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Centenário da República: uma Canavilhas a dois dedos

por Nuno Castelo-Branco, em 08.01.10

 

 Já corriam sérios rumores acerca da incapacidade funcional da detentora da pasta da Cultura. Para se ocupar um posto desta responsabilidade, há que beneficiar daquela  vontade de conhecer que só a pesquisa da informação pode proporcionar. Sendo inegavelmente uma pasta política, o ministro  da Cultura tem a obrigação de saber rodear-se de um staff capaz de proceder à filtragem - antes de pública divulgação -  das posições oficiais da tutela, evitando o ridículo  a que por vezes a infelicidade de um momento expõe o governo no seu todo. A sra. Dª Gabriela Canavilhas poderá teclar os pianos a duas mãos, a vários dedos, ou em momentos de pouca inspiração, tocar uma Polonaise a dois indicadores. Como queira, está no seu direito e é-nos indiferente aquilo a que se dedica nos seus tempos livres. Outro tanto já não merece o nosso encolher de ombros, quando está em causa uma talvez inconsciente falta de discernimento. Parece ser este o caso, pois não podemos crer numa tão ostensiva ignorância. A ministra não está só e adivinha-se o desonesto plano.

 

A escandalosa ligeireza interpretativa que a ministra Gabriela Canavilhas tem da História, torna-se patente nas declarações prestadas, quando do lançamento oficial das comemorações do Centenário da República. A futura exposição "Resistência. Lutar pela Liberdade. Da alternativa republicana à resistência à ditadura (1891-1974)", não passa de mais um exercício de falsificação oficial da História, desonrando os patrocinadores da iniciativa e aqueles que em nome da investigação aporão a assinatura colaboracionista. De facto, o abuso em que consiste esta insistência de querer fazer crer na existência de um longo período ditatorial que terá existido entre 1891 e 1974 - com o interregno da 1º república! -, só pode confirmar a estranha coligação existente entre os promotores da iniciativa comemorativa - os poderes fácticos ligados à finança que controla a política do regime - e os náufragos das várias canoas do marxismo.

 

Desaparecidos todos os ídolos que durante um século se ergueram nos mais diversos templos de seita - Lenine, Trotsky, Estaline, Tito, Mao, Ho Chi Mihn, Kim Il-Sung, Pol Pot - e olhados como relíquias os pensadores que no Ocidente procuraram conformar a História a uma amálgama interpretativa de difícil destrinça, eis que em pleno século XXI, vêm recorrer ao que sobra. A outrora quase unanimemente rejeitada 1ª república de 1910-26 "burguesa, elitista, ridiculamente própria de senhores de cartola"-, cadinho de todos os abusos, violências e incompetência funcional, surge agora como precursora improvável desta 3ª república, ressuscitando figuras que nestes nossos dias de generalizado estupor, seriam decerto indiciados por toda uma panóplia de crimes de peculato, fraude eleitoral, esmagamento do universo eleitoral, abuso de poder, violação da integridade física e moral de outrem, etc. 

 

