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Impérios em Guerra,

por Nuno Castelo-Branco, em 24.07.14

 

A propósito de uma entrevista concedida por Filipe Ribeiro de Menezes à SIC Notícias, o historiador confirmou as minhas primeiras impressões acerca de um livro recentemente publicado e para o qual prestou a sua colaboração no que se refere à participação portuguesa na I Guerra Mundial (Impérios em Guerra, 1911-1923, Dom Quixote). Estava a obra exposta numa estante da Bulhosa do Oeiras Park (Park ou Parque?) e curiosamente, ao seu lado apresentava-se uma outra cuja capa talvez seja um perfeito contraponto: o livro evocador do "Soldado Milhões". 

 

O tema Grande Guerra consiste num daqueles incontornáveis buracos negros da nossa história, buraco esse capaz de sugar qualquer abordagem desapaixonada acerca dos factos e respectivas interpretações. Trata-se de uma matéria susceptível de plena integração no combate político e as ainda recentes e pífias comemorações do Centenário da República, foram demonstrativas do quão longe estamos do encarar da história como ela realmente foi. A I Guerra Mundial salpica a República, daí o tabu que desde logo se construiu, evitando-se o quadro geral dos acontecimentos e cingindo-se toda a atenção a casos isolados justificando a existência de uma meia dúzia de monumentos ao combatente e mais importante, as decisões e actos que levaram a Alemanha a declarar guerra a Portugal.

 

Filipe Ribeiro de Menezes pareceu ciente desta dificuldade de publicamente contrariar superstições e manipulações tecidas em torno do Portugal que foi formalmente beligerante a partir de 1916. O próprio entrevistador SIC-N estava claramente influenciado pela historiografia oficialista e o escasso tempo concedido para a exposição da obra e o seu objecto de estudo, implicaram  uma resenha que apenas aguçou a vontade de melhor conhecer este trabalho. 

 

 

Aníbal Augusto Milhais, o "Soldado Milhões"

Ainda temos bem presentes todas as estorietas que desde a escola primária foram incutidas numa população habituada a velhas glórias de capa e espada, glórias essas muito mais verdadeiras que outras apenas ocorridas na imaginação fértil de publicistas e demagogos que as usaram em proveito ou justificação da sua permanência no poder centralizado no Terreiro do Paço. Se vinte e quatro anos mais tarde Mussolini diria necessitar de "uns milhares de mortos para se sentar à mesa das negociações da paz como vencedor", em Portugal houve quem tivesse cultivado a mesma esperança em relação à contenda que defrontava os Impérios Centrais com a Entente. O prinicipal problema a considerar, consistia na desagradável evidência de nem os ingleses serem os abexins que o exército do Duce encontrou no Corno de África, nem os alemães louras réplicas dos vátuas que Mouzinho venceu. A entrada na guerra teve como sustento a esperança fundada no querer é poder e as publicações da época estavam cheias de evocações a Nun'Álvares, aos cercos de Diu, Colombo e Malaca, à Guerra da Restauração e outros episódios edificantes da nossa história militar. Por outras palavras, os portugueses de agora - do início do século XX -, não podiam ser diferentes daqueles outros que se bateram na Índia, no sertão brasileiro ou nas então ainda recentes campanhas de ocupação pós-Ultimatum. Contou-se como sempre, com o improviso que tão bem nos tinha servido em algumas ocasiões difíceis da nossa história. Tentar explicar a Afonso Costa e aos seus, o que significava uma guerra europeia com o seu complicado cortejo de dificuldades inerentes ao treino, fardamento e equipamento moderno e apropriado a cada teatro de operações, logística, rectaguarda industrial, organização da sociedade civil em todos os sectores, transportes, serviços de saúde, coordenação inter-armas e com os aliados, era coisa impossível e Portugal bem cara pagou a aventura. Quanto à I Guerra Mundial, as megalomanias propagandeadas pela gente do poder vigente ou pela normalmente desnorteada Ilustração Portuguesa - apenas um exemplo entre uma miríade de outros -, seriam calorosamente adoptadas pelos seus sucessores da II República. Nada mudou no discurso oficial e nos programas didácticos. O combate do Augusto de Castilho, o soldado Milhais - o Milhões - arrastado até à ribalta da fama nos anos 20 e o sempre trombeteado Milagre de Tancos, confortaram os espíritos e procuraram esquecer vergonhas e abusos, o desleixo e a escandalosa incompetência, a deserção disfarçada "de licença de férias" e não nos esqueçamos, o absurdo papel desempenhado pelos militares na política partidária. A verdade é que os inimigos políticos do regime de Costa, Camacho, Bernardino e A.J. Almeida - os militares e os civis que lhes suceriam em 1926 -, faziam parte da mesma geração, não querendo por isso indirectamente deslustrar-se  pela previsível conotação imposta por aquele velho e conhecido princípio de também serem eles "homens do seu tempo", precisamente daquele tempo de baderna, desorganização e facilitismo.

 

Têm os autores o pleno conhecimento acerca de um conflito que de facto se iniciou logo no alvorecer do século. Se a guerra ítalo-turca de 1911 não chegar para demonstrar esse progressivo resvalar para o conflito global, também podemos então mencionar as gravíssimas contendas ocorridas no flanco sul dos Balcãs, opondo gregos, búlgaros e sérvios. Sem a participação de qualquer uma das grandes potências europeias - Alemanha, Rússia, Áustria-Hungria, Reino Unido e França -, a guerra balcânica serviu sobretudo para o delinear dos alinhamentos na grande guerra que as chancelarias julgavam inevitável. Os tratados estabelecidos nas duas derradeiras décadas do século XIX, não significaram uma perfeita correspondência às alianças que se verificavam a meio da Grande Guerra, pois as irredentistas Itália e Roménia, acabaram por coligar-se à Entente, enquanto a Bulgária, tão próxima dos russos, fez causa comum com as potências centrais, entre as quais figurava o Império Otomano, o seu secular inimigo. 

 

A questão britânica pode ser explicada não apenas pela tradicional política do equilíbrio dos poderes continentais na Europa, mas também - e principalmente - pela ameaça que a Alemanha passou a representar como perigosa concorrente industrial e naval. A partir do momento em que o governo imperial decidiu a construção de uma grande Frota de Alto Mar, teve em contrapartida a animosidade inglesa, obtendo a França a segurança que até ao momento lhe faltara: um essencial suporte naval - a Royal Navy - ao programa de cerco terrestre dos Impérios Centrais. A guerra europeia seria também económica e teria na logística um factor essencial à vitória de qualquer uma das alianças.

