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Abhisit: tchorakê kwan klong

por Nuno Castelo-Branco, em 26.04.10

As famosas latrinas que não são despejadas e que exalam vapores nauseabundos

 

Tive ontem o privilégio de ter passado uma boa parte do dia com a minha amiga Lena, uma luso-brasileira sempre linda e capaz de rivalizar comigo em memórias. Conhecia-a nos tempos da faculdade, quando durante uns dias, recolhemos umas largas centenas de assinaturas para uma petição que protestava contra a destruição de uma parte do Jardim da Gulbenkian. A Fundação iniciava a construção do bastante sofrível edifício onde alojou a sua colecção contemporânea e os montões de terra e o abate de centenas de metros quadrados de jardim, foram considerados por muitos como um atentado ambiental sem precedentes. Outros tempos.

 

Para meu espanto, a Lena acaba de chegar de Bangkok - lamentou não saber que o Miguel ali se encontra há anos -, após uma odisseia de voos cancelados, mudanças de hotel, tráfego cortado e claro, a perspectiva daquilo que nos primeiros dias aparentava ser uma "revolução". Curiosa e aproveitando a condenação a uma estadia que de forçada acabou por ter muito pouco, foi assistindo à evolução dos acontecimentos. Impressionada com os delírios dos primeiros dias, desistiu de uma semana de praia em Hua Hin e aproveitou para melhor conhecer a grande cidade. Pela primeira vez

viu uma outra Tailândia até então imperceptível e bem diferente do sabai-sabai (tudo bem, tudo bem) que a todos os visitantes cativa.

 

Estupefacta pelas movimentações ruidosas que ocupavam as ruas com muitas centenas de veículos onde sobressaíam as pick-up tão típicas das zonas rurais e alguns compactos cortejos de motoçai (motorizadas), não compreendeu a inicial passividade das autoridades que deixaram Bangkok à mercê do livre arbítrio da multidão, ou melhor, da decisão dos chefes do grande grupo. Eram às dezenas de milhar, talvez trinta ou quarenta mil, podendo variar consoante a hora do dia. Repartiam-se por alguns pontos da cidade, tal o espaço que a mole humana ocupava. A visita aos acampamentos mostrava uma imensa maioria de gente nitidamente de origem campesina, mas enquadrada por alguns chefes de grupo que lhe recordaram - não sabe porquê - alguns filmes japoneses que narram época gloriosa dos potentados samurais. Ao fim de poucos dias, o perímetro ocupado já se tinha transformado num imenso monturo de todo o tipo de imundícies, onde o odor de restos de comida apodrecida alternavam com os omnipresentes vestígios das necessidades fisiológicas vertidas em plenos passeios, estrada e zonas circundantes dos centros comerciais e hotéis de prestígio. Consistiu no ruir da ciosamente guardada reputação de limpeza extrema que todos os estrangeiros reconhecem nos tailandeses e viu-se perante uma situação nova. Efígies de Thaksin por todo o lado, comes e bebes em quantidades astronómicas e despejadas às famintas goelas de militantes que dia após dia torravam sob um sol inclemente.  A música era ensurdecedora e limitava-se aos cha-cha-chas readaptados e que fazem a delícia naquelas paragens do mundo e claro está, recordou-se imediatamente de um outro tipo de melodias muito típicas do seu país natal e que nos confins rurais é conhecida por música sertaneja. É isso mesmo que a gente do Issan aprecia e as vozes mais ou menos langorosas dos artistas, falam de amores despedaçados e de possíveis reconciliações. Faz-se uma revolução com um espírito destes? Não. Afinal de contas, tudo parecia ser apenas uma imensa festa e os chefes obtinham a automática aprovação dos seus discursos, mesmo que a assistência estivesse mais ocupada a conversar, a comer ou a ouvir a sua música. Os líderes de grupo controlavam os seus contingentes, mas nem sempre conseguiam as pretendidas rajadas de palmas. Vivia-se como se podia e tudo aparentava nada mais ser senão uma gigantesca excursão à até então desconhecida capital.

