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Tailândia: a opinião do Dr. Sawai Boonma (Bangkok Post)

por Nuno Castelo-Branco, em 14.04.10

 

Da autoria do Dr. Sawai Boonma, surgiu hoje no Bangkok Post, um artigo em que sucintamente faz uma análise acerca dos problemas que o país tem enfrentado nas últimas décadas. A par de um vertiginoso desenvolvimento material na zona metropolitana da capital e nos centros turísticos, torna-se cada vez mais clara a vandalização de recursos, sejam eles florestais, minerais e principalmente, no ordenamento territorial. A construção selvagem e especulativa, tem deteriorado vastas áreas outrora consideradas como património ou reserva ecológica.  O Dr. Boonma junta-se assim à voz de Rama IX que há tantos anos vem avisando acerca dos malefícios inerentes a um desenvolvimento desregrado que além de destruir os centros urbanos, cava um profundo fosso entre estes e as zonas periféricas do país, provocando uma séria ameaça à estabilidade social.

 

Durante muitos anos, o monarca insurgiu-se contra a forçada secagem dos klongs - canais - que outrora sulcavam Bangkok como grandes avenidas fluviais e que emprestavam à capital o lisongeiro epíteto de "Veneza do Oriente". Era verdade. Grandes avenidas betonadas como a Sathorn e adjacentes, foram durante dois séculos, canais pelos quais circulavam barcos carregados de gente a caminho do trabalho e mercadorias a distribuir pelos bazares da cidade e áreas vizinhas da capital. Quase todos desapareceram, cobertos por fitas de cimento ou de asfalto, sobre as quais rola um infernal tráfego de automóveis, camiões, motas e tuk-tuk. Viadutos, pontes e o metro aéreo esmagam as antigas construções, descaracterizando uma cidade que cada vez mais se parece com uma megalópole tão típica deste período ascensional da selvagem plutocracia asiática. Arranha-céus com cem pisos, colossais centros comerciais, terciarização do centro, eis o panorama para o qual o Rei tantas vezes alertou, na sua constante e porfiada luta pela defesa do Ambiente.  A par destes malefícios, soma-se a liquidação do património arquitectónico e o irresistível despovoamento de vastas áreas do interior do país. A fuga para a grande cidade é uma constante desde os finais dos anos 80 e não dá mostras de estancar. De facto, esta debandada pauperiza as zonas rurais, levando ao descuidar dos campos, ao acelerarado abate da floresta e evidentemente, à falta de segurança nas fronteiras, todas elas circundadas por Estados altamente instáveis e muito mais pobres do que a Tailândia. Até agora, o país dos Thai tem sido um imã que atrai gente que foge do estalinista Laos e do até há pouco espezinhado Camboja. A noroeste, a Junta birmanesa prossegue na senda da repressão violenta que penaliza o desenvolvimento do país e leva muitos a atravessar a fronteira em demanda de um futuro melhor e da garantia de salvação da própria vida. Pois há quem queira ver ruir este autêntico oásis regional.

 

O Dr. Boonma alerta para o nosso bem conhecido factor da apropriação do Estado pelos caciques locais ao serviço dos grandes interesses económicos e financeiros que inevitavelmente se sobrepõem à política. A progressiva feudalização do território - que em Portugal sofre cíclicas investidas sob o afável termo de intencional "regionalização" -, leva ao total descontrolo das actividades ilícitas, sejam elas do foro especulativo, ostensivo desrespeito pela Lei Geral do Estado, tráficos vários entre os quais - como cá - pontifica a droga e a lavagem de capitais, etc. A este sistema, o Dr. Boonma chama oligarquias político-empresariais que arrasta uma região inteira para a sua dependência através do instituído sistema patriarcal, talvez à velha imagem da Máfia siciliana. Mas afinal, quem será esta gente?

 

Diz o autor que..."em resultado disto, a Tailândia está hoje praticamente dividida em feudos controlados por obscura gente endinheirada (...) o conflito das últimas semanas reflecte conflitos entre estes e também, com políticos que são um pouco mais idealistas e não susceptíveis de se acomodarem aos pontos de vista dos primeiros".  Mais avisa que os políticos idealistas - apenas consigo ler o nome Abhisit, um homem até hoje acima de qualquer suspeita -, perderão a presente batalha, deixando o país ser governado por escroques milionários que o colocarão no caminho de se tornar num Estado falhado". Não será muito difícil entendermos que o alvo do académico apenas pode ser um: Thaksin e a restante clepto-plutocracia - interna e externa - que o cerca e que trouxe mercenários para batalha no centro da capital.

 

O Reino siamês é uma Monarquia Constitucional e contudo, a esmagadora maioria dos thais esperam sempre uma palavra - de ordem moral e balizadora de consciências - a ser proferida por Bhumibol Aduliadej. A limitação que o articulado constitucional impõe ao exercício do poder executivo é um daqueles paradoxos típicos de qualquer democracia moderna. Naquela parte do mundo, a Tailândia é o que de mais parecido existe com uma democracia europeia e este é um facto indesmentível. Na verdade, ultrapassa em todos os domínios qualquer um dos países balcânicos recentemente integrados na União Europeia.  Na Tailândia o Rei reina, pode e deve aconselhar, sem que contudo directamente governe. É a força da terra e da gente.

 

Rama IX tem ao longo de décadas percorrido o país de lés a lés e são incontáveis as instituições criadas sob o seu patrocínio. Desde a protecção à agricultura, ao artesanato, da cultura tradicional ao ensino, saúde, floresta e recursos hídricos, até à sempre eterna luta pela preservação do património histórico, o monarca tem sido exemplar e a população - "red", yellow", "pink" ou "blue" - disso se apercebe e claramente vê o palácio como o derradeiro recurso à disposição para o dirimir de contendas. Há quem fora das suas fronteiras não consiga entender este thai style e assim sendo, deverá informar-se melhor e compreender aquilo que uma longa história de país sempre independente nos ensina.

 

Resta saber se os poderosos desnacionalizados - Thaksin é hoje tão tailandês como os srs. Soros ou Murdoch - se importarão muito em continuar alegremente o próprio caminho para o abismo.

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publicado às 13:52







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