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Apelo a Cavaco Silva

por Nuno Castelo-Branco, em 02.03.10

 

  

                       A infanta Dª Adelaide                                    A rainha Dª Amélia

 

 

Nas anuais celebrações da data nacional, os portugueses escutam sempre infindáveis listas de nomes galardoados com as mais diversas condecorações. Se alguns as devem aos serviços prestados a quem as outorga, outros, mais raros e relevantes, merecem-nas pelo mérito. Ao serviço do seu semelhante, porfiaram na labuta, encontrando soluções aparentemente impossíveis e resolvendo problemas, aos quais uma comunidade desinteressada jamais quis emprestar o mínimo esforço, fosse ele a mão amiga que ajuda a construir  vidas, ou a voz que admoesta e abala as consciências.

 

Dª Maria Adelaide de Bragança, a Infanta Dª Adelaide, é uma figura notável do século XX português. Nascida no exílio e nele tendo vivido três décadas, consiste num daqueles típicos casos de incúria a que as instituições nacionais votam os nossos maiores. Fosse ela inglesa, americana ou alemã, seria um símbolo vivo e orgulho da sua nação.

 

Durante a II Guerra Mundial, quando ardiam cidades inteiras sob tapetes de bombas de fósforo, a enfermeira e assistente social Dª Adelaide de Bragança,  acorria em auxílio dos feridos e moribundos. Não temendo os grandes perigos, abnegadamente salvou vidas, tratou os atingidos e consolou as mágoas de tantos outros que num ápice viram volatilizar-se as vidas de entes queridos.  Como era tão frequente entre a aristocracia residente no Reich alemão, envolveu-se nos grupos de oposição interna e por isso foi condenada à morte, acusada pela Gestapo de conspiração. Salva in extremis por intervenção do governo português, foi rapidamente deportada, iniciando um novo capítulo da sua vida e estabelecendo-se em Portugal, a pátria que  até então lhe fora interditada.

 

Em Portugal, país solidamente agarrado a preconceitos vários e a um imobilismo social que faz invejar civilizações antigas, interessou-se pela protecção à infância, no momento em que nos países mais desenvolvidos, há muito tinham desaparecido os velhos conceitos que a consideravam como coisa de escasso interesse ou estado meramente evolutivo dos homens e mulheres do porvir.  Mães desvalidas, crianças abandonadas ou sem recursos, foram recolhidas, vestidas, alimentadas e educadas, num espantoso exercício de cidadania que envergonharia os mais histriónicos oradores de uma república que nunca o foi. Jamais pediu para si qualquer benesse ou reconhecimento oficial e entre os mais simples, sempre encontrou os mais fortes esteios da sua obra. Dª Adelaide não é uma mulher de chás, tômbolas, espectáculos ou rifas de sorteios que contentam as consciências de muitos alegados beneméritos.  Pegou na massa suja, esfarrapada e incómoda, dando-lhe aquela dignidade que é atributo inseparável da condição humana.

 

Não duvidamos do distanciamento que o actual Presidente da República decerto sentirá perante muitos dos aspectos comemorativos oficialistas do Centenário da República. Quando do 1º de Fevereiro de 2008, a atitude do prof. Cavaco Silva resgatou, embora parcialmente, a honra de um Estado aviltado por uma decisão tomada por uma Assembleia da República cega e surda, mas como sempre prolixa em considerações anacrónicas acerca de um acto que antes de tudo, seria de reparação e reconciliação entre os portugueses.

 

Cavaco Silva está bem a tempo de uma vez mais, manifestar uma atitude que enobreça o seu mandato, enfrentando as pequenas misérias de certas vaidades pessoais de muitos e a defesa de interesses particulares de outros tantos.

 

Grande precursora da Assistência Social no nosso país, a rainha Dª Amélia foi a impulsionadora de valiosas instituições que hoje abnegadamente trabalham na protecção da sociedade. A Infanta Dª Adelaide seguiu sempre o exemplo da sua madrinha de baptismo, a rainha que de França chegou a Portugal, desejosa de entre nós estabelecer aquelas novidades próprias de uma modernidade que tardava.  Insurgiu-se contra  a inaceitável inevitabilidade da pobreza num pais que apenas dela toma conhecimento e se interessa em momentos de sobressalto. 

 

Dª Adelaide de Bragança é afinal a história de um século, onde também as mulheres portuguesas tiveram de se impor pelo valor, coragem e dedicação a uma outra república que afinal sempre fomos. 

 

Em qualquer país da Europa, a Infanta Dª Adelaide seria uma heroína nacional, capaz de ombrear com a velha rainha-mãe que na varanda de Buckingham abria os braços a um povo reconhecido.

 

Chegou o tempo da reparação. Reparação aos vilipendiados por décadas de calúnias que conduziram ao Crime de 1908.  Reparação a quem chegou a Portugal para servir um povo que adoptou como seu e de quem foi estrénua defensora durante toda a vida, esquecendo ofensas e perdoando os verdugos dos seus entes queridos. Reparação aos proscritos de 1910 e aos milhares que nas prisões sofreram sevícias às mãos da brutalidade prepotente dos transitórios senhores de um momento funesto. Reparação a tantos homens e mulheres que viveram fazendo o bem aos seus semelhantes e que desceram ao túmulo sem que deles se conheça o nome.

