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A ruína final

por Nuno Castelo-Branco, em 28.05.10

A nação não presta, dizia o abade Correia da Serra. Ao longo dos últimos séculos, a inteligentsia portuguesa, profundamente permeável a modas parisienses, foi esquecendo o obrigatório papel de formação, a que noutras latitudes estaria inteiramente dedicada como primordial missão. Os Correias da Serra reproduzem-se geração após geração – a Conferência do Casino foi um marco que ainda vinga -, auto exilando-se na sua própria terra ou rumando para o estrangeiro, onde finalmente poderão sonhar com uma proeminência que afinal raramente chega. Escolhendo países onde o estudo e a participação cívica fazem parte da normalidade quotidiana, é com surpresa que depararão com verdadeiras coortes de gente tão ou mais interessante do que eles próprios, sem que por isso os demais sejam forçosamente levados a curvaturas de espinha em respeitoso e embascado silêncio. Passam despercebidos e sentem-se mal. Paciência.

 

A televisão tornou-se no grande teatro que preenche a vida da casa, mesmo quando esta se encontra plena de gente que se dedica aos seus afazeres mais ou menos rotineiros e que oscilam entre o cuidado com a sua subsistência e os imperativos que a tecnologia trouxe. Os Correias da Serra ocupam quase integralmente os canais televisivos de informação por cabo, desfiando rosários de desgraças, amargas críticas e insinuações a respeito de gente desqualificada, inferior e capaz de todas as enormidades, mas que afinal, são a sua razão de ser. Barricados nas suas torres de menagem, não se preocupam em despertar o interesse da maioria dos compatriotas, mas sim em defender ciosamente o seu resplandecente espaço cerebral que decerto não terá rivais à altura. Poucos os entendem, não têm qualquer poder de captação de audiências e aquele grotesco pessimismo que faz escola, é por si capaz de tornar insuportável a simples visão daquelas faces carrancudas e tristonhas. Quantos Josés Hermanos Saraivas temos em Portugal? Posicionamento político à parte, este contador da História concita a violenta repulsa daqueles que sendo oficiosamente os seus pares, não suportam a popularidade e o magnetismo pessoal de um homem capaz de prender a atenção de multidões. Numa lodosa turfeira de desgraças e autocomiseração, JHS é aquele estreito caminho de terra enxuta que atrai os viandantes há muito órfãos do torrão que subitamente passam a olhar como imenso e até então insuspeitado. Será de direita e esse facto pouco interesse terá, se compararmos as por vezes discutíveis análises de eventos de um passado nebuloso, com o reacender da chama, mesmo que bruxuleante, de uma consciência identitária que para o melhor e para o pior, garantiu a existência de Portugal no decorrer de quase nove séculos. Desejável seria termos outros JHS das mais diversas filiações ideológicas e que pudessem contribuir decisivamente para afastar o rançoso complexo de inferioridade que criminosamente nos é inculcado há tanto tempo, há mais de seis ou sete gerações!

 