Durante décadas, os formatadores da consciência das novas gerações, pretenderam transportar a luta política de então - precisamente contra a 2ª república habitual, normalizada -, para os ensaios e todo o tipo de obras - quantas delas com pretensões à monumentalidade -, vendo no passado a absurda similitude e correspondência com uma contemporaneidade que rejeitavam. São dessa época, as patéticas listas de presuntos fascistas avant la lettre, em que pontificavam "escravocratas efeminados" como o Infante D. Henrique, um Vasco da Gama  "servo dos grandes interesses comerciais e ligado à oligarquia terratenente", ou o Afonso de Albuquerque émulo do general SS Sepp Dietrich. A crise de 1383-85 - o próprio termo "crise" é hoje perfeitamente discutível -, parecia para esses iluminados dos Annalles, como uma confusa manta de retalhos de lutas dos sectores populares onde ombreavam "operários" - os tecelões, cardadores, tanoeiros e outros mesteirais precursores da futura revolta dos vidreiros da Marinha Grande - e claro está, o movimento camponês, onde inevitavelmente estavam pastores, servos da gleba e as anónimas ceifeiras que justificavam a sua descendente Catarina Eufémia de um porvir ainda distante mas parte da corrente da história. Uma infinidade de listas nas quais se quantificavam arrobas de bolotas e de cereais, medas de feno, fardos e fardos de lã, pães escuros de vários tipos, quebras de moeda - como se tal coisa não fizesse parte de todo o "processo histórico", inclusivamente no chamado mundo socialista ? - e movimentações de massas, eram afinal os exclusivos motores da História. Por exemplo, Alcácer Quibir surgia como um absurdo que teria fervilhado na suicidária imaginação de D. Sebastião. Como se as realidades do terceiro quartel do século XVI, não tornasse a todos os historiadores perceptível, a viragem do centro da economia ultramarina para o espaço atlântico, surgindo a costa marroquina como necessário ponto de apoio à navegação peninsular !

 

Para os supostos opositores marxistas ao salazarismo - e oportunos aliados sobreviventes da brutalidade costista do Partido Democrático -, Portugal ergue-se ao longo de oito séculos,  como um lugar pasto da prepotência desregrada das "classes possidentes". Ignoravam soberanamente o intrincado e quase sempre difícil funcionamento das Cortes, o exercício de poder entre os vários extractos que se digladiavam para a obtenção de vantagens no posicionamento no aparelho administrativo. Ignoraram deliberadamente o fundamental exercício de equilíbrio do poder régio e a riquíssima produção legislativa produzida ao longo de séculos e que garantiu a própria existência do Estado português. Fosse como fosse, havia que fazer crer na total inexistência daquilo que hoje consideramos como legalidade material. Se se referisse um foral, tal recurso apenas servia para justificar a opressão senhorial latifundiária, onde os direitos surgiam como  pro forma que garantiam a rigidez estatutária de cada um. A Restauração da Independência, consistiu noutro estranho exercício de menorização da capacidade mobilizadora de uma população entre si bastante diversificada, mas já consciente daquele direito geral que as consecutivas Ordenações conformavam em benefício identitário e que conduziram ao feliz desfecho da vitória de 1668. 

A política externa era e ainda é para alguns dos sobreviventes da velha escola, resumindo-se ao Tratado de Methuen e à submissão à Inglaterra, plenamente consagrada pelas invasões francesas - tema difícil - de 1807-10. De nada servirá o exercício mesmo que superficial, da avaliação das forças em presença nos séculos XVII e XVIII e a consequente situação portuguesa que devia oscilar entre a necessária neutralidade perante os conflitos continentais e o inevitável apoio marítimo só possível de obter em Londres. 

 

Pombal surge grotescamente como um proto-republicano, um ente perfeitamente tão imaginário - outro recurso do já pouco fértil jargão na moda - como o Homem Aranha ou o Mandrake das nossas bandas desenhadas da infância. Decerto precursor de Marat, Robespierre ou ainda, um inspirador do égorgeur Fouquier de Tinville, Sebastião José resume-se ao suposto anti-clerical genial. As similitudes conceptuais do poder centralizado na sacralidade da pessoa real que dá corpo ao Estado - à semelhança dos seus contemporâneos europeus -, é para as sapiências catedráticas, coisa de pouca monta. A reforma da Inquisição, surgia sob o disfarce da sua "quase extinção", ou para a reserva mental de alguns, como a "material necessidade" da defesa do Estado, num secreto reflexo daquilo que mais tarde, a operacional genialidade de um Djerjinsky produziria. 

