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Mais um camilo-lourencista

por Samuel de Paiva Pires, em 19.04.14

Um erro e uma vergonha é alguém como Vasco Pulido Valente, que tem por obrigação e dever de ofício conhecer os processos de formação e autonomização académica de disciplinas como a Ciência Política ou as Relações Internacionais – processos que remontam ao início do século XX, pelo que não se pode dizer que se trate de disciplinas novas –, incorrer no pensamento camilo-lourencista da utilidade económica. Só se esquece que Camilo Lourenço considera inúteis os licenciados em História, por sinal a ciência social em que VPV se doutorou em Oxford e no âmbito da qual desenvolveu os seus trabalhos e que, vá-se lá saber porquê, deixa de fora neste seu artigo.

 

Parafraseando um outro professor, talvez VPV queira recomendar a instituições como as universidades de Oxford, Cambridge, Harvard, Yale, Stanford etc. que liquidem os seus enormes departamentos e centros de investigação que se ocupam das mais diversas ciências humanas e sociais. E, já agora, talvez sugerir também a dissolução das centenas de think-tanks britânicos e norte-americanos que se ocupam desses alegados mistérios que são a Ciência Política e as Relações Internacionais. Por momentos, pareceu-me estar a ler alguém que ainda acredita que estas são ciências ocultas. Faria melhor, porventura, em ler "The Idea of a University" desse inútil professor de Oxford que dava pelo nome de Michael Oakeshott, em vez de escrever disparates.

 

De resto, de um licenciado em Relações Internacionais, mestre e doutorando em Ciência Política pelo ISCSP e que trabalha no sector privado, permita-me só perguntar se será que tanto fel contra estas ciências terá alguma coisa a ver com a fusão entre a Clássica e a Técnica e as pretensões frustradas de muitos dos que trabalham ou trabalharam sob a alçada de VPV no ICS, a quem o Estado garantiu precisamente um certo modo de vida durante décadas?

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publicado às 22:15

In memoriam - Mário Quartin Graça

por Pedro Quartin Graça, em 19.04.14

Conselheiro Cultural na Embaixada de Portugal em Madrid (1987-2000) e Brasília (1980-1987). 

Ex-Secretário-geral da Casa da América Latina.

 

Igreja do Campo Grande, Lisboa

Velório no Domingo

Missa na 2ª feira às 11h

 

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publicado às 09:10

Dois grandes génios. Como o algodão.

por Nuno Gonçalo Poças, em 18.04.14

Pacheco Pereira diz que "o senhor secretário de Estado Pedro Lomba não faz a mínima ideia do que foi o 25 de Abril." Pacheco, arauto da liberdade, estandarte da democracia, porém, sabe. Ele esteve lá. Esteve lá algures. Na luta anti-fascista pré-revolucionária, no PCP-ML. Na luta democrática durante o reinado de Cavaco Silva, de braço dado com Duarte Lima e Dias Loureiro. Pacheco, o democrata, o defensor das liberdades, que esteve ao lado de Barbosa de Melo, em 1993, ano em que o 25 de Abril não foi devidamente comemorado na Assembleia da República, na sequência de leis da rolha pachequistas e do respectivo boicote dos jornalistas ao parlamento. Pacheco não aceita que lhe roubem a euforia revolucionária, marxista, leninista, mais tarde maoísta e mais tarde ainda cavaquista, do 25 de Abril. O 25 de Abril é dele. É dos dele. Dos que, como ele, vieram das esquerdas, das catacumbas revolucionárias, de punho erguido e peito inchado. Este governo, como se sabe, não conta com o apoio do Pacheco, voz da moral e da razão. E o governo está, obviamente, a violar Abril a sangue frio.