 

O longo período de paz entre as grandes potências que vingou entre 1871 e o início da segunda década do século XX, serviu sobretudo para a construção da esperada revanche francesa. A própria visita de Loubet a Lisboa, pode ser inserida nessa política de angariação de potenciais aliados contra a Alemanha e disso mesmo tomaram nota insuspeitas figuras como a rainha D. Amélia, falando-se abertamente na capacidade portuguesa de mobilização de efectivos destinados a combaterem numa guerra europeia. Paris foi incansável no preparar de uma coligação e de um exército capaz de vingar Sedan, o desfile dos hulanos prussianos Campos Elísios abaixo, a proclamação do II Reich na Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes e sobretudo, o arrebatar das províncias da Alsácia e da Lorena. 

 

O caso português deve ser encarado sob o prisma de etapas por vezes contraditórias entre si. Se atendermos à situação da diplomacia e respectivo alinhamento nacional nos primeiros anos do século XX, teremos então a clara evidência de Portugal se encontrar então plenamente integrado - embora informalmente - no esquema da Entente Cordiale encetada pelo pragmático Eduardo VII. As privilegiadas relações estabelecidas por D. Carlos I ao longo do seu reinado, pareciam garantir o status quo imperial português ainda ameaçado por uma longa guerra colonial de consolidação da soberania nos recentemente reconhecidos territórios em África - o hinterland angolano e moçambicano. Há que reconhecer a realidade de uma certa pertença de todo o espaço imperial português à esfera de influência britânica e de forma um tanto abusiva, poderemos até considerar o facto de Portugal ter sido, de facto, um sub-Império da Commonwealth britânica. Na difícil relação com Estados de primeira linha, a situação portuguesa não era assim tão exótica ou embaraçosa, sendo tacitamente aceite pelas chancelarias europeias e sem que isso representasse qualquer tipo de vergonhosa submissão. Embora o país tivesse algum espaço para negociações com outras potências que não a Inglaterra, os essenciais interesses quanto à preservação do património ultramarino e a própria segurança e integridade territorial da Metróploe, dependiam da prossecução da aliança tradicional. Era esta a flagrante realidade e os governos de Lisboa durante muito tempo - após os acordos decorrentes do Ultimatum - puderam contar com a contemporização britânica, também temerosa do sempre problemático caso sul-africano. Tal como a Bélgica, Portugal significava a existência de possessões lusas que serviam de Estados-tampão em regiões vitais à segurança do império britânico, ao mesmo tempo que subtraíam importantes recursos materiais aos principais rivais dos ingleses, os alemães e em menor grau, os franceses..

 

O Regicídio terá sido um daqueles pontos de viragem da política de Londres relativa ao espaço português. Observadores estrangeiros das cerimónias fúnebres do rei e do príncipe herdeiro, acreditavam que naqueles dois ataúdes também iam a toque de finados, as colónias portuguesas. A coroa britânica encarou o assassinato de D. Carlos  como um agravo directo, conhecendo perfeitamente o tipo de propaganda veiculada pelos autores morais e materiais do crime, ou seja, os republicanos do PRP e organizações satélites (Dissidentes, a Maçonaria e Carbonária). Durante décadas foi a opinião pública portuguesa envenenada por uma campanha sem tréguas contra a Grã-Bretanha, campanha essa que chegaria a influenciar o imprevidente Barros Gomes, ministro dos Negócios Estrangeiros - procurando alianças pontuais com a França e Alemanha - da Monarquia Constitucional. A verdade é que na hipótese do movimento do 31 de Janeiro ter triunfado, bem diferente poderia teria sido o resultado do Ultimatum, pois Portugal não contaria com uma certa benevolência à qual não foi estranha a intervenção da rainha Vitória. Os ingleses sabiam quem eram e o que durante anos proclamaram as cabeças do PRP, subitamente alçadas ao poder através de um violento golpe sedicioso que profundamente desagradou as chancelarias europeias. Nem mesmo o rápido volte face empreendido pelos governos da República podia fazer esquecer um passado bem recente. Pior ainda, os republicanos acabaram por fornecer aos diplomatas britânicos, o argumento da "não confiança" que lhes permitia negociar abertamente com os seus colegas alemães. Em plena época de expansão industrial, comercial e colonial, os ingleses eram a principal potência mundial e nem sequer a França, mesmo que aliada à Rússia, tinha o necessário poder para os enfrentar. Quanto ao reconhecimento do novo regime, sabe-se que Londres pediu a Paris para tomar a dianteira, mostrando assim as claras reticências quanto à nova situação estabelecida após o golpe subversivo de 3-5 de Outubro de 1910. 

 

A posição da República era difícil, senão desesperada. Conhecem-se as negociações estabelecidas entre Londres e Berlim acerca da partilha das colónias portuguesas da África austral, talvez a derradeira tentativa britânica de encontrar um modus vivendi com a expansionista Alemanha do Kaiser Guilherme II. Atendendo à situação interna portuguesa e à imprevisível evolução da mesma, a Londres pode ter parecido aconselhável o encetar de negociações que pelo menos salvassem o essencial da segurança do império britânico naquela parte do mundo onde os alemães pareciam decididos a obter um quinhão relevante e mais valioso que o semidesértico Sudoeste Africano e o insuficiente Tanganica. A Alemanha era uma potência colonial de segunda ordem e nenhuma das suas possessões tinha a potencial importância económica e estratégica de Angola e Moçambique. Todos os crimes, golpes de mão e flagrante inépcia que os governos de Lisboa não conseguiam ocultar, mais convenciam uma boa parte dos políticos britânicos da necessidade de uma modificação da forma como o Reino Unido encarava a sua aliança com Portugal e nem mesmo os protestos de fidelidade manifestados pelos sucessivos governos republicanos, conseguiram convencer homens como Eduard Grey e Winston Churchill - que se relacionavam com D. Manuel II, já exilado em Londres - e muitos outros nomes de relevo da política, finança, economia, cultura e imprensa. Não será muito arriscado afirmar-se que o magnicídio de Sarajevo terá contribuído para a não realização do plano de divisão do nosso património ultramarino, até então completamente à mercê da resolução dos diferendos anglo-alemães. Na sua Legação londrina, o representante do governo do Kaiser, o príncipe Lichnowsky, julgava já praticamente consumada essa partilha que também contribuiria para a resolução de alguns diferendos entre a Alemanha e o Reino Unido. A Portugal bem serviu a consciência que os ingleses tinham acerca do pesar dos riscos que essa partilha implicava e mesmo nas vésperas do estalar do conflito, talvez já encarassem a soberania portuguesa sobre todo o espaço moçambicano, como o menor dos males, simultaneamente contriando alemães e sul-africanos. 

