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Tailândia: a estabilização?

por Nuno Castelo-Branco, em 09.04.10

As informações que chegam de Bangkok, têm sido escassas. Na imprensa portuguesa, o noticiário é lacónico e a TVI menciona apenas os mandados de prisão dos 18 principais cabecilhas da subversão. Umas rápidas notas de rodapé passam intermitentemente nos telejornais, sem que surja uma única imagem ou comentário, remetendo-se a atenção para os acontecimentos no Quirguistão, palco da mais recente vitória russa na região. De facto, Putin suplantou os EUA e a China. Por outro lado, uma consulta às reportagens da BBC, propiciam uma visão geral dos acontecimentos, sem que possamos daí retirar qualquer claro indício de grave degradação da situação, até porque os números falam por si.

 

Dentro de poucos dias, iniciar-se-á o período do calor extremo e logo surgirão as primeiras chuvas da monção. Será o momento do retorno ao trabalho nos vastos campos, onde a principal fonte de subsistência espera os devidos cuidados. Prevê-se o inevitável regresso a casa da maioria dos participantes nos tumultos que têm ocorrido na capital.

 

Ao longo da sua história constitucional, o país tem assistido a passageiros períodos de luta de facções e nuns poucos casos, o extremar de posições e a violência que ameaçava atingir um grau inaceitável, levou a Coroa a tomar o seu papel moderador. De facto, o surgimento de Rama IX foi sempre decisivo para o rápido regresso à paz institucional e consagração entre as partes desavindas. Em 1992, uma chamada de Chamlong e Suchinda ao Palácio, liquidou uma situação que ameaçava fugir ao controlo da segurança do Estado. O mundo assistiu quase em directo pela televisão, ao momento em que os dois adversários se apresentaram diante do monarca, escutando atentamente o conselho que mostrava o caminho a ser seguido. A crise desvaneceu-se e o país iniciou o já longo período de desenvolvimento económico e de modernização do Estado e das suas instituições.

 

A situação vivida nesta semana, parece indiciar uma progressiva desmobilização que também pode ser ditada pela desorientação de uma liderança que agora não deve ter a certeza daquilo que ainda poderá fazer. Limitando-se a passeios pelas grandes avenidas e pontos de intersecção da cidade, o que pretendia passar por uma revolução, assemelha-se bastante a uma mera desordem com contornos de esporádicos motins inconsequentes. Alguns observadores mais alinhados com as antigas doutrinas agit-prop de outros tempos, decerto passarão a seguir escrupulosamente  e folha por folha, o clássico manual desculpabilizador "dos seus". Não será muito difícil atribuírem-se agora responsabilidades a "grupos desconhecidos", "agentes provocadores", "infiltrados", "mercenários a soldo do governo e do exército", etc. A falta de imaginação e o apego a doutrinas de acção  correspondentes a um tempo que morreu, obnubilam a realidade das coisas. Não se pode transplantar de um país para todos os outros,  a previsibilidade das reacções, estímulo de grupos e a inevitabilidade de acontecimentos. A Tailândia é muito diferente do Portugal de 1974 e nada em comum tem com o Nepal, o Quirguistão, o Ceilão ou as Filipinas. A sua estrutura político-social - e económica -, obedece a séculos de autonomia política onde o actual Estado encontra profundos alicerces difíceis de destruir. Outro caso será a intervenção mais ou menos velada, de interesses internacionais que lutam pela obtenção de vantagens políticas e económicas, disputando a primazia naquela área do planeta. Como anteriormante dissemos, a Ásia parece estar a substituir a África como principal ponto de intervenção das grandes potenciais: EUA, Rússia e China, uma vez que a Europa se encontra por demais dividida pelas naturais rivalidades que a impedem de qualquer acção consequente. Para pouco mais interessa, senão para alguns negócios de exportação e para o sempre bem-vindo fornecimento das torrentes de turistas que enchem os principais monumentos, resorts balneários, discotecas, bares e os luxuosos Mall da capital.

 

Em Bangkok não se assistiu a qualquer grande incêndio, desrespeito pela propriedade, assalto a arsenais, feridos graves ou mortos.  Existem militares e policias nas ruas e avenidas, sem que se dispare um tiro ou se maltrate a gente que se manifesta nesta época de festa, quase um antecipado Songkran. Os seguidores de Thaksin, querem agora apelar aos recursos propiciados pelo sistema de Justiça do próprio Estado que até há poucos dias pretendiam conquistar na rua. Isto é um claro sinal de evolução e prevê-se um próximo acatar da Lei.

 

Se Rama IX ainda não falou, isso apenas poderá querer significar que a situação está controlada, não é muito grave como alguns querem fazer crer e não merece o exercício público do Poder Moderador. Oxalá assim seja e que a perigosa cascavel não passe de uma dócil jibóia.

 

Continue a seguir os acontecimentos tailandeses no Combustões

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publicado às 10:01







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