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Parte I (Período 1928-1940)

Contrariamente ao que muitos pensam, é possível num contexto muito preciso e limitado, tentar escrever uma História contrafactual.

Apoiando-nos num facto "chave" que assumimos que se deu de uma forma diferente da real, construir uma evolução provável dos acontecimentos que tenha um certo grau de fiabilidade.

Trata-se de um exercício interessante que pode levar a conclusões surpreendentes para os menos informados.

Neste caso particular consideremos uma das duas hipóteses seguintes como facto histórico:

-Salazar após ter concluído o seminário decidiu seguir uma carreira eclesiástica (nesse caso muito provavelmente o Cerejeira não tinha sido cardeal, mas o Sr. Oliveira).

-Tendo abandonado o seminário ter-se-ia limitado a ser um conceituado lente (professor) de Direito da Universidade de Coimbra e seu reitor até o momento do seu passamento.

Portanto o que interessa é que em 1928 Salazar não estaria disponível para aceitar o convite que lhe foi feito para o governo na capacidade de ministro das finanças. Parto pois de um principio que é pacifico para a generalidade das pessoas, Salazar foi o Estado Novo e sem ele esse regime político nunca teria sobrevivido. O problema é que (como na altura era do conhecimento geral) Salazar era a única pessoa com um projecto político credível para resolver a situação económica. Razão essa porque o poder que lhe foi atribuído se sobrepunha ao dos demais membros do governo, inclusive ao do Primeiro Ministro que acabou por vir a ser destituído para o manter no governo.

Isto significa que após o golpe militar de 1926, os governos "patrocinados" pelo exercito não conseguiriam congregar apoios dos diversos sectores conservadores e resolver a gravíssima crise económica que levava Portugal rapidamente para a bancarrota (até parece que estamos em 2010). Logo com toda a certeza a contestação nas ruas dos republicanos de esquerda nas suas várias tendências (socialistas, comunistas e anarco-sindicalistas) com o apoio de alguma facção insatisfeita do exercito, acabaria por em pouco tempo voltar a derrubar o poder (lembremo-nos por exemplo do movimento insurrecional do Reviralho que com dificuldade foi vencido por Salazar no final dos anos vinte).

A não constituição do Estado novo torna pois fácil prever a sequência dos acontecimentos nas duas décadas seguintes

Assumamos assim logicamente que durante os anos 30 a vida política nacional mantêm as práticas costumeiras adquiridas após 1910. Continua-se pois a caminhar para a bancarrota (aprofundada pela crise económica internacional de 1929) e com instabilidade política. Sucedem-se mais governos da esquerda republicana, os golpes e contragolpes de Estado mais ou menos sangrentos e a corrupção generalizada.

Esta situação política em Portugal tem importantes consequências em Espanha. Em 1936 a revolta franquista acaba por ser afogada em sangue pelos republicanos dominados pela extrema esquerda (a ajuda soviética a isso conduziu). Os ajustes de contas sucederam-se no país vizinho, mais de 100.000 pessoas (isso no mínimo) ligadas aos sectores católicos conservadores, burguesia e monárquicos (carlistas) são sumáriamente assassinados pela esquerda.

Boa parte senão a totalidade das grandes e médias propriedades agrícolas são nacionalizadas a par da industria. O atribuir de um caracter decisivo ao apoio português aos nacionalistas durante toda a guerra civil, sobretudo nos primeiros meses não é exagero. Visto que os republicanos esmagaram as sublevações nacionalistas na maioria das cidades espanholas, a maior parte das tropas fieis que restavam ao general Franco eram marroquinas, pelo que era essencial o seu transporte do Norte de África para Espanha. Isso por mar era impossível porque a marinha espanhola tinha-se mantido fiel aos republicanos. Quem fez o transporte dos muitos milhares de soldados marroquinos por ponta aérea, foram os alemães com Junkers 52 que voaram da Alemanha directamente para Marrocos com escala num aérodromo no Alentejo onde se reabasteceram. Se Portugal não tivesse permitido isso, a revolta nacionalista estaria condenada á partida. Igualmente todo o tipo de abastecimentos e material de guerra passaram pelo nosso país para suprir as necessidades dos franquistas, não obstante a neutralidade oficial do nosso governo. As principais rádios nacionais (Rádio Clube Português, a Emissora Nacional e a Radio Renascença) aumentaram a suas potências de emissão e áreas de cobertura de forma a difundirem as mensagens políticas dos nacionalistas e incitarem à revolta armada contra os repúblicanos. Um contingente mesmo de voluntários (os Viriatos), com mais de 10000 portugueses, combateu ao lado dos nacionalistas. Isto são só alguns exemplos que mostram a escala do nosso apoio. Portugal constituiu a retaguarda dos revoltosos espanhóis e o nosso apoio em termos políticos e logísticos foi essencial à sua vitoria. Salazar em 1939 após a vitória franquista, afirmou no seu discurso perante a Assembleia Nacional que não importavam os sacrifícios feitos pois tinha sido "escrita mais uma página heroica da nossa História. Não temos nada a pedir, nem contas a apresentar. Vencemos, eis tudo".

