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Em conversa com um amigo, discutindo a guerra na Síria, este parecia incomodado com o facto de eu tratar como terroristas aqueles que ele tratava como rebeldes. Gostaria então de apresentar os meus argumentos para tal tratamento:
- 17 Junho 2013: Explosão em Aleppo mata 60
- 16 Junho 2013: Carro-bomba explode em Damasco
- 14 Junho 2013: Dois homens-bomba matam 14
- 27 Maio 2013: Jornalista assassinada
- 17 Maio 2013: Três soldados da ONU sequestrados
- 14 Maio 2013: Homem filmado a comer o coração de soldado morto
- 30 Abril 2013: Explosão no centro de Damasco mata 13
- 30 Março 2013: Xeque mutilado e decapitado
- 21 Março 2013: Homem-bomba em Mesquita em Damasco mata 20
- 5 Janeiro 2013: Duas explosões em bairro cristão de Damasco
- 2 Janeiro 2013: Jornalista Americano sequestrado
- 17 Dezembro 2012: Um Italiano, dois Russos sequestrados
- 6 Novembro 2012: Bomba em bairro residencial de Damasco mata 10
- 27 Outubro 2012: Jornalista Libanês sequestrado
- 26 Outubro 2012: Carro-bomba em Damasco mata 47
- 25 Outubro 2012: Padre raptado e executado
- 7 Setembro 2012: Mota-bomba explode à entrada de Mesquita, mata 10
- 3 Setembro 2012: Carro-bomba explode em bairro cristão
- 27 Agosto 2012: Carro-bomba explode em funeral cristão, mata 12
- 11 Agosto 2012: Quatro jornalistas sequestrados
Agora pergunto eu: que outro nome senão terrorismo se poderá dar ao sistemático recurso a carros armadilhados em bairros residenciais, igrejas e mesquitas? À prática de mutilações, decapitações e rituais de canibalismo? Aos frequentíssimos sequestros e execuções de civis?
E o que dizer do facto da minoria cristã, cada vez mais pequena, ser alvo preferencial de ataques terroristas? Que dizer da quase total ausência de notícias sobre os constantes sequestros, assassinatos e violações dos cristãos Sírios?
Esta gente não está a lutar pela democracia e estes mortos não são mártires em nome da liberdade. São grupos radicais que não têm qualquer pudor em recorrer aos meios mais baixos e sangrentos de terrorismo com a intenção de impôr um regime obscuro que, a triunfar, conduziria o país para um era de terror e de trevas, e contribuiria para aumentar a destabilização de toda a região, incluindo o Líbano, o Irão e o Iraque. Só a posição de Israel sairia aparentemente reforçada com o derrube do regime, pelo que se poderá começar a entender a obsessão dos Estados Unidos com o derrube de Assad.
Quando os ataques são como os descritos acima, é imprescindível que a resposta das forças de segurança seja forte e decidida. Foi assim que respondeu o regime e não poderia ter sido de outra forma. Quando estes baixíssimos ataques são incentivados por apoios financeiros e logísticos vindos das potências externas e legitimados moralmente pela quase totalidade da comunidade internacional, é evidente que eles não irão parar, tal como não cessará por outro lado a resposta do regime. O resultado é aquele a que vamos assistindo há mais de dois anos, ou seja, a morte e a destruição de um país.
Não é novidade para ninguém que os governos sigam interesses particulares de forma a satisfazer a vontade de pequenas elites, e não só as massas, mas também a maioria da gente informada vai na sua conversa. Esta seria uma observação aterradora se a tal não estivéssemos já habituados e se para esses planos não tivésemos nós um Plano alternativo, mas é indicativa das infinitas possibilidades depositadas nas mãos destas autênticas máquinas de propaganda, capazes de conduzir nações inteiras, por capricho, para onde bem entenderem.
Nem que seja para o abismo.
Quem veio a terreiro contestar com marginalidades o argumentário do Relatório da Comissão das PPP, e logo com um sorriso cheio de dentes plantado no rosto, foi o deputado do PS, Rui Paulo Figueiredo. Mais uma relíquia do socratismo no respectivo grupo parlamentar. Para o improvisado porta-voz dos Governo Sócrates, que não do PS, os factos elencados pelo relatório pouco importam. A primeirinha coisa a fazer, antes de mais, foi politizá-los reduzindo-os à longa batalha politiqueira medíocre entre o danoso Partido Socialista e o desastrado PSD, faces da mesma moeda má do Regime. O que é que aflige e afadiga o risonho e anafado Rui Paulo Figueiredo?! Não é o facto de os contribuintes e o Estado Português estarem esmagados de compromissos e de dívidas à Banca que financiou as PPP, esmagados pelas obrigações do Estado aos concessionários protegidos por cláusulas leoninas. Isso é uma bagatela para o Ruizinho. O que incomoda é que a Comissão de Inquérito das Parcerias Público-Privadas não tenha abortado as suas conclusões, mas tenha feito uma encenação, uma manobra de diversão para afastar a Opinião Pública da realidade e da actual governação troyko-europeia por interposto Governo-PSD-CDS-PP. Será uma encenação que paguemos de modo grotesco o que resultou da avidez obreira desmedida e comissionista dos Governos Sócrates, apesar do acidente que se desenhava a grande velocidade?! E por que razão não veio José António Seguro ele-mesmo [ou uma qualquer figura grada bem falante de segundo plano, e não de terceiro ou quarto, como o jovem turco Rui Paulo] defender as virtudes da dívida massiva resultante das derradeiras PPP do socratismo?! Conviria recordar ao rotundo Rui Paulo que o desastre de uma governação como a que porventura decorrerá é o desastre do País que é o resultado de anos de desastre pela Corrupção de Estado instituída, que é o desastre do eleitoralismo crasso do passado, que é o desastre de figuronas desastrosas como a pessoa inefável e pomposa do político José Sócrates, vicioso e tresloucado, no seu vácuo berlusconas-mugabeano, de seis anos da imagem pela imagem. Nem o mais competente governante poderia branquear as responsabilidades do Arco da Governação na pré-bancarrota de 2011, branquear os efeitos daninhos de quinze anos de socialismo, branquear os frutos amargos de décadas de Corrupção-de-Regime, estagnação económica, agonia financeira, declínio anímico, imoralidade política, submissão ao Plutossocialismo dos soares e dos salgados, queda de Portugal no vexatório mundial, sob vários pontos de vista. A comissão das PPP acusa, e acusa bem, os responsáveis, não do PS, mas dos Governos-PS e eles têm nome, convém não diluir no vago aquilo que teve assinaturas e decisores, não em nome do Interesse Público e das Gerações Futuras, mas contra eles e em benefício de uma amálgama de gente, parte dela na sombra e à sombra, os Bancos do costume, os interesses habituais, transversais, BES-MotaEngil, como consta do documento. Não pode haver duas versões para a mesma desgraça: por que motivo Rui Paulo não tirou o sorrisinho dental de menino de bibe e não assumiu alguma coisa em nome dos Governos PS?! Por que motivo nunca encontramos o PS a assumir excessos, erros, abusos, a purgar-se da viciosa Corrupção-de-Regime?! Por que motivo nos acontece ouvir os rui-paulo-figueiredos, os zorrinhos, os joão-soares, os josé-junqueiros, as suas justificações e disparos, e ainda ficar a dever dinheiro e desculpas e mil-perdões ao PS, aos deputados do PS, aos dirigentes do sacrossanto PS?! É com esta Esquerda-que-não-se-Enxerga que Portugal pode contar para sair do buraco para onde foi atirado?! Nada menos ético que o PS passar o tempo a sacudir a água do capote e a refugiar-se em desculpas menores como as queixinhas pela divulgação do documento antes de ter chegado às papudas mãos dos deputados do único partido autorizado a governar em Portugal, o PS. Por que motivo o PS parece nunca não ter violado a Constituição, mas defraudou três vezes o País com bancarrotas, arruinando-o?! Por que motivo o PSD não pode violar a Constituição e a lei para tentar tirar-nos dos apertos actuais em que a outra gerência nos colocou?! Por que motivo o PS e o resto da Esquerda Pudica se mostram guardiões da Constituição no momento da aflição, mas não se lhes ouve pio no tempo do regabofe e do caminho em direcção à parede?! Os Governos Sócrates foram a derradeira cortina de fumo, biombo de malfeitorias, a grande charla do Regime, à vista do grande espalhanço. Espero que o Ministério Público pegue nos factos, nas provas deste Relatório e faça qualquer coisa de inédito e até inesperado nesta Podridão Politiqueira em socorro da qual Rui Paulo é mais um, mais um a fugir com o rabo gorducho à seringa das evidências, boca risonha repleta de dentes desalinhados à revelia da nossa tragédia.
