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Bangkok: os gatos também se penteiam

por Nuno Castelo-Branco, em 17.05.10

 

"Não ouço vozes, nem mesmo o ressonar daqueles que pela primeira vez em dois meses adormeceram sem a a gritaria do comício que os manteve em permanente vigília. O dédalo de ruelas do templo e do bairro popular que se encontra nas suas traseiras está calmo, terrivelmente calmo, pois sendo Banguecoque uma metrópole cheia de ruídos, hoje não se ouve um carro, uma voz, nem mesmo o latido de cães. Pela primeira vez em dois anos e meio de Tailândia, ouço o ressoar dos meus passos."

 

Leia mais no  COMBUSTÕES

 

 

Aparentemente na fase final, a luta nas ruas vai evoluir para outra muito mais radical e feroz em comparação àquela a que temos assistido. Passar-se-á nos jornais e televisões de todo o mundo e neste campo de batalha, o governo tailandês não vai contar com qualquer trégua. Os intencionalmente mal-infomados círculos "bem informados", são velhos conhecedores de campanhas agit-prop de manipulação da notícia a disponibilizar. Dão a preferência a cenas pungentes, plenas de drama e como é evidente, a receita ficará perfeita, se conseguirem encontrar os essenciais ângulos visuais onde os camuflados e as metralhadoras do Estado, defrontam ..."pobres civis indefesos e apenas armados com fisgas, pneus a arder" e pouco mais. É este o novo patamar da "defesa elástica", principalmente quando todos os líderes moderados abandonaram o campo, deixando-o como pasto dos mais radicais.  Habituada a uma intoxicação de décadas, a desinteressada opinião pública ocidental não raciocina, sorvendo qualquer mensagem fast-food disponibilizada hora a hora. Assim, a única questão que se coloca, pode ser esta: se os rangers vestidos de negro apenas utilizam armas rudimentares, a que se deverá a hesitação e cautela dos soldados do exército regular? Bem protegidos com capacetes, coletes à prova de bala e perneiras blindadas, o que receiam?

 

Na sequência dos acontecimentos de 10 de Abril, publicámos algumas fotos que também correram um mundo, que entretanto delas parece estar esquecido. De fonte fidedigna - o meu velho amigo Chokchai -, fui informado da confirmação da existência de uma grande quantidade de armas automáticas e também, do inacreditável número de grandes botijas de propano, empilhadas em lugares estratégicos do já reduzido perímetro thaksinista. Viu ainda homens encapuzados debaixo de vastos estendais de lona, protegendo-se da visão dos snipers do exército. Granadas de mão, pistolas e ..."umas coisas que parecem espingardas com uma pinha no fim do cano" - de certeza RPG's - estavam amontoadas ao lado de caixotes de madeira. O Chokchai é muito moreno e embora seja de Aiutáia, passa perfeitamente por natural da província do Issan e assim, circula livremente pelo campo, sendo um tipo "de confiança".

 

Neste momento e ainda no campo internacional, Thaksin optou por outra manobra dilatória que lhe garanta um mínimo de visibilidade e mais importante ainda, o derradeiro ensaio para uma sobrevivência política cada vez mais improvável. A "sua" pantagruélica conta bancária que se foi amontoando às custas dos contribuintes e de bens que outrora pertenceram ao Estado, exige este supremo esforço. Apelou à intervenção da ONU!

 

Em desespero de causa, recorre precisamente a um obsceno artifício que enfurecerá a generalidade da população, inclusivamente muitos daqueles que outrora o apoiaram por diversas razões. Os tailandeses não suportam qualquer tipo de interferência externa  e ainda é com mágua que recordam os esbulhos sofridos às mãos das sôfregas potências coloniais. Obrigados a ceder o Laos, uma parte do Camboja, territórios que hoje fazem parte da Birmânia e o norte da actual Malásia, jamais se esqueceram da humilhação e da ameaça de perda da independência. A intervenção externa é um assunto tabu e disso os estrangeiros - principalmente os ocidentais - se deviam recordar sempre que estabelecem qualquer tipo de relacionamento com um siamês.

 

Inacreditavelmente, Thaksin apela à ONU, como se se tratasse de um chefe de um Estado invadido e ocupado por uma potência inimiga. Quando era primeiro-ministro e a pretexto de uma política de repressão ao narcotráfico, Thaksin mandou executar extrajudicialmente mais de 2.500 suspeitos, o que motivou uma rápida intervenção das Nações Unidas. Respondeu ao organismo internacional de forma arrogante, declarando que "a ONU não é o meu pai!"

 

Ajudado por uma reduzida parte de uma comunidade internacional dos gabinetes de interesses, Thaksin deita mão a todos os recursos disponíveis e comete outro clamoroso erro, ousando contratar uma empresa "branca" de advogados sediada na Holanda, a Amsterdam & Peroff.

 

O Bangkok Post, que durante tanto tempo contemporizou com as posições "vermelhas", responde de forma brutal à provocação que tem laivos de lesa-pátria:

 

"As for Thaksin’s call for all the feuding parties to step back and to seek to begin a new, genuine and sincere dialogue, that sounds reasonable and acceptable. But his call for UN intervention is unnecessary and unacceptable.

Why bother with the UN when Thaksin himself is a key to help solve the conflict and put an end to the bloodshed.

He is revered by the red-shirt leaders, the red-shirt protesters and the mob on the streets who have been causing mayhem in the past few days in Bon Kai, Sala Daeng, Witthayu, Din Daeng, Ratchaprarop and Victory Monument.

Why can’t Thaksin just instruct the red-shirt leaders to end the protest and allow the protesters to return home instead of asking for the UN’s help?  It is an open secret that the leaders are still answerable to him and often consult him.

If Thaksin genuinely and sincerely wants to see an end to the senseless violence and restoration of peace and order in his own motherland  - a country he used to say he dearly loves - what he should do now is not only demand the troops cease-fire, but order his own men immediately end the protest at Ratchaprasong.

Also, he should urge the street mob, who are mostly red-shirt supporters, to cease their mayhem and return home.
The government would certainly respond in kind, and a genuine dialogue could proceed."

 

Respaldado pelos conhecidíssimos revolucionários de five stars lounge, Thaksin pode contar com o desprezo daqueles a quem diz pertencer. Ou melhor, precisamente aqueles que durante anos comprou e a outros que quis comprar, arrastando-os para uma desnecessária aventura de já previsíveis consequências.



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publicado às 19:14







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