 

É ainda hoje muito comum justificar-se a participação nacional na Grande Guerra, com a necessidade da defesa do Ultramar. Parece evidente o alinhamento português com os Aliados, embora essa colaboração seja passível de ser julgada de diferentes formas, estando cada uma delas até agora dependente do alinhamento político dos interessados pela matéria de estudo. Aos saudosos da I República, a Flandres surge como o destino lógico, embora trágico, de uma beligerância que devia plasmar-se no principal cenário da guerra, mesmo que tal tivesse significado um esforço insuportável para este país devastado pelas querelas políticas, violência pública e incapacidade administrativa de um regime fraco e desprovido de confiança interna e externa. A história alternativa ou virtual, parece a todos indicar uma mais conveniente a fixação da intervenção portuguesa no norte de Moçambique, aproveitando cabalmente a experiência do escol de africanistas que tinham consolidado a soberania, submetendo gentes e fixando as fronteiras da África Oriental Portuguesa. Muitos dos oficiais fiéis ao regime da Carta foram expurgados das fileiras e outros tantos decidiram afastar-se das mesmas, opondo-se à nova situação política. Entre estes, contavam-se muitos dos que bem conheciam as colónias africanas, facto que mais tarde pesaria tremendamente nos erros crassos cometidos quando foram enviados os corpos expedicionários para Angola e Moçambique: desconhecimento do terreno, do clima e das populações, uniformes desadequados e serviço logístico miserável, desde a alimentação até ao essencial aspecto sanitário. Os próprios planos de batalha eram desajustados à realidade, sendo impraticável qualquer tipo de guerra que de longe se assemelhasse à que acontecia nas frentes da Flandres, do Trentino e Venécia, nos Cárpatos austríacos ou na Masúria prussiana. Por muito fértil que fosse a imaginação das autoridades de Lisboa, estas deviam ter tomado boa nota do material humano com que contavam para o travar da primeira verdadeira guerra moderna onde a técnica e a indústria eram decisivas. Ornelas, Couceiro e tantos outros especialistas em combates em África, talvez tivessem sido elementos preciosos de aconselhamento, mas eram ostensivos inimigos do PRP e com eles estavam muitos oficiais do corpo intermédio. O espectáculo oferecido pela tropa era horrendo, participando activamente nos golpes e contra-golpes que se sucediam entre o Terreiro do Paço, a Rotunda e Monsanto, não nos podendo esquecer da inimaginável quantidade de uniformizados que se sentavam nas incandescentes bancadas parlamentares de S. Bento. Tudo isto prenunciava o desastre que inevitavelmente aconteceu.

 

A própria política interna sobrepôs-se sempre ao império da razão que aconselhava a concentração de esforços na frente do Tanganica, algo que nem sequer teria exigido um gigantesco volume de efectivos, mas tão só uma força armada móvel, bem armada e assistida por serviços de manutenção militar, fossem estes de saúde, alimentação, fardamento, instalações adequadas, etc. Há que dizer que a República teve bastante tempo para se preparar para uma intervenção militar deste tipo, pois a tensão na fronteira norte de Moçambique era permanente, servindo Quionga como aviso. Em suma, havia que atender à evidência de os askaris do general von Lettow-Vorbeck não serem cópias das hostes de D. Reinaldo Gungunhana. A política de Defesa da República era outro daqueles capítulos de um compêndio de ilusionismo, colocando sempre à disposição da opinião pública, projectos desadequados às possibilidades nacionais. Todos pareciam contentar-se com as aparências. A verdade é que os republicanos desde há muito viviam obcecados com a França enquanto modelo a copiar, tendo chegado ao ponto de logo após o golpe do 5 de Outubro, pretenderem uma reforma dos uniformes do exército, tornando-os idênticos aos dos franceses, exotismo que não foi adiante devido ao incomportável preço que a pagar. O mesmo poderemos dizer quanto ao extraordinário programa naval, totalmente desfasado da realidade financeira e do interesse nacional. Pretendiam uma frota que batesse a espanhola, imaginando três couraçados e uns tantos cruzadores modernos ancorados diante da estátua de D. José, não esquecendo navios de escolta, submarinos e um grandioso complexo de construção naval militar na zona de Cacilhas. A posse de um vasto domínio colonial implicava antes de tudo, a organização de uma frota de escolta que mantivesse as ligações entre a Metrópole e o Império - ilhas adjacentes incluídas -, não esquecendo navios comerciais e de transporte. Nada disto foi previsto, as intenções atendiam sempre ao contentar das parangonas dos jornais sofregamente lidos nos cafés do Rossio. 

 

Embora muitos prefiram esquecer, sabemos o que sucedeu em todas as frentes de combate. O improviso e adaptação no terreno que tão bem nos serviria cinquenta anos mais tarde, manifestou-se totalmente inútil num conflito com uma grande potência europeia. À distância de um século, ainda é fácil cair-se na tentação da justificação da história, recorrendo aos mesmos argumentos que apenas procuraram legitimar uma situação política há muito desvanecida, por sinal totalmente oposta à que hoje vivemos. É este mais um daqueles paradoxos em que a nossa inteligentsia se esmera, sempre num anseio de justificação da sua proeminência. Por muito surpreendente que isto possa parecer, a dicotomia amigos-inimigos da República ainda existe, estando o sector de militantes desta estranha causa, firmemente encafuado na sua trincheira de incertezas e de heroísmos contabilizáveis pelos dedos de umas dezenas de mãos. 

 

Há quem erga como pilar essencial da intervenção, a segurança das colónias e o frustrar dos desínios expansionistas da Espanha de Afonso XIII, a quem um político inglês diria que ..."tem V. M. dificuldade em visitar Barcelona e mesmo assim pretende anexar Lisboa?" É indubitável a longa vigência da estratégia britânica quanto à necessidade de manter a costa portuguesa - somada às ilhas atlânticas e ao porto de Lisboa - como essencial área amiga e vital para as comunicações marítimas que garantiam a segurança do Império Britânico. O que era válido em 1808, 1834, 1870 e 1908, continuou a sê-lo em 1914 e mais tarde, em 1939-45. A conservação da independência e do Império, sempre foi um secular jogo de equilíbrios e de aproveitamento de oportunidades em que os estadistas portugueses aperfeiçoaram os seus dotes diplomáticos, também sabendo aproveitar contingências de cada momento. Esta linha condutora da política externa já corre há mais de sete séculos e não consta que mesmo hoje, nos "dias da globalização", algo de muito sensível haja a modificar, apenas parecendo ser necessária mais uma daquelas adaptações que outrora sempre conseguimos sem perder o norte.

