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Lágrimas de crocodilo

por Nuno Castelo-Branco, em 18.07.10

 

Esta semana, assistimos a uma aparatosa recepção ao senhor ministro dos Negócios Estrangeiros do regime dos aiatolás, apenas semelhante a outros sistemas  protagonizadas por cavalheiros como Kim jong Il, Castro ou Kaddafy. Quando em Portugal os sectores centenários têm andado obcecados na revivificação do espectro anti-clerical, as mesmíssimas pessoas recebem sem qualquer circunspecção, o lídimo representante de um sistema ultra-religioso que nega os direitos a qualquer minoria, cerceia as mais básicas liberdades individuais e reconhece por Lei, a inferioridade das mulheres. Quando ainda há pouco se legalizou o casamento gay como conquista dos direitos humanos, o Palácio das Necessidades escancara as suas douradas portas, a quem activamente açula dúzias de enforcamentos de homossexuais em plena via pública e tem em lista de espera, mulheres às portas da morte por lapidação. É que em Teerão, os guindastes da construção civil, não servem apenas para o alçar de placas betonadas pré-fabricadas que vão erguendo condomínios, onde os mulás impõem o dízimo, geralmente traduzido sob a forma de gratuitas penthouses.

 

Em todo o espectro político nacional, desdobram-se agora os seus agentes em comentários genericamente depreciativos, focando a perspectiva do ingresso da Guiné Equatorial - que inclui as antigas possessões portuguesas de Fernando Pó e Ano Bom - na CPLP. Trata-se da bem conhecida hipocrisia choramingas, que apenas serve como manifestação de princípio que logo se eclipsa à perspectiva de rendosos negócios  petroleiros e no sector do betão. Este tipo de activismo para opinião pública ver, corta o espectro político de lés a lés, desde Cavaco Silva e as suas enigmáticas ponderações de grau zero, até aos velhos compinchas à la mode de toujours. Precisamente aqueles que entregaram o poder aos actuais regimes que vigoram nos PALOP, os mesmos que durante décadas fizeram ouvidos de mercador à causa da libertação timorense e que para nada quiseram saber dos direitos espezinhados dos naturais do antigo Estado da Índia! Os semanários vertem prolixa prosa acerca de riquezas acumuladas pela família Obiang, dissertando também acerca das constantes violações de direitos das gentes que não têm hipótese de escolha e de acesso às riquezas do país. Como se estes comparsas do carpideireismo politicamente correcto,  tivessem alguma legitimidade para tal. Quem mais se incha em chamar a atenção da sua revolta perante possibilidade da inclusão da Guiné Equatorial na CPLP, não se manifestou perante as evidentes atrocidades cometidas na Guiné-Bissau pós-1974, ou pelas chacinas perpetradas pelo regime samorista em Moçambique. Quanto ao que se passa em Angola, pouco se tem ralado com o regime dos Santos de Luanda. Bem pelo contrário, são exactamente aqueles que empunham sempre a esponja que limpa a sujeira que há quase cinco décadas se acumula sobre certos currículos activistas. O que importa a política de saque descarado? Para quê questionar as medidas vexatórias sobre as minorias étnicas, ou as centenas de milhar enterrados em valas comuns espalhadas por todo o território da Guiné-Bissau, Angola, ou Moçambique? Os negócios têm sempre falado mais alto, impondo aquela razão que convém ao pragmatismo ditado matemática das coisas. Se isto serve para Luanda, Maputo e Bissau, também servirá para Teerão. É o princípio aceite e regular.

 

Estes pobres diabos de smocking e meia branca, não fazem a mais ínfima ideia daquilo que é uma política de Estado - sempre a tão longo prazo, como durante séculos foi a estreita ligação à Inglaterra -, perdendo o precioso tempo com questiúnculas, apenas destinadas ao patois que alimenta os media e as duvidosas consciências que deles dependem.

 

É decerto uma inapelável verdade, o facto da esmagadora maioria dos agentes não fazerem sequer a mais ténue ideia do local onde se ubica a Guiné Equatorial, apenas conhecendo o país como um possível Kuwait situado na zona tropical. Tudo o mais pouco importa, desde que se salvem as pífias e piedosas aparências. No entanto, todos sabemos que a entrada de mais um membro africano na CPLP; só poderá beneficiar a organização, a influência lusíada no campo das relações internacionais e tão importante como isto, uma possibilidade de influenciar a própria política interna do regime de Obiang.

 

Um dia destes, o sr. Cavaco Silva ruma a Angola,  - muito bem e apenas pecando por ser uma "nova" política que regressa com trinta anos de atraso - na companhia da "maior delegação empresarial de sempre". Sempre queremos ouvi-lo dissertar com coragem e diante do clã dos Santos, focando os aspectos bem visíveis do compadrio, expoliação de recursos públicos e total desrespeito pelos sempre assinaláveis Direitos Humanos.

 

Torna-se tão certa como a rotação terrestre, a total ausência de uma política externa digna desse nome. Tudo é feito em resposta a estímulos  que visam beneficiar um restrito número de agentes do conglomerado político-empresarial, ou como se tornou norma, em desesperada reacção a conjunturas desfavoráveis que o "esquema" vigente assumidamente criou.

 

Não está em causa a preocupação pelo incumprimento das obrigações que decorrem da participação de qualquer Estado como membro de pleno direito das Nações Unidas. O que parece estapafúrdia, é a grotesca situação que hoje se apresenta pela voz de gente responsável pela criação de ditaduras sem igual, rapidamente degenerando numa confusa e comprometedora rede de tráfico de colossais fortunas, exploração humana e esbulho de direitos cidadãos. Com fortes ramificações olissiponenses, diga-se.

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publicado às 19:24







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