Cândida Almeida disse, no dia 1 de Junho do presente ano, que o seu processo seria arquivado. Passados poucos dias, os portugueses são informados de que o dito processo foi mesmo arquivado. Conclusão a retirar: o estado da justiça em Portugal é, de facto, muito preocupante. Chegarmos ao ponto de assistir a prognósticos - com conhecimento de causa, o que torna a coisa ainda mais risível e degradante -, por banda do visado, sobre o arquivamento ou não do processo em que está envolvido, é de uma gravidade sem nome. A depredação da justiça portuguesa atingiu o zénite.
Vamos ter uma muda camarária a candidatar-se à presidência da Assembleia Municipal. Habitual comentadeira na tasquinha de carrascão e carvões da nossa política mais chã, tem estado queda e silenciosa quanto a tudo aquilo a que Lisboa inteira tem assistido. Do alto das suas duas pernas, a dona Roseta tem sido uma espécie de MDP/CDE da depredatória dupla António Costa/Manuel Salgado e suas alianças com a agiotagem bancária dos "fundos imobiliários".
Aqui está mais uma arquitecta de quem jamais vislumbrámos sequer um projecto de palhota. Atempadamente garante o seu precioso "espaço político", não passando de mais um desastre falante que ainda ousa ir a votos às cavalitas de outrem. É o país que temos.
Os brancos sul-africanos, nomeadamente os boers, durante décadas tiveram um comportamento absolutamente miserável para com a população "coloured" do país. Lembro-me que a pouco mais de um mês do 25 de Abril, regressando com os meus pais e irmãos de uma viagem a Joanesburgo, parámos em Nelspruit para reabastecer a viatura. Um enorme zulu de serviço à bomba, comentou, apontando para matrícula: "in Mozambique we are free". Foi este o tema para mais uma lição do nosso pai, fazendo-nos notar ser a África do Sul um país independente, enquanto Moçambique era um território sob a soberania de uma potência europeia. Os paradoxos não se ficavam por aí, estendendo-se os exemplos ao absurdo do Apartheid e aos seus mais visíveis e escandalosos aspectos: bancos, cinemas, restaurantes, casas de banho, transportes públicos, escolas e hospitais, enfim, um mundo que para nós era totalmente desconhecido, abjecto.
Sabemos no que tudo aquilo deu. Os sul-africanos foram recompensados com um príncipe em todos os sentidos que o termo encerra. Mandela sempre foi e ainda é, uma figura que paira sobre um mundo onde a reles vulgaridade impera despudoradamente. Foi ele, o doce castigo ministrado aos mais radicais boers: o perdão, a reconciliação, o estender do ramo de oliveira.
Pelo contrário e apesar de todos os discursos do Portugal multirracial e pluricontinental, dos textos escolares acerca dos casamentos mistos que fizeram a lenda de Albuquerque e da infalível construção de outros Brasís - apesar de já não termos um D. João VI que nos valesse -, o que nos sucedeu? Por obra e graça da Capitulação de Lusaca, em vez de um tenuemente esboçado Mandela, tivemos um Moisés de águas turvas, de seu nome Samora. O resultado está à vista, aquém e além mar. O desastre económico, a brutal ditadura de todas as "reeducações", uma liminar limpeza étnica e um milhão de mortos em menos de vinte anos.
Dito isto, o que se torna evidente nesta hora de ocaso de uma vida ímpar, é tudo aquilo que se tem passado desde que Mandela chegou, com todo o mérito - e esplendorosa sorte de milhões de sul-africanos - à presidência do país. A sua ex-mulher Winnie e a filharada, logo começaram a esvoaçar em círculos sobre a mesa do banquete, não dando meças à cupidez e a casos de polícia. Escândalos atrás de escândalos, crimes de sangue, o amealhar de milhões provenientes da chantagem, roubo e expropriação, o ataque aos donativos para "causas" e toda uma panóplia de atitudes difíceis de qualificar, tornaram-se no apanágio do novo poder instituído. O sr. Julius Malema, pequeno ditador da juventude do ANC - uma criatura brutal, bronca, execravelmente racista e de um devorismo sem limites -, apenas tem sido um dos frutos podres do imenso pomar de todo o tipo de ilegalidades, abusos, assassinatos em série e mentiras instituídas às custas do legado do Madiba. O pândego sr. Zuma, o actual Chefe do Estado, é um daqueles típicos exemplos a que aquela parte do mundo nos habituou, em nada fugindo ao padrão que em Mobutu encontra um fácil e oportuno nome que o caracteriza, não esquecendo as variantes conhecidas por Idi Amin, Bokassa, Touré, Mugabe, Nguessu, etc. A lista é longa, imensa.
Mandela merecia melhor. Gente que apenas lhe é qualquer coisa devido a um comprovativo ditado pelo ADN, ameaça destruir muito de uma imagem que o mundo aprendeu a olhar como exemplo máximo da decência.
Não é por acaso que Lord Acton observou que "o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente", e que Montesquieu afirmou que "todo o homem que tem poder é levado a abusar dele" indo até onde encontra limites. Por isto mesmo, como diria Abraham Lincoln, a melhor forma de testar o carácter de um homem é dar-lhe poder. Infelizmente, o pessimismo antropológico está frequentemente certo, mesmo onde e quando menos se espera. A tirania espreita amiúde por onde deveria ser mais insupeita. Talvez valha a pena relembrar um ensinamento clássico de São Tomás de Aquino, aquele que nos diz que o povo tem o direito de remover do poder quem o usurpa e pela paixão pelo comando o faz degenerar, ou seja, o tirano. Ou isso, ou pelo menos virar-lhe as costas. Porque «na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...»
Os políticos, e os partidos que os fizeram nascer, gostam de pautar as suas actuações por momentos de espectáculo e eventos em que prometem salvar o mundo de injustiças. Basta chegarmos ao fim do lindo mês de Agosto e lá chamam o Toy Carreira (ou como se chama ele), para animar as hostes reunidas numa Albufeira de segunda categoria que vai pelo nome de Quarteira. Depois há aquelas universidades de Verão, outra contradição académica que vai para o bosque discutir a relação entre a cigarra da política e a formiga trabalhadora. E nesta brochura desdobrável não faço distinções ideológicas. No folheto estão lá todos os partidos e sindicatos. Há algo para todos os feitios e gostos. Uns atrasados e outros do avante, quase sempre em Setembro. Por alguma razão que me escapa, quando marcam na agenda os dias de glorificação sectária, usam uma expressão francesa que vai pelo nome de rentrée. Não sei se é para ser mais chique, ou se é para soar a algo importado de fora, mas a verdade é que lá temos nós de gramar essa reentrada, a entremeada que decorre entre um ciclo de governação e o próximo que se avizinha. Geralmente aparecem em palco uns gajos torradas pelo sol, ainda com dor de cotovelo pelo swing que o golfe impõe. Quando penso nessa brilhantina vem-me à memória um Deus, um João de Deus Pinheiro. Mas há tantos outros com a camisa aberta, a dar folga à gola e aos três primeiros botões da camisa, para gáudio de voyeurs de pelugem, decotes. Nesse auge, regado pela festa na praia do Gigi, sobressai a orgia de convicções, a barriga cheia a clamar pela justiça saciada pelo governo a morder os calcanhares da oposição, ou vice-versa. Este ano, ai daquele político que se aventure a achincalhar com o bronze temperado pelo clima ameno de sudoeste. Este ano não haverá rentrée. Neste início de época de veraneantes teremos uma outra sensação que poderemos baptizar de sortie. Decidi agora mesmo que será isso mesmo. Sortie. Uma saída de cena pouco airosa de todos os que se nos impuseram nos últimos tempos. A saída de emergência. É isso que a malta quer. Os que não vão para fora cá dentro, que não arredam pé da sua desgraça. Que todos eles desembarquem em Tânger e nos libertem da espessa neblina. Este Verão vamos inaugurar um período de nojo, içar no mastro os trapos da indignidade para que se lembrem, aquém e além-mar, da angústia de náufragos, dos que ficáram à beira-mar plantados à espera de melhores dias. Da maré de esperança. Engano de Setembro.