Francisco Assis aproveitou e seguiu o caminho apontado pelo dedo do Pacheco. Escolheu a forma mais ignorante. A mais básica. Assis escreve com os pés e pensa com os tornozelos. A culpa não é dele, mas assim é - e assim será. Deu o braço ao Pacheco e ali foram ambos, estrada fora, dando vivas à propriedade do 25 de Abril. Os dois, os heróis da liberdade. O Pacheco que em 1993 brincava às rolhas e o Assis que entre 2005 e 2011 (reinado de Sócrates, o maior defensor das liberdades, sobretudo a de expressão) esteve, com certeza, mentalmente hibernado.

São como o algodão, de facto. Não enganam. Eles esforçam-se. Mas não enganam.

 

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publicado às 21:28

A memória de Abril

por João Quaresma, em 17.04.14

«Património tanto individual como colectivo, a memória constitui a seiva das civilizações, pois sem ela "não há pensamento, sem pensamento não há ideias, sem ideias não há futuro", repetia, insistia Natália Correia, uma das figuras que mais se bateram pela sua dignificação.

Significando conhecimento, a memória pressupõe capacidade crítica e intervenção, o que incomoda todos os poderes, sejam eles ditatoriais sejam democráticos, de direita ou de esquerda, nucleares ou periféricos.

As ditaduras tentam controlá-la pela censura, pela violência; as democracias pela inflação dela até imporem, através da propaganda, da sedução, a que mais lhes convém. O objectivo é, porém, o mesmo: arrancar a memória que somamos (individual, colectiva, cultural, identitária) e substituí-la por outra única, inquestionável.

Daí os políticos, os intelectuais, os comentadores do regime se comportarem como se o país tivesse nascido com eles, esvaziando-o de quase mil anos de existência»

 

Fernando Dacosta, hoje no Jornal I

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publicado às 16:15

Socialistas de todos os partidos, uni-vos

por Nuno Gonçalo Poças, em 17.04.14

Tem sido comum, para justificar os ataques ao Governo e a uma nova direita descomplexada, ver comentários vindos da esquerda muito elogiosos da inspiração cristã de Sá Carneiro, da social-democracia de Balsemão, das inspirações keynesianas de Cavaco ou dos sentimentos bonitos da Manuela pelo Estado Providência. Eu percebo que o façam. É compreensível que um socialista reconheça e elogie um seu igual. Não percebo é a razão que justifica o facto de esta gente nunca ter estado, nestes 40 anos, no mesmo partido.

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publicado às 12:12

Vítor Bento:

 

"O excedente global pressiona a apreciação do euro criando um ‘loop’ adverso sobre os países periféricos. Estes, para recuperarem a competitividade perdida na década anterior à crise, têm que baixar os custos internos. À medida que esse ajustamento se reflecte na melhoria da sua balança externa e porque os países excedentários não fazem o seu próprio ajustamento, tal melhoria fortalece o euro, acabando por lhes minar (cambialmente) a competitividade, forçando-os a ter que voltar a baixar os custos. Não é difícil perceber como este ‘loop' tem um efeito deflacionário e, portanto, contraccionista em toda a Zona Euro."

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publicado às 11:23

O Importante é ter Saúdinha

por António Garcia Rolo, em 17.04.14

Aparentemente o Governo planeia introduzir uma taxa sobre alimentos com gorduras e açúcares excessivos. Eu nem sei o que dizer. Este tipo de engenharia social escandinava através de sin taxes apenas incha um Estado já paternalista que recentemente nos veio dizer quantos cães podíamos ter em casa e que queria aumentar a idade mínima de compra de álcool para os 18 anos. Queria só perguntar:

 

- O que se segue? Criar monopólio estatal de venda de álcool como na Suécia e na Finlândia (porque coitadas das pessoas, não sabem beber...)? Obrigar os supermercados a acabar de vender álcool às 10 horas? Taxas sobre gomas? 

 

- O que é um alimento não saudável? Suponho que McDonalds e KFC estejam incluídos? E os hamburguers do Honorato? E um prego à saída do Lux? Uma posta à mirandesa? Não sei, os critérios parecem-me difíceis de delinear.

