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Arrumar a casa

por Samuel de Paiva Pires, em 07.02.10

 

 

Diagnósticos à parte, importa assinalar, como lembra Vitorino Magalhães Godinho na sua recente obra Os Problemas de Portugal, que "Escreveu Jacques Attali que não devemos perder tempo a atacar os jogadores, mas sim mudar as regras do jogo" (p. 78).

 

O mesmo é dizer que a estrutura constrange de forma determinante os actores. O que significa que este regime não serve. Está à vista de todos. Pela crescente falta de legitimidade, porque se baseia num anti-fascismo que já não faz sentido, porque o PS continua a comportar-se como o dono da democracia quando a democracia para o ser verdadeiramente não pode ter donos, porque na gestão de dependências que caracteriza a nossa política externa desde sempre, fomos dos piores alunos da UE nas últimas décadas - desbaratámos milhões, não investimos na melhor poupança, i.e., a educação, e continuamos a endividar-nos a um ritmo alucinante, o que em conjunto com um sempre eterno descontrolo nas finanças públicas nos deixa na alma um travo amargo a incompetência para nos governarmos a nós próprios.

 

Os actores da nossa democracia e das histórias que têm povoado os noticiários nas últimas semanas não parecem dar-se conta que está em causa muito mais do que apenas o seu nome ou personalidade. Está em causa a democracia - se esta não estiver já mesmo dada como falhada, como afirma o Henrique Raposo. Está em causa a viabilidade futura de Portugal.

 

Quando um sistema se encontra em tamanha degenerescência é impossível percepcionar completamente as causas e consequências do que se passa à nossa volta, o que torna quase impossível corrigir as deficiências estruturais que nos vão assolando. A maior parte das pessoas parece fazer de conta que não se passa nada, como assinala Martim Avillez num excelente editorial.

 

Os actores não mudam o seu comportamento a não ser que sejam constrangidos, e só a estrutura o pode fazer, para impedir ou pelo menos minorar que o poder corrompa, e que o poder absoluto corrompa absolutamente, como diria Lord Acton.

 

Mais importante do que tentar perceber o que se passa, que já todos sabemos que é uma vergonha, importa ir pensando no que fazer para colocar o país em bom rumo. Importa lembrar que as pessoas que temos ao dispor vão continuar a ser exactamente as mesmas e o seu comportamento revestir-se-á das mesmas características se as regras do jogo não forem alteradas. O João Távora mostra bem como a mal pensada arquitectura institucional da III República cai em ambiguidades e paradoxos que a tornam refém de si própria.

 

Por isso, precisamos de outro regime ou, pelo menos, de rearquitectar este. Nada melhor do que o ano do Centenário da República para o fazermos e para encontrarmos uma forma de galvanizar o país e recuperar a verdadeira ética res publicana, ou seja, aquela que tende apenas para a verdadeira devoção pela boa gestão da causa pública. É imperioso arrumar a casa.

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publicado às 01:44


4 comentários

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De João Távora a 09.02.2010 às 17:54

Agradeço a sua benevolente menção caro Samuel. Abraço
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De Samuel de Paiva Pires a 14.02.2010 às 15:35

Eu é que agradeço, caro João!

Abraço
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De Daniel Gonçalves a 11.02.2010 às 22:18

"Os actores não mudam o seu comportamento a não ser que sejam constrangidos, e só a estrutura". Esta frase denota um pensamento que tem origem no materialismo histórico de Karl Marx, os homens são meras marionetas nas forças da História, é a infra-estrutura que determina o pensamento.
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De Samuel de Paiva Pires a 11.02.2010 às 23:04

Também mas não necessariamente, caro Daniel. A estrutura é um dos elementos da perspectiva sistémica da Ciência Política e da Teoria das Relações Internacionais. Tal como os actores e o ambiente onde se movem. Para uns a estrutura tem um papel determinante, para outros nem tanto. Não acredito que os homens sejam meras marionetas, porque, lá está, os homens são constrangidos e influenciados pela estrutura, mas também a influenciam, i.e., são actores que influenciam a estrutura e o ambiente onde se movem.

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