A notícia de que o Parlamento vai enviar para o Ministério Público o relatório final da comissão de inquérito às Parcerias Público-Privadas, com conclusões que arrasam a actuação dos governos Sócrates e que pede a responsabilização dos ex-governantes envolvidos, é um dos factos mais importantes que sucede em Portugal neste período conturbado que o país atravessa.
Porque não é possível regressar à normalidade sem que os responsáveis sejam confrontados e castigados, e não se pode simplesmente passar uma esponja sobre o assunto e pagar as facturas; é preciso evitar que em futuros governos aconteça mais do mesmo para que se dê o regresso do Estado Português à respeitabilidade e à credibilidade baseada em factos e não apenas em aparências ou em ratings.
Esteja o Ministério Público à altura da situação porque - não haja dúvidas - para isso acontecer, cabeças terão que rolar. A alternativa seria mais um espectáculo degradante e a continuação do descrédito indisfarçável.
Um sinal de que o país está a evoluir no bom sentido e que o Estado está a merecer mais confiança é o (por enquanto tímido) regresso dos pequenos investidores aos certificados de aforro. A melhoria das condições de remuneração devia ter sido uma das primeiras medidas a serem tomadas logo que Vitor Gaspar tomou posse, de forma a evitar a fuga por parte dos aforradores e que se prolongou escusadamente por um ano; mas agora o que importa é que a confiança - afinal, aquilo que é o mais básico para que uma economia possa funcionar - está a ser restabelecida.
Erdogan actua e desculpa-se com a extrema-esquerda. Sem que a Europa disso aparente aperceber-se, algo está a acontecer na Turquia, procedendo-se à silenciosa remoção de quadros da administração publica por gente dos meios religiosos. Diplomatas, polícias e quadros das forças armadas têm sido discretamente substituídos por nomes da sua confiança do partido islâmico. Já existem claros indícios de imposição de costumes e em público as demonstrações de afecto são acerbamente criticadas, chegando-se ao ponto da sua proibição.
A sra. Erdogan no seu conhecido arranjo facial ao estilo "dor de dentes"
A Turquia está rapidamente a caminhar para o fim da separação do Estado e da mesquita, daí a fúria de Erdogan no seu apoio aos islamitas sírios e a mensagem que fez passar durante o seu recente périplo pelo norte de África. Numa sociedade urbana há muito habituada à ocidentalização - mesmo que forçada pelo capricho de Khemal -, a visão da sra. Erdogan passeando em público entrapada dos pés à cabeça, é bem um dos símbolos da razão dos protestos.
1) Para início de conversa, e dado que o dia está quase a terminar, há que sublinhar o seguinte: o sindicalismo contemporâneo, nas suas variantes nucleares, é um dos últimos redutos do burocratismo mandrião do chamado Estado social. O ocaso do operariado industrial e a terciarização das economias deslocaram o centro de gravidade do trabalho para os serviços. Os sindicatos, como não poderia deixar de ser, sofreram acerbamente o embate dessa transformação. Hoje, a orgânica do protesto vive, em grande medida, do funcionalismo acomodado. O sindicalismo já não é, pois, um assunto limitado às precisões dos "blue-collar workers". O mundo mudou, e muito, mas os Mários Nogueiras continuam a viver ensimesmados na lógica das vaquinhas gordas regadas a crédito. O paradigma sindical tem de mudar o quanto antes, a bem da comunidade.
2) A greve de hoje deve ser analisada sob um único prisma: os alunos foram ou não prejudicados? A resposta é claramente afirmativa. O que importa relevar é o facto de meia dúzia de sindicatos, acolitados por algumas figurões irresponsáveis, terem tentado prejudicar os interesses de terceiros de boa fé. Como qualificar uma greve que visa, premeditadamente, prejudicar os alunos? Ilegítima? Não, a greve em causa foi bem mais do que isso. Muito mais. Uma greve destas é, forçosamente, uma greve terrorista. Quando os alunos são deliberadamente prejudicados nos seus estudos por aqueles que deveriam ser os seus maiores protectores, estamos, de feito, perante um terrorismo muito especial: um terrorismo psicológico de gente que não se importa de usar os alunos como arma de arremesso na barganha das suas exigências corporativas.
3) Os números da greve pouco importam. Não é a percentagem da adesão que determinará ou não o sucesso da dita cuja. Mais: ao que tudo indica 70% dos alunos fizeram a prova. Os que não a fizeram terão a oportunidade de a fazer no dia 2 de Julho. Não obstante a imensa pressão a que foi submetido, Nuno Crato conseguiu sair-se com um mínimo de airosidade desta situação periclitante. Ademais, os adeptos do igualitarismo, que têm enchido as bocarras com sermões de chacha, deveriam fazer uma contrição. A lógica do conflito tem os seus limites.
4) A conclusão magna a retirar deste berbicacho é que a reforma da educação nacional continua por fazer. Porquê? Por uma razão mui singela: na 5 de Outubro, o paradigma da escola pública e gratuita permanece incontestado. Os leitores têm ouvido falar em descentralização, liberdade de escolha ou autonomia de gestão? Não, com certeza que não. Por mais troikas que aterrem neste país, será extremamente difícil reformar o que há para reformar, enquanto não houver uma mudança radical de chip. A educação é um bom exemplo. As alterações feitas pela equipa de Crato não passam de meros remendos num edifício que, em bom rigor, já deveria ter implodido. A burocracia que gira em torno do ministério, e o centralismo jacobino que domina há muito a educação pública, são o cerne da questão. Se juntarmos a isto o sindicalismo rasca de Mário Nogueira e os pedagogos piagetianos que cirandam em torno do Ministério temos, pois, o desastre perfeito. O desafio é muito simples: ou se reforma o sector, privatizando e descentralizando as escolas, dando autonomia e liberdade de escolha aos pais, ou a educação deste país será abocanhada, mais dia menos dia, pela falência estrepitosa da ideologia do público a todo o custo. O tempo urge.

Tenho irmãos mais novos. A mais nova tem agora 4 anos e é feliz. Corre de um lado para o outro sem saber que um dia vai perceber o que a rodeia. Ainda não sabe que existem pessoas más, movidas pelo ódio, pela intolerância, pela ganância. Se pudesse privaria-a desse mundo, mas não consigo.
O mundo que podemos deixar a quem está a chegar é uma vergonha. Deixamo-nos corromper por falsas sensações de bem-estar a troco da liberdade de ser, fazer e pensar. Deixamo-nos ser enganados porque ‘’não tinha nada a ver connosco” na altura. Desde os tempos da escola, em que gozámos com este ou com aquele, desde o dia em que não tivemos coragem de impedir um acto injusto ou fomos injustos e não pedimos desculpa.
O mundo que nos deixaram não foi o melhor mas isso não quer dizer que possamos desistir. Que mundo este onde a democracia deixou de proteger os mais frágeis que nós? Onde os novos têm medo de não ter futuro e os velhos não têm segurança para o amanhã? Como é que se aceita esta política que não é natural?
Não é natural prejudicar o próximo. Não é natural privar alguém de ser quem quiser ser, como quiser ser, quando quiser ser. Não é natural tornar outros infelizes.
Vivem-se temos difíceis mas não temos que os aceitar. Não é humano aceitar que os outros chorem porque já não têm alternativa a desistir. Não é humano dar a liberdade em troco de comodidade, cada vez mais residual. Todos temos medo de pior. Piores dias com maiores faltas. Falta dinheiro, faltam sonhos, faltam condições, falta o futuro que nos teimam a tirar. Mas se todos temos medo, estamos todos juntos. A liberdade foi tomado por pequenos grupos que se acham donos daquilo que é de todos.