 

- Como é que um país tão progressivo em matéria de consumo de drogas, cujo relaxamento das restrições levou ao decréscimo desse mesmo consumo, não percebe que restringir hábitos sociais que caem na esfera individual apenas piora a situação? Contrabando, crime, produtos não seguros vendidos debaixo da mesa. Destruição de postos de trabalho (como aconteceu na Dinamarca, daí eles terem recuado) é uma possível consequência, tão conveniente no presente momento.

 

- O argumento dos custos elevados do SNS é altamente falacioso, como já o é no tabaco. Façamos como os proponentes desse argumento e tratemos as pessoas como números: é verdade que um fumador ou um comedor de fast food irá mais vezes ao hospital. Contudo, também morre mais cedo, não sendo como as pessoas saudáveis que vivem até aos 90 anos e têm inexoravelmente de ir mais vezes ao hospital. Que discussão horrível, não é? Ver quanto cada um custa ao SNS cêntimo por cêntimo. 

 

É assim, diz que são liberais. Já vimos que na esfera económico-financeira não são. Mas no resto também não - continuam a levar a tocha da nossa boa tradiçãozinha paternalista em que qualquer medida restritiva da liberdade individual e promotora da engenharia social não tem qualquer problema se for para proteger a saúde. Já diz o povo, 'o que é importante é ter saúdinha'. Aparentemente é. Que se foda o resto, incluindo sermos tratados como adultos. Desde que haja saúdinha.

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publicado às 08:26

Os inquéritos de opinião, as sondagens e as estatísticas são primos da mesma distorção. É possível, se assim o desejarmos, fabricar resultados e influenciar juízos e percepções. Provavelmente o que resulta deste estudo não andará longe da verdade, mas, na minha opinião, para se comparar a qualidade de vida registada no antigo regime com a do pós-25 de Abril, os únicos que poderão cabalmente responder a esta pergunta já estarão mortos e enterrados. Ou seja, descartemos o que pensam ou deixam de pensar os que se encontram na faixa etária dos 18 aos 34 anos. Esses indivíduos nem sequer eram espermatozóides antes de 1974 - nem sequer sonhavam com a sua própria existência. São dispensáveis para efeitos deste estudo. Quem deveria ser consultado (em dia de visita ao lar de terceira idade), são aqueles cidadãos que efectivamente viveram quarenta anos sob um regime autoritário e outros tantos sob o sol democrática. Esses séniores é que têm autoridade para fazer o boneco de uma coisa e de outra. Os outros têm umas noções e formaram juízos a partir de estudos como estes. Os factos palpáveis na primeira pessoa são escassos. Os sobreviventes de Salazar serão os únicos com credibilidade estatística para avançar com respostas. No entanto, pela amostragem e método empregue na recolha de informação, provavelmente não haveria muito sucesso nas entrevistas telefónicas realizadas aos visados com mais de 100 anos de idade. A probabilidade de serem cegos, surdos (e mudos) é, de facto, muito elevada. Dito de outro modo, não se pode comparar cravos com bugalhos, pelo menos deste modo cru e insonso. Há que cozinhar as percepções com ingredientes de qualidade. 

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publicado às 07:41

O alerta de Nigel Farage

por Pedro Quartin Graça, em 17.04.14

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publicado às 06:38

a pátria
os camões
os aviões
e os gagos-coutinhos
coitadinhos [...]
Mário-Henrique Leiria

 

É verdeiramente epidémica a apologética que grassa entre a sociedade portuguesa pedindo o regresso de um Salazar. O que é notável nas vésperas de mais um 25 de Abril! Já não se trata, apenas, de uma conversa entre velhas alcoviteiras de autocarro ou reformados que jogam a bisca no jardim, mas de uma autêntica histeria que cresce progressivamente de dia para dia em blogues, jornais e espaços públicos. Salazar é que faz falta, dizem e escrevem. Impressiona como a memória não é só curta, mas ingrata. Gente que grita insultos gratuitos nos fóruns e nos jornais contra os políticos actuais, resguardando-se na figura do inviolável, casto e probo Salazar - como é possível se afinal estes são o produto daquele?

