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Parte II (Período 1940-Actualidade)

Portanto em 1940, após a Alemanha ter derrotado a França e encurralado os ingleses nas suas ilhas, estaria constrangida a conquistar uma península Ibérica com regimes comunistas, aliados da URSS. Isso é compreensível se pensarmos na necessidade de Hitler criar uma retaguarda segura antes de iniciar a invasão da Rússia (criação do espaço vital alemão no leste) e na importância de tomar Gibraltar aos ingleses para controlar a entrada do mar Mediterrâneo. Claro que os exercitos nazis em pouco tempo estariam no controle de Espanha e Portugal. O significado disso é óbvio para todos, extorsão de recursos a troco de nada, trabalho escravo, fuzilamentos ou internamento nos campos de concentração dos mais recalcitrantes, uma metódica caça aos comunistas e aos numerosos portugueses com sangue judeu. Tal como durante as invasões francesas tudo o que eram tesouros artísticos iriam desaparecer e ser agora encaminhados para o Reich (será que o Goering iria gostar da nossa Custódia de Belém?).

Além disso a ausência de um refugio seguro na Europa em guerra, iria  impedir que dezenas de milhar de judeus e refugiados políticos em fuga dos nazis conseguisse sobreviver. Calouste Gulbenkian não se teria instalado em Portugal, pelo que a sua Fundação não existiria (o que seria péssimo tendo em linha de conta a sua importância). Caso Aristides Sousa Mendes fosse nosso cônsul (agora de um país sob ocupação alemã), a sua ajuda aos judeus rapidamente o teria levado não a ser exonerado, mas assassinado pela Gestapo. Álvaro Cunhal (que no anos 40 já tinha uma posição importante no PCP), tal como muitos dos seus camaradas poderiam também ter tido um destino bem pior que o da prisão em Peniche ou no Tarrafal.

Após a derrota alemã, Portugal estaria numa situação terrível. Empobrecido por 30 anos de governação republicana e por 5 anos de ocupação e saque nazi. As matérias primas (como o volfrâmio) que tanto ouro nos permitiram acumular, neste contexto diferente teriam partido sem quaisquer contrapartidas (logo nenhumas reservas de ouro teriam sido acumuladas). A destruição das nossas infra-estruturas teria sido generalizada. As instalações portuárias teriam sido duramente bombardeadas pelos aliados para impedir os ataques da marinha alemã aos comboios de navios no Atlântico. O mesmo teria acontecido às nossas vias de comunicação (caminhos de ferro e estradas) que levavam matérias primas essenciais para o esforço de guerra alemão. Os estaleiros navais e poucas instalações industriais seriam inutilizadas. Tudo isto contando que os aliados não desembarcassem cá e não ocorressem grandes combates, ou que a acção da resistência não fosse muito acentuada. 1945 seria pois o ano zero, o momento do inicio da reconstrução de Portugal.

A Democracia após o fim da guerra teria sido reposta, fruto da pressão de americanos e ingleses. Os Açores e a Madeira ocupados pelos aliados durante a guerra, ser-nos-iam devolvidos com excepção da ilha da Terceira que continuaria sob controle militar americano. Nela eles teriam construido uma enorme base aeronaval (a exemplo de Okinawa no Japão), a partir da qual podiam exercer o controle do Atlântico Norte. Como o estado do país tinha tornado inviável a defesa do império colonial, a partir do inicio dos anos 60 todos os territórios ultramarinos passariam por um processo rápido de auto-determinação. Angola seria a primeira colónia a tornar-se independente, fruto da fuga generalizada dos colonos devido ao ataque dos Bakongos ás fazendas do norte do território, a partir do Congo Belga. A guerra colonial sem margem para dúvidas foi um acontecimento histórico dependente da existência do Estado Novo e das suas doutrinas de defesa em quaisquer circunstâncias da integridade territorial do país, um sem o outro não podia ocorrer. O caso de Moçambique é mais complicado de prever. Existiria a possibilidade de ter ocorrido uma independência ao estilo da Rodésia e o novo país devido a factores estratégicos e económicos, ter ficado por mais de uma década como uma espécie de protectorado da África do Sul.

Vulgarmente muitos responsabilizam Salazar pela a fuga nos anos 60 de tanta gente para o estrangeiro devido à pobreza e a guerra colonial. No entanto interrogo-me se ele não tivesse governado quanto mais pessoas não teriam sido obrigadas a sair do país devido aos níveis de pobreza e destruição que teriam sido provocados pela segunda guerra mundial em Portugal e não existindo os recursos financeiros acumulados devido à nossa neutralidade ? (isso apesar da referida não existência da guerra colonial)

 

Outro aspecto é o do desenvolvimento económico que seria experimentado no período pós 1945. Uma ideia muito divulgada após o 25 de Abril, é a de que o Estado Novo não se preocupou muito com o desenvolvimento económico do país, pois convinha-lhe pois isso não era do seu interesse. Quanto mais estudo o assunto mais extraordinária acho essa ideia, sobretudo tendo em linha de conta o que foi alcançado após o 25 de Abril em circunstâncias mais favoráveis. Pensemos nos caso da indústria nacional que foi em boa medida desmantelada (sendo substituída por outra de origem estrangeira que depende dos nossos baixos salários para se manter) a par dos sectores da pesca e da agricultura. Com Salazar e Caetano, no contexto da reconstrução Europeia, sobretudo após meados dos anos 50 até 1973 o crescimento económico português, apesar da guerra colonial e do isolamento político foi sempre mais elevado que o experimentado após 1974. Oscilou por exemplo no período de 1960 a 1973, entre os 6.88% e os 7.66% ao ano. Nos 5 anos que vão de 1968 a 1973 só o Japão e a Grécia tiveram melhor desempenho do que nós.