Desde novo que me ensinaram que a democracia era o único regime onde o poder estava nas pessoas e era das pessoas. Nesse caso, porque temos medo de quem trabalha para nós? Daqueles que não são mais que meros funcionários com o objectivo de governar aquilo que é nosso e de todos? Porque toleramos os intolerantes? Aqueles que nos incutem medo do futuro e nos obrigam a contentar com cada vez menos? A crise é o novo bicho papão. A crise e a dívida, o défice e o desemprego, a troika e os trocos que escasseiam. As crianças já não têm medo dos monstros debaixo da cama: hoje temos todos medo do futuro. É incerto, como tem de ser. Mas aqueles que governam pelo medo, perdem a legitimidade de serem nossos representantes. Nós, as pessoas. Somos cada vez mais indiferentes ao outro. E os outros já se desinteressaram de nós. Tornamo-nos egoístas, fechados no nosso centro de conforto, com a nossa família e os nossos amigos. Esquecemo-nos do mundo que está fora deste circulo. A Humanidade somos todos e mesmo assim protegemo-nos com fronteiras, barreiras, fobias e intolerâncias. Cada vez mais somos mais parecidos com bestas que com homens e mulheres.
Tenho 23 anos e a minha irmã mais nova tem 4.
Tenho 23 anos e não sei a idade de quem vive pior e tanto pior que eu.
Tenho 23 anos e deixei que os conflitos e as guerras se tornassem parte do meu quotidiano. Vejo todos os dias autoridade desmedida quer pelo lado dos governos quer pelo lado daqueles que acham na rua, violentamente, se pode destruir a democracia.
Tenho 23 anos e já me envergonho quando vejo que sou capaz de passar ao lado de alguém a dormir sem tecto sem sentir um mínimo de compaixão. Deixamo-nos de ajudar.
Mas tenho 23 anos e já me apercebi disso. Não tenho medo quando sei que o que é natural é a entreajuda entre pessoas. Há tantas divisões. Somos todos diferentes. Isto é natural. Mas um adversário não é um inimigo. Os inimigos não são naturais e esses devem ser combatidos.
Aos que nos governam e aproveitam a posição para os seus interesses;
Aos que não toleram a diferença;
Aos gananciosos;
Aos racistas;
Aos homofóbicos;
Aos que usam a violência como modo de subjugar os outros;
Aos que não respeitam a liberdade;
Aos que odeiam;
E a todos os outros que se tornaram máquinas e perderam o que me fazia chamar-vos pessoas:
Eu não tenho medo. E, mesmo sabendo que vai durar a vida toda, não vou deixar que ganhem.
A minha irmã terá um mundo melhor.
de Bernardes e de Camilo, a que veio juntar-se o património da linguagem popular "
( « O Escritor na Cidade », de João Bigotte Chorão )
Foi por este livro, há um par de anos, que soube da existência deste escritor que, por certo, havia de agradar, pois dele se dizia ter uma escrita vizinha da do homem de Seide, o melhor dos cartões de visita.
Até há bem pouco tempo, e porque, felizmente, é grande a presença de boa prosa nas estantes paternas, só um livro seu, de contos, tinha lido ainda - « Cinza do Lar » - , mas acabo de pegar num outro volume, de contos, também, « Terra Ingrata ».
E se dúvidas tivesse sobre a qualidade dessa escrita, no caso de nada ter lido ainda da sua lavra, bastavam as palavras agora mesmo bebidas de Amândio César: " É João de Araújo Correia um estilista de linhagem camiliana, com o senso agudo do dinamismo narrativo: escreve para contar histórias e tão bem sabe fazê-lo, que nelas se imprime, como o rosto sangrento de Cristo na toalha de Verónica, a fisionomia de um povo ".
É, pois, com aquele deleite, que só conhece aquele que sabe ter à sua espera uma coisa que o vai, certamente, empolgar, que leio:
" - Não vendo.
- Venda, que o dinheiro é de tentar um santo.
- Não vendo. Já disse que não vendo.
- Há-de-se arrepender.
- Nunca me arrependi. (... ) Faço e aconteço em cima do dinheiro. Daqui é que não saio. Nem eu, nem a vaca. Diz lá, Carola, nós saímos daqui? "
Já há que tempos tinha entendido o porquê da prolongada vigência do Regime Corporativo da 2ª República. O país por ela formatado da esquerda à direita, gostou e quer, noutros moldes, continuar na mesma.
Deixem-me tentar entender qualquer coisa mais. Os professores fizeram greve aos exames e estando outros testes marcados para 2 de Julho, ninguém garante que suas excelências não decidam outra paralização exactamente para esse dia e com alguma pouca sorte, por aí fora, verão abaixo. Os alunos que pretendiam ir a exame e não o conseguiram devido à greve, invadiram as salas onde os seus colegas estavam a prestar provas. Se queriam mesmo ir a exame, o que terão dito aos professores em greve? Nada lhes ocorreu?
Cá fora desataram a berrar a Grândola e, vá lá por esta vez, A Portuguesa. O texto do Público é tão confuso como a situação:
“Esperemos que os exames não sejam considerados. Se houve alunos que os puderam fazer e outros não, têm que ser anulados”, reclamava, apelando à “equidade”.
Como assim?
"Na escola de Maximinos, todos os alunos realizaram a prova porque havia professores suficientes para vigiar as seis salas de aula onde foram feitos os exames. Mas os docentes foram recebidos com “assobios e apupos” pelos alunos, conta fonte da direcção."
Afinal queriam ou não queriam ir a exame?
"Francisco diz “compreender” as razões da greve dos professores, ainda que se sinta “prejudicado” pela decisão de fazer greve nesta segunda-feira. “Já tinham feito greve às reuniões de avaliação”, comenta, sugerindo que o protesto talvez pudesse ter ficado por essa acção.
A sua colega de turma Beatriz Simões teve sorte diferente e foi uma das estudantes da maior escola de Braga a realizar a prova de Português. Agora encara a possibilidade desta ser anulada em resultado da greve. A brincar, diz que só terá uma opinião sobre essa hipótese “quando souber a nota” da prova. Mas acaba por reconhecer que essa talvez seja a melhor solução para resolver o problema, ainda que espere “poder ficar com a melhor nota das duas”.
Credo...
Esta deve ser mais uma daquelas originalidades ao estilo da actual preocupação de Jerónimo de Sousa, muito aflito pela longínqua hipótese de as eleições autárquicas "poderem" realizar-se a 13 de Outubro, uma grave ofensa aos católicos que querem ir em peregrinação a Fátima! Aqui temos um PC mais papista que S.S. o Papa.
Ou tudo isto não passa de mais um episódio da guerrilha política em curso, ou então, a loucura definitivamente prevaleceu.
É vergonhoso o modo como os jornalistas são tratados nos protestos por todo o mundo.
Reportagem da Folha de S.Paulo:
Alexis de Tocqueville, na obra "Da Democracia na América", 1835
Rui Graça numa pausa para esticar as pernas (zona de Boane, Distrito de Lourenço Marques, Moçambique, 1954)
Há um professor que nunca fará greve. Existe um professor que prepara cada uma das suas aulas com afinco. Há um docente em particular versado na arte bibliográfica. Existe um professor que sabe sempre tudo. Há um professor que lecciona sempre acompanhado por uma assistente que muitos julgam ser uma vulgar contínua. Há um professor que responde às perguntas colocadas na maior sala de aulas do país. Há um professor que vai a todas, mas que em última instância, não é a paixão pela educação que o move. Contudo, não será a crise a empurrar este professor para fora da escola em busca de melhores condições de vida. Não será o desgaste excessivo e a indignidade a forçar este professor a buscar tratamento. Não haverá um atestado sequer ou uma baixa médica para tratar do esgotamento. Este professor, depois de acabar com o programa de tele-escola, abandonará todos os ciclos para se submeter ao escrutínio nacional. Este professor estará disposto a ser colocado numa freguesia que não fica assim tão longe. Este professor até nem se importa das horas extraordinárias. Pois é. Não me parece que o prof. Marcelo Rebelo de Sousa faça greve quando as inscrições para candidato presidencial forem abertas. O único problema que vejo tem a ver com a assistente. O que faremos com ela?