Tudo isto é tolice, como é óbvio. Quem viveu durante o Estado Novo sabe perfeitamente que aquilo não era mau, era péssimo. Até posso compreender a nostalgia de infância, o colorido dos brinquedos de lata, as brincadeiras junto ao lavadouro enquanto a mãe esfregava os lençóis de estopa - pobre mulher que, chegando a casa encontrava provavelmente um marido analfabeto e, tendo sorte, sóbrio. A maioria que clama pelo regresso desta austeridade, queixando-se da de hoje é ainda desta geração que rapidamente esqueceu as limitações (ou então não) de um país de brutos, em que o marido punha os olhos no chão quando falava ao patrão e a mulher pouco mais personalidade tinha do que um saco de batatas atilhado por uma Constituição nada favorável.

Por outro lado, para a classe alta (aquela que bajulou Salazar até ao tutano), constituída por labregos burgueses e aristocratas falidos os tempos deviam ter sido de glória e até podem ter razões para querer o regresso daquele regime catolaico, de recato público e deboche privado. Em todo o caso, não deixa de ser uma incongruência que num mundo em que se ganha dinheiro com a exploração do cidadão global se queira fechar num país orgulhosamente só. Só posso compreendê-lo à luz do estatuto e daquela noção de respeito que faz o tópico da conversa salazarista: antes do 25 de Abril é que era!. Era o quê? Não se roubava? Ninguém morria? Não se mentia? Não havia clientelismo? A política era sã e filantrópica? Poupem-me.

Salazar era um misógino ressabiado, filho de caseiros que viveu entre hortas e quis aplicar este modelo de ordenamento de quintal de Santa Comba ao resto país. Criou a ideia do doutor formado a pulso que degenerou numa coisa sem espinha dorsal nem ossos chamada boy do partido. Provinciano, o senhor Presidente do Conselho, achava que o país era um imenso potencial de força braçal movido a vinho. E, estupendamente beato e cínico, julgava os seus amigos pelas aparências, cumulando-os de prebendas em troca de silêncio e lealdade hipócrita. Salazar é o pai desta gente que construiu a III república: medíocre, saída dos bancos de escola estado novistas, da cartilha do Deus, Pátria e Família, do pobrete mas alegrete. Estes dizem repudiá-lo. Muitos gritam fascismo nunca mais, mas entregue-se-lhe o facho nas mãos e verão o mesmo modus operandi, os mesmo tiques e desejos. E isto não é sequer uma questão de democracia ou ausência dela. Efectivamente não tivemos um estado fascista, mas tivemos com certeza um regime que estimulava a mediania ou a inferioridade, em troca de valores inócuos. E isso é transveral na nossa política, da Esquerda à Direita.

A única coisa verdadeiramente trágica não é brincar à liberdade de ano em ano pelo 25 de Abril (ainda assim perdendo tempo precioso a não habituar-se a ela) nisto tudo o que é verdadeiramente tenebroso é que o Salazar-Cronos, na hora de tragar os filhos, morreu. E as crianças, hoje com 40 anos, estão aí a brincar aos cravos...

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publicado às 21:36

Portugal e a armadilha das comparações

por John Wolf, em 16.04.14

Acho péssimo o jogo das comparações. Portugal não é a Grécia. Portugal não é a Irlanda. Portugal não é isto. Portugal não é aquilo. Nem os silogismos servem a causa (argumento formado de três proposiçõesa maiora menor (premissase a conclusão deduzida da maior, por intermédio da menor). Portugal é igual a si e já basta. Este género de notícia eterniza a ideia de que Portugal deve usar a régua dos outros para medir a sua envergadura, a sua virilidade. E depois subsiste uma outra dimensão corrosiva. Assim que se transmite a ideia de que Portugal passou a ser um país de aforristas, os cidadãos, embalados pelo prémio de desempenho, começam a dar largas à imaginação. Já podemos observar as campanhas hedonistas apresentadas nos escaparates mediáticos. Ele é férias na praia dominicana. Ele é festa temática no verão que se aproxima. Ele é campeonato do mundo de futebol. E, assim, sem se dar conta, a boa notícia da poupança morde a própria cauda, come-se. É uma armadilha.


