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Bangkok: as horas decisivas

por Nuno Castelo-Branco, em 19.04.10

Esta tarde, a manifestação em defesa da legalidade e do regime

 

Acabado o período de férias do Songkran, a população urbana começa a regressar à capital e por aquilo que as imagens dos derradeiros dias têm mostrado, vai crescendo o tom de indignação pelo sórdido espectáculo oferecido semana após semana, a um mundo quase indiferente. Os tailandeses são um povo orgulhoso e cioso da questão das aparências - não gostam de perder a face - e a profunda degradação das zonas mais frequentadas pelo florescente turismo ocidental, é de molde a enervar os ultrajados residentes e comerciantes. A liderança thaksinista aposta na ruína económica e no crescer do descontentamento que obrigue o regime a baixar os braços. Por outro lado, espera-se uma progressiva participação popular em quotidianas manifestações em defesa da Lei, da Constituição e da Coroa, daí a pressa dos subversivos em jogar tudo por tudo nos próximos dias, ao mesmo tempo que orquestram manobras de diversão, como "apelos ao Rei", "rendição", etc.  Em qualquer país europeu, uma situação que tivesse atingido uma fracção daquilo a que temos assistido, já há muito teria sido tratada de forma lapidar, para nem sequer referirmos os "métodos dinâmicos" utilizados mais para o Leste, onde o regime do presidente Putin não hesita em utilizar toda a força do Estado para a manutenção da sua segurança interna. Isto, perante o generalizado alheamento ocidental, dada a importância da Rússia. Os negócios falam antes do sangue derramado.

 

O plano do assalto ao poder obedece a um conhecido e muito clássico esquema gizado pelo desaparecido Komintern e seus sucedâneos. Os métodos são facilmente adaptáveis a cada uma das situações nacionais onde urge intervir e contam sempre com a contemporização das sociedades liberais, reféns de palavras de ordem daquilo a que genericamente designamos hoje como "politicamente correcto", princípio da não-violência e contemporização perante as investidas dos radicais. Em suma, os reds são uma ínfima minoria, hábil e vergonhosamente escudada por detrás de gente naive e indefesa, onde avultam idosos e crianças de colo, enquadrando o esquema geral de resistência às forças do Estado. As etapas para as cartadas decisivas, estão há muito previstas:

 

1. Provocar a todo o transe a máxima violência urbana entre "massas desprotegidas" e forças militares "opressoras". Vivemos no império da informação e os sediciosos conhecem as reticências dos sectores liberais no uso de uma autoridade que a imprensa facilmente generalizará em termos de "tirania, abuso de poder, prepotência", etc. A liderança thaksinista - refugiada nos hotéis de luxo da "zona de combate" -, quer a guerra custe o que esta custar, nem que para isso acabe por impor acordos que logo rejeitará, inventando todo o tipo de desculpas para tal.

A imprensa afecta à subversão e as suas conhecidas correias de transmissão nos grandes interesses económico-financeiros no Ocidente, tenderão a propalar notícias gizadas pelos thaksinistas, apresentando agora as "milícias encapuzadas" como se "terroristas do governo e seus aliados" se tratassem. Clássico, este processo de vitimização. 20.000, 50.000 pessoas insurrectas nas ruas de Bangkok, podem parecer uma enorme multidão para os europeus que se habituaram à morigeração de costumes militantes. Na Tailândia, 1.000.000 de militantes - e não é este, nem de longe, o caso em questão! - são uma ínfima minoria, engrossada apenas pela agit-prop muito activa e teleguiada do exterior e por estrangeiros que se mantêm no país. O governo tailandês conhece essa situação, tal como a divulgou ao mundo há apenas alguns dias.

 

2. Apelar ao Rei

O ponto fundamental a reter, consiste no facto da liderança vermelha não desejar qualquer dissolução parlamentar que não seja imediata.

 

Perdida a luta pelas massas urbanas que não possuem, decidirão a clássica manobra de diversão, apelando directamente ao Palácio, mas manifestam desde já as exigências leoninas que são facilmente previsíveis e inaceitáveis:

a) imediata dissolução do Parlamento.

b) formação de um governo "até eleições" do Pueh Thai - o mal disfarçado partido de Thaksin - que se encarregará de "preparar futuras eleições". Dadas as escabrosas situações que se verificam nas províncias onde o thaksinismo instalou uma mafiosa rede de poder oligárquico-financeiro-empresarial de cacicagem e generalizada dependência, podemos imaginar o tipo de eleições que o "novo governo" poderá organizar.

c) imparável tentativa de afastar os principais concorrentes da ida às urnas. No poder "provisório", alegarão todo o tipo de razões para interditar o PAD, tal como já estão a fazer relativamente ao mais antigo Partido do país, o Partido Democrático que agora tentam dissolver. Apenas concorrerão com anões políticos.

d) vão anunciar uma imediata "revisão constitucional com intuitos modernizadores". Isto implica a bem pensada preparação da opinião pública, exaltando por enquanto a figura do Rei, mas exigindo a liquidação de instituições que alegadamente "afastam a Coroa do povo". O alvo primordial é a cabeça do regime e o Conselho Privado que na Tailândia, faz a vez do nosso Conselho de Estado, mas bastante mais influente que o de Lisboa. A conseguirem o intento, o Palácio fica-lhes nas mãos, sem contacto com qualquer força viva do país, seja ela da sociedade civil ou militar.

e) romenização da monarquia, seguindo grosso modo o modelo que Estaline e Gheorgiu-Dej impuseram ao rei Miguel I e à Roménia dos anos de 1944-47. Foi a isso mesmo que ainda há menos de dois anos assistimos no Nepal.

Contando com o declínio da saúde de S. M. e o seu eventual desaparecimento - que acima de tudo hoje esperam e desejam -, teremos o já iniciado processo de diabolização dos sucessores à Coroa e a laboriosa preparação para um referendo que dite nas urnas - quase sem manifestação de posição contrária -, o resultado pretendido por Pequim. Este é antes de tudo, um processo de luta pela hegemonia regional.

 

No apelo ao Rei - que sabem ser difícil ou praticamente impossível de ver compactuar com a subversão -, poderão também estar a prever o silêncio do Palácio, avesso à luta partidária. Então, na habitual estratégia bolchevique, apontarão baterias contra a Instituição, declarando-a ... parcial!

 

Este é um esquema velho de praticamente um século e que tem sido adaptado às circunstâncias de cada um dos alvos pretendidos.

 

Nesta luta pela conquista do vasto espaço estratégico que controla a passagem entre o Índico e o Pacífico, a China tudo tem feito para atingir os mares quentes do sul. Bases "informais" na Birmânia, a conquista das alturas dos Himalaias que para sul do Nepal lhe oferecem uma excelente posição em direcção ao odiado rival indiano, a aproximação a Teerão e uma activa penetração em toda a África austral e oriental. A Tailândia é apenas um peão a abater e no caso de um por enquanto improvável sucesso, privarão os EUA de um aliado vital, interrompendo um dos elos da corrente amiga que liga os americanos ao Japão, Taiwan, Tailândia e Índia.

 

Os próximos dias aconselham a atenção dos poderes ocidentais.

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publicado às 19:13







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