diabo dos anos setenta! - sintetizam as demais. Ouvirmos o confortado João Soares indignar-se com ditadores, conhecendo-se as efusões com que sempre acolheu sobas que mandaram e à farta massacraram no antigo Ultramar, apenas confirma a excentricidade de toda a panóplia de magarefes das notícias. 

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

 

Agora, consumado o facto da adesão da Guiné Equatorial à CPLP, os gnomos que regem as nossas vidinhas fixam-se em questões menores, resumindo-se o diplomático chilique a uma foto "antes do tempo" e a uma boliqueimada grosseria protagonizada pelo senhor Cavaco Silva. Pelo que a SIC está a proclamar, o presunto cavalheiro não aplaudiu o ingresso daquele país africano, consagrado na cerimónia. Apenas o "Chefe" do Estado português se eximiu à mais elementar e inócua cortesia. Enfim, é o que temos, esta gente que se beijocou e quis aparecer em fotos com Kadafi, condecorou Ceausescu com a Ordem de Santigo e Espada, elogiou o Gauleiter vermelho Honnecker, emperna com os Castro em todas as Cimeiras Ibero-Americanas, permitiu todo o tipo de dislates ao Samora, a Neto e Luís Cabral, bajulou Brezhnev e tantos outros. Já alguém ouviu Cavaco Silva admoestar os EUA quanto à existência da Pena de Morte, roubalheiras e negócios sujos em África, no Médio Oriente, na América latina, uso e abuso do nosso espaço áreo e outros factos que todos conhecemos? O que terá o belenense comensal dito ao presidente chinês aquando da sua visita? Falou-lhe nas inacreditáveis execuções públicas perpetradas em estádios de futebol, ou a EDP bem vale umas tantas valas comuns? Alguma vez puxou as orelhas ao embaixador dos aiatolás, fazendo-lhe advertências quanto aos enforcamentos em guindastes, lapidações e fuzilamentos a eito? A propósito da aplicação da sharia, terá Cavaco Silva recomendado a Paulo Portas umas conversas com os anfitriões sauditas?

 

Não vale a pena tentarem disfarçar o que sucedeu. Na CPLP, as decisões são tomadas por unanimidade, daí o pouco interesse prático das carinhas contristadas. Fez-se o que tinha de ser feito. Quem tem achincalhado Portugal, é o próprio regime em todas as etapas já percorridas. Ou será necessário lembrarmos as cantorias e hossanas em torno de gente que por disparate metropolitano, foi colocada no poder na maioria dos países  africanos de "expressão portuguesa"? 

 

A Commonwealth britânica tem o seu Mugabe - por mero acaso há uns tempos recebido em Lisboa -, enquanto os franceses pouco se ralam com o espantoso desfilar de títeres espalhados por toda a África central. Títeres que subornaram Giscard, compraram Mitterrand, traficaram com Chirac e que sempre contaram com a zelosa assistência militar de Sarkozy e do pudinesco Hollande. Nós, portugueses, somos especiais e assim há que escorraçar Obiang, ou melhor, a população que ele governa. 

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

 

Como ontem muito bem disse o embaixador Martins da Cruz (TVI24, pelas 11 da noite), estamos entregues a paroquialismos. Nada que não se resolva com umas concessões de exploração de petróleo, compra de dívida pública, salvação de um ou dois bancos, venda de resorts turísticos e de condomínios de duvidoso luxo pladurado e iluminado a LED, contratos com as betoneiras do regime e outras habilidades cá do burgo. Como se lá fora - e cá dentro - não fosse bem conhecida a única e obsessiva natureza da república portuguesa...

 

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