O povo português é admirável na sua teimosa persistência em manter-se como uma realidade única e com um pendor universalista. Generoso como poucos, é capaz de súbitos ímpetos que traz centos de milhar para as ruas das cidades e vilas, entusiastas mesmo que momentaneamente, por uma causa que a todos irmana. Assim foi com a libertação de Timor, talvez o acto cívico mais relevante do século que passou, resgatando uma pequena porção do amor próprio ferido pela inconsciência e apressado desleixo de alguns. Os portugueses prontificam-se sempre a defender os mais fracos e acossados – gostem ou não gostem, este é um dos sentidos a dar à calorosa recepção ao Papa – e entram em delírio colectivo, sempre que o nome desta terra ressoa pelo mundo fora. Um evento desportivo, um artista de sucesso “na estranja”, um inesperado galardão que chega para premiar um monumento ou um talento até então ignorado, tudo serve para galvanizar a nossa gente. Ferozmente ciosos da sua independência política face a outras potências, mesmo os portugueses menos preparados têm uma sólida consciência da indelével presença nacional em todos os continentes. De facto, este pequeno país ocupa um capítulo inteiro da História mundial, sem encontrar muitos rivais à altura. O legado português no além-mar, nada em comum terá com a putrefacta carcaça de outras aventuras imperiais que pouco mais deixaram, senão a recordação da cobiça, usura e do mau trato elevado à condição sine qua non das relações entre humanos. Na actual Indonésia, para sempre varrido o pó dos batavos, teimosamente resiste aquela comunidade que outrora obrigava os governadores chegados de Amesterdão, a provarem a sua competência na língua do inimigo lusitano, ferramenta essencial para o sucesso na sua missão. Os descendentes de portugueses de quinhentos e seiscentos, mesmo aqueles que poucos traços fisionómicos descortinamos como pertencentes ao nosso tipo, mantêm orgulhosamente aqueles nomes – quantas vezes símbolos da gesta – em paragens tão distantes como o Ceilão, ambas as costas do subcontinente indiano, o velho Sião, a Birmânia, Malaca Solor ou Flores. Resistem porque assim o desejam e apenas esperam um dia serem lembrados por em casa conservarem uma bandeira antiga, uma imagem de um santo, uns papéis quase ilegíveis e algumas moedas batidas com o rutilante brasão das quinas e castelos. Para eles, o importante consiste no sentimento de pertença que os faz sair para as ruas de Jacarta às quatro horas de madrugada, quando um tento consagra o país dos avós como o vencedor de uma competição desportiva. Bissau, a Praia, S. Tomé, Luanda, Lourenço Marques-Maputo, o antigo Estado da Índia e até Cochim ou Colombo assistem aos mesmos cortejos e ruidosas gritarias pela momentânea glória. Mesmo no desconfiado e arredio Brasil, assistimos há quatro anos a essa febre pelo escavar e trazer à luz do dia, aquelas raízes que tantas certezas oferecem a quem com elas se identifica. É um potencial de regeneração nacional que apenas criminosamente poderemos ignorar.

 

As cidades são um reflexo do amor próprio de um povo. Abandonadas à depredação especuladora, ao desregramento e incumprimento da lei e ao livre arbítrio, espelham bem o estado de prostração a que chegámos. O novo riquismo patenteado pelo actual regime, segue-se a outros tantos de tempos idos. Quando se falou na construção do Centro Cultural de Belém, manifestei a mais viva repulsa pela intenção e os leitores poderão imaginar as acerbas discussões que teimosamente mantive com amigos e até, com alguns desconhecidos. Podia ter sido facilmente impedido o desperdício de recursos e a descaracterização de um local sagrado que é o testemunho da expansão naquilo que esta teve de melhor. Durante meses fiz telefonemas, enviei cartas ao governo, deixei comentários a notícias de jornais, contactei entidades relacionadas com a preservação do património. Jamais obtive qualquer resposta e quando me deslocava pessoalmente a uma secretaria de Estado incumbida da Cultura, não passava da rigorosa portaria. Desisti. Propunha nada mais nada menos, senão a construção e perfeito acabamento do Palácio da Ajuda, aproveitando os terrenos adjacentes para cumprir a traça original abandonada há duzentos anos. Edifício colossal e de inegável prestígio emblemático do passado, era por si capaz de criar um dinâmico polo de interesse cultural naquela parte da cidade, com uma sala de espectáculos, galerias e salas de exposições e anfiteatros de conferência, ateliers de artistas, etc. O monumento renasceria, seria restaurado e reconhecido internacionalmente, cumprindo finalmente o destino a que qualquer construção é votada desde o início do erguer de paredes: a utilidade. Mas não, o governo do parcimonioso prof. Cavaco Silva, optou por algo que pensava ostentar uma faraónica grandeza que afinal quase se desvanece quando confrontada com o rendilhado da pedra circundante e aí tão próxima. Nem sequer mencionando o importante catalisador de talentos e de quase extintas profissões – entalhadores, estucadores, marceneiros, pintores ou pedreiros -, o restauro daquilo que existe e a construção quase de raiz daquilo que falta erguer e que consta nos planos, era capaz de propiciar a descoberta de insuspeitados talentos, garantindo profissões para muitas gerações. Tudo isto, por uma fracção do preço que os contribuintes pagaram pelo CCB, mas reconhecendo a necessidade do interesse nacional se sobrepor à fome de lucro de construtoras e sector político-bancário concomitante.