 

A Infanta Dª Adelaide tem hoje 98 anos e é uma Grande de Portugal. Pouco lhe importam as grandezas dos luxos que deleitam os simples de espírito ou aquelas outras que provêem de uma história familiar milenar. Pouco lhe importaram os vestidos, as festas ou os diamantes. A Infanta está imbuída daquela grandeza que só o materialmente desinteressado sentido do servir pode atribuir.

 

Os monárquicos de Portugal - sem qualquer dúvida os derradeiros patriotas -, receberiam como um sinal de reconciliação, o reconhecimento oficial desta senhora que foi - ela sim -, uma verdadeira Princesa do Povo. Neste país, não existe republicana que se compare a Dª Adelaide.

Têm ultimamente surgido artigos e reportagens que procuram dar a conhecer a Portugal,  uma vida plena de trabalho e dedicação á coisa pública. Mas agora, as palavras devem ser seguidas por actos que só podem enobrecer quem os praticar.

 

No próximo 10 de Junho contamos ver a Senhora Infanta receber em nome do povo português, uma manifestação inequívoca de reconhecimento. O tempo urge.

 

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publicado às 11:33


8 comentários

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De Ega a 02.03.2010 às 14:00

Recordo o casamento d'El-Rei D. Duarte II, os baptizados do Principe da Beira e dos nossos Infantes.

Era vê-los a caça de convites, «monarquiquérrimos», todos parentes próximos da Casa Real. O chamado jet-set.
Ávido de ser visto, a correr por um vestido «comme il faut», pose para as Olás, etc, etc.
No dia seguinte - nada. A festa prosseguia noutro «evento» qualquer.

A Senhora Infanta, já como a Rainha D. Amélia dão esse exemplo de humildade e serviço, preocupação com o bem-estar dos mais desfavorecidos.
E é realmente importante que todos quantos somos porque acreditamos (e não porque queremos penacho), unamos esforços para desmistificar a Monarquia.

Por Portugal e por todos os portugueses.
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De Miguel Castelo-Branco a 02.03.2010 às 19:12

É verdade: é das poucas cristãs que conheço. Esta Senhora devia ser apresentada como modelo a tanto santarrão verbalizador e tanto moralão que por aí se pavoneia inutilmente com as sagradas escrituras na mão e a voz fremente de ódio. Infelizmente, a Infanta Dona Adelaide de Bragança é das poucas vocações de Imitação de Cristo.
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De Joana a 02.03.2010 às 20:14

Apoiado!
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De Anónimo a 03.03.2010 às 00:13

Caro Nuno,

Para reconhecer o que a Srª. Infanta e raínha fizeram é preciso sensibilidade. É preciso perceber. É preciso sentir e sofrer pelos outros. É preciso saber respeitar.

Aquele que alguém elegeu como Presidente da Republica não tem nenhuma dessas qualidades.

E sabe...nem é preciso o reconhecimento de uma república que nasceu viciada, torta, esfomeada do Poder que invejava à Monarquia, que hoje tem à sua frente um rebanho de incompetentes, ladrões e mentirosos.

Basta que haja quem lembre e escreva os feitos desta MULHER para que se eliminem preconceitos e se pense que afinal antes de tudo somos humanos, mas alguns têm mais sentimentos e outros expressam-nos através de acções tão bonitas como aquelas que retratou no seu texto. Continue a escrever, publique, porque essa é que é a história da verdade e não aquela que o Estado conta por vezes...com tanta má -fé.

Educadinha
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De Nuno Castelo-Branco a 03.03.2010 às 10:03

Educadinha,

Monarquia à parte, esta é uma questão de justiça a ser feita enquanto Dª Adelaide está viva.
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De Anónimo a 05.03.2010 às 01:42

Nuno,

Sim, não lhe retiro a razão da sua Razão.
O que eu quero transmitir é que com reconhecimento ou não de quem até distingue quem não deve, esta Senhora é paz, é tranquilidade, é ajuda ao semelhante.
É um exemplo que deve ser seguido. Para lho reconhecerem é preciso sensibilidade e muito mais. Acha Nuno, que neste mundo português onde o Poder é o que é, que lhe vão dar o devido reconhecimento?
Talvez...mas certamente textos como o seu têm mais efeito...e sabe, quando olho para a Srª. Infanta, vejo alguém que está num nível espiritual superior...o reconhecimento para ela vai ser outro, na verdade o que interessa.

Mas isto não quer dizer que eu discorde do que o Nuno refere....

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De Nuno Castelo-Branco a 05.03.2010 às 14:12

É possível um reconhecimento nacional. Os "reps" organizaram uma terrível campanha contra Dª Amélia. Insultos, calúnias de todos os tipos, ocultação da sua obra e afinal, acabou por ter o maior funeral jamais visto em Lisboa. O povo reconheceu o bem que fez e retribuiu. Isso é o que interessa.

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