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Bangkok: a defesa elástica

por Nuno Castelo-Branco, em 28.04.10

Foto cedida pelo Combustões

As notícias já são escassas e indiciam uma progressiva acalmia. Aparentemente, começou a dissolução daquilo que inicialmente, julgou-se ser um movimento bem organizado. O calor infernal, os caudais de dejectos, as infindáveis semanas de tensão e de espera por um desfecho improvável, conduziram ao insucesso anunciado. Minguando de número a cada dia que passava, entrincheiraram-se numa Linha Maginot de bambu, latas e pneus velhos. Rapidamente conseguiram a proeza de concitar a generalizada oposição da população do país e se excluirmos apenas um caso - bastante reciclável -, verificou-se uma catastrófica ausência de um único relações públicas. Bem pelo contrário, surgiram todo o tipo de excelsas truculências de outros tempos, num misto de Idi Amin com Jean Marie Le Pen locais. Catanas, tacos de baseball, óculos escuros, lenços "à mitra", soqueiras, cacetes ameaçando bordoada a torto e a direito, eis a imagem que fica. A um canto, um punhado de eternas vítimas manipuladas, ou melhor, despoticamente abusadas como um tropel de gado a caminho da cerca. Velhas, crianças de colo e pobres mulheres decerto crivadas de saudades dos seus lugares rurais, eis o escudo humano.

 

Pelo meio, surge intermitentemente um louco que parece ter saído de uma das piores aventuras do Rambo em versão Made in Hong Kong. Militar de carreira, este Seh Daeng deve ter obsessivamente visto e revisto o "Último Samurai" e agora, em plena capital do reino, quer reinterpretar o papel de Tom Cruise, mas numa versão bastante mais barriguda, iracunda e toldada pelos vapores da fama a qualquer preço. Giza uma estratégia de defesa que se baseia numa velha táctica de ouriço que nos finais do século XVIII fez prevalecer as forças de Rama I frente aos invasores birmaneses. Uma delirante coisa de outros tempos, de um mundo tão desaparecido como o xogunato. Pobres diabos, já merecem a comiseração.

 

Agora, parecem baratas tontas. Da esplanada fronteira ao imponente Dusit Thani, vão-se dispersando em múltiplos grupúsculos, pretendendo atrapalhar a fluidez do tráfego, o comércio e a vida quotidiana de quem quer ir trabalhar ou frequentar a escola. Saem de Rachaprasong e deslocam-se para aqui e para ali errando sem destino e até ao antigo aeroporto de Don Muang, aqui encontrando forte e inesperada oposição policial. Para cúmulo do azar, cai uma torrencial carga de água, como se o céu finalmente pretendesse limpar as ruas e os maus espíritos que têm vagueado em cada esquina da Cidade dos Anjos. Poderão ainda tentar um último esforço, uma Kursk urbana sem esperança, mas o esquema da "defesa elástica" é o reconhecimento do fracasso. Já não é tempo para Pis*, mas sim de acalmia, reconstrução e reformas.

 

O Rei falou e apelou à união do povo e ao cumprimento do dever por todos.

 

Nos próximos dias, o país leal sairá à rua, em direcção aos seus afazeres quotidianos que apenas os "profissionais da revolução alheia" ignorarão. Como sempre e durante uns meses, os teóricos das "grandes causas" perorarão incansavelmente entre si, numa eterna procura da causa do óbito. Resta-lhes o consolo do gin tonic e uma estância balnear não muito distante do palco da revolução falhada.

 

Pelo que parece, é mesmo o fim.

 

* Pis: fantasmas, espíritos

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publicado às 12:20







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