"silogismo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/silogismo [consultado em 16-04-2014].

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publicado às 08:02

O Ocidente e Putin

por Samuel de Paiva Pires, em 15.04.14

Daniel Altman:

 

"Recently Angela Merkel, the German chancellor, suggested that Putin was living in a world of his own, divorced from reality. The opposite is true. Putin is a rational actor who steadily pursues his interests, which are well known to the world at large. Appealing to morality, international law, or any other arbiter of behavior other than pure pragmatism is unlikely to succeed with him. Yet by the same token, his straightforward approach makes him the easiest sort of opponent for a similarly minded strategist. He must be surprised that the West still performs so badly against him."

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publicado às 13:02

Coincidências

por Samuel de Paiva Pires, em 13.04.14

Muitos dos que defendem a diminuição e/ou eliminação do salário mínimo porque, apesar de beneficiar determinados indivíduos, prejudica outros e, portanto, consubstancia os efeitos que não se vêem a que, por exemplo, Henry Hazlitt, inspirando-se em Bastiat, alude, são os mesmos que defenderam o colossal aumento de impostos que este governo levou a cabo, escudando-se o mais das vezes no falacioso argumento da "selecção natural" entre as empresas - falacioso neste caso, porque não foi a saudável competição entre empresas que ditou o fecho de umas e a sobrevivência de outras, mas sim o sufoco fiscal, extremamente penalizador para as PME's, que compõem a esmagadora maioria do tecido empresarial português -, esquecendo ou ignorando deliberadamente os efeitos mais que visíveis de tamanho aumento de impostos, nomeadamente a falência de milhares de empresas e o consequente aumento da taxa de desemprego. Deve ser isto que se entende por estrita racionalidade económica, como se não fossem princípios ideológicos e escolhas políticas a subjazer às suas posições. 

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publicado às 13:04

De Afonso a Afonso em apenas 40 anos.