Este tudo significa que a neutralidade efectiva ou o provável apoio de um Portugal republicano de tendências esquerdistas ao governo de Madrid em 1936 teria criado uma situação política diametralmente diferente na península ibérica no início da Segunda Guerra Mundial e muito grave para nós na medida que nos colocaria em potencial conflito com a Alemanha nazi.

Uma das implicações que teria a vitória dos republicanos espanhóis na guerra civil era a criação de uma União das Republicas Socialistas Ibéricas que incorporava Portugal (o chamado plano Lusitânia, projecto a que Alvaro Cunhal esteve ligado). Teríamos pois entre 1936 e 1940 experimentado uma forte ingerência política espanhola e soviética que teria conduzido à tomada do poder pelo PCP (mais anarquistas) e a uma ditadura à soviética. A resistência da direita conservadora portuguesa no contexto de uma Espanha comunista teria sido difícil senão impossível não obstante qualquer apoio externo.

 

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publicado às 17:39


14 comentários

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De Cristina Ribeiro a 18.06.2010 às 19:54

Até parece que se estava em 2010, mesmo, Nuno. O cenário económico era idêntico, o político, um caos. Por isso disse há tempos que Salazar foi o homem certo no momento certo. Pena o apego ao poder, porque não creio que depois não tivessem aparecido pessoas qualificadas, em quem pudesse delegar um pouco do poder, em vez de o concentrar numa só pessoa; é o tal risco de pôr os ovos todos no mesmo cesto - se este cai, lá se vai tudo. Foi o que acabou por acontecer, com os belíssimos resultados a que chegámos.
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De Nuno a 19.06.2010 às 15:16

Olá Cristina,
A concentração de poderes é um dos problemas do Estado Novo, Salazar era um individuo invulgar e superior, conseguia agrupar interesses diferentes (mesmo opostos) na sociedade portuguesa e mantê-los sob controlo em torno do ideal da pátria e do interesse nacional, esse era o dom especial dele e tenho grandes duvidas que alguém o pudesse substituir. A própria História isso o demonstrou, Marcelo Caetano era um homem e um político superior aos que temos agora e no entanto nitidamente inferior a Salazar (e mais ingénuo ).
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De Cristina Ribeiro a 19.06.2010 às 21:11

Mas Portugal estava refém de um homem só?
Salazar era um homem superiormente inteligente, mas à falta de uma pessoa só do mesmo quilate, não se deveria recorrer à solução do triunvirato ( para mim, sob a égide do monarca, claro)? Seria uma forma de pensar no futuro, pois ninguém é eterno.
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De Manuel Pinto de Rezende a 18.06.2010 às 20:09

boa série de textos.
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De João Pedro a 19.06.2010 às 00:05

No caso ga Guerra de Espanha, acho que nenhuma facção merecia apoio. Tão bárbaros eram os apaniguados de Estaline como muitos falangistas, requetés, e particularmente as tropas marroquinas. E não duvido que Franco permitisse que as tropas alemãs atravessassem o seu país para entrar em Portugal, se fosse preciso.
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De Nuno a 19.06.2010 às 15:25

Concordo, a natureza da guerra civil é uma coisa horrível Quanto a Franco permitir a um país em guerra com a Inglaterra livre transito para atacarem Gibraltar ou Portugal (aliado de Inglaterra), isso era impossível, seria um acto de guerra. Franco encontrou-se com Hitler no final de 1940 para discutir essa questão. Espanha propunha juntar-se a Hitler na guerra (e assim permitir a conquista de Gibraltar) em troca das colónias francesas no Norte de África (Marrocos francês , Tunísia e Argélia) e do apoio alemão à invasão de Portugal pela Espanha (sempre muito amigos da gente). Hitler recusou porque isso acabava a sua aliança com a França de Vichy (a direita francesa e os grandes industriais franceses como a Renault etc etc ) muito mais importante.
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De Paulo Selão a 19.06.2010 às 13:01

Lanço-lhe o repto para uma outra expeculação histórica: Parta-se do facto da Monarquia não ter caido a 5 de Outubro; mais, do atentado de 1 de Fevereiro ter fracassado. O movimento terrorista Carbonária ter sido desmantelado e os seus cabecilhas capturados ou mortos e no primeiro caso julgados e condenados e o PRP ilegalizado se não aceitasse renunciar à violência e subversão e não se integrasse no jogo democrático e não aceitasse as suas regras (à semelhança do Batasuna e da ETA).
O regime estabilizava, haveria uma nova Constituição (esta parte é facultativa) mas estabilizava tendo Portugal um regime muito semelhante ao britânico e depois aparece Salazar a governar nos anos trinta sendo Rei D. Luís II (ou, quem sabe, ainda D. Carlos)... num sistema parlamentar e democrático. Façamos este exercicio...
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De Nuno a 19.06.2010 às 13:59