 

 

O Monumento aos Combatentes da Grande Guerra, Praça Mac-Mahon, Lourenço Marques (Moçambique)

 

Teria sido possível Portugal manter-se neutral durante a Grande Guerra, conservando a integridade do Ultramar? Teria sido suficiente a garantia da impenetrabilidade das nossas fronteiras do Rovuma e do Cunene, evitando a dispersão e desorganização de forças que prejudicou para o campo dos Aliados, a rápida resolução do problema apresentado pelo Tanganica alemão? Como teria sido a participação de Portugal na Grande Guerra, se em vez de Afonso Costa, Brito Camacho, Manuel de Arriaga ou Bernardino Machado, tivéssemos podido contar com D. Carlos ou D. Luís Filipe - logo, com a plena confiança britânica - e com um exército que desde o início do século se encontrava numa fase de modernização e ainda relativamente afastado das corrosivas paixões partidárias? O que teria sucedido se em vez das ilusões de uma "Flandres em África", Portugal tivesse podido contar com militares experientes  e conhecedores daquele teatro de operações na África Oriental, optando-se por uma guerra de movimentos e por contingentes mais reduzidos, bem armados, abastecidos e adaptados ao combate imposto pelo grande militar que era von Lettow-Vorbeck? Aqui ficam interrogações que jamais terão resposta.

 

 

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publicado às 09:00

Meias brancas de pano turco

por Nuno Castelo-Branco, em 23.07.14

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

 

Aqui estão mais uns tantos preciosismos próprios das entradas e saídas dos embaixadores do Grande Siècle. Sem perucas empoadas, sem moscas cuidadosamente colocadas pelo rosto, sem bengalas de retorcidos castões encomendados em Paris, mas com as mesmas meias brancas - desta vez de pano turco substituindo a seda -, carnicões no nariz, pelo a saltar para fora do pavilhão auricular e dentes amarelos de broa.

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

 

Para único e exclusivo consumo interno, parece ser este o caso dos amuos, surpresinhas e melindres que os media veiculam para contentamento dos pacóvios do actual regime. Tudo isto serve para preencher uns minutos de "tempos de antena de opinião pública" e algumas vozitas dos barbichas das indignações do "hoje há caracóis". As besteiras saídas da reaparecida boca de José Carlos de Vasconcelos - "a CPLP é uma comunidade linguística", quer acreditar este pobre diabo dos anos setenta! - sintetizam as demais. Ouvirmos o confortado João Soares indignar-se com ditadores, conhecendo-se as efusões com que sempre acolheu sobas que mandaram e à farta massacraram no antigo Ultramar, apenas confirma a excentricidade de toda a panóplia de magarefes das notícias. 

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

 

Agora, consumado o facto da adesão da Guiné Equatorial à CPLP, os gnomos que regem as nossas vidinhas fixam-se em questões menores, resumindo-se o diplomático chilique a uma foto "antes do tempo" e a uma boliqueimada grosseria protagonizada pelo senhor Cavaco Silva. Pelo que a SIC está a proclamar, o presunto cavalheiro não aplaudiu o ingresso daquele país africano, consagrado na cerimónia. Apenas o "Chefe" do Estado português se eximiu à mais elementar e inócua cortesia. Enfim, é o que temos, esta gente que se beijocou e quis aparecer em fotos com Kadafi, condecorou Ceausescu com a Ordem de Santigo e Espada, elogiou o Gauleiter vermelho Honnecker, emperna com os Castro em todas as Cimeiras Ibero-Americanas, permitiu todo o tipo de dislates ao Samora, a Neto e Luís Cabral, bajulou Brezhnev e tantos outros. Já alguém ouviu Cavaco Silva admoestar os EUA quanto à existência da Pena de Morte, roubalheiras e negócios sujos em África, no Médio Oriente, na América latina, uso e abuso do nosso espaço áreo e outros factos que todos conhecemos? O que terá o belenense comensal dito ao presidente chinês aquando da sua visita? Falou-lhe nas inacreditáveis execuções públicas perpetradas em estádios de futebol, ou a EDP bem vale umas tantas valas comuns? Alguma vez puxou as orelhas ao embaixador dos aiatolás, fazendo-lhe advertências quanto aos enforcamentos em guindastes, lapidações e fuzilamentos a eito? A propósito da aplicação da sharia, terá Cavaco Silva recomendado a Paulo Portas umas conversas com os anfitriões sauditas?

 

A Commonwealth britânica tem o seu Mugabe - por mero acaso há uns tempos recebido em Lisboa -, enquanto os franceses pouco se ralam com o espantoso desfilar de títeres espalhados por toda a África central. Títeres que subornaram Giscard, compraram Mitterrand, traficaram com Chirac e que sempre contaram com a zelosa assistência militar de Sarkozy e do pudinesco Hollande. Nós, portugueses, somos especiais e assim há que escorraçar Obiang, ou melhor, a população que ele governa. 

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

 

Como ontem muito bem disse o embaixador Martins da Cruz (TVI24, pelas 11 da noite), estamos entregues a paroquialismos. Nada que não se resolva com umas concessões de exploração de petróleo, compra de dívida pública, salvação de um ou dois bancos, venda de resorts turísticos e de condomínios de duvidoso luxo pladurado e iluminado a LED, contratos com as betoneiras do regime e outras habilidades cá do burgo. Como se lá fora - e cá dentro - não fosse bem conhecida a única e obsessiva natureza da república portuguesa...

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

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publicado às 11:26

Esquerda portuguesa: gotta love it

por Manuel Sousa Dias, em 22.07.14

 

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publicado às 18:32

As boas vindas à Guiné Equatorial

por Nuno Castelo-Branco, em 22.07.14

 

Uma tremenda derrota para os sabichões relativistas do "comentoriorismo" televisivo, os das t-shirts do Che e dos cursos de férias em Washington.

 

Aqueles que jamais disseram coisa que se ouvisse acerca de regimes como os dos irmãos Castro e que com toda a bonomia bem convivem com bolivarianismos, daniéis orteguismos dos anos 80 e evomoraleirices, abespinham-se com o regime de Obiang. Não sendo de molde a provocar grandes entusiasmos de partilha de experiências de vida, o sistema vigente naquele país  fronteiro a S. Tomé e Príncipe não se diferencia de sobremaneira daqueles que durante décadas vigoraram nos principais Estados africanos da CPLP. Alguém se recorda hoje do sanguinário, prepotente e totalmente inepto regime de Samora Machel e dos morticínios Por Bem dos governos de Agostinho Neto? Não, não convém recordar essas ninharias, para mais da autoria de grandes libertadores e de excelsos amigos do povo português. 