Este pequeno exercício de História contrafactual tenta mostrar como todos os acontecimentos estão relacionados entre si e como a alteração de um só pode provocar novas dinâmicas que podem gerar uma realidade totalmente diferente.

Tudo isto leva-me a concluir que sendo inegável que tal como Braudel dizia "os acontecimentos nada mais são do que a expressão de forças que se movem tão lentamente que se tornam invisíveis ao olho humano" (as tais super-estruturas), no entanto é igualmente verdade que muitas vezes as naturezas singulares dos homens (o caracter) que dão expressão aos ditos acontecimentos são responsáveis pelas diferentes formas que assumem. O acaso tem pois também um lugar importante no devir histórico.

Neste caso mais concretamente, Salazar surgiu inserido dentro de um contexto de forças que potenciavam o aparecimento de um ditador conservador de direita, no entanto a forma que esse fenómeno assumiu em Portugal foi determinada pela sua natureza muito particular.

 

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publicado às 16:55


4 comentários

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De Cristina Ribeiro a 18.06.2010 às 20:18

Análise interessantíssima.

Que a democracia chegaria brevemente, sem termos de passar pelo processo calamitoso que vivemos " nesta ", parece-me evidente.
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De Aeof a 18.06.2010 às 23:57

No entanto, há aí um facto omisso em relação a Salazar e a sua visão política ou o porquê do regime e da sua duração. Com Salazar o país atinge uma estabilidade de preços nunca antes atingida, que nem com o todo-poderoso BCE conseguimos atingir a dia de hoje, por implementação do modelo económico paralelo ao capitalismo e ao comunismo, se bem que não seja como tal referenciado, que é o corporativismo. Ele permitiu ao Estado fortíssimas possibilidades reguladoras sem interferências directas com o aparelho económico. Administrações independentes levaram a superávits privados que financiaram a economia largamente sem suporte exterior e os portugueses apoiavam fortemente o regime. A razão para a queda do regime foi África e o facto de que Marcello Caetano não era Salazar. Igualmente, o isolacionismo não era real, mas antes uma imposição de controlo de déficits permanentes da nossa economia, dos quais somos vítimas ainda hoje. No pós-25 de Abril, a adoutrinação tornou-se um facto e a propaganda é mais subtil, mas permanente, com uma história largamente reescrita.
Melhor do que os comparativos de expansão do PIB só mesmo analisar o crescimento dos rendimentos dos portugueses que se tornam largamente mais expansivos que de qualquer outro povo da Europa. Chegamos à UE com 50% dos rendimentos em paridade. Hoje temos 76% desse rendimento médio, pelo que o crescimento foi, em todo caso, inferior a qualquer período do Estado Novo, descontado o período de guerra Colonial. Ainda assim, estes rendimentos são apoiados largamente em crédito com aproximadamente 120% do PIB de endividamento externo total, enquanto durante o Estado Novo o endividamento externo era desprezível, com uma dívida pública de 5%, aproximadamente.
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De Nuno a 19.06.2010 às 15:06

Também tenho muito interesse na evolução económica durante o Estado Novo e penso escrever um post a demonstrar que eles fizeram muito mais do que após o 25 de Abril e em condições bem piores. As politicas do Estado Novo eram mais pensadas a longo prazo porque não tinham limites de tempo na governação e menos medo de desagradar a curto prazo as populações, enfim os critérios eram outros e passavam menos por satisfazer os interesses de clientelas. Sugiro que veja os meus posts antigos seleccionando Nuno no topo do lado direito do cabeçalho deste Blog) leia o primeiro (Crónicas de uma crise anunciada) e segundo (Curiosidades Económicas) posts que escrevi e que tratam sobre esse assunto.
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De Aeof a 19.06.2010 às 15:32

Se tivesse de estabelecer uma analogia em relação ao País, diria que é uma máquina de lavar roupa: centrifuga a substância e no centro, o vazio, constituído por uma massa informe, incongruente, largamente inexperta e ignorante. Esta é a realidade da nossa sociedade, que marginaliza todos os que são mais válidos em nome de uma inveja ou visão política, ideológica, em que uma metade odeia secretamente a outra. A esquerda diz-se a grande democrata, herdeira da I República, castigando a direita "herdeira" do fascismo, mas oblívia ao facto de que o regime que diz representar foi implementado sem legitimidade (não houve referendo da Constituição), por meio de um grupo que hoje se consideraria terrorista, a Carbonária.

São todos tão maus ou tão bons uns como os outros. Como Liberal e pragmático, não me importa nem o Regime, nem a ideologia dos Estados, mas a eficácia das políticas adoptadas. O problema está em que os números, largamente apolíticos, favorecem a ditadura. Como Liberal e, por extensão, democrata preocupa-me tal facto, mas principalmente a mediocridade da espuma central da máquina de lavar portuguesa, ostensivamente incapaz de implementar reformas que nos levem a bom porto.

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