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Liberdade pela verdade

por Nuno Castelo-Branco, em 10.02.10

 

 Há cem anos, era habitual os transeuntes pararem diante das sedes dos principais jornais, lendo avidamente as notícias que iam surgindo na banda corrente e luminosa. Nomeações de políticos, declarações de guerra, a vitória dos quadrados  de Mouzinho nas plagas africanas, visitas régias ou as sempre temidas novidades sobre economia e finanças, eram o motivo para as conversas do dia em cafés apinhados de gente.  Vozeava-se em torno de uma mesa servida de petiscos e vinho, servindo o café e a fumarada dos cigarros,  como complementos finais da conversa entre especialistas que da oratória faziam profissão.

 

O esbulho  americano das colónias espanholas de Cuba, Porto Rico e Filipinas, teve como base fundamental a campanha dos jornais que T. Roosevelt hábilmente orquestrou e a época dourada do jornalismo fazia-se com o patrocínio de magnatas, associações de interesses políticos, económicos ou sociais. Grandes homens de letras, políticos conceituados e o nascente movimento sindical, participaram activamente no aventar de caminhos a seguir, embora muitas das vezes obedecessem  aos nossos bem conhecidos meandros dos tráficos de influência que procuravam condicionar o poder. O Regicídio de 1908 foi conscientemente preparado por uma certa imprensa sensacionalista, assim como as campanhas de desprestígio ou exaltação de personalidades dos diversos sectores em contenda. A independência da imprensa comprovava-se pelos processos movidos pelas autoridades, embora a censura prévia não existisse. Pagava-se pela fúria da escrita, mas a barra dos tribunais era por regra tolerante e e limitava-se a admoestar os prevaricadores. Esta quase total aquiescer pelo ataque às instituições de um Estado de Direito, teve as consequências que hoje conhecemos, com a dissolução total da fronteira que deve existir entre a informação livre e a mera campanha corrosiva contra a generalidade dos homens públicos que em derradeira instância, conformavam o regime. 

 

A propósito da entrevista concedida por António José Saraiva ao i, há que ter em conta a profunda gravidade das notícias que têm saído a público, embora tudo se tenha tentado para as ocultar. Não se trata de qualquer antipatia pessoal por esta ou aquela personalidade partidária, mas tão só de fundamentais questões de princípio. É ilusório pensar que hoje seria possível a existência de um jornalismo completamente independente, dados os elevados custos da imprensa, a dependência do financiamento pela publicidade e o claro nexo com sectores empresariais também muito ligados aos sectores partidários que desejam influenciar. Na verdade, apenas a nova imprensa informal em que a blogosfera se tornou, poderia encerrar as virtualidades de uma análise independente, porque liberta das peias económicas que garantem o sustento dos autores. O comentar de factos, a procura de elementos díspares mas capazes de compor um quadro credível,  surgem por vezes com uma surpreendente lucidez e coragem na exposição que tornam marginais  aquilo que a imprensa quotidianamente repete até à exaustão, variando apenas a sectorial interpretação de cada periódico. Os próprios políticos descobriram esse poder de influência da net, contando-se entre os mais lidos autores de blogs, marcando a sua posição perante a sociedade, mas sobretudo enviando mensagens mais ou menos nítidas aos seus pares de partido.

 

O que existe de novo, é uma total ofensiva que teve início há perto de uma década, quando a situação económica do país se deteriorou de forma bastante perceptível. Jornais, televisões, bancos, empresas de comunicações ou de seguros, tornaram-se convivas habituais nos repastos que os condutores da política organizam para garantir o posicionamento dos seus. O controlo da sociedade mina assim e de forma transversal, a totalidade dos organismos que conformam o Estado, esbatendo-se de forma fatal a basilar separação de poderes. Há que dizer que algumas decisões de extrema importância quanto ao porvir dos programas de desenvolvimento, dependem em muito  daquilo que a imprensa política e também económica promove, tentando sempre satisfazer a necessidade de proventos de determinados sectores de que dependem.  Assim, o aparelho do Estado vai sendo crescentemente pressionado e a nomeação dos mais altos responsáveis pela Justiça, conforma-se à estratégia ou desígnios dos interesses partidários em liça.  O caso do actual PGR e do presidente do STJ, são exemplos que hoje são apontados como flagrantes cedências a pressões até há pouco julgadas como impossíveis, porque intoleráveis para os fundamentos do Estado democrático.

 

A saída à rua dos bloguistas, é um sintoma de salutar  manifestação  e de luta pela liberdade de expressão que aliás foi durante décadas, apresentada como a principal  - senão única!? - conquista do actual regime. Amanhã encontra-se-ão portugueses das ais variadas tendências políticas, mas unidos naquilo que interessa preservar: a autonomia do pensamento, a expressão sem peias que de circunstanciais tendem  rapidamente para o monolitismo. É totalmente inócua e indiferente o nome de um político em particular, mas o mesmo não se pode dizer de situações que tendo a possibilidade de se normalizarem, tenderão para a eternização. isso não podemos permitir.  Não está em causa este ou aquele político que fatalmente é sempre transitório, mas sim uma insalubre situação de generalizado mal estar que dentro em breve, não poderá deixar de afectar todos aqueles que em casa, se dedicam a pensar o país, a sua cidade, o trabalho e sobretudo, a liberdade sem medos ou normas coercivas impostas por quem mitiga o interesse geral, em beneficio de si e dos seus.

 

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publicado às 11:10


1 comentário

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De Anónimo a 13.02.2010 às 15:41

Sem liberdade, a verdade não aparece. Fica arquivada, mas sempre presente e cada vez mais presente quanto menor a liberdade. Depende de cada um de nós quebrar a corrente e dar liberdade à verdade, que anda sempre na garupa da mentira...

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