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A "informação portuguesa": uma amiba

por Nuno Castelo-Branco, em 25.04.10

A Tailândia é um dos elos mais sólidos da presença portuguesa no Oriente e que até nós chega como um eco exótico de um passado glorioso e perdido. Não é um país qualquer.  Foi com um Estado independente que negociámos o primeiro Tratado celebrado entre uma potência europeia e outra do Extremo Oriente e as relações foram constantes e de benefício mútuo.

 

A imprensa portuguesa tem dado um tristíssimo espectáculo daquilo em que se tornou. Couto dos grandes interesses económicos  e dos comunicantes vasos políticos subservientes, pouco se interessa por aquilo que não pertença à esfera do imediato da contabilidade euro-americanizante. Os artigos referentes à política internacional são de uma pobreza confrangedora. Não existindo o mínimo conhecimento histórico de qualquer realidade em foco num dado momento da actualidade, na maior parte das vezes, os nossos jornais e noticiários televisivos, limitam-se a patéticas reproduções daquilo que as agências internacionais lhes transmitem. É o vexatório copy-paste de uma dúzia de linhas, onde os critérios da pretensa análise obedecem sempre ao formatismo aceitável pelos padrões ocidentais, desprezando-se sociedades milenares e que socialmente são tão ou mais consistentes que a esmagadora maioria das suas congéneres europeias.

 

Os acontecimentos de Bangkok são bem o espelho da mediocridade da nossa imprensa. A grosseira ousadia de umas tímidas linhas que a medo obedecem ao ditame da separação de águas entre a o folhetim do "homem rico-homem pobre", estampa-se na mesma página em que a itinerante odisseia do multi-milionário Thaksin faz crer a uma opinião pública tão ignara como o escriba que a informa, ser um ente benfazejo e apenas interessado num bem comum que na realidade se reduz ao seu círculo mais íntimo. Não tardaríamos muito até sermos dentro em pouco obrigados uma vez mais, a ler ou a escutar uma variação de "lendas e narrativas" já copiosamente aplicadas a Messalina, Catarina a Grande, Carlota Joaquina, Carolina de Nápoles, à czarina Alexandra ou a Magda Lupescu. São sempre as mesmas estórias, sem que se acrescente um único ponto que as torne pelo menos um poucochinho credíveis.

 

É o conhecido processo da separação infinita da amiba.

 

Os nossos jornais e televisões são farto campo para preguiçosas rezes que vão ruminando umas tantas misérrimas folhinhas, dia após dia. A mesma notícia num rame-rame infindo, mudando apenas as frases, mas permanecendo com aquela rigidez própria de cadáveres, os corpos essenciais que fazem de figurino noticioso. São arrotos de uma vergonha que faz empalidecer a outrora serôdia arrogância da há muito desaparecida Margarida Marante ou a presente arrivista desfaçatez tagarela da Dª. Judite de Sousa, sempre pronta a trautear opinião em seara alheia. Não se pode descer mais, forçando o roçar de tantas e tão proeminentes barrigas até ao leito das profundezas da Grande Fossa do Pacífico.

 

Nada conhecem, nada procuram e medeiam os três ou quatro coffee brakes do expediente, com uma apressada vista de olhos na Reuters, na BBC World e na inefável dirigista CNN, da qual copiam os penteados e vestimentas, os tiques talk-talk, painéis da moda e respectivos cenários, os jingles anunciantes de programa e pior que tudo, o esquema padronizado da necessária separação conceptual das águas. Desta forma, é totalmente indiferente escrever acerca dos acontecimentos de um dado tempo, passem-se eles na Sérvia, no Nepal, Afeganistão, na ex-Ásia Central soviética ou nas províncias orientais da Bolívia. O que está em causa é a engenhoca montada por um barbudo oitocentista e pelos seus ersatz desbarbados e de colarinho branco que adaptam a trombeta às novitecnologias e ás necessidades do mercado, a palavra mágica que serve de Abre-te Sésamo de qualquer carreirola de recurso ou arranjo propiciado por cunha amiga.