 

Toda a publicidade televisiva anda em torno do total desrespeito pelos Direitos Humanos e descarado nepotismo do esquema Obiang, dois argumentos suficientes para impedirem o ingresso da Guiné Equatorial na CPLP. Verdade? É verdade. Perguntemos então aos indignados que andam pelo PSD, PS e PC, a opinião acerca do que desde 1975 se tem passado em Luanda e Lourenço Marques, perdão, Maputo. Não é preciso entrarmos em detalhes, todos compreendem o que queremos dizer. Alguns nomes de filhos, filhas e parentes por inerência, sempre efusivamente aguardados na Portela, significam babados negócios e compinchagens com a gente do regime de Lisboa. Veremos se o caso BES não significará mais umas tantas concessões aos aguardados salvadores.

 

A Guiné Equatorial não é um país onde se fale o português, aqui está o segundo argumento do rol. Verdade? É verdade, mas o que dizermos então de Timor Leste, onde decorrida mais de uma década desde a auspiciosa independência, pouco tem sido feito para estender o português à condição de língua franca? Qual o esforço feito pelas autoridades portuguesas quanto a este assunto de interesse nacional? Onde está o aproveitamento da "válvula de escape" para professores jovens e desempregados? Onde? Os indignados que nos esclareçam.

 

A entrada da Guiné Equatorial na CPLP, representa antes de tudo, uma verdadeira oportunidade para o exercício da persuasão das suas autoridades. Os ditadores vão e vêm e como dizia o santarrão Estaline a respeito dos alemães, "o povo fica". A pertença deste país à organização da lusofonia - e correspondentes vertentes da economia, educação, segurança e intervenção poíitica no concerto internacional -, implica a  aceitação de regras aceites pelo regime e decerto não tardarão sensíveis modificações na situação geral, tanto política, como económica e social. 

 

Portugal tem relações diplomáticas com Cuba? Tem, são excelentes e assim deverão continuar a ser, gostem ou não gostem os nossos aliados americanos. Portugal aceita as credenciais dos embaixadores do regime dos aiatolás? Certamente e bem longe vão as indignações contra o governo do grande Xá Reza Pahlavi. Portugal cultiva profícuas relações com a Arábia Saudita, China, Cuba, Qatar, Paquistão? Sim e com todos anseia estabelecer proveitosos negócios. Não existem por aí uns tantos Bernardinos que não estão seguros de a Coreia do Norte "não ser uma democracia"? Pois é mesmo assim. 

 

Seja então bem-vinda a Guiné Equatorial. Contabilizando factos nas imediações da vasta região um dia genericamente conhecida por um certo povo como a Costa da Mina, retoca-se agora mais uma das páginas do nosso álbum de recordações históricas. Desta vez, com uma quase garantida perspectiva de benefícios mútuos, multilaterais. Desta vez e ao contrário de Samora, Neto ou do guineense Luís Cabral, é mesmo Por Bem

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publicado às 16:37

Almas gémeas

por Pedro Quartin Graça, em 21.07.14

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publicado às 21:36

Prato de BES à moda de Pyongyang

por John Wolf, em 21.07.14

Alguém no seu perfeito juízo acredita nas palavras de Cavaco Silva a propósito da situação do BES? A agência de rating de Belém emitiu uma nota favorável a partir da sua agência em Seul. O presidente da república trabalha no Banco de Portugal ou na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM)? Conhece ou participa nas possíveis contas offshore fundeadas a milhas da costa portuguesa? Não deve conhecer as ramificações do Grupo Espírito Santo nas diversas áreas da economia nacional, assim como as suas ligações a empresários de vulto. Ou será que é pago pelos portugueses para aparecer bem nutrido na capital coreana para colocar água na fervura que transborda de podre por todos os lados. Para aqueles que ainda não entenderam, os bonecos Vitor Bento e Cavaco Silva fazem o que lhes compete. Apresentam-se diante dos portugueses para tentar escamotear a verdade e instigar a paz de alma. Mas não é isso que se passa. O verniz do banco estalou, mas o problema não é superficial, vai muito para além de meros arranhões. O contágio do grupo é irreversível. Embora não seja noticiado pelos meios de comunicação social, a verdade é que assistimos a um bank run. A cada dia que passa, mais e mais depositantes rumam aos balcões sexy para, sem hesitações, levantarem as suas poupanças ou transferí-las para outras casas financeiras. Portanto, o senhor Silva mente aos portugueses quando afirma que está tudo bem e recomenda-se. O presidente da república deve ter as suas poupanças investidas noutro banco para estar tão descontraído.

 

...à moda de Pyongyang (título alterado por sugestão da caríssima Amélia Cabral).

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publicado às 20:46

Todos diferentes todos iguais

por Manuel Sousa Dias, em 21.07.14

Não faz muito sentido comentar as opiniões enviesadas dos "agora-sou-político-agora-sou-jornalista-de-causas-agora-sou-comentador-agora-sou-os-3-ao-mesmo-tempo", mas é difícil deixar passar em branco o comentário de Daniel Oliveira no Eixo do Mal acerca da pulverização do Bloco de Esquerda e do nojo deste partido face a uma possibilidade de governação partilhada com o PS. "Acho que é fundamental neste momento de urgência pensar de uma forma diferente e agir de uma forma diferente do que é habitual. É preciso alguém que diga que não há mais cortes no Serviço Nacional de Saúde; que não há mais cortes na escola pública; que não há mais cortes no sistema de reformas; e nós então estamos preparados para dizer que nessas circunstâncias estamos disponíveis para participar numa solução de governação". Assim falou Daniel Oliveira no Eixo do Mal, sempre com o seu ar de pug zangado. Daniel Oliveira, assim como Rui Tavares, assim como Ana Drago, assim como João Semedo, assim como Francisco Louçã, assim como etc, etc, nunca negam a hipótese de um dia poderem fazer parte de uma solução governativa mas esta hipótese é sempre e apenas uma hipótese académica, não fossem as exigências inegociáveis sempre impossíveis de cumprir por um PS que, primeiro, sabe que a situação do país continua difícil e que talvez tenha mesmo de cumprir uma ou outra medida "inegociável" e, segundo, que conhece bem a natureza e a mentalidade da "verdadeira esquerda" sempre pronta a roer a corda e bater com a porta. Ah, terceiro, um PS que sabe que esta esquerda está cada vez mais pulverizada e fraca e, consequentemente, sem grande margem de negociação - será certamente mais tranquilo integrar nas listas do PS as prima-donas dissidentes do Bloco do que entrar em negociação com elas. Em suma, Daniel Oliveira apela à necessidade de soluções novas mas não apresenta uma solução além do fim dos cortes. E, já agora, em nada se diferencia da esquerda habitual que não se cansa de criticar: diz querer negociar mas parte sempre de posições inegociáveis impossíveis de engolir por quem tenha os dois pés bem assentes na terra.