A história da extinção da Fundação Alter Real e da Coudelaria de Alter (leia-se a versão oficial) está muitíssimo mal contada. Ao Governo, e à tutela em particular, compete esclarecer junto do País e dos portugueses toda a verdade e quem beneficiou com todo este negócio. Porque de um negócio se tratou, é preciso dizê-lo. Mas toda, certo?
O senhor Erdogan tem andado a espalhar brasas por todo o Médio Oriente. Desde os barcos carregados de indignados a caminho de Israel, até ao tudo por tudo para arranjar uma guerra com os sírios, o soit-disant "islamita moderado ao estilo dos democratas-cristão europeus", vê agora a sua lanuda carpete turca pegar fogo. O homem que até há uns dias vociferava pelos excessos do "crack down" perpetrado por Assad, agora ameaça com o mesmo. Em conformidade faz discursos inacreditáveis e manda a polícia atacar. Resta-nos saber se as forças armadas estarão pelos ajustes durante muito mais tempo.
Bela surpresa, não haja dúvida. Repimpadamente aguardemos pelo evoluir da situação.
Quanto à enésima boutade de António José Seguro pouco mais há a acrescentar. Seguro é muito, mas mesmo muito fraco politicamente. O novo messias spielbergiano, Abraham Lincoln, dizia que o verdadeiro carácter de um homem emerge no preciso momento em que lhe é dado todo o poder deste mundo mundano. Lincoln tinha razão. Ao ver Seguro perorar sobre tudo e sobre nada, e quando falo no líder socialista estou, simultaneamente, a pensar nos políticos da sua geração, antolha-se de imediato a total falta de mundo e de cultura que devora a criatura em questão. Estas elites partidocráticas perderam completamente a noção do ridículo. A única coisa que lhes interessa é poder. Poder, poder e só poder, nem que para isso se torçam as verdades fundamentais da nossa existência colectiva. Seguro não foge à regra. Tudo o que tem dito, feito e anunciado, beira, em repetidas ocasiões, a violação dos escrúpulos mais elementares de uma actividade, a política, que nunca os dispensa. Desde o desemprego até à dita alternativa política que nunca aparece, Seguro vai vogando ao sabor das águas turvas do não-pensamento. A essência do socialismo jacobino nacional é a mentira encapotada. É por isso que reafirmo o que já disse noutras ocasiões, noutros fóruns: este Governo é mau, sim, é, tem feito muitos disparates, sim, tem, mas, com uma oposição deste calibre é preferível que o executivo passista se mantenha "lampedusianamente" em funções. Com Seguro ao leme é de temer o pior. Hoje e sempre.
É usual, entre as massas, a ideia de uma correspectividade entre a Direita e uma espécie de elite de magnatas de cigarrilhas nos beiços e robes de seda. É frequente o esgar e o pasmo daqueles com quem me relaciono fora da lide política sempre que, de alguma forma, têm conhecimento de que não sou de Esquerda.
Com efeito, é tão comum como assustadora a subversão que prolifera ao nível da formação das vontades políticas dos jovens (e, admirem-se, dos adultos) em sociedades que se dizem evoluídas face às que as precedem.
Evitarei delongas sobre as múltiplas causas, para efeitos do presente escrito, todavia não posso deixar de notar que, no perímetro nacional, tanto o valioso legado de ’74 como o período que o antecede contribuíram fortemente para o acentuar de uma crise identitária que potencia graves consequências ao nível do sentido de voto, que é, no fundo e na sua vera essência, o exercício da cidadania por parte do povo, aquele que se entende ser (e alegadamente é) o verdadeiro titular do poder político.
O que é a Direita? O que é a Esquerda? Naturalmente, nesta sede, não me poderia propor, em perfeito juízo, à resposta séria de qualquer de estas perguntas. A única coisa que poderei dizer é que, seguramente, tratamos de realidades contingentes. Citando José Adelino Maltez: “A direita e a esquerda são meras posições relativas que só podem existir numa sociedade pluralista e democrática e, porque dependentes de um certo tempo e de um certo espaço, os respectivos padrões são quase tão variáveis quanto tais circunstâncias. A esquerda e a direita, mais do que pretensas posições geométricas, são posições políticas que surgem na dialéctica que se estabelece entre os princípios e a realidade. Não são ideologismos abstractos nem macro-teorias para deleite escolástico. Têm de ser fecundadas pela realidade e não podem ser meros conceitos estáticos.
Daí que antigas esquerdas passem a direitas e que antigas direitas se virem para a esquerda. Assim, os partidos da burguesia liberal que foram da esquerda transformaram-se depoisem direita. Domesmo modo, o comunismo ortodoxamente marxista-leninista que na Europa Ocidental, era a esquerda, transformou-se, no contexto daquilo que foi a URSS na direita instalada. Porque a direita e a esquerda são partes de um todo, diferentes perspectivas que se confrontam numa determinada sociedade, nunca nenhum regime autoritário, ditatorial ou totalitário se proclamou como de direita ou de esquerda. Pelo contrário, as degenerescências políticas antidemocráticas e antipluralistas são tendencialmente unanimistas e, em geral, proclamam que as divisões entre a direita e a esquerda estão ultrapassadas. Se o estar à direita, ou à esquerda, é sempre relativo a um certo espaço e a um certo tempo, já o ser de direita, ou de esquerda, aponta para o plano das crenças e dos princípios, ultrapassando, portanto, o mero circunstancialismo topográfico dos hemiciclos parlamentares e dos seus mimetismos sociológicos.”
Porquê a Direita?
Para mim, e, desde já, porque sempre me interessei por Filosofia, entendo que arvorar qualquer tipo de crença num ideal de homem “bom” é, além de errado, perigoso. Larga parte dos flops que resultaram da aplicação de determinados programas políticos teriam sido evitados atento aquilo que é o pessimismo antropológico. Segundo Hobbes: "man is a wolf to [his fellow] man."
Aflige-me o utopismo, essa confiança de que é possível aos homens, inerentemente egoístas, a criação de uma sociedade ideal. Não existem sociedades ideais, nunca vão existir, desde já porque não há sociedades sem homens e estes, verdadeiramente hedonistas, movidos por interesses, são tão desiguais entre si que transformam uma tal crença num nado-morto ab initio. Há que partir de uma base elementar de observação e ser-se realista. Não cabe àqueles que pretendem fazer política cogitar e filosofar sobre o que poderia ser mas sim pensar sobre o que é e, tendo como ponto de partida a realidade, adequar as suas convicções à factualidade existente. Ora, se os homens são, por natureza, desiguais, e têm, para já, o direito à diferença, para quê forçar um estatuto de putativa igualdade material? A igualdade formal entre homens existe perante a lei e essa é a solução correcta, atenta a dignidade da pessoa humana. Esta igualdade deveria existir também ao nível dos meios, das oportunidades, para que toda e qualquer pessoa pudesse livremente desenvolver as suas competências, mas nunca ao nível dos resultados, uma vez que isso redundaria num incentivo ao free-riding, na criação de ineficiências e na queda de uma sociedade assente na meritocracia. Assim, neste contexto, é importante o respeito pela propriedade privada, que entendo como sacrossanta.