 

Isto vem a propósito das patéticas reacções à abertura do novo Parlamento pela rainha Isabel II. O que foi possível ler em alguns jornais de auto-referência, é por si capaz de deixar descoroçoado o mais entusiasmado e incorrigível optimista. Desdenhando do mais antigo e perene sistema representativo do mundo, os jornalistas do copy-paste irreflectido, banzaram-se com a exibição das jóias da soberana, com uma carruagem semi-dourada que é incomparavelmente inferior àquelas que existem em Belém e com um cerimonial de retintas reminiscências medievais. Aquela ostentação de riqueza que pertence à colectividade – é disso mesmo que se trata e nada mais -, consiste na garantia de um sentimento de pertença a algo que em muito transcende interesses particulares e mesquinhos. É por isso mesmo que na Grã-Bretanha existe um fervilhante espírito cívico e democrático, proliferando as mais díspares associações que focam interesses como os torneios, a pesquisa arqueológica, o restauro de veículos antigos, as poderosas Ligas de protecção dos animais e da natureza, a assistência – a negregada charity – aos mais desfavorecidos e uma miríade de clubes desportivos onde o associativismo os mantém activos ao longo de já muitas gerações. É isto, o civismo. Qualquer miúdo de liceu é capaz de mencionar o nome de uma dúzia dos principais símbolos do poder marítimo que durante séculos submeteu os mares ao seu domínio: quem não ouviu falar no Golden Hind, no Revenge, no Sovereign of the Seas, no VictoryWarspiteIron DukeNelson, Rodney, Ark Royal, Hood ou Repulse? Aqueles que hoje esperam a chegada do seu primeiro neto, por vezes ainda abrem caixas onde têm guardadas as velhas maquetas da Airfix e recordam-se com saudade, daquelas longas horas de paciência e de prazer, quando o hobby também servia como parte fundamental da formação.

 

Em Portugal, temos as cidades e vilas devassadas pela especulação depredadora, mau gosto e total inconsciência pelo espaço humano. Isto significa a inevitável ruína da consciência nacional, alijada como um fardo e em exclusivo benefício de bem identificados interesses de uma ínfima e gulosa minoria. Entretanto, consome-se um tempo precioso em miseráveis discussõezinhas a propósito da felicidade pessoal de outrem, como se houvesse qualquer direito de devassa da privacidade. Mas o que conta é a venda do “escândalo”.

 

Onde se encontra a disciplina cívica, o respeito pelo professor que faz a vez dos pais? Onde está a história que nos foi emprestada por quem nos antecedeu?

 

Onde param as pedras que outros orgulhosamente ergueram?

 

Os nossos intelectuais são tão culpados como os agentes políticos que com eles condescendem e que deles necessitam para uma forçada legitimidade. Não têm perdão, até porque hoje, a esquerda doméstica deixou cair a máscara, aliando-se aos interesses financeiros que diz combater: vem aí o TGV.

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publicado às 15:51


1 comentário

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De Anónimo a 29.05.2010 às 16:13

Mais um magnífico texto. Tudo o que escreve é feito com inteligência e saber. E não raro com uma acutilância espantosa, fruto da sua justa indignação. Há nobreza e verdade nas suas palavras quando - e só para dar um exemplo - aborda episódios da História de Portugal (um dos meus temas preferidos) ou mesmo da de outros países, de que, já reparei, é conhecedor nato. Por mim que sou sua leitora habitual, dou-lhe os parabéns por mais este excelente pedaço de prosa.
Maria

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