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Manuel Alegre e alguns monárquicos

por Nuno Castelo-Branco, em 20.01.10

 

 

A propósito de algumas reacções a este post, torna-se necessário aqui deixar algumas notas.

 

1. Não nutro qualquer antipatia pessoal por Manuel Alegre. Pelo contrário, agrada-me a sua irreverência, o pendor para a excentricidade e a não submissão a ditames provenientes de gente que não se lhe pode remotamente comparar. Quando da recolha de assinaturas para a sua primeira candidatura em Belém, colaborei com a angariação de um bom número delas e essa contribuição monárquica foi anónima, voluntária e apreciada.

 

Com o que não posso concordar ou pactuar, é com esta monomaníaca e inoportuna evocação de um certo passado já bem distante e ofensivo daquilo se considera ser a dignidade de um Estado de Direito. Se na transacta candidatura Manuel Alegre dispensou esse tipo de afinidades, agora parece ir ao encontro do pior que as comemorações oficiais do regime parecem indicar. Há quatro anos esqueceu-se e muito bem, do legado do sr. Afonso Costa e de todo o rol de desgraças implícitas ao seu consulado.

 

2. Hoje, a situação é bem diversa. Após a eleição de Cavaco Silva, o poeta deixou-se envolver na confusão habilmente tecida pelo BE, grupo já com uma certa relevância numérica em S. Bento, mas completamente inútil para o funcionamento do Parlamento, como órgão essencial para a prossecução das grandes políticas reformadoras de que Portugal tanto carece. Definitivamente, o dr. Louçã não pode ser confundido com as boas intenções da arq. Helena Roseta! Dar-se-á Manuel Alegre conta disso?

 

Um candidato à chefia do Estado, não pode tornar-se mesmo que de forma involuntária, na cabeça de cartaz de um grupo claramente inimigo do regime e que dele beneficia para o destruir.

 

3. Manuel Alegre é um homem interessante, estejamos ou não de acordo com a sua impulsividade, muitas vezes fruto da irreflexão própria dos artistas.

 

A clara derrota sofrida pelo chefe do BE nas últimas presidenciais, conduziu os extremistas à oportuna aproximação de quem mais simpatias colheu em sectores muito diversificados da sociedade.  Como ontem muito bem disse Strech Ribeiro (PS) a Vitalino Canas (PS), Manuel Alegre conseguiu mesmo o extraordinário, mas discreto apoio de muitos monárquicos, agradados com o discurso da portugalidade e - acrescentamos - instintivamente conscientes de uma certa pertença de grupo. 

 

Manuel Alegre possui sem dúvida, uma personalidade mais rica e diversificada que a do actual presidente e as suas preferências de esteta não causam incómodo à imensa maioria dos eleitores. Coisa bem diferente será a análise dos compromissos a assumir com certos sectores que tal como carraças, apressadamente se colaram  ao seu "movimento de apoio", assim que se contabilizaram os mais de  20% de votos recolhidos nas últimas presidenciais.

Os radicais sabem que a apresentação de uma candidatura autónoma do BE, condenaria os trotsquistas a um resultado irrisório e assim, o poeta surge como providencial alavanca de afirmação.

 

4. Tertúlias e saraus de poesia, caçadas reais ou virtuais, algumas balzaquianas para tiradas espirituosas, cantorias ou relatos de memórias de outros tempos. Quem não gosta de os frequentar? 

A situação presente, não se compadece com simples tiradas de inventividade, inspiração discursiva e bem conhecidas formas de "aberturas de espírito", sinónimas de desastre social anunciado. Manuel Alegre precisa de ser muito mais explícito acerca do que pensa ser o caminho a trilhar para a resolução dos grandes problemas nacionais. Não o fez há quatro anos e hoje, os seus primeiros aliados que aparecem como claros promotores, apenas podem ser motivo para geral apreensão. Ao não apresentar um conteúdo programático exequível - e aqui está a permanente confusão entre aquilo que pode ser um Chefe do Estado e os desígnios pessoais dos candidatos -, a sua candidatura corre o risco de mais nada parecer ser, senão a satisfação da vaidade pessoal, mordomias anunciadas e pior ainda, num recurso às mão da demagogia extremista.