Quanto ao Estado, entendo-o indispensável para a continuação das sociedades como as conhecemos e para a necessária manutenção do status quo. Não faço parte da crew Rothbardiana de anarco-capitalistas que rejeita a existência de qualquer instituição estatal, pois que me custa defensar a implementação da selva (em que a única lei que impera é a survival of the fittest) numa sociedade democrática que tem como pilar o respeito e a tutela da eminente dignidade da pessoa humana. Todavia, defender a existência de uma máquina Estatal, supra individual, não redunda num voto de confiança nessa mesma estrutura, precisamente porque o Estado é poder e o poder, nas palavras de Lord Acton, corrompe as pessoas nas quais o seu exercício está delegado. Há que desconfiar. Este Estado há que existir mas desengane-se aquele que pense que tratamos de um ente benevolente e desinteressado. Há que o limitar ao estritamente necessário, que, na visão de Friedrich Hayek, se prende essencialmente com assegurar a manutenção das regras de uma sociedade livre e providenciar bens e serviços que as instituições da sociedade, como o mercado, não produzem ou não podem produzir adequadamente. Mercado este que deve ser livre, não espartilhado pelas teias do poder do Estado. Existem mecanismos inerentes ao mercado que tratam de corrigir as suas ineficiências de forma menos danosa que os instrumentos criados para o efeito por parte do Estado, sendo que existem formas de intervenção que considero como um mal necessário, sem o qual acabaria por contradizer a ideia exposta supra de que se implementaria uma verdadeira selva. É o caso da regulação e da supervisão dos players do mercado, situação em que o Estado age como um garante da conformidade das entidades (fit and proper) e como um referee.
Acontece que, em determinadas situações e contingências históricas, o que enunciei anteriormente é, infelizmente, suplantado pelo estado de excepção, o tal que, segundo Carl Schmitt, é decidido pelo soberano. È assim que percepciono o actual estado de coisas, com o país submetido a um memorando de entendimento com a troika – inclusivamente negociado e assinado pelo Partido Socialista –, que em larga medida constrange a acção do governo e o impele no sentido de protagonizar políticas que muito discutivelmente se podem considerar de Direita. Afinal, e para concluir, como magistralmente sintetizou Alberto Gonçalves numa crónica no Diário de Notícias a propósito da eventual fiscalização dos pedidos de facturas em estabelecimentos comerciais, o que na verdade temos é um “Governo com aura liberal, hábitos socialistas e processos napolitanos”, o que, paradoxalmente, torna o CDS, no presente momento, simultaneamente actor – enquanto membro da coligação governamental – e opositor – ideologicamente – das políticas mais controversas deste Governo.
(Publicado originalmente in Ágora, blog do Gabinete de Estudos Res Publica do projecto Assumir Lisboa.)
Tocam em todas as campainhas. Muitos prédios não têm intercomunicador e assim, sempre há uma boa alminha que carrega no botão, permitindo a entrada do "carteiro" ou da "publicidade". Má ideia. Os fulanos têm o necessário equipamento de roubo e em poucos segundos arrancam os metais "preciosos". Latão, cobre, em raros casos o bronze, para sempre desaparecem sem deixarem rasto. Nas fachadas dos prédios, nem sequer as tabuletas de latão polido anunciando médicos, advogados ou empresas podem escapar à sanha desta ladroagem que actua durante o dia.
Há algum tempo, um amigo foi obrigado a repor um dos puxadores roubados da sua porta na Av. de Roma. Muito bonito, em pesado latão bem lustroso, foi desaparafusado e infalivelmente enviado a peso para a sucata. Foi necessário mandar fazer uma réplica - 300€ custou a brincadeira -, pois o seu par miraculosamente tinha escapado ao larápio. Pois bem, na passada quinta-feira foi uma razia total na zona da Av. de Roma/João XXI. Vários prédios foram roubados, desde os candeeiros até aos ornamentos de latão colocados em volta das caixas do correio, candeeiros Deco, etc. Perdidos os dois exemplares, ao meu amigo resta o desconsolo de ter de comprar uma porcaria qualquer, enquanto os lindos puxadores já devem estar num sucateiro que será tão responsável pelo roubo, quanto o ladrão que o perpetrou.
No meu prédio, já atacado várias vezes, a foto mostra à direita, o local onde esteve o puxador da porta de serviço. Os dois candeeiros de parede, datados dos anos 40 e feitos em folha de cobre, também foram roubados, assim como as molduras cromadas dos espelhos de entrada dos elevadores.
É o "fim da picada"!
Esta Madsen já é uma nossa conhecida. Não posso identificar quem com ela brinca (Quartel de Boane, Distrito de Lourenço Marques, Moçambique, 1954)
A produção "elevadamente ideal" de Prémios Nobel da Literatura, com a habitualíssima literatura de justificação, pela pena do Bruno Vieira Amaral.
Leituras de fim-de-semana:
Vladimir: Diz qualquer coisa, não interessa o quê!
Estragon: O que é que fazemos agora?
Vladmir: Esperamos pelo Godot.
Estragon: Ah, pois é.
Samuel Beckett, À espera de Godot
A extinção da Fundação Alter Real e da Coudelaria de Alter, é a mais recente, a mais "refinada" e, ao mesmo tempo, a mais lesiva decisão dos interesses nacionais da autoria do Governo de Passos Coelho. Na verdade, era nestes nichos "de ponta" que Portugal devia sempre marcar e reforçar a sua presença distintiva no mundo. Fundada em 1748, por D. João V, a Coudelaria de Alter do Chão, desde a sua fundação, dedica-se ao estudo e melhoramento da raça Puro Sangue Lusitano, uma tarefa única que tanto prestígio nacional e internacional nos trouxe e que acabou, agora, às mãos de um burocrata míope das contas!
O crime tem várias formas. A extinção da Coudelaria de Alter, protagonizada pelo figura do Estado através dos seus representantes ocasionais, não pode passar impune. Alguém tem de responder por ele! A culpa desta vez não pode morrer solteira!
O prédio "Cassiano Branco" já maçonizado
A CML é o tugúrio do faz de conta. Desta vez, parecem indignar-se pelo atentado ao património cometido em plena Almirante Reis, nas imediações do Areeiro. A escandalosa desfaçatez foi de molde a provocar uma - como sempre muito oportunamente atrasada - reacção do camelot camarário gerido pela inepta dupla Costa & Salgado. O teatrinho gesticulado pelo catastrófico vereador do urbanismo, apenas poderá convencer uma mão cheia de imbecis ou compagnons de route. Um prédio classificado e com um projecto de construção obrigatoriamente mantendo a fachada - a isto se reduz Lisboa, a uma espécie de reedição do "centro histórico" de Varsóvia -, nem sequer mereceu a presença de um agente camarário que controlasse o processo de demolição? Quando o desastre está consumado, embarga-se a obra. Bravo! Já têm uma boa desculpa para mais um "infelizmente já nada há a fazer!"
O mesmo edifício antes da maçonização
Sempre queremos ver o que sucederá ao prédio agora intervencionado na Duque de Loulé, artéria vítima de todos os ódios e cataclísmicas decisões. Quanto ao outro, lá está de telhados escancarados, tardoz devastada e aguardando total demolição.
Além de ser mais uma vítima do desleixo da debochada vereação do urbanismo, este prédio na Almirante Reis, é ainda por cima vítima de um exótico camartelo, por sinal bem maçónico. Não deve ser novidade alguma lá para as bandas da Praça do Município.