 

A situação começou a mudar de forma sensível, quando a Lena notou o progressivo esvaziar de participantes no ininterrupto comício, precisamente no momento em que os populares da quilo a que se chama maioria silenciosa, começavam a sair à rua em defesa do Estado.  Dia após dia, o perímetro ia encolhendo, até que há cerca de duas semanas, se resumiu a um ruidoso e muito mais agressivo resquício da onda que assustara nos noticiários e fizera crer na possibilidade de acontecimentos sem precedentes. Embora continuem presentes até hoje as crianças confiadas à guarda dos seus avós, o número é nitidamente menor, embora ainda bastante visível, uma vez que normalmente servem de primeira fileira que garante a contemporização das forças da autoridade. Na zona da Silom-Lumpini onde agora estão circunscritos, os ocupantes conseguiram devastar totalmente uma boa parte daquela movimentada área, amontoando-se colinas de pedras arrancadas aos passeios e muros circundantes de propriedades. Pneus, ferros de toda a espécie, madeiras, latas, pilhas e pilhas de garrafas de vidro e um nauseabundo fedor que já é sentido algumas centenas de metro de distância, a partir da entrada da AUA-American University que ambos já frequentámos. Tudo parecia bem diferente daquilo a que assistira há alguns dias. Os sorrisos rareavam, o aborrecimento notório e o aspecto do grosso dos homens que à frente tudo pareciam decidir e coordenar, aproximava-se bastante daquilo que imaginemos ser o grupo Abu Saiaf. Surgiram as primeiras bancas com merchandising que na Europa conhecemos em qualquer feira de rua em Berlim, não faltando crachás, bonés à Mao, alguns posters e o inevitável ícone à Xanana Gusmão, mais conhecido por Che Guevara. Ficou a pensar se aquela gente fará a mínima ideia de quem sejam as personalidades, embora umas mais conhecidas do que outras. Pelos vistos, até J.J. Rousseau já faz parte da encomenda, embora na nossa Europa se deva poder contar pelos dedos de uma mão, o número de alunos que em cada escola já terão ouvido falar do homem. Pois em Bangkok, já lá está, discreto e no meio de Deng Xiaoping, Mao, Lenine e os outros barbudos da praxe. Thaksin ainda vai resistindo aqui e ali, mas já sem um grande apego dos seus outrora entusiásticos e retornados a casa apoiantes. Parece um dia de Feira do Avante, mas com o solo minado por todo o tipo de obstáculos, onde os dejectos humanos são a parte escorregadia e mais perigosa.

A "Feira do Relógio/Avante", numa hora morta

 

Teve a sorte de não poder deslocar-se à Silom naquela fatídica noite dos rockets, mas o indignado pessoal do hotel esclareceu-a acerca do que se estava a passar, esquecendo momentaneamente todas as regras da usual compostura. O desejo de justiça pelas próprias mãos, o exaltado apelo à acção da autoridade que repusesse a ordem a todo o custo, fez de imediato desabar aquilo a que durante dias a CNN transmitiu a um mundo bastante desinteressado pelos acontecimentos e mais atento ao golpe de Putin no Quirguistão. Falou com os empregados de mesa, com a gente dos restaurantes de lojas de Pratunam e  notou uma quase total unanimidade no sentido de se por cobro a uma situação que prejudica o normal funcionamento da cidade e pior que tudo, denigre a imagem do país aos olhos dos farangs (estrangeiros). No entanto, quando dos acontecimentos do final da passada semana, já a Lena tinha a certeza absoluta do fracasso daquilo que inicialmente pareceu ser uma insurreição, mas que cada vez mais aparenta ter-se tornado numa grande Feira do Relógio. Julga que a moderação do governo e a passividade das forças de segurança - que julga intencional -, acabaram por surtir o efeito pretendido, evitando o agravamento dos confrontos e desmobilizando uma militância já bastante diminuída numérica e animicamente. Por aquilo que ouviu da boca de um dos "dirigentes", a questão que se coloca é a da clássica "perda da face dos red" que deverá ser evitada por khun Abhisit. Trata-se de uma questão de um simples espectáculo de sombras  chinesas, já sem a inicial presença dos órgãos de comunicação social ocidentais, hoje também residuais na zona do drôle de guerre.

 

Como lhe disse o tal Wichai, agora os vermelhos vêem em Abhisit, um tchorakê kwan klong (um crocodilo atravessado no canal) e no fundo, até o têm numa certa dose de consideração pessoal. Simplesmente, venceu.

 

Abhisit, tchorakê kwan klong. Bem visto!

O sol a bater em chapa na plasticaria (reservada aos mais notáveis), transforma o espaço numa grande sauna malcheirosa

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publicado às 23:52


2 comentários

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De Pedro Coimbra a 27.04.2010 às 09:26

Por indicação de um amigo, passo a seguir o Estado Sentido a partir de hoje.
Um abraço desde Macau
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De Nuno Castelo-Branco a 27.04.2010 às 18:04

Agradecidos pela atenção, seja bem-vindo!

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