 

A Monarquia Constitucional, burguesa, dada às coisas do progresso material e da ascensão do capitalismo, resumia-se  à sua distância perante os motores do progresso que além fronteiras se plasmavam nas Três Gloriosas - por sinal muito burguesas -, no Manifesto Comunista ou na Comuna de Paris. Simplesmente, essa Monarquia Constitucional reduzia-se à afronta de uma Outorga que confirma o "esbulho de direitos naturais que o movimento de massas impunha (?) noutras paragens". É a época dourada da interpretação anacrónica de todo o tipo de acontecimentos, embora a chamada história factual pareça ser uma coisa absurda - embora abundantemente aproveitada em benefício próprio - e deslocada da verdadeira investigação científica, onde o anonimato se sobrepõe sempre como força geradora do avanço social nas suas múltiplas facetas. Em suma, a mais tremenda modificação política, social e material ocorrida na história portuguesa, passa como quase inerte continuidade em relação a um passado tão longínquo como os conflitos que deram origem a um Condado Portucalense logo transformado em Reino pasto do apetite de uns tantos senhores feudais. A fábula da cigarra e da formiga pretende transformar-se em História de gente e eis-nos então, no ideal período de discurso desbragado da propaganda, onde a iconoclastia e o miserabilismo militante surgem como imprescindívels vectores.

 

A Monarquia Constitucional criou o Portugal moderno, perfeitamente integrado nos movimentos europeus seus contemporâneos e é sem dúvida, aquilo que mesmo remotamente, mais se parece com a normalidade dos nossos dias, nos seus aspectos negativos, mas também naqueles outros que consideramos essenciais, ou seja, a vasta panóplia de direitos, garantias e instrumentos à disposição da sociedade civil que livremente se manifesta.  Deu-nos o primado da Lei e da Ordem, uniformizou a medida, confirmou aquele incómodo predomínio mas inevitável do Estado que já vinha de séculos, abriu o país à inovação que as maravilhas técnicas proporcionavam ao desenvolvimento. Trouxe-nos o caminho de ferro, os portos, pontes, as estradas macadamizadas, a cidade iluminada, a indústria, a agricultura integrada na satisfação das necessidades urbanas e da exportação, o Parlamento moderno que substituiu as Cortes das desaparecidas antigas ordens sociais. Aboliu a Pena de Morte, unificou a lei civil no Código, confirmou a independência do hoje ostensivamente inexistente Poder Moderador e integrou plenamente Portugal no equilíbrio das potências, na sempre premente necessidade do apoio marítimo à preservação do periclitante património colonial. Lisboa passou a fazer parte do normal circuito da diplomacia internacional, assim como também se integrou no espírito do tempo, desde a literatura à música, pintura, moda, pesquisa científica e introdução dos grandes institutos que confirmavam essa presença portuguesa na normalidade do novo século.

 

Esta Comissão do Centenário parece quase exclusivamente composta por gente onde a arrogância ditada pela ignorante vaidade, parece pontificar. Os desculpáveis porque naturais dislates de uma Fernanda Rollo, não surgem como isolado vagido na previsível cacofonia que já se adivinha. Muito pelo contrário, dão o tom formal, oficialista, muito dado ao tan-tan do batuque folclórico que para cúmulo da felicidade, contará com os futebóis para emprestar algum verde e vermelho às ruas. 

 

Da Comissão do Centenário da República tudo podemos esperar, desde a omissão de uma violenta realidade que existiu e hoje não se pode esconder, até ao exercício pleno das capacidades daqueles que se tornaram peritos no silêncio daquilo que se torna inconveniente dar a conhecer.

 

Ridiculamente desonesta, falseadora da História e mais um exemplo de sinecuras - o assalto puro e simples - onde se esbanjam mais uns milhões sacados ao indefeso contribuinte, esta Comissão resume-se à hábil assistência dos sobreviventes do mundo perdido em 1989 e à teimosa exibição da "racionalidade da certeza republicana" de uma meia dúzia de privilegiados de negociatas de turvos contornos, em que o argumento taxativo consiste no patético "sou porque o meu avô chapeleiro também o foi". De  chapeleiro de feltros, decerto terá passado a chapeleiro eleitoral do sr. Costa.

 

Hoje em dia, talvez uma questão  de casta de cepa torta.

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