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The girl effect

por Silvia Vermelho, em 08.02.10

 Hoje foi uma manhã muito pesada. A sensação de que por muito que leiamos, por muito que estudemos, por muito que trabalhemos indirectamente com estas questões, é preciso o corpo presente para termos a sensação de sufoco que alimenta ainda mais a revolta.

 

Hoje decorreu, no Sana Reno Hotel, em Lisboa, o Seminário Internacional "Pelo fim da mutilação genital feminina".

 

Em trabalho, eu, juntamente com algumas das mentoradas do programa dMpM2, estivemos presentes.

 

Ifrah Ahmed Salim tem a minha idade e sofreu práticas de excisão aos oito e aos dezoito anos. O testemunho dela foi louco e frenético, num Inglês perfeito aprendido em três anos de vida na Irlanda, quando na Somália, o seu país de origem, não tinha tido sequer possibilidade de estudar.

 

Hoje é uma das jovens líderes mundiais no combate à MGF/E, trabalhando activamente com associações e com as comunidades migrantes na Europa.

 

Olhava para ela, enquanto falava, com a ansiedade estampada no rosto, mas a convicção de quem tem objectivos concretos, e ela ganhava vários rostos, os rostos de todas elas, jovens mulheres, que "tiveram o azar" de nascer no seio de comunidades com essa prática atroz e ancestral enraizada. Mas também nos via a todas nós, jovens mulheres que felizmente nunca estivemos em risco de sofrer MGF/E mas que, todos os dias, enfrentamos dificuldades decorrentes de algo em que não tivemos escolha - o sexo - e que todos os dias lutamos para combater as desigualdades de género que ele nos traz, a mulheres e a homens, que nos agridem e condicionam, a todos e a todas nós, limitando a nossa capacidade de ser por inteiro, em vez de reproduzir um simples papel social de género.

 

Naquela sala, quando Ifrah falou, uma jovem mulher, mas também quando falou Fatumata, Presidente do Comité Nacional para o Abandono de Práticas Nefastas à Saúde da Mulher e da Criança da Guiné-Bissau, sentia-se na sala o incomparável sentimento de sisterhood, a sensação de pertença a um grupo e a uma comunidade universal.

 

Ifrah, sobre quem não consigo parar de pensar, repetindo, constantemente, o meu cérebro - tem a minha idade - como que a lembrar-me que nos vemos ao espelho, fez-me lembrar, mais uma vez, o verdadeiro poder do incrível girl effect, que aqui deixo (de novo).

 

 

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publicado às 22:05


2 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 08.02.2010 às 23:42

Silvia, para certa gente, quem não se sujeita a esse tipo de "cirurgia", é decerto criatura debochada. Até é melhor termos cuidado, não venha aqui o Louçã/Rosas/Portas alegar com xenofobia anti-islâmica.
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De Evódia Graça a 09.02.2010 às 01:04

Quem diria que aquela linda menina que deixava transparecer brilho por todos os lados trazia com ela uma história tão triste!
A medida que ela falava, tinha a sensação de estar a ver um filme daqueles que não te deixa largar a TV nem por um segundo! E quando ela acabou de falar, fui repentinamente invadida por uma sensação tão estranha que ainda continua a perseguir-me!
Sugiro que, todas e todos, e principalmente o grupo dMpM2 , que avaliemos o que podemos fazer para juntar à luta contra à MGF.
Ifrah Ahmed Salim e Fatumata Djau Baldé são sem dúvida um grande exemplo de coragem para todas e todos!

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