 

Percorrendo dia após dia, semana após semana, as páginas do Diário de Notícias, Expresso, Público ou de outras menos consideradas ou empafiosas entidades enfardadoras do pronto-a-servir noticioso além-fronteiras, verificámos a total ausência de um único artigo de opinião de qualquer jornalista português. Ninguém se lembrou de enviar um repórter nacional - ou local, previamente contactado como correspondente - para o distante país que dentro de poucos meses connosco comemorará cinco séculos de uma relação ímpar entre a Ásia e a Europa. As escassas fotos disponíveis, são precisamente as mesmas que encontramos nas grandes transmissoras internacionais que despoticamente tutelam aquilo que deve ou pode ser dito ou não dito. Antes de vermos uns segundos de uma rixa na Silom, via qualquer um dos canais da RTP, SIC ou TVI, já a Euronews passou a peça há horas, em simultâneo com a BBC!  Absolutamente lamentável, será também a completa falta de curiosidade da consulta das publicações especializadas nos assuntos internacionais e nem aqueles títulos mais conhecidos como Le Monde Diplomatique merecerão uma apressada passagem de dedos pelas suas páginas em cata de algo de desconhecido que nos bafeje com uma brisa de novidade. Nada, é o zero absoluto e apenas obcecado com liliputianos escândalozinhos de cuecas sujas de um outro agente político-económico, da transferência ou do pequeno almoço de um futeboleiro ou os encartes com esquálidas rapsódias acerca de um centro da terceira idade, algures perdido nas faldas da Serra do Espinhaço de Cão. Ficam-se por aí, porque pouco ou nada mais conseguem além do cumprimento do essencial que lhes garante o pagamento da mensalidade do T2 e do monovolume, dois autênticos programas em eterna renovação quadrienal para o resto da vida.

 

Enfermando daquela indolência mental congénita que os limita a pouco mais que o comentário da política bairrista, jamais lhes ocorre a procura dos seus próprios nacionais que lá fora residem e que podiam - mesmo a título desinteressado, completamente gracioso - prestar o inestimável auxílio enriquecedor de peças de informação que até hoje, nada mais são, senão meras traduções de trabalho alheio, bastas vezes papagueadas à pressa.  Fotos inéditas, entrevistas a populares que participam em históricos acontecimentos que podem ou não mudar o destino de todo um povo, têm servido para o dia a dia de um blogue cujo autor conhece a história tailandesa, reside em Bangkok e a poucas centenas de metros do local onde se confrontam dois princípio irredutíveis: o da Ordem e o Caos.

 

Aos nossos Kens e Barbies que vão seguindo fixamente os telepontos enviados de fora, é perfeitamente desprezível a existência de gente que fala a língua em que hoje se manifestam milhares em Bangkok - e já em todo o país, numa salutar união popular contra uma "revolução" para já falhada - e que poderia ajudá-los a compreender as razões do porquê da actual situação. Um simples contacto com um jornal ou um canal de televisão da capital tailandesa, seria mais do que suficiente para que em Portugal existisse um órgão capaz de um inédito furo jornalístico, fosse a que horas fosse do dia, no preciso local onde se vocifera, reage e por vezes se morre.  A BBC tem contactado alguns residentes britânicos que como é geral apanágio dos portadores do passaporte concedido pelos governos de Sua Graciosa Majestade, nem uma palavra local conseguem balbuciar, limitando-se aos já inaudíveis very nice and very friendly people, aliás decorados de qualquer folheto turístico recolhido numa agência de viagem. A RTP, a SIC, a TVI, podiam fazer muito mais e melhor, mas jamais ousarão consegui-lo. Já se encontram completamente invadidas pelo espírito da curiosidade globetrotter do Club Mediterranée e do pacote de viagem aeroporto-hotel-excursão ferry algures, numa vigiadíssima praia de coqueiros na República Dominicana. De preferência num resort cercado por arame farpado, guardas bem armados e excursões às compras de lembranças, mas com escolta.

 

Os nossos jornalistas fazem o pleno do imediato. Não tardará muito até substituírem a bica e o pastel de nata, por um imundo Starbucks acompanhado pelo peganhento donut.

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publicado às 00:45


1 comentário

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De kgmimgp a 08.05.2010 às 14:40

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