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In case I die*

por Silvia Vermelho, em 30.03.10

Il Ritornante, Chirico 1918

 

A ideia da recapitulação da ontogenia pela filogenia é tão cara à Biologia como à Sociologia, sob os nomes de psicogénese e sociogénese. Sob a égide de um padrão lógico irremovível, poder escrever a história de um indivíduo a partir da história do colectivo (ou da História, simplesmente) é uma missão caprichosa.

 

O que lhe é base só pode ser a apetência pela previsibilidade. Tenho a impressão que esta necessidade de previsão - seja do tempo ou dos sismos, da resposta dela ao convite dele ou dos resultados das eleições - se prendem com a tentativa de manutenção de um certo instinto animal que se foi com o social. Ter a certeza do amanhã inscrita no nosso código genético, como a Mitzy, a minha gata, tem inscrito no seu o reconhecimento da areia como o local onde deve defecar e o comportamento a adoptar quando é mãe. De modo a não falhar.

 

Ficámos a meio caminho entre os animais e os deuses, presas/os num vórtex de servidão instintiva e de criatividade humana. O que é engraçado é a tentativa constante de mecanizar este processo, torná-lo mais animal, menos sujeito às intempéries alheias de modo a manter o próprio tempo estável e ameno. A isto chama-se colectivo e serve para a harmonização de uma comunidade humana que não tem em si o social programado como as abelhas ou como as formigas, mas antes se re-inventa na tentativa de extremar o acontecimento normal e de atrofiar o diferente, o que é fora do "programado" e o que desestabiliza o todo. Admirável tensão entre o divino e o animal.

 

Sempre que há uma ideia, o ser humano incorpora-a na sua rotina, sempre que algo é estranho e se expande passa a ser "natural", "parte", "normal". Fez-se luz e Edison é agora rotineiro. Houve um sismo e a vida na Terra regenera como a própria terra. Tão mecanizado como o caos urbano, enfaixado nos túneis do metro e nos carris do eléctrico, no encostar à direita nas escadas rolantes e no tossir colocando o braço à frente - e não a mão, para não se propagar a contaminação tão facilmente.

 

O que se perde, nestes processos de preservação da espécie, é o tempo para preservar o que a espécie não nos deu mas que maravilhosamente temos. É a escolha, o livre-arbítrio, o espírito, a mente, a personalidade, enfim, depende da quantidade de romantismo ou racionalidade que colocamos no conceito que escolhemos para designar o que toda a gente sabe e que está dentro de cada um/a.

 

Por que a filosofia desapareceu da ordem do dia, e a paideia é desconhecida pelas gentes bestializadas, é hoje certo que o colectivo se tornou inimigo do indivíduo, pela incapacidade de resistir às tensões animalescas.

 

Cada vez que entro no metro, cada vez que saio do metro, cada vez que me sento nesta cadeira e abro, mecanizada, o gmail, cada vez que me deito a programar o despertador para as 07.30, procuro não me esquecer que há um eu para além da contribuinte X, que auxilia a preservação da espécie através do seu rendimento futuramente redistribuído.

 

E como este é um exercício nocturno, fecho a cortina com a frase que acompanha este exercício diário de combate à bestialização.

 

And here, over the portals of my fort, I shall cut in the stone the word which is to be my beacon and my banner. The word which will not die, should we all perish in battle. The word which can never die on this earth, for it is the heart of it and the meaning and the glory.

 

The sacred word: EGO.

 

Ayn Rand in The Anthem

 

*O título vem daqui: http://justincaseidie.com/, uma tentativa patética de individualização pela normalização do post mortem.

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publicado às 00:51







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