Trata-se de um assunto interessante, mas na verdade não estou certo de conseguir fazer esse exercício de uma forma muito satisfatória, no entanto vou tentar no futuro abordar o tema se conseguir. Deixo uma sugestão leia o meu penúltimo post sobre o fim da monarquia em Portugal, dá uma ideia do que penso actualmente com o nível de conhecimentos que tenho sobre o assunto. Tenho no entanto já neste momento uma opinião definida sobre os republicanos e que é similar à que tenho sobre a maioria dos revolucionários de Abril, péssima.
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De Aeof a 20.06.2010 às 01:11

Sinceramente, não creio que fosse possível manter o estado do país, mesmo sem o regicídio. O ódio a D. Carlos era patente, os preços alimentares subiam de forma desmesurada e os rendimentos dos portugueses chegam a ser quase de 1/4 da média europeia. A fome alastrava e a dívida do país era incontrolável devido à dependência alimentar e industrial de um país que tinha feito reformas durante o fontismo, com um aumento de população semelhante ao que acontece em África: muito por cima das capacidades reais de alimentar tantas bocas! D. Carlos foi um péssimo monarca, um homem débil, que se vê forçado a enviar para a primeira guerra mundial soldados de um país quase em ruínas que são, na realidade carne para canhão. D. Carlos é como D. José, ambos reis fracos, que são suplantados pelos seus próprios ministros. D. Manuel, por exemplo, demonstra um carácter totalmente diferente, reformista e nem assim acaba com a revolta.

Foi a economia, não o terrorismo, que acabou com a Monarquia e, ou muito me engano, é também a mesma razão que vai dar cabo da III República.
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De Nuno a 20.06.2010 às 22:04

Acho que está a fazer alguma confusão.
1 Quem não gostava do rei era uma minoria urbana ligada á pequena burguesia e indústria. O ódio era patente nos jornais ligados a esse grupo socio-económico .

2 Foi por volta de 1888 que o rendimento médio dos portugueses mais se aproximou da média europeia até ao nossos dias, atingimos os 90% (mais ou menos) antes do inicio da crise económica que se manteve com altos e baixos até Salazar

3 O rei tinha uma função praticamente igual à do presidente da republica, não tinha funções governativas ou responsabilidade
na governação, tinha sido afastado pela força pelos liberais.

Responsabilizar o rei pela governação é uma loucura á excepção de 1907 e 1908 durante a ditadura de João Franco que governava a mando do rei.

4 Foi uma questão ideológica e política que ditou o fim da monarquia. Os republicanos instrumentalizaram a crise económica e política (ditada pelo ultimato inglês) Pretendiam substituir um dado grupo social que detinha o poder com exclusividade (alta burguesia ligada á nobreza).
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De Carlos Velasco a 19.06.2010 às 18:07

Interessante post. Levanta várias questões que deveriam ser feitas por todos os historiadores e políticos. Mas estou inclinado a pensar que haveria um desenvolvimento diferente se a Ibéria comunista tivesse se tornado numa realidade.
Talvez isso tivesse demovido Hitler de tentar a invasão da Rússia, mantendo o pacto Ribentrop-Molotov. E se essa Ibéria vermelha tomasse Gibraltar no âmbito desse pacto, Rommel teria conseguido um triunfo avassalador no Norte da África.
Quem sabe hoje o mundo seria dividido em dois, um sob o domínio internacional-socialista e outro sob o domínio nacional-socialista. Talvez Salazar tenha salvado não somente Portugal do totalitarismo.
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De Nuno a 19.06.2010 às 21:50

Bem só me ocorre dizer duas coisas, PRIMEIRO para Hitler o seu grande objectivo era recuperar os territórios alemães perdidos na primeira guerra e criar um espaço a leste que pudesse ser colonizado pelos alemães (ele era obcecado por essa ideia). Penso portanto que não iria deixar de atacar a URSS custe o que custasse, tendo ainda em conta que ele tinha em má conta o exercito russo, SEGUNDO Estaline pretendia com o seu pacto com a Alemanha, recuperar os territórios perdidos pela Rússia na primeira guerra e abrir caminho a um longo e gigantesco conflito entre as potências capitalistas que as enfraquecesse de forma a ele poder mais tarde apoiar revoluções comunistas nesses países (algo que não foi conseguido no fim da primeira guerra). O jogo correu bem mal, isto significa que após a vitoria alemã em França ele não iria ainda ajudar mais a Alemanha apoiando-a contra a Inglaterra na questão de Gibraltar e tornando-a ainda mais forte e perigosa.

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