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O resgatador da nossa certeza

por Nuno Castelo-Branco, em 25.01.10

 

 

Foi um homem incómodo para muitos. João Camossa foi um estorvo aqueles que se dizendo monárquicos, estiveram longo tempo numa acintosa posição submissa, fazendo o pouco dignificante jogo dos mais irredutíveis inimigo da Coroa. João Camossa incomodou também aqueles que se arvorando em detentores da democracia, procuravam corporizar uma história de liberdades que os antecedeu pelo menos um século. Com o seu esclarecido grupo de correligionários, fez a diferença que hoje permite que sejamos assumidamente monárquicos. O seu sacrifício de décadas, resgatou-nos a respeitabilidade e a certeza de uma razão que mais cedo ou mais tarde acabará por prevalecer.

 

Os seus andrajos, o cinto feito de cordel de pacote e os paupérrimos sapatos esburacados, foram sempre a estrondosa bofetada desferida a um conjunto de patetas arvorados em grupo que de selecto, apenas tinha o preconceito, a ignorância e a correspondente estupidez. Numa qualquer tertúlia ou reunião política, o seu tom de voz pausada, quase em surdina e em íntimo monólogo, era capaz de facilmente calar jactâncias proferidas por bem instalados em rotários vários, onde o parecer superava o ser. O dilúvio de saber que percorria múltiplas temáticas, deixava calados de despeito, ensimesmados doutoures de perfumes e sedas no colarinho, cujo título nada mais era senão uma convenção social apresentada em cartão de visita.

 

Era um homem difícil de compreender, dada a sua resposta pronta e a fama de polemista que todos contradizia pelo prazer de manter viva a conversa. Deliciava-se em provocar os mais jovens, acicatando-os para um combate de selva que servia como treino para outras e mais persistentes lutas futuras, contra adversários mais irredutíveis, porque bem instalados. Queria sempre mais respostas, novos desafios e outros temas que nos mantivessem junto dele. Apresentava uma certa ideia do mundo, onde Portugal era a peça central, inamovível numa grandeza histórica bem possível de reconquistar para a normalidade dos dias em que se sucedem as gerações. Fez-nos acreditar na possibilidade do improvável e hoje, esteja onde estiver, deve saborear aquele valeu a pena!, que há uns vinte e cinco anos nos garantia como infalível meta.

 

Não nos esquecemos das intermináveis tardes de ásperas discussões - a atenção que nos dava sem que disso nos apercebêssemos - na sede do PPM ao príncipe Real-S. Memede, ou nos cafés Cister e Alsaciana. Zangámo-nos, saímos furiosos de reuniões às quais pouco depois regressávamos para o encontrar sorridente e à espera, cofiando a amarelecida barba. Esgrimimos conceitos, estratégias e diferentes visões da política, sem que jamais ousássemos contestar por um momento que fosse, a preciosa experiência que aquele homem significava. O que ele nos disse acerca da natureza fluída dos nossos aliados da altura - a AD -, gente apenas preocupada em construir um futuro de todos os egoísmos e que afinal, é precisamente aquele que Camossa previra, o do Portugal desta primeira e infeliz década do século XXI. Previu a destruição patrimonial nas cidades, vilas e aldeias. Previu os efeitos catastróficos que a cobiça e especulação desenfreadas trariam ao ambiente. Julgou como fatalidade a progressiva perda da consciência da nacionalidade, esmagada pelas necessidades imediatistas de um consumismo estéril que arruina e envergonha. Tinha a certeza numa fatal queda da república, consumida pelos seus donos e finalmente abandonada como inútil traste.

 

Como hoje entendo aquelas duras palavras, quando deparando com a chegada do 1º ministro Balsemão e do ministro Freitas do Amaral à sede do PPM, se virou para o staff da J.M. exclamando:

 

-"Meus senhores, chegaram os caixeiros-viajantes. Podemos começar!"

 

                                                         *********************************

 

Exactamente no ano do Centenário da Republica, o Centro Nacional de Cultura homenageará o monárquico João Camossa, um dos seus fundadores (1945) e presidente (1949), na próxima terça-feira,  26 de Janeiro de 2010, pelas 18.30H.


Centro Nacional de Cultura

Largo do Picadeiro 10 (ao Chiado-S.Carlos).

 

 

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publicado às 09:00


8 comentários

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De manuel gouveia a 25.01.2010 às 11:47

O melhor texto dos que li na net sobre o João Camossa.

Nos casos em que o autor conheceu pessoalmente o homenageado existe sempre a tendência para que o homenageado recaia para segundo plano... felizmente isso não acontece neste texto.
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De Nuno Castelo-Branco a 25.01.2010 às 16:02

Manuel, se quer ler o melhor texto, dê um salto ao Combustões. Vale a pena.
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De manuel gouveia a 25.01.2010 às 17:35

Confesso que já o fiz...
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De Miguel Castelo-Branco a 25.01.2010 às 12:56

Pena não estar aí amanhã para prestar homenagem ao Dr. João Camossa, esse sim, um D-O-U-T-O-R.
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De Manuel Pinto de Rezende a 25.01.2010 às 13:27

quanto mais leio sobre J. Camossa mais tenho vontade de o conhecer...
Anarco-miguelista, não era?
Devia ser um personagem dos diabos, lamento muito ser demasiado jovem para o conhecer.
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De P.F. a 25.01.2010 às 19:07

Anarco...quê, Manuel?
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De Manuel Pinto de Rezende a 25.01.2010 às 19:38

é uma expressão que está no Combustões, penso eu.
É um pouco complexa, mas chega-se lá e acaba-se por perceber o porquê dessa afirmação...
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De detectives privados portugal a 29.11.2011 às 01:45

boa onda . ver isto é muito mt bom... esta entrada é mesmo rico. pachei a ser followera 100% neste blogue.. cmprmentos

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