A pergunta é simples: quem quer ser professor por um dia que seja? Quem deseja acartar injustamente com os pecados e os défices dos outros? - A educação que não foi dada aos alunos pelos papás e pelas mamãs. A má criação que escoa directamente da sarjeta para a sala de aula. Quem quer trabalhar de acordo com modelos que não se adequam ao perfil cultural do país? Como podem constatar, tinha colocado uma pergunta que afinal se desdobra em muitas sem resposta. Desde que eu me lembre, os professores tiveram sempre mobilidade e não era pouca. Era imensa, de norte a sul do país. Quem não conhece o professor de Trás-os-Montes colocado no Algarve? Aqueles que tiveram de abandonar as suas famílias e prescindir de uma ideia de continuidade na residência, o sonho de viver na terra de origem. A profissão foi quase sempre malentendida pelos governantes de Portugal. Houve até quem a quisesse canonizar elevando a missão educativa a acto de fé, a bandeira de partido. Lembram-se de Guterres e a sua paixão? E houve outros como Roberto Carneiro que foram também cardeais da causa. Estou certo que mesmo que pagassem uma tarifa tripla a prospectivos docentes, não seria líquido que aceitassem o emprego. Por vezes não há dinheiro que chegue para pagar os ultrajes. Conseguem imaginar leccionar na franja da sociedade uma qualquer disciplina do programa curricular, quando no fundo estão a operar a múltiplos níveis que deveriam ser tratados por psícólogos, técnicos de reinserção social e polícias? Os professores levam para casa tantas horas extraordinárias que deixaram de ser horas, considerações de ordem pedagógica, trabalhos de casa, e, para além dessa normalidade, são obrigados a sacar da sua consciência para levar a bom porto uma barca tempestiva repleta de repetentes de um sistema caduco. Não existe repelente que consiga afastar dos professores os pesadelos, o stress, a insónia antecipada pela semana que se segue. A outra questão que coloco: quem quer ser manifestante por um dia apenas? Quem deve caminhar ao lado dos professores, se grita em nome dos docentes e de Portugal? Vou directo ao assunto. Se António José Seguro sente o mesmo ardor no peito que Guterres sentiu, então deve estar nas ruas, lado a lado com aqueles que alegadamente foram intimidados pelo governo, mas o lider socialista, se não está em Roma com o Papa, está noutro encontro ecuménico. No meio destes confrontos e da greve aos exames nacionais que se avizinha, os alunos irão agravar ainda mais a sua débil condição de aprendizagem. Na Segunda-feira provavelmente irão regredir na sua capacidade de expressão em língua portuguesa, a que se seguirão mais murros nas restantes disciplinas. Resta saber se os milhares de alunos devem ser tidos enquanto moeda de troca, ou se chegará o dia em que os próprios alunos se manifestam, para rejeitar de uma assentada, e em simultâneo, os políticos e os professores. A linha ténue que separa a sustentabilidade cognitiva e pedagógica do país, do perfeito caos, está a ser pisada. Qualquer dia para haver alunos nas salas de aulas teremos de ter uma requisição estudantil. Repito a pergunta: quem quer ser presidente do conselho directivo? Quem quer ser presidente? Quem quer Portugal?
À boleia na moto do colega, o soldado Rui Alberto Graça em Boane, 1954. Alguém será capaz de identificar o cavalo de metal?
Muita fézada, pouca esperança e nada de caridade. Este Erdogan tem mostrado ser aquela peça que apenas os muito distraídos não esperariam encontrar debaixo do verniz. Qual partido islâmico à medida dos demo-cristãos europeus, qual quê...
E um bom fim-de-semana prolongado.
Dancing na Rua Araújo dos anos 60 (pintura de Ana Maria Plácido Castelo Branco ©)
Bem a propósito deste esclarecedor post do António Botelho de Melo - o nosso campeão Tomané que representou Portugal nas Olimpíadas de Los Angeles -, recordo uma já razoavelmente esfumada lembrança da frescalhota Rua Araújo. Um dos mais conhecidos locais da Lourenço Marques do "ouvi dizer", a sua evocação servia sempre para como um ferrete marcar alguém, ou franzindo o nariz, comentar outrem. Um "vê lá se estudas ou ainda vais parar à Rua Araújo!" era a supra rasca ameaça atirada às preguiçosas filhas, por alguns pais muito maguérres. Demasiadas vezes, uns tantos fulanos protegidos por Ray Ban, comodamente se instalavam à volta de uma mesa da esplanada do Continental, languçando as bifas (1) que em microscópicos hot pants desfilavam sorvendo Coca-Colas por uma palhinha. O que mínimo rosnariam, seria um "ena pá, daquilo nem na Rua Araújo s'arranja"...
Obedecendo ao compasso das gerações que correram acompanhadas pelas respectivas épocas de sucessos ou desastres políticos e sociais, a Rua Araújo, estrategicamente colocada nas proximidades do porto e da gare de caminhos de ferro, era o centro nevrálgico dos prazeres reservados aos homens da cidade e à multidão de forasteiros que ali tencionando demorar-se pouco tempo, provisoriamente se fixaram até à sua partida para o há muito previsto Além.
Ainda garoto de palmo e meio, lembro-me daqueles fins de tarde e do calor húmido que obrigava o escancarar da entrada dos estabelecimentos e também, como seria bastante previsível, o vai-vem das meias-portas de tabuinhas ao estilo do far-west, timidamente ocultando os antros de perdição que afinal davam cor, ruído e diversidade àquela que por si, já era uma cidade nada monótona. Brancas, pretas e mulatas entravam e saíam dos bares, timidamente acompanhadas por algum distraído cavalheiro que jamais as suporia prestimosas mesteirais de assuntos de zona média. Os tratos intelectuais seriam discutidos numa qualquer pensão não muito distante, ou segundo constava, no abafo de uma viatura habilidosamente camuflada na zona das praias da Costa do Sol. Tornou-se também exageradamente frequente, a visão dos turistas sul-africanos que apenas passada a fronteira em Ressano Garcia, logo esqueciam o ignóbil apartheid, enroscando-se na mulher mais coloured que encontrassem. Portuguesas de 1ª ou de 2ª, essas eram sempre a derradeira, quando não desanimada escolha. Seguindo-lhes generosamente o exemplo, algumas bifas varriam as praias à procura de pescadores negros que regressavam da faina, logo ali mesmo instando ao início de outra.
Durante o período de entre-as-guerras, as casas de lanterna vermelha da capital moçambicana tinham sido ocupadas por italianas, russas, austríacas em sentido lato (2), alemãs, polacas, algumas sul-africanas, umas tantas espanholas de fala esquisita, "achi misjemo", e suprema finesse, por francesas que definiam a profissão através do peremptório mencionar da nacionalidade. Uma francesa era isso mesmo, a Madame que assim reconhecidamente titulada, obrigava a todos os mal-entendidos daquele mundo em rápida mudança. Algumas destas requintadas femmes de guerre, conseguiriam casamentos com embevecidos lusos provenientes de áreas bem próximas dos pináculos da sociedade local.
Na Rua Araújo (pintura de Ana Maria Plácido Castelo Branco ©)
Nos anos 60, a chegada dos contingentes militares desembarcados da Metrópole trouxe algumas novidades na frequência, tornando-se comuns os uniformes dos três ramos das Forças Armadas e tão certo como o material russo e chinês prodigamente distribuído à Frelimo pelos seus mentores, era o gastar dos prés com as tombazanas locais. Uma tarde, regressando a casa no machimbombo tomado nas imediações da Praça Mac-Mahon, verifiquei estar a minha mãe atenta a um mais que provável efémero casal que diante de nós tinha tomado assento. Ela ia-se enrolando no magala e este, aflito no seu fazer de conta de invisível, parecia petrificado pelo espectáculo a que voluntariamente se dispusera. Não havia um único par de olhos que não estivesse voltado para a cena que vertiginosamente se ia desenvolvendo, até que num repente capaz de fazer cair a mais formidável barreira de vergonha, a hiper-vuluptosa marafona lhe garantiu em alto e bom som:
- "Si tu mi pagas uma Pempsi, eu ti dô uma bêija néssá bôcá!"
Várias vezes palmilhei a Rua Araújo. Via a minha mãe espreitar os ruidosos locais de diversão onde brilhavam maravilhosos neons dentro e fora de portas, para logo depois riscar alguns apontamentos no seu inseparável bloco. As canetas de feltro trabalhavam de forma quase autónoma, numa muito apressada decisão de um não te esqueças, aquela é assim e veste-se assado.
Tudo isto acabou, varrido pelos seráficos princípios do Homem Novo parido pelo Moisés, imperscrutável e sacrossanto entezinho capaz de todas as bendições a aplicar ao páchiça do lado. A Rua Araújo foi fatalmente silenciada e substituída por uma tremenda infinidade de hoteleiros Quartos Araújos, bem mais caros, exclusivistas e totalitariamente à mercê de uns poucos moralistas.
(1) Bifas: genericamente as sul-africanas, fossem elas as mais elegantes de origem inglesa, ou alguns portentosos e rosados coirões, por regra retintamente boers.
(2) Austríacas, ou seja, mulheres provenientes de todos os confins do império austro-húngaro, como as "grandes alemãs", checas, galicianas, rutenas, judias transilvanas, croatas, eslovacas, húngaras, eslovenas, etc.
Nem os selos escaparam à reivindicação da autoria do 1º de Fevereiro de 1908
...aquilo que é válido para Miguel Sousa Tavares, também deverá sê-lo para Carlos Costal. Nada de "sumarices"!