O problema não reside em Manuel Alegre, mas sim naqueles que descaradamente surgem como arautos do seu nome. Oxalá saiba demarcar-se.

 

5. Em ano de Centenário, como poderão voltar a apelar - como ontem Strech pareceu fazer - ao apoio de monárquicos de vários sectores? Manuel Alegre não teve até agora, a sageza de limitar-se à evocação dos princípios liberais de um conveniente e consensual Vintismo. Muito pelo contrário, deixou-se apanhar na fatal malha radical do pior que a República de 1910 significou: o prepotente regime do sr. Afonso Costa e do seu grupo de caceteiros, agora tornados como luminosa luz de referência dos órfãos de Lenine, Trotsky,  Estaline, Enver Hoxha e afins. No fundo, cumpre o gizado pela absurda Comissão oficial do Centenário. Um erro.

 

6. A linguagem sobranceira de que nos acusam. Parece que houve alguma grosseria da nossa parte (?). Talvez tenha havido algum exagero, é verdade.

 

Curiosa indignação esta, quando todos os monárquicos têm sido ao longo de tantas décadas, insultados, vilipendiados de todas as formas e atirados para o monturo dos objectos disponíveis para casos de premente necessidade. É que estes senhores da centenária mordaça, ainda não compreenderam que o seu Estado tem contado com a preciosa colaboração desinteressada, de nomes bem conhecidos e afectos à Causa Real, que interna e externamente muito têm prestigiado o país. Ministérios, embaixadas, secretarias de Estado, academias e universidades, ONG, actividades económicas e científicas, são alguns dos exemplos onde os monárquicos têm provado o seu valor e a dedicação a Portugal. 

 

Hoje, tornou-se normal evocá-los para as questões da política nacional. Isto demonstra bem a vacuidade do costumeiro argumento da "exiguidade" ou "não existência". Eles estão a bem visíveis e sendo sempre tão atacados, são por isso mesmo relevantes e manifestam-se. 

 

O desprezo oficialista plasmado por uma Comissão manipuladora da verdade da História, leva-nos a intempestivas reacções e estamos no ano ideal para alguns ajustes de contas. Oferecem-nos o discurso da demagogia, em vez de uma análise rigorosa de um conturbado e dispensável período da nossa história.

 

Não cederemos.

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publicado às 14:38


4 comentários

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De João Amorim a 20.01.2010 às 18:44

Bem dito.
Mas que interessa ao Alegre ser apoiado por um grupo de gajos que se pudessem punham tudo enjaulado? O Alegre pretende ser eleito... o BE quer ter coito em Belém... quem paga (mas parece que gosta e cala) é o povo que vai ver mais uns milhões serem gastos no financiamento parcial das candidaturas.
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De Manuel Pinto de Rezende a 20.01.2010 às 22:04

curaste alguns dos mixed feelings que eu tinha em relação às presidenciais e aos potenciais candidatos.
obrigado.
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De Miguel Neto a 21.01.2010 às 22:33

Do meu ponto de vista, o Nuno acabou de enunciar as razões pelas quais o poeta Manuel Alegre nunca será um bom representante de todos os portugueses. Em minha opinião seria bem pior, infinitamente pior que o actual. Sempre e em qualquer circunstância.

E acho que o "problema" reside essecialmente no seu íntimo e é aproveitado pelos que agora o rodeiam.

Qual pensa ser, Manuel Alegre, o caminho a trilhar para a resolução dos grandes problemas nacionais? Para o poeta, deve ser semelhante ao que leva ao pote das moedas de ouro, que está enterrado no fim do arco-íris. Maravilho para descrever ... mas impossível de ser percorrido.
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De Miguel Neto a 21.01.2010 às 22:34

Queria dizer: "Maravilhoso para descrever ... mas impossível de ser percorrido".

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