por John Wolf, em 12.04.14

De Afonso Henriques a Zeca Afonso, e independentemente de preferências ideológicas, o caminho da liberdade de expressão em Portugal não foi certeiro. Nesse trilho de opiniões, juízos de valor e preconceitos, muitos regimes de censura barraram as vozes que desejavam fazer ruir o atavismo em nome de uma nova ordem, desconhecida, mas certamente melhor. No entanto, as cancelas que colocaram sobre as vias nem sempre foram políticas. Muitas das vezes foram culturais. Barreiras interpostas por agentes culturais, auto-proclamados superiores, e que supostamente iriam agir em nome do interesse colectivo, da sociedade. A explosão democrática de 1974 libertou os discursos enclausurados, mas, quase simultaneamente, consagrou a expressão de práticas corporativas. Em quarenta anos de direitos, deveres, liberdades e garantias, os libertados apropriaram-se dos vícios e defeitos endémicos daqueles que quiseram derrubar. A inexistência de lobbies perfeitamente estabelecidos levou a que um sem número de confrarias das artes e letras, ciências e práticas empíricas florescesse na sombra do consentâneo, para promover os interesses e defender os privilégios dos seus "associados". A revolução, perspectivada a esta distância, e com a devida parcimónia ideológica-partidária, serviu para dar a volta completa e chegar ao estado semi-consciente do presente marasmo. Na grande algazarra da desorientação, responsabilidade e culpas por atribuir, Portugal pode se orgulhar da conquista do megafone com o 25 de Abril. Qualquer indivíduo ou colectividade, pode, como mais ou menor jactância, levar ao rubro da sua oralidade a reclamação ou a discordância. Qualquer mensagem ou pseudo-mensagem pode ser veículada. Nesse processo de derrame mental, a profundidade de pensamento, a fundamentação e a reflexão séria, foram comprometidas. À emissão ruidosa segue-se a resposta visceral, pequena. O discursante, embalado pela razão, não necessita de poleiros determinados institucionalmente. Aproveita o local e a hora que quiser para reagir como bem entende. Observámos ao longo destes últimos anos que as manifestações tomaram as ruas, inundaram os blogues e as redes sociais, mas não foram capazes de contagiar o derradeiro bastião da transformação - os orgãos políticos e de soberania da república portuguesa, que não têm grande interesse em alterar o seu comportamento. Ao mesmo tempo, convenhamos, os "grandes pensadores" de Portugal estiveram ausentes do país. Desligaram os motores e deixaram andar as carruagens até chegarmos ao destino em que nos encontramos. Os titulares de cargos públicos, criteriosamente colocados nessa posição pelo povo português, não quiseram interpretar convenientemente os sinais urgentes que emanam da sociedade. O governo, a oposição, a presidência da república e os tribunais constitucionais, fazem uso, para garantir o status quo, de um conjunto de regras tácitas de equilíbrio relativo, de permanência. Nenhuma das partes envolvidas desarma por completo, nenhum dos agentes quebra as suas convicções, porque sabe, que qualquer que seja o resultado, permanecerão sobre o tabuleiro da conveniência, dos interesses económicos e financeiros, da alternância entre as mesmas opções políticas onde não impera o pensamento, a grande filosofia das sociedades. Portugal está enleado numa discussão de trânsito, em tira-teimas à novela mexicana, em mexericos de ocasião e, perde, para seu mal, uma perspectiva de futuro que seja abrangente, válida e sustentável. De Fernando Tordo a Alexandra Lucas Coelho, o espectador deixou-se distrair pelas figuras de estilo e pelas bofetadas mediáticas, em vez de se concentrar no fundamental, naquilo que trará benefícios ao país, aos milhares de desempregados que estão a leste destas moelas deploráveis. Os paladinos da inteligência querem lá saber da arraia miúda. Esses privilegiados pela coluna de opinião e pela obra didáctica, podem ostentar as cicatrizes da ofensa ao seu bom nome, mas tudo isso não passa de narcisismo, de importância excessiva atribuída às causas erradas, ao seu umbigo, enquanto Portugal passa mal. E assim Portugal não passa de um fado - um triste fardo.

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publicado às 16:52

Os custos de uma democracia ocidental e crescidinha

por Nuno Gonçalo Poças, em 11.04.14

Vasco Lourenço y sus muchachos não perceberam que, numa democracia consolidada, o Parlamento não é a messe de oficiais. Nem serve de parada de revolucionários reformados. O problema é deles? É. Desta vez a Presidente da Assembleia da República tem razão.

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publicado às 10:36

Os azeiteiros do pensamento

por Samuel de Paiva Pires, em 10.04.14

Vamos lá devagarinho e por partes:

 

1 - Um dos principais argumentos dos opositores do salário mínimo per se ou de aumentos no seu valor acima do valor de equilíbrio é o de que este provoca um aumento do desemprego por impedir que indivíduos trabalhem abaixo de um determinado valor (ver por exemplo este post ou aquele).

 

2 - Estamos aqui perante duas questões: a) a existência de um salário mínimo e b) aumento do valor deste provoca desemprego.

 

3 - Normalmente quem defende a inexistência de um salário mínimo defende também que se verifica o efeito patente em b).

 

4 - Pode a defesa da eliminação do salário mínimo ser mais explícita ou implícita, mas a verdade é que se encontra subjacente ao pensamento de muitos.

 

5 - A hipótese contrária é a de que a diminuição do valor do salário mínimo ou a sua eliminação reduz o desemprego.

 

6 - Eu apenas tornei manifesta uma hipótese latente, implícita, e limitei-me a verificar, atendendo exclusivamente a estas variáveis e à alegada relação entre elas, não aventadas por mim mas por outros, se a hipótese se confirmaria na realidade nos diversos países onde não existe salário mínimo.