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publicado às 13:27

Ditadura da mediocridade

por Fernando Melro dos Santos, em 21.07.14

Deputada do PS, Catarina Marcelino, explicando de uma só penada as posições do seu partido acerca da avaliação dos professores, do acordo ortográfico, da escrita criativa (onde concorre com Isabel Moreira) e do flagelo que é a dislexia, pouco coberto pelo SNS.

 

Via facebook de Nuno Roby Amorim.

 

 

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publicado às 13:17

António Costa & lusas ridicularias… na Ásia

por Nuno Castelo-Branco, em 20.07.14

1. ...acha que seria um privilégio termos Guterres como presidente. Pois muitos acham que seria uma benção deixarmos de ter presidente, fosse ele quem fosse. Benção esta tão benfazeja como Costa - e o seu acólito Salgado/primo - definitivamente deixar a Câmara Municipal de Lisboa. 

 

2.  Este regime  é ridículo. Pela primeira vez está um presidente português na Coreia do Sul. Há que repetir, pela primeira vez. Se tivermos o ano de 1976 como ponto de partida, comparem os especialistas o percurso da Coreia do Sul e de Portugal. Vejam o que era aquele país naquele ano e o que é hoje. Depois, sigam o caminho de Portugal e tirem as devidas conclusões. 

 

3. O ridículo não mata, mas moi. Pela primeira vez está no Ceilão um chefe do governo português. Aquele país é um dos mais fortes símbolos da presença portuguesa no mundo que desvelámos à Europa. Completamente ignorado pelas nossas elites, a antiga Taprobana representou algumas das mais inacreditáveis e gloriosoas páginas da nossa história. Mesmo que nos limitemos à queda de Colombo, este episódio é por si demonstrativo daquilo que há muito já não somos. 

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publicado às 17:00

Da submissão a interesses externos

por Samuel de Paiva Pires, em 20.07.14

José Pacheco Pereira, A direita deixou de ser patriótica (2):

 

"A ideologia desta submissão é múltipla. Há um aspecto de progressismo e de engenharia utópica, modernista e modernaço, e há a vontade de usar um poder exógeno para impor uma tutela endógena a favor de interesses de uma pequena minoria de portuguesas, como diriam os marxistas um “poder de classe”. Comecemos pela primeira: o nosso actual europeísmo não é muito diferente do iberismo do passado. Representa uma ideia progressista, iluminista, cosmopolita, contra os pacóvios das fronteiras. Trará o reino da razão aos ignaros rurais que pensam à dimensão da sua quinta e só se preocupam em manter os marcos no sítio, ou até, aos escondidos, em movê-los um pouco mais para dentro do terreno do vizinho. Para eles, só há ou nacionalismo identitário, ou internacionalismo europeísta.

 

A isto se junta a ideia de que quem não tem dinheiro não tem vícios, logo, um país em bancarrota não pode queixar-se dos credores mandarem nele. Coisa aliás que até não é má de todo, porque a pressão externa “impõe” políticas “responsáveis” aos portugueses irresponsáveis, obrigando-os a viver de acordo com as suas necessidades. Quero lá saber da Pátria, dizem alguns, se a troika (com a prestimosa e dedicada ajuda do Governo) está a fazer aquilo que nenhum governante português seria capaz: baixar salários, reformas e pensões, acabar com o Estado como instrumento social, correr com os funcionários públicos, e destruir os direitos do trabalho. O colaboracionismo com o poder de fora faz-se por afinidade ideológica e, claro, com vantagem própria.

 

É na direita que estas ideias hoje fazem mais estragos porque encontrou nas posições da troika e dos “protectores” alemães um instrumento precioso para obter ganhos “sociais” em Portugal. Porém, ainda há um pequeno problema, ainda há eleições. Por isso, mesmo que se deixe de falar em Pátria e patriotismo, pode-se sempre colocar a questão em termos democráticos: que sentido tem a democracia portuguesa se os eleitores portugueses vão deixar de poder escolher quase tudo que é decisivo para o seu país e para as suas vidas?"

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publicado às 12:07

Desdentados

por Nuno Castelo-Branco, em 20.07.14

Que dentes? Em 1914 tinham a Royal Navy, o exército francês e sobretudo, o rolo compressor russo posto à disposição pelo mais tarde traído e abandonado Czar. Claro que a Áustria-Hungria e a Alemanha eram tão - ou ainda mais - europeias como o Reino Unido ou a França.

 

Em 1939 tinham a pequena mas combativa RAF, a Royal Navy, a Commonwealth e a rede britânica de radar.

 

Em 1982 Thatcher possuía a Royal Navy com os seus Harrier e uma vontade indomável.

 

Em 2014 eles nada têm: nem porta-aviões, nem blindados, nem rectaguarda política capaz e sobretudo, não existe qualquer possibilidade de militarmente ameaçarem uma super-potência nuclear. Esta gente é parva., a menos que esteja  convencida da mega-eficácia dos assuntos que envolvem dinheiro. Veremos.

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publicado às 12:02

Nos últimos tempos é raro o concurso ou iniciativa da Fundação para a Ciência e Tecnologia que não gera um coro de protestos em virtude da arbitrariedade que caracteriza esta instituição. Eu próprio dei um modesto contributo (e aqui) para alertar a sociedade portuguesa para o funcionamento da FCT. Mas desta feita, não querendo debruçar-me sobre o processo de avaliação das unidades de investigação, permitam-me sublinhar que, segundo o Público, serão atribuídos 50 milhões de euros às unidades de investigação, a maioria dos quais às unidades que passaram à segunda fase de avaliação (cerca de metade das 322 unidades). Não sei se este será um orçamento anual ou plurianual. Mas, para fazermos contas por alto, admitamos hipoteticamente que será anual. E agora admitamos que ao invés de condenar as unidades que não passaram a primeira fase de avaliação a fechar, a FCT dispunha de mais 50 milhões de euros e poderia, assim, manter todas as unidades de investigação actualmente em funcionamento. Estaríamos a falar de cerca de 100 milhões de euros anuais para manter a esmagadora maioria do sistema nacional de investigação científica em funcionamento - sem contar com as bolsas individuais. Ou admitamos ainda que os 50 milhões de que dispõe seriam suficientes para manter as 322 unidades, sendo distribuídos por estas. 