O Ministério Público justamente segue uma salomónica linha quanto à atribuição de julgamentos e punições. "Palhaço", "chulo" ou "ladrão", a parada vai subindo. Também surgem as solidariedades que vão desde os incentivos com "muito bem!", até ao amealhar de pecúlios para as custas.
Felizmente ainda não tivemos de suportar romagens a campas de caídos por obra e graça do mediatismo, mas pelo andar da carruagem e vontades que seguirão as palavras dos Soares e Lellos da nossa praça, lá chegaremos.
Excertos de "Adeus Brasileiro", de Marta F. Reis, no "i" de hoje, com realces meus.
Os últimos dias de Alexandre em Portugal espelham os anos que passou no país. Para não renovar o contrato de renda das duas assoalhadas, em Lisboa, onde viveu com a filha deficiente e os pais, e ainda perder a caução por não ficar até ao fim, ficou de favor um mês em casa da sobrinha e do marido, a dormir num colchão. [...] No bilhete de embarque, Alexandre Freitas, 39 anos, imigrante em Portugal há dez. De partida de vez.
De repente trocam-se as voltas. Entre as malas por fazer e a agenda lotada, surge um último biscate para ele e para o pai. É adaptar e seguir em frente. Foi assim quando trabalhou 30 dias numa empresa de entrega de móveis que fazia serviços para o IKEA e no fim não lhe pagaram. Ou quando estava a dois meses de ficar efectivo numa firma de camiões de lixo e acabou na rua. Ou quando o casamento de 18 anos terminou sem pré--aviso. Ou então quando comprou um Fiat Uno usado por 300 euros e passado dois meses saiu um dia de casa e não o viu à porta. Natural de um dos epicentros do narcotráfico no Sul do Brasil, onde o que mais o assusta é a insegurança, acabou roubado pela primeira vez em Caneças. Quando o carro apareceu, batido e com garrafas de cerveja e cachaça, sinal de brincadeira de algum miúdo, deram-lhe 20 euros por ele no ferro-velho.
A proposta são 90 euros para cortarem uma palmeira num quintal na linha de Cascais. Viveu destes trabalhos no último ano e meio. A manhã do último domingo em Portugal esgota-se a tentar cortar a árvore com um serrote, sem sucesso. Os planos passam para a tarde, falha o culto e a despedida do pastor e à noite vai a correr buscar os discos. Como a palmeira dá mais luta do que esperavam, ainda têm de lá voltar na segunda-feira e é preciso comprar uma motosserra. No vai e vem, Alexandre fica três horas parado no IC19 sem gasolina. Quando despacha a árvore, está a horas de apanhar o avião, marcado para a madrugada de terça-feira. De directa e em três viagens, como se a vida fossem episódios de novela todos seguidos, leva oito malas e os pais para o aeroporto, vai buscar a filha a casa da mãe e embarcam os quatro.
[...]Para quem tem trabalho, continua a ser melhor estar em Portugal", acha Alexandre. "Aqui uma pessoa trabalha e mesmo que não ganhe muito pode comprar uma camisola ou mesmo um telemóvel na hora. Lá fica-se um ano a pagar um par de sapatos. Quando chega ao fim já são precisos sapatos novos."
O pior é quando não há trabalho. A espiral de desemprego e as notícias de que em casa não falta serviço, e para mais vem aí o Mundial, são o principal peso na decisão de partir. Mesmo sendo a casa de Alexandre uma terra de nome Araçatuba, cidade do interior a 600 quilómetros de São Paulo, que compara em dimensão com Setúbal e em cenário às cenas da novela "Rei do Gado".
[...]Ao todo terão saído mais de 20 mil brasileiros de Portugal; já que foram emitidos 12 800 novos títulos de residência mas a comunidade perdeu 7900 pessoas. Desde então há a percepção de que as saídas têm aumentado.
Para Alexandre, o dinheiro pesou na decisão mas ainda dava "para safar". Estava sem emprego estável há ano e meio e depois de ter chegado a ganhar 1500 euros por mês em biscates quando ainda nem estava legal em Portugal, das tais entregas de móveis a lavar casas de banho de ginásios, agora o máximo que fazia num mês eram 500. Mas o que o fez pedir ajuda ao Programa de Apoio ao Retorno Voluntário, da Organização Mundial para as Migrações (OIM), foi o medo de ver Jessica, a filha de 16 anos, presa para sempre a uma cadeira de rodas por falta de estímulos.
Jessica veio em 2007 ter com os pais. Com uma deficiência profunda, corria e dizia papá e mamã quando a reencontraram depois de quase cinco anos separados, eles a fazer pela vida em Portugal e ela com os avós em Araçatuba. Hoje não reage, não anda, toma os medicamentos diluídos com a ajuda de uma seringa, tem espasmos musculares que a fazem bater com a cabeça nos objectos à volta. Em cinco anos, e com uma dezena de inscrições, Alexandre conta que nunca conseguiu uma vaga para ter apoio profissional. Desempregado, comprou uma bola de fisioterapia e foi tentando ajudar em casa, sem resultados.
[...]A vinda para Portugal aconteceu depois de lhe negarem um visto para os EUA, onde chegou a pensar que bastaria "cara e coragem" para, sem arranhar sequer o inglês, mudar de vida. Era ingénuo, define-se de novo. "Senti tantas dificuldades falando a mesma língua, imagine se tivesse ido..."
[...]Quando lhe falaram de Lisboa, alinhou sem pensar muito. A fama era boa. Primeiro viria com a mulher para se instalarem e arranjarem um pé-de- -meia e depois chamariam a filha. Passaram cinco anos, três até conseguir legalizar-se com trabalho estável e descontos para a Segurança Social. Colocado na empresa de trabalhos de limpeza como condutor, ganhava 1400 euros a trabalhar os sete dias da semana. Até o conseguir, Jessica tinha passado de criança a adolescente sem ver os pais. "A gente acha? uau, é Portugal, é a Europa. Vamos ter uma boa moradia, condições financeiras melhores, saúde melhor, segurança melhor. Quando se dizia Europa imaginava-se logo outro mundo. Quando a gente chega e cai na realidade vemos que é diferente."[...]Comprava o pão com queijo e fiambre para o dia e guardava um pouco para o amanhã, nunca se sabia se ia haver trabalho no dia a seguir."
[...]Aguentou a despesa cinco anos e ficou desempregado. O casamento acabou e ficou com a guarda da filha. Das muitas tentativas para a pôr numa escola guarda apenas os papéis das inscrições de Jessica, que nunca tiveram resposta. A última foi há um ano numa instituição em Alfragide. Disseram que em seis meses teria vaga e nunca o chamaram. "A resposta foi sempre a mesma: estavam cheios, era esperar. A única vez que me disseram que era garantido teria de ficar interna e podia ir visitá-la uma vez por mês. Como é que eu ia viver longe da minha filha?"
No ano passado, farto de tentar, até uma educadora lhe disse que, se queria cuidar da filha, era melhor voltar para o Brasil. "Em termos de saúde não posso reclamar, foi sempre bem atendida. Mas nunca pensei que não houvesse uma escola. Haver há, mas não são suficientes. Foi isso que me disse a educadora, que tinha feito formação do Brasil: vocês lá estão melhor do que nós."
[...]Dos portugueses, diz que não fica com uma imagem única. É relativo, como é relativo falar do brasileiro. "Há gente boa e gente ruim. Os portugueses são desconfiados, custa conquistá-los. Mas se deixo pessoas que nunca mais quero ver, patrões que exploram, conheci outros bons, que me ajudaram."
Depois há uma tristeza que o brasileiro estranha, que não imagina na Europa, que pintam tão desenvolvida: "O povo é muito triste. O brasileiro não tem nada, come um ovo frito e fica feliz. Vocês têm carro bom, casa boa e é uma depressão constante. Talvez seja do stresse. Não sei qual é a explicação, se calhar é por termos o Carnaval. Na primeira passagem de ano aqui o silêncio na rua assustou- -me. Que povo triste."
[...]"Caminhando pela vida, em estrada sem destino, tentei fugir mas acabou aqui. E hoje eu me perco, em pleno oceano, tentando esquecer o que não pode esquecer."