 

7 - Claro que a realidade é muito mais complexa, que cada caso é um caso e que há milhares de outras variáveis que influenciam os resultados em causa, muito provavelmente existindo países onde as variáveis estão correlacionadas e outros onde não estão. Mas é precisamente por isto que o post infeliz e deselegante do Carlos Guimarães Pinto falha o alvo e atinge precisamente os que ele não gostaria de atingir. É que se quer criticar alguém, deveria começar por aqueles que têm o pensamento simplista que eu evidenciei e utilizei para mostrar como, pegando nas palavras da conclusão do post do Carlos, incorrem numa burrice de todo o tamanho. Mas como fazem parte da tribo e partilham das mesmas crenças dogmáticas, o Carlos não o faz. 

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publicado às 14:42

Lisboa Arruinada: demolições à vista

por Nuno Castelo-Branco, em 10.04.14

Não compreendo a razão pela qual existem empresas que se  atrevem a ostentar os seus cartazes em edifícios cujo estado se assemelha a este. Janelas deliberadamente escancaradas ou partidas, aguardando um "imprevisto" incêndio ou as inundações que ditarão a destruição do mesmo. Péssima publicidade para as mediadores, disso não há a menor dúvida.

 

Querem algo acerca da Av. Duque de Loulé? Aqui está: 

 

1. O horroroso imóvel pró- terciário, contíguo a um bonito edifício da viragem do século XIX/XX, também devoluto e à espera dos "bons ofícios" salgadistas, ou sejam aqueles que demolem. Quanto ao horrendo e pindérico edifício em questão, foi durante algum tempo paradeiro da Nokia. Está fechado há anos, sem haver qualquer perspectiva para remodelação ou ocupação do mesmo por ansiosos investidores, empreendedores e outros termos do jargão do nosso tempo.

 

Claro que a CML continua a passar alvarás para a construção de mais mamarrachos de escritórios e negócios. Limpinho e cristalino como uma garrafa de água mineral, não é? Só não percebe quem não quer.

2. Mais abaixo na mesma avenida, o lindo prédio cor de rosa, nesta zona conhecido por "prédio da Hermínia Silva". Durante anos esteve bem isolado das intempéries mas desde há uns meses… milagre!, eis uma data de janelas escancaradas, facilitando a rápida degradação do mesmo. Já antevejo o tristonho semblante da gente do urbanismo camarário, abanando as cabecinhas com o costumeiro "já nada há a fazer senão demolir". Um oportuno incêndio, a liquidação dos amplos interiores à mercê de enxurradas e toda aquela miríade de hipóteses a que nos habituámos, eis o seu destino. 

 

A dupla Costa & Salgado "não tem" fiscais camarários para estas ninharias. Quanto à agência imobiliária, creio que devia proteger a sua imagem. Até o cartaz se encontra num estado deplorável, coincidente com a progressiva degradação do imóvel. 

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publicado às 10:21

Da série "marasmos mentais que dispenso"

por Samuel de Paiva Pires, em 09.04.14

Se olharmos para este mapa ou para este outro, ficamos a saber que em boa parte dos países onde o liberalismo, nas suas vertentes económica e política, foi ou é mais difundido e praticado, existe um salário mínimo nacional. Aprendemos também que nestes, em comparação com os restantes países do mundo onde encontramos igualmente tamanha afronta à racionalidade económica, o salário mínimo atinge os patamares mais elevados em termos de valor monetário. Importa também sublinhar que em vários países onde não existe um salário mínimo universal estabelecido por lei, como por exemplo a Islândia, Alemanha (situação que irá mudar em breve), Itália, Dinamarca, Áustria, Suécia, Finlândia, há lugar, porém, ao seu estabelecimento por via de negociações colectivas sectoriais, pelo que, na prática, também estes adoptaram, ainda que de forma parcial, a instituição do salário mínimo.