 

Bem sei que vivemos tempos difíceis, mas colocando isto em perspectiva, recordemos que cada submarino custou 400 milhões de euros, que com o caso BPN foram gastos 8 mil milhões de euros e que continuam a existir fundações que não se sabe o que fazem e absorvem milhões de euros do Orçamento do Estado. Na realidade, a investigação científica em Portugal faz coisas fantásticas com parcos recursos. Será até, no seu conjunto, mesmo considerando que existem unidades de excelência e outras menos boas - o que é apenas natural -, um óptimo exemplo de eficiência económica e com resultados visíveis, palpáveis e fiscalizáveis. Infelizmente, depende financeiramente de uma autoridade centralizadora e opaca, que de um dia para o outro pode simplesmente liquidar partes consideráveis do sistema. O que mostra, mais uma vez, que todo o sistema de financiamento da investigação científica em Portugal tem de ser repensado numa lógica de descentralização e diversificação de fontes de financiamento.

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publicado às 14:29

Mas este texto de António Araújo é deliciosamente brilhante.

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publicado às 12:28

Observador

por Nuno Castelo-Branco, em 19.07.14

 "A grande questão é saber quanto tempo pode um Estado democrático e de direito, como Israel, sobreviver a uma guerra sem fim. Por enquanto, tem os meios materiais necessários. Mas até quando? É que se um dia lhe faltarem, não teremos muito tempo para lastimar Israel."

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publicado às 12:05

Dias de Weimar

por John Wolf, em 19.07.14

Acabei de regressar de Weimar. Foi a primeira vez que estive no leste da Alemanha que havia sido a Alemanha de Leste. Mas a pequena cidade de sessenta mil habitantes há muito que viajou para o resto do mundo. Weimar é famosa por ter sido a casa de Goethe e Schiller, pela república com o mesmo nome que pôs fim ao império, pela hiperinflação que destruiu economias nos anos 20 ou pela escola de pensamento, design e arquitectura que vai pelo nome de Bauhaus. Mas outros ainda houve que rumaram a Weimar como Bach ou Hans Christian Andersen. Deixemos de fora Hitler que ordenou a construção da varanda que ainda hoje o Hotel Elephant dispõe, para que melhor pudesse se dirigir ao povo na praça do mercado onde o edifício da câmara municipal (Rathaus) se acha instalado. Weimar era um dos seus destinos de eleição e a poucos quilómetros da cidade o campo de concentração de Buchenwald foi construído. Visitei esse local atroz para render homenagem a tantos que pereceram de um modo intencionalmente trágico. No dia em que peregrinei a Buchenwald, centenas e centenas de adolescentes alemães desciam de autocarros vindos de todo o país e ao abrigo de uma missão de preservação da memória colectiva. A Alemanha não deixa esquecer as piores páginas da sua história e os jovens fazem parte desse processo. Mas regressemos a Weimar. Como residente em Portugal não pude deixar de comparar o incomensurável, mas há alguns traços comuns entre a Alemanha de Leste e Portugal. Ambos os países viveram sob regimes autoritários, Stasi para uns Pide para outros, Muro de Berlim para uns, movimento condicionado para outros. Em 1974 Portugal inicia o seu processo democrático e em 1989 a Alemanha de Leste é integrada numa democracia com uma economia consolidada, mas não desprovida de desafios importantes. Eu sei que este exercício pode parecer uma simplificação excessiva, mas a pergunta que assolou o meu espírito durante uma semana de estadia em Weimar foi a seguinte: o que terá acontecido a Portugal para que em 40 anos de democracia se tivesse descarrilado de um modo tão grosseiro? E o que fez a Alemanha de Leste para que em 25 anos se tivesse desenvolvido de um modo tão equilibrado. Weimar é um bom exemplo dessa sensatez e sentimos em cada olhar (daqueles com pelo menos 50 anos de idade) o conhecimento da austeridade que viveram - a dureza de uma vida política e socialmente controlada. Weimar não perdeu as estribeiras com a chegada dos ares da mudança. Carrega o peso do nacional-socialismo de um modo temperado e assertivo. Todos os habitantes desta terra sabiam o que se passava em Buchenwald. Cada um escutava o chiar dos comboios de passagem por Weimar, as carruagens pejadas de desgraçados que seguiam para o campo de concentração. Esse fardo ainda está presente nos dias de hoje e por isso há um certo silêncio de semblante, o incómodo com que se lida de um modo discreto. Weimar não ostenta a opulência que caracteriza a Alemanha ocidental. É tranquila no seu estar e confortada pela intensa matriz intelectual e cultural que a identifica. Não há gritaria na rua em dia de vitória no campeonato do mundo de futebol. Não se escutam buzinas de condutores e quando nos cruzamos com um desconhecido, este diz-nos sempre bom dia - de um modo sincero. A vida em Weimar é mais em conta do que em Portugal e não consigo encontrar explicação para que os mesmíssimos artigos custem metade do preço em Weimar. Trouxe lâminas de barbear da cidade de Goethe.

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publicado às 07:29

O vídeo que confirma a autoria do atentado

por Pedro Quartin Graça, em 18.07.14

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publicado às 19:42

 

Um vídeo desconhecido com as chocantes imagens que abalam o mundo. Aqui, no seu ESTADO SENTIDO !

 

Nota: Apenas imagens aéreas

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publicado às 18:53

Ribeira das Naus, "lá está ele a dizer mal!"

por Nuno Castelo-Branco, em 18.07.14

Não se trata de incluir a questão na "subjectividade dos gostos", pois o local não se compadece com experiências ou "reinterpretações de espaços que o adequam à funcionalidade do momento". 

 

Após a inauguração das remodelações efectuadas por Costa, o conjunto geral parece  muito mais aceitável do que o previamente existente. Desapareceram as grades, o alcatrão, a lixeira a céu aberto e a rubra lataria que hoje infelizmente foi colocada na Alameda das Universidades. A Ribeira das Naus está melhor, sem dúvida. Numa conversa com turistas que por lá aproveitavam para aumentar a colecção de fotos, fiquei a saber por idioma forasteiro, aquilo que a maioria dos lisboetas conseguiu ver assim que pela primeira vez teve conhecimento do projecto:

 

- Esta relva serve para refrescar o ambiente e fixa os visitantes que dela se servem para se bronzearem sob o sol de Lisboa. Mas... porque razão construíram estas rampas? Colocavam a relva, mas evitavam destruir a perspectiva arquitectónica!"

