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Não é coisa rara, embora de forma intermitente,

por Cristina Ribeiro, em 14.03.10

mergulhar no baú daqueles que, desde que aqui cheguei, considerei os faróis blogosféricos, e devo dizer que sempre dessas incursões tirei o melhor dos proveitos. O mesmo aconteceu hoje, quando fui revolver os papéis do Luís de Gongora da confraria.

Porque nem sempre nos cabe a sorte de nos revermos em cada palavra alheia...

E são estas as palavras:

 

" Como Português em Portugal, entendo o problema do nacionalismo estreitamente vinculado à questão da tradição. O nacionalismo subsume-se e ganha sentido na viabilidade da tradição específica de uma nação; o nacionalismo é, assim, simultaneamente, a manifestação de fé na existência da tradição, o grito de unidade lançado ao exterior, o auto-sustento anímico de aceitação de uma construída unidade política. (... ) A tradição, é traditio no seu sentido exacto, uma dinâmica que se verifica enquanto ao longo dos séculos houver mãos naturalmente dispostas a formar cadeias por onde um património, erguido, flua naturalmente ao longo desses mesmos séculos. A falta de expontaneidade de oferta dessas mãos, mata a tradição e retira-lhe a legitimidade: a tradição deixa então de ser o património que, vivificando, flui serenamente, passando a exibir-se como uma mera carcaça que vamos atirando mecanicamente para a frente

. Constato com dor que Portugal é hoje um país e uma nação com cada vez menos tradição. O fluxo vital dos valores que me são queridos vem de há muito a ser corroído, e até interrompido, pelo iluminismo burguês, pelo positivismo, pelo marxismo, pelo simples laicismo ou pelo demoliberalismo, com o efeito catalizador das rupturas revolucionárias a que a nossa débil estrutura sócio-cultural tem sido sujeita nos últimos dois séculos e meio.

(... ) Valerá a pena combater o bom combate, na esperança de melhores dias?É um facto que durante anos e anos, regime após regime, guerra após guerra, paz após paz, a relativa unidade estruturante dos Portugueses permitiu na quadrícula geográfica a laboração e a sobrevivência de uma ideia de “portugalidade” com os correspondentes sentimentos de identificação e adesão, e até de “cumplicidade” entre portugueses.( ... )

A quebra demográfica, a globalização acelerada, a introdução em progressão geométrica do elemento alienígena no tecido nacional, a suburbanização das populações e a decadência do espírito crítico são outros tantes golpes a corroer a viabilidade dessa tradição, e, em simultâneo, a criar os fundamentos de um mundo novo. E chegará o dia em que seremos confrontados --- cada vez mais o somos --- com o facto de que o sentirmo-nos portugueses não se traduz num viver digno numa determinada comunidade de cultura, história e etnia, mas numa vil sujeição aos tiques e aos ritmos de uma promiscuidade de vulgaridades, de folclores e de tribus, que nem sequer é ou já será a portuguesíssima “apagada e vil tristeza”.

(... ) Portugal e os Portugueses galopam felizes em direcção a uma nova identidade fandanga, onde, com as anónimas menos-valias comuns ao triste Ocidente dos nossos dias, se amalgam específicos valores nacionais, do pior do que sempre em nós houve mas que agora perdemos a vergonha de exibir porque fomos abençoados com o dom de relativizar os tais “sentimentos passivos” de que falava Almada --- “a resignação, o fatalismo, a indolência, o medo do perigo, o servilismo, a timidez” --- cumulando no resultado já diagnosticado (e quanto nos custou ouvi-lo da boca do galego Camilo José Cela): tristes, invejosos, sem grandeza porque sem auto-estima.

 

             E vou buscar de novo aquela asserção de outro Grande : Barrilaro Ruas - " O conservador é aquele que se submete obsessivamente a um evento do passado, o tradicionalista é aquele que pensa o futuro com base no passado; um insiste em não ver o presente, outro vive a construir o futuro."

Por assim não perspectivarmos o amanhã, ele está comprometido.

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publicado às 20:48


10 comentários

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De Bic Laranja a 14.03.2010 às 22:35

O diagnóstico está bom de ver. Ainda valerá a pena o combate?!...
Cumpts.
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De Cristina Ribeiro a 14.03.2010 às 22:43

Muito pessimista me declaro.
Saudações
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De manuel gouveia a 15.03.2010 às 11:08

O consumo de ficção e tv com origem nos EUA dispensam-nos de ter uma tradição e fica mais barato.
A grande exposição de 2009 que esteve no Porto foi a da Guerra das Estrelas, sub-lixo americano, para gáudio cultural das massas.

Quanto custaria organizar uma exposição sobre os descobrimentos portugueses?
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De Cristina Ribeiro a 15.03.2010 às 12:27

É a portugalidade, o orgulho de sermos nós e mais as nossas características que se esvai, Manuel. Porquê a ânsia da uniformidade - e nem são precisas exposições para termos consciência do que fomos, dos valores que no passado nos nortearam. Estamos a desfazer-nos de tudo para aderir a coisas enlatadas, descartáveis, e com os resultados miseráveis a que assistimos todos os dias.
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De manuel gouveia a 15.03.2010 às 13:33

Mais facilmente aderimos a uma exposição da Guerra das Estrelas do que a uma da Amália...
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De Cristina Ribeiro a 15.03.2010 às 21:17

Com aqueles efeitos especiais todos...só falta ver um OVNI :)
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De mike a 15.03.2010 às 20:06

Ó caramba, Cristina, assim não sei onde me situar. Não sou conservador, nem tradicionalista... e agora? ;-)
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De Cristina Ribeiro a 15.03.2010 às 21:20

Agora..., eu revejo-me nesse tradicionalismo, mas o Mike não tem forçosamente de se rever em nada, não é? :)

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