 

Por outro lado, temos entre os restantes países onde não existe, de todo, salário mínimo, alguns bastante simpáticos e altamente desenvolvidos: Guiné-Conacri, Quirguistão, Burundi, Coreia do Norte, Suriname, Djibouti e aquele que deveria ser o paraíso dos anarquistas, a Somália. Nestes não deverá existir desemprego, se a teoria económica estiver certa, isto é, se for verdadeira a hipótese simplista aventada por muitos liberais de que a inexistência de salário mínimo elimina ou reduz a um nível residual a taxa de desemprego. Consultem esta página ou o Google, pesquisem pelos nomes destes países e unemployment rate e retirem as vossas conclusões.

 

A estes acrescente-se outros que economicamente só se salvam por razões evidentes, nomeadamente os imensos recursos naturais cuja exploração constitui a maioria do PIB: os Emirados Árabes Unidos, Barein, Quatar, Brunei, Malásia. Países com economias pujantes mas regimes políticos onde não sei se muitos dos proponentes da ideia de acabar com o salário mínimo gostariam de viver. Repitam, por favor e se tiverem disponibilidade, o mesmo exercício a respeito da taxa de desemprego. Salva-se verdadeiramente apenas um outro, que é na verdade uma cidade-estado, Singapura.

 

De resto, não vale sequer a pena tecer considerações de teor político ou social a respeito do salário mínimo. O que nos vale são certos liberais indígenas que vêem o mundo apenas pelo prisma da - dizem eles - racionalidade económica e nos fazem o favor de iluminar o caminho para o progresso que o país tem de percorrer. Curiosamente, ou não, entre estes, muitos defendem o desmantelamente do Estado Social, a "caridadezinha", as investidas de Jonet contra os mais fracos, e santificam o mercado e o sector privado enquanto demonizam o público. Para mal dos nossos pecados, alguns até têm - ou, muito provavelmente, virão a ter - responsabilidades políticas e/ou públicas. Só não têm vergonha na cara.

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publicado às 19:50

« O Velho de Novo » *

por Cristina Ribeiro, em 08.04.14



E o Velho aqui referido é o que dá o nome ao novo filme de Manuel de Oliveira, « O Velho do Restelo ».

Para quem sente a portugalidade, como é o caso, é tão evidente que a nossa História, assim como o que escreveram os nossos bons escritores, são um manancial de inspiração. Que, com raríssimas excepções, tão mal aproveitado tem sido.


Uma armada cheia de barcos a afundar, a actual. Desafio deveras interessante essa nova reflexão sobre a História de Portugal, em particular sobre  "a Invencível Armada e o presente".



 

                         * Título de livro de António Manuel Couto Viana

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publicado às 15:48

« O Rei e o Povo »

por Cristina Ribeiro, em 07.04.14

" Tem sido este um dos pontos mais batidos por certa propaganda republicana, num esforço tenaz e persistente de incutir nos espíritos o preconceito de que o regime monárquico representa o domínio das classes poderosas em detrimento do povo. Nada mais infundado nem mais injusto!

Precisamente a aliança tácita e leal entre os Reis e o Povo é uma das constantes da nossa História.

Das três classes, os três braços de que se compunha a Nação - Clero, Nobreza e Povo - é de notar que algumas dissenções se manifestaram entre os dois primeiros e os monarcas, mas que nenhuma questão digna de registo surgiu, através dos séculos, entre o Rei e o Povo.

Ao contrário, era na classe popular que os nossos Reis sempre se apoiavam contra as ambições poderosas. Por outro lado, o Povo apelava para o Rei como seu protector, e sentia na autoridade real a melhor garantia das suas liberdades e do seu próprio poder e engrandecimento. "

Mário Saraiva

 

Verifica-se, pelo contrário, que tal domínio das classes poderosas se tornou verdade com o aparecimento do sistema de partidos, em que o Povo deixou de poder contar com esse protector tradicional, pois que com a plutocracia e com a chamada " democracia " vieram ao de cima as insaciáveis clientelas partidárias e os políticos de profissão, os devoristas, em suma.

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