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Tailândia: a Vitória e a verdade escondida

por Nuno Castelo-Branco, em 19.05.10

 

Traduzindo a capa da publicação Poder Vermelho (Abril de 2010, em plena sublevação):

A Revolução russa - Os anti-monárquicos no início do século XX - A História não nos perdoará se não tomarmos o poder neste momento

 

 

Durante semanas avisámos quanto aos verdadeiros perigos que se apresentavam por detrás do movimento dos "reds": uma estranha coligação de elementos de conglomerados do grande capital financeiro e industrial e de líderes que antes de tudo, seguem as premissas da organização maoísta do Estado e da população. A actual R.P. da China apresenta uma síntese destes pressupostos aparentemente inconciliáveis, mas o percurso dos últimos trinta anos, confima plenamente o que parecia ser uma suposição. Poder totalitário do PC sobre o Estado, economia, forças armadas, polícia e população. O enquadramento da mão de obra  que outrora mobilizada para Grandes Saltos em Frente, Batalhas contra os Pardais e a Revolução Cultural, serve agora os desígnios da aliança globalizadora pelo lucro, a concentrar nas mãos de uma ínfima minoria que pretende conduzir a política mundial. Farmacêuticas, indústria alimentar e dos transgénicos, interesses mineiros e florestais, o crédito bancário, a política da subcontratação que está a liquidar o Ocidente como força activa e o controlo das fontes de matérias primas, eis o objectivo.

 

Todos os passos programáticos gizados pelo maoísmo, estão presentes nestes acontecimentos de Bangkok. Preparação de uma base camponesa através da dependência  que Thaksin criou através do crédito, desarticulação das instituições de segurança social, de educação e de saúde do Estado central nas províncias e tão importante como as demais, a organização armada miliciana que protege e apoia os caciques locais. O movimento encontra a facilidade de apoio em alguns países da zona e se o Vietname consistiu numa base de preparação ideológica e de treino de quadros, o Laos, com a sua população de etnia semelhante à da província do Issan, permite uma permanente assistência de grupos armados e perfeitamente treinados nas técnicas de guerrilha rural e urbana. O dinheiro não falta e torna-se uma ilusão pensarmos que a rigidez doutrinária comunista se compadece com percalços tácticos como o aberto conluio com os interesses industriais e financeiros. Antes pelo contrário!

 

O descarado ataque à Monarquia, deve-se fundamentalmente à percepção do papel aglutinador que a Coroa significa. Na Ásia oriental, a figura paternal do dirigente da nação - mesmo que no caso tailandês se revista do Estado de Direito e esteja submetida ao figurino constitucional -, sintetiza o sentimento de pertença a um todo, remetendo-nos para analogias já muito distantes da forma de organização das mentes que foi própria da Europa de outros tempos. Rama IX não é um déspota à imagem de Mao, Ho Chi Min, Kim il Sung, ou Kim jong Il. O papel do monarca garante a tradição de independência do país, assim como a unidade dos diversos grupos étnicos que o compõem, alicerçando-se no princípio tradicional de Rei-Budismo-Povo. Este dirigente que paira sobre a política do dia a dia e as naturais lutas de interesses económicos e de partidos, representa um obstáculo intransponível para qualquer projecto totalitário. Para a sociedade urbana, esclarecida, educada e integrada na nova economia a que a tecnologia empresta as ferramentas do progresso, a Coroa impede as veleidades concentracionistas de aventureiros que como Thaksin, perdem facilmente a identidade nacional, sempre em proveito do transnacional grupo de interesses globais. Esta é a verdade e um dos passos essenciais, consiste no descrédito mediático da própria Tailândia, mobilizando internacionalmente conhecidos grupos activistas ocidentais, os media patrocinados por grupos económicos que tão bem conhecemos, ONG's subsidiadas de forma obscura, etc.

Fora das grandes cidades, a Coroa é também o elo essencial que liga as regiões distantes e mais deprimidas, às promessas de um progresso material que inevitavelmente terá de chegar a médio prazo. Os projectos de desenvolvimento rural, a protecção do ambiente, a preservação e o desenvolvimento dos afazeres tradicionais das remotas localidades e a educação básica extensiva, visam proteger as profundas raízes culturais que dão à Tailândia uma imediata identificação cultural, reconhecida em todo o mundo. Assim, para a liquidação das forças que resistem a uma globalização que imprescindivelmente começa por ser regional - a Grande Ásia oriental, como os japoneses lhe chamaram nos anos 30 -, a Coroa deveria desaparecer como elemento fundamental na estrutura do Estado e do poder.

 

Sob a camada vermelha à superfície - a mobilizadora de massas ignaras mas potencialmente combativas e facilmente mobilizáveis pelo dinheiro fácil -, temos então o núcleo duro que almeja o poder totalitário, com a criação do Partido único, do Estado Novo Tailandês e a erradicação de todas as instituições políticas e culturais que permitiram a consolidação do país como unidade territorial e nacional. Neste caso de luta pela hegemonia, a plutocracia encontrou no maoísmo, um precioso utensílio de concentração de sinergias que possibilitem o cumprimento do programa. A China dos conglomerados industriais, da concentração de capital, da errante mão de obra abundante, da luta à escala global pela posse de matérias primas e que com tanto sucesso tem arruinado a indústria e o Trabalho do ocidente, é o exemplo da viabilidade deste esquema.

 

Desta vez, o Reino da Tailândia, o grande Sião, não caiu. O bunker está cercado e à distância de alguns passos. Hoje parecem ter sido derrotados, mas não nos iludamos. Voltarão num futuro mais ou menos distante, melhor organizados, financiados, com outro tipo de armamento e mais violentos que nunca. Esta é uma luta que transcende aspectos meramente locais.

 

Para que se compreenda facilmente o que está em jogo, recomenda-se a atenta leitura deste artigo.

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publicado às 20:30







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