 

É verdade. Qualquer um diria o mesmo e não valerá apenas puxarmos pelas rebuscadas razões que fundamentaram a decisão recorrendo à "memória histórica" das carreiras que durante séculos fizeram deslizar para o Tejo uma infindável quantidade de galeões e naus, navios de transporte, fragatas, bergatins e galés. As rampas são um disparate e desvalorizam o espaço. Aquelas que servem para justificar a maluquice, eram invisíveis acima do "nível térreo", não interferiam com a discreta e intemporal grandeza dos edifícios contíguos.

 

Muito bem fez a Câmara em interessar-se por uma zona há muito ameaçada por vários desastres, desde o incêndio e destruição da Sala do Risco, até à decadência do Terreiro do Paço transformado em parque de estacionamento - em boa hora liquidado por João Soares -, ruína do muro debruando a margem do rio, a construção de observatórios-mamarrachos U.E. nas imediações e sem esquecermos a ainda muito recente e disparatada retirada dos valiosos candeeiros que faziam parte da colecção de mobiliário urbano da cidade, hoje substituídos por ridículos postes imitando fósforos carbonizados.

 

O interesse por aquela zona deve coadunar-se com a sensatez quanto às decisões tomadas para a sua preservação. Quando falamos em preservação, isto pouco ou nada terá a ver com experiências que cabem na zona da Expo - "monumento" a Maria José Nogueira Pinto incluído -, mas não ali, na zona de aparato da reconstrução setecentista. Bem melhor teriam feito em previamente auscultar a opinião dos lisboetas, pois desde o Sua Magnificência o Senhor Doutor, até ao vendedor de cautelas, a opinião talvez fosse unânime. Recupere-se mas não se estrague ou invente. 

 

 Adenda: como aqui já foi dito algumas vezs, teria sido mais simples o aproveitamento da doca e a construção de molhes onde estivesse em exposição permanente a fragata D. Fernando II e Glória e ocasionalmente, a caravela Bartolomeu Dias e os navios-escola Sagres e Croiula. Mas não, preferem sempre mexer onde não devem.

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publicado às 08:05

O Que Falta Lembrar a Muita Gente

por António Garcia Rolo, em 17.07.14

Péricles na Oração Fúnebre, segundo Tucídides:

 

"The freedom which we enjoy in our government extends to our ordinary life where, far from exercising a jealous surveillance over each other, we do not feel called upon to be angry with our neighbour for doing what he likes."

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publicado às 19:23

O erro da narrativa da desresponsabilização da Alemanha

por Samuel de Paiva Pires, em 17.07.14

É cansativo ver repetida, quase ad nauseam, a ideia de que a Alemanha não tem qualquer responsabilidade na crise que o Velho Continente vem atravessando. Desta feita, e motivando este meu post, li-a num texto do João Távora. Curiosamente, não me recordo de ter visto qualquer dos proponentes desta narrativa suportarem-na com argumentos, dados, factos históricos. A explicação é simples e talvez fique a dever-se ao facto de muitos confundirem as suas crenças e vontade de recriminar Portugal, os portugueses e os seus líderes políticos - que também têm responsabilidades, e muitas, na crise que atravessamos, mas não são exclusivas -  com a realidade: é que aquilo que defendem está errado. É, apenas e só, wishful thinking. Isto motivou-me, já há uns bons meses, a investigar as origens da crise do euro, o que resultou num ensaio que apresentarei nesta conferência.

 

Começando no estabelecimento da União Económica e Monetária - em que prevaleceu a visão do Bundesbank de um BCE inspirado no seu modelo, centrado quase exclusivamente na estabilidade de preços -, que não era e continua a não ser uma Zona Monetária Óptima, circunstância agravada pela inexistência de uma união orçamental que permitisse uma gestão macroeconómica conjunta, o que a torna propensa a choques assimétricos; passando por uma fragilidade estrutural essencial para a compreensão da crise, segundo Paul De Grauwe, que é a perda da capacidade dos países emitirem dívida numa moeda própria, emitindo-a numa moeda que não controlam, pelo que estão, assim, mais facilmente à mercê dos mercados financeiros e podem ser rapidamente precipitados por estes para um default; e chegando aos anos da crise do euro, em que o diagnóstico da crise da dívida soberana grega foi erradamente generalizado a outros países, conforme Jay Shambaugh sublinha, servindo como justificação para prescrever pacotes de austeridade e reformas estruturais que, per se, não são suficientes para superar os constrangimentos resultantes das fragilidades estruturais da UEM, conclui-se que estas fragilidades não só resultam da perspectiva alemã aquando das negociações que levaram ao seu estabelecimento, como aproveitam actualmente à Alemanha. Hans Kundnani assinala que a actual situação, com um euro fraco (segundo Andrew Moravcsik, a taxa de câmbio real da Alemanha, actualmente, está 40% abaixo do que estaria se o país ainda tivesse o marco alemão), é a ideal para a economia alemã baseada nas exportações e avisa que o narcisismo económico da Alemanha coloca toda a Zona Euro em causa. Assim, a Alemanha está actualmente numa posição muito confortável, com um euro fraco que favorece as suas exportações, tornando-a a economia mais competitiva da Zona Euro, e, em parte em resultado disto, encontra-se de forma indisputada na liderança política da UE, tendo a cooperação entre países soberanos sido relegada em favor de uma dominação de facto por parte de Berlim. Ulrich Beck resume de forma lapidar esta situação em A Europa Alemã: "Como a Alemanha é o país mais rico, agora é ela que manda no centro da Europa." A austeridade imposta erradamente aos países sob resgate financeiro permite à Alemanha manter este status quo em que, nas palavras de Moravcsik, ao "utilizar uma moeda subvalorizada para acumular excedentes comerciais, a Alemanha actua como a China da Europa."

 

Por tudo isto, caro João, o que é uma fatalidade para nós portugueses – e outros como nós –  é persistir no erro de acreditar na narrativa da desresponsabilização alemã, que não tem correspondência com a realidade. Fatalidade esta que se torna particularmente trágica atendendo a que muitos dos decisores políticos acreditam nesta narrativa, pelo que, ingenuamente ou não, acabam frequentemente a servir mais os interesses alemães do que os interesses das nações que os elegem.

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publicado às 18:20






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