Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




36 anos de Progresso e Democracia

por Nuno, em 03.02.10

 

A História é cíclica, li hoje dia 3 de Fevereiro de 2010 no jornal Público que após 36 anos de Democracia e desenvolvimento, o número de Portugueses a emigrar para os outros países da CEE aproxima-se dos quantitativos dos anos 60. No entanto o contexto é que é bem diferente. Nos anos 60 Portugal era um país ameaçado e isolado devido à guerra colonial.

Na altura apesar de um crescimento económico na ordem dos 7% anuais estimulado em parte pela própria guerra, muitos jovens preferiram fugir à guerra e procurar trabalho no estrangeiro onde os salários eram superiores. Apesar das despesas inerentes ao conflito colonial, a nossa dívida pública em 1973 (ano também de uma grande crise económica internacional motivada pela enorme subida dos preços do petróleo)  era um pouco menor que 30% do PIB (toda a riqueza gerada num ano). Curioso é que nessa altura era a mesma dívida pública que a que certos países mais desenvolvidos como os escandinavos tem actualmente (Finlândia 32 %, Dinamarca 11%, Suécia 36.5%).

Acabou-se com a guerra colonial que consumia segundo os revolucionários de Abril 40% do orçamento de Estado (dizia-se que impedia o nosso desenvolvimento) e entraram vastas somas de dinheiro vindas da CEE. Em 2009 Portugal tem a economia destruída e está mais pobre do que antes  com uma dívida pública de 87% (que tem um aumento anual de perto de 9%  de acordo com o governo). Voltando  ao jornal Público parece que agora aos portugueses nada mais resta senão emigrar à procura de emprego (de que não havia falta em 1973), melhores salários (e em breve também de impostos mais baixos). A dita questão dos impostos é um problema terrível, pois o contribuinte desconta muito e poucas contrapartidas recebe. Se a Justiça, a Saúde e demais serviços públicos mal funcionam, os impostos que os pagam transformaram-se numa forma de extorsão disfarçada. Temos portanto um Estado extorsionário que em nome do pretenso bem comum exige cada vez mais dinheiro aos contribuintes para depois o gastar sobretudo consigo próprio.

Isto leva-me a perguntar se a súbita sede de Democracia a partir de meados dos anos 50 não se explica pela recém adquirida prosperidade das finanças públicas? Os grupos sociais são os mesmos que estiveram ligados à Primeira República e levaram o país à ruína. Em 1928 aceitaram a ditadura do Estado Novo quando compreenderam que eram incapazes de solucionar os problemas que tinham criado.

Após décadas de trabalho e economia das classes mais humildes, o descalabro financeiro foi ultrapassado e o Estado em 1950 estava novamente recuperado em termos financeiros. Nessa altura a pequena e média burguesias urbanas voltaram a sentir a intensa necessidade de participar na governação do seu país. Porque Salazar escolhia a dedo os seus colaboradores e não os substituía enquanto disso não visse necessidade, não existia a necessária rotatividade democrática no acesso às lucrativas posições de poder no Estado. A guerra colonial nos anos 60 serviu para unir os esforços dessa oposição “carente” que acabou por derrubar o Estado Novo. Infelizmente o fim do Império Colonial não se traduziu em verdadeira prosperidade para ninguém à excepção das novas elites políticas que se apropriaram do poder em Portugal e nas ex-colónias. A pobre criança do cartaz de propaganda do 25 de Abril, neste momento está provavelmente desempregada sem dinheiro e com as prestações da compra da casa atrasadas ou já emigrou mesmo e está a lavar pratos num qualquer restaurante em Madrid.  Isso é o claro epitáfio de uma revolução bem à portuguesa.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:37


5 comentários

Imagem de perfil

De Cristina Ribeiro a 03.02.2010 às 18:32

Excelente, Nuno!
Um retrato fidedigno do País que nos legaram.
Imagem de perfil

De Nuno a 04.02.2010 às 15:33

Obrigado Cristina, resta ainda saber o que vai acontecer agora que o Estado português não vai ter mais capacidade de endividamento.
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 03.02.2010 às 18:50

acho que a dita criança não está assim tão mal. Há uns tempos li numa revista qualquer, a sua estória de vida. É que ele não foi apanhado na rua por "ser giro". Tinha pedigree da cor, acho eu.
Sem imagem de perfil

De António Bastos a 03.02.2010 às 23:22

Mais um post bem lúcido e objectivo e que evidencia bem o porquê os verdadeiros interesses daqueles que se batiam pela democracia, isto é, pela partidocracia.
Sem imagem de perfil

De Ricardo a 04.02.2010 às 17:18

Excelente postal! O 25 do 4 mais não foi que o assalto descarado ao poder, para melhor dele poder usufruir as benesses, sem qualquer preocupação patriótica e de bem-estar dos portugueses, por uma clique demagógica e mal intencionada.

Comentar post







Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas