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Amarga laranja

por Nuno Castelo-Branco, em 15.03.10

 

do Congresso

 

A tragicomédia de dois actos em que se transformou o mais que previsível Congresso do PSD, apenas vem confirmar a triste situação política na qual o regime esbraçeja. A total inconsistência do discurso dos contendores, o firmar de vaidades inconsequentes e uma absurda proposta que surge ao arrepio daquilo que deve ser um partido democrático, resume o conclave.

O surgimento do então PPD, proveio de uma rápida adequação dos quadros locais da ANP do final da 2ª república. De facto, os emissários de Lisboa percorreram o país e em nome do grupo da ala dita Ala Liberal do deposto regime, agremiaram gente bastante dispare e conseguiram formar um Partido que desde cedo se notabilizou pela existência de profundas clivagens pessoais. Não existindo uma sólida base ideológica que o colocasse na área do socialismo europeu ocidental e embarcando apressadamente na jangada revolucionária que proibia explicitamente uma democracia-cristã que normalizara a Europa pós-1945, o PPD permaneceu no limbo onde ainda se encontra.

O processo político de 1974-76, a clara influência afrancesada do militantismo messiânico do Maio de 68 e a decidida intervenção do PCP nas ruas, evitou o firmar de um CDS que se se tivesse  assumido como Direita – nunca tal ousou – , adequaria o sistema partidário ao figurino presente em toda a Europa Ocidental. Tal não aconteceu e o PPD conseguiu permanecer nos consecutivos governos provisórios, participando activamente em todos os acontecimentos que irreversivelmente marcariam o nascimento do regime: a aceitação do poder dos militares – em 1974 estava Portugal muito distante da perspectiva da submissão castrense aos civis -, a descolonização apressada e caótica e durante o Outono de 74 e a Primavera de 75, as profundas alterações da estrutura económica. O PPD não só aceitou todos os factos consumados, como adequaria todo o seu discurso a uma realidade que contradizia a sua base social de apoio. As entradas e saídas de Sá Carneiro, as deploráveis encenações à porta das reuniões da Internacional Socialista e a inovação que para os portugueses consistiu um discurso “politicamente correcto”, para sempre marcariam a vida do PPD que desde logo e por motivos meramente tácticos, se apropriaria da sigla SD. Tentativas de conquista do poder interno – grupo Magalhães Mota que originaria a ASDI -, a exclusão de Emídio Guerreiro e a consagração da chamada baronização local, acabaram por durante uns anos, fazer reconhecer a necessidade de um chefe carismático que unisse um Partido cuja força eleitoral o vocacionava para o exercício do poder. Neste aspecto, existem algumas reminiscências com uma realidade de outros tempos, quando os Regeneradores – a Direita da Monarquia – se faziam notar pela sua fraca unidade interna, temporariamente mitigada pela figura de Fontes Pereira de Melo. O mesmo se passou com as figuras de Sá Carneiro e de Cavaco Silva, embora este último careça daquela visão geral da sociedade que lhe permita obter um sólido esteio de apoio, possibilitando profundas modificações institucionais e mais importante ainda, das mentalidades.

 

Aquilo que a sociedade hoje vocifera contra os socialistas, aplica-se perfeitamente ao PSD. Entrada apressada e meramente política na CEE, total ausência de um projecto de construção nacional, extensão desmedida do favorecimento às clientelas regionais e locais. O país foi perdendo em unidade anímica, enquanto era devastado por uma catastrófica gestão de recursos, descaracterizando regiões inteiras, provocando a desertificação do interior. A consequência inevitável, apontou o fracasso da incipiente industrialização iniciada nos Planos de Fomento das duas últimas décadas do regime de 1926-74, também direccionada para a satisfação de necessidades internas que compreendiam o vasto espaço ultramarino. A volatilização do ensino e a anarquia nos programas escolares, a quebra da disciplina, o constante rebaixar da exigência no ensino primário, secundário e universitário, compuseram o quadro geral de fracasso anunciado. A chegada dos caudais financeiros propiciados pelo ingresso numa Europa expectante e compreensivelmente receosa, adiaram durante algum tempo a consciencialização da fragilidade do todo, até porque com esse dinheiro, chegou também a invasão das empresas estrangeiras, o controlo do mercado de distribuição e a liquidação da concorrência interna. Inevitavelmente, o Estado cresceria em efectivos e condicionaria o próprio sector privado. Fracasso na modernização da indústria; liquidação da agricultura e das pescas; a total e absurda submissão aos ditames de uma construção civil ansiosa por proventosas obras de fachada; a queda na tentação do recurso ao consumismo exacerbado; a total incúria na gestão dos centros urbanos, pasto da especulação desenfreada que encareceria desmedidamente os preços, expulsando habitantes das cidades em direcção a uma periferia que se tornara coutada das empresas de construção. O conluio entre estas e o poder local, conduziu ao actual estado de coisas e nenhum dos chamados “partidos autárquicos” – PSD, PS e PCP – estão isentos de culpas ou participação claramente dolosa para o interesse geral. A lista das Câmaras Municipais das duas principais áreas urbanas do país, é eloquente. Apenas mencionando a Grande Lisboa, enquanto o PS e o PSD se revezaram na demolidora descaracterização da capital, o PCP permitiu todo o tipo dislates em Loures, no Barreiro, Almada, Vila Franca, Amadora e Sintra. Um desastre que arruinou a paisagem, fez aumentar a exclusão social e encheu os cofres da gente do betão. Bem no centro de Lisboa, o quase concluído processo de devastação da área histórica – compreendida grosso modo entre o Campo Grande-Lumiar e o Tejo e entre Belém e Xabregas, depredou a Lisboa oitocentista e ofereceu avenidas inteiras – da República, da Liberdade e Avenidas Novas – à especulação imobiliária estrangeira.

O Portugal do PSD é exactamente o mesmo que tanto tem interessado ao PS, para nem sequer mencionarmos os partidos marginais e esporadicamente influentes.

Num momento em que a situação do país chegou a um ponto em que as medidas de austeridade deveriam ser acompanhadas pela apresentação de um projecto que galvanizasse os portugueses como uma esperança mobilizadora, os partidos perdem a derradeira oportunidade de recuperar alguma credibilidade e confiança no sistema. O Presidente da República é parte interessada e participante no jogo político, não se lhe conhecendo qualquer pensamento sólido no que se refere à reconstrução do edifício institucional que é parte integrante dos problemas que enfrentamos. A histriónica compita pelo apoio à sua reeleição, manifesta à saciedade a dependência em que o PSD se encontra.
Os partidos prosseguem na senda do cativar de lugares no aparelho do Estado que hoje se estende às próprias empresas privadas, distribuindo influências e adoptando medidas paliativas que jamais surtirão qualquer tipo de modificação no descalabro do ordenamento territorial, no ensino e consequentemente, na economia. As Finanças do médio prazo tudo obliteram, tal como colossal Caterpillar que esmaga e uniformiza a brita transformada em futura estrada. Muito longe de ser um país periférico – a sempiterna e conveniente desculpa dos titulares do poder – Portugal possui uma situação geográfica privilegiada, sendo a porta de entrada marítima de uma Europa que sabe não poder viver em autarcia.
O Alentejo foi abandonado a projectos incoerentes e de pomposo frontão decorativo, embora pudesse ser a base logística essencial que atrairia a participação interessada das novas potências industriais emergentes, elas também fornecedoras de bens de consumo à Europa. Portugal continua com os caminhos de ferro praticamente intactos desde os tempos do Fontismo, sem que pareça existir qualquer preocupação na adequação das linhas férreas ao modelo adoptado na restante Europa continental. Sines está quase ao abandono e o hinterland congrega pequenos núcleos populacionais, sem que se vislumbrem projectos susceptíveis de ocupar a terra e dela tirar proventos. A Espanha adopta agora uma clara política de desarticulação do todo nacional, utilizando as suas Autonomias como polos agregadores de acordos inter-fronteiriços que inevitavelmente cada vez mais se afastarão do poder central português. Os portos de águas profundas, as ilhas atlânticas e a Zona Económica Exclusiva e adjacente às nossas costas, são um apetecível ponto de intervenção a médio prazo.

Nos últimos meses surgiram indícios de um possível regresso de Portugal ao seu tradicional espaço euro-ultramarino, com visitas e investimentos mútuos. Tal poderá significar uma promessa de progresso, se existir uma clara intenção de correcção do caminho até hoje trilhado. O Estado deve dar o exemplo e infelizmente, o proposto PEC não promete nada mais significar senão a adopção de medidas de curto alcance. Não vem acompanhado por qualquer acordo de regime – nem tal parece possível ! -que vise a reforma das instituições e o inadiável reordenamento territorial do país. Não existe estratégia nem paradigma. Apregoando um reformismo de cartaz, o PSD jamais teve qualquer impulso que decididamente apresentasse aos portugueses um projecto que pela sua seriedade, fosse susceptível de concitar a confiança e mitigasse as resistências que inevitavelmente se manifestarão na primeira oportunidade. O documento ambicioso de que fala Durão Barroso, apenas o seria se implicasse uma completa revisão nas prioridades do Estado português, desde as obras públicas – compreendendo a reabilitação urbana, a moratória na construção de zonas satélites entregues à especulação, a perfeita gestão de solos – ao ensino que deve ser a base essencial para a viabilização do futuro: disciplina, racionalização de meios e dos programas, liquidação de veleidades totalitárias do “ensino à força para todos aqueles que não o querem”, etc. O Estado e os seus titulares não dão o exemplo e a sua chegada a qualquer cerimónia de circunstância, consiste num autêntico festival terceiro-mundista de exibicionismo bacoco e insultuoso. Poderão os agentes políticos argumentar com a “pequenez dos números” envolvidos, mas para uma população depauperada pela própria tentação esbanjadora a que foi incentivada, os milhões acumulam-se numa escandalosa espiral devorista até atingirem aquilo que todos esperam: a queda total, a redução do país ao Nada no final de uma história quase milenar, ou uma revolução de contornos indefiníveis mas capaz de acelerar a primeira hipótese.

Tal como o PS, o PSD não parece interessado ou capaz de evitar o seu inelutável destino. Uma perda de tempo.

 

 

 

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publicado às 15:44


2 comentários

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De Cristina Ribeiro a 15.03.2010 às 19:25

Os gémeos Dupond e Dupondt da política portuguesa: nestes trinta anos nada mais fizeram que repetir-se um ao outro; para fingirem a diferença que não existe limitam-se a um " eu diria mesmo mais ", mas dizendo, e fazendo, exactamente a mesma politiquice.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 16.03.2010 às 16:17

Por conseguinte,

Trata-se da Política do «kiss my ass» para «jack asses»...

Peço desculpa pelo «grego» da linguagem...

Os «buracos» tornaram-se tão grandes que as rolhas são, afinal, bem vindas....



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