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O telégrafo passou à história

por Nuno Castelo-Branco, em 24.08.10

Por vezes, deparamos com situações que aparentemente caricatas, são afinal o reflexo de uma realidade por muitos insuspeitada. Se existem pequenos, quase minúsculos, nichos de uma informação que passa e é entendida pelos destinatários, os assuntos que uns tantos citadinos consideram de interesse geral, são totalmente ignorados por uma imensa mole de portugueses.

 

Estava a jantar com um amigo que tem alguns empregados, contratados para a renovação de um prédio no centro de Lisboa. Seguindo atentamente a conversa à mesa, foi com espanto que  verifiquei o total desconhecimento que três deles, residentes na zona de Leiria, têm dos "casos do momento" e pior ainda, dos nomes e rostos das notoriedades que decidem acerca do destino colectivo. No ecrã da televisão, falava Santana Lopes e proferi alguns comentários acerca do seu posicionamento perante todos estes não-assuntos que constantemente martelam a opinião pública. Evoluindo a troca de palavras para factos ocorridos há uma mão cheia de anos, os leirienses quiseram saber do que se tratava - ..."é importante?" - e por mais inacreditável que isso possa parecer, não faziam a mínima ideia de quem era o homem que na televisão surgia.

 

Quem é um polémico antigo primeiro-ministro, que também foi ministro, secretário de Estado, deputado, presidente de um clube de futebol e rotineiro comentador dos assuntos públicos?! Não podendo acreditar em tamanho despautério, desferi uma rajada de questões acerca de outros notáveis da nação e excluindo um ou outro caso isolado, a resposta limitava-se a um abanar de cabeças. Não conhecem, jamais os viram em parte alguma e nem querem saber daquilo que os "gajos" dizem ou pretendem fazer. "Querem lá saber", "estão-se nas tintas", "que se lixem", "que s'a vão f...", etc e tal.

 

Estes três visitantes ocasionais da capital, têm quase trinta anos de idade.

 

Não se trata de um lugarejo perdido nas faldas de uma montanha à beira da raia. Leiria situa-se a pouco mais de uma hora de Lisboa, é uma cidade à qual se tem acesso de primeira categoria. Possui monumentos, escolas, cinemas, recintos desportivos, hipermercados, centros comerciais, livrarias, uma razoável classe média e é praticamente, um local onde ainda se produz qualquer coisa que valha a pena comentar ou a ter em conta. Pois bem, nesta cidade, há quem possa falar durante horas acerca das novidades da semana, desde que essas importantes notícias, se refiram aos golos do último jogo da Liga, ou às chegadas, transferências, treinadores e casos clubísticos, umas tantas farras com cervejas, ou na melhor das hipóteses, "aqueles" outros assuntos que todos adivinham. O interesse geral não passa mais além.

 

Temos três ou quatro centros urbanos, onde há quem se rale, discuta e queira participar. Talvez não seja muito arriscado imaginar que mesmo na capital, se esconde uma massa de indiferentes que tudo aceitam desde que continuem a decorrer com normalidade, todos aqueles eventos que verdadeiramente lhes importam. Tudo o mais, é para "os outros secas".

 

Não será Portugal, uma gigantesca Leiria ?

 

E dizem eles que não temos possibilidades e somos ..."uma ínfima minoria". Seja o que vier e venha como vier, tal será normalmente aceite e o passado bem poderá ser apenas isso: passado.

 

Como recado final, há que sublinhar a existência de nossos nas cidades. Bastantes, mais espertos do que se pensa e sobretudo, bem colocados. Desta vez, aqui está a diferença, a ser possível com o simples envio de e-mails. O telégrafo já passou à história.

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publicado às 09:39


5 comentários

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De NanBanJin a 24.08.2010 às 15:38

Assustador!
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De Luís a 24.08.2010 às 20:20

Um amigo comentou comigo há uns tempos que o número de pessoas verdadeiramente cultas no nosso país resumir-se-á a uma escassas centenas, concentradas essencialmente em Lisboa, Coimbra e Porto. Basta ver o número de exemplares de muitos clássicos editados no nosso país.
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De MIGUEL a 24.08.2010 às 21:29

O MAIS ASSUSTADOR SAO ESTES COMENTARIOS. NAO VAMOS A LADO NENHUM ASSIM.
OS OUTROS SAO BONS, SAO MELHORES, SAO CULTOS, SAO TUDO JA HA DUZENTOS ANOS. NOS DOIS ULTIMOS SECULOS ESTES COMENTARIOS LEVARAM ESTE PAIS PARA O ABISMO!
TEMOS PROBLEMAS, VAMOS RESOLVER. SÓS. COM TODOS OS DE BOA VONTADE DESDE QUE SEJAM PORTUGUESES, E JA HA POUCOS ENTRE IBERISTAS E EUROPEISTAS QUE POVOARAM A NOSSA NAÇAO.
TAMBEM NAO CONHEÇO POLITICOS E NAO QUERO SABER DELES.
JA HA BASTANTE TEMPO QUE O VERDADEIRO POVO PERCEBEU O QUE ELES SAO, O QUE ELES QUEREM.
ESTA NAÇAO FOI O TRABALHO DUM POVO E DUM REI. SEMPRE.
OS POLITICOS MATARAM O REI E AGORA QUEREM MATAR O POVO. O OBJECTIVO É OBVIO.
SEJA ELE QUAL FOR O POVO É A SOLUÇAO! NAO O MENESPRESAM. NAO O MATAM.
INFORMEM! ORGANIZEM!
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De amg a 30.08.2010 às 00:25

in Abergue Português, citando Fernando Pessoa:
«Há três espécies e Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português.
Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expressão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.
Outro é o português que não o é. Começou com a invasão mental estrangeira, que data, com verdade possível, do tempo do Marquês de Pombal. Esta invasão agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a República. Este português (que é o que forma grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo, e toda a gente das classes dirigentes) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa. É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido.
Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas d’El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas, criou a civilização transoceânica moderna, e depois foi-se embora, foi-se embora em Alcácer-Quibir, mas deixou alguns parentes, que têm estado sempre, e continuam estando, à espera dele».

:|
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De Micael a 03.09.2010 às 16:15

Não posso desde já deixar em branco esta pequena postagem.
Claro que, estes 3 individuos residentes em leiria, poderiam ser muito bem residentes no porto, em lisboa ou até em montalegre. A questão fundamental não é a naturalidade dos individuos, mas sim a personalidade e sentido culto dos 3.

Então eu exemplifico do mesmo modo:
Ainda hoje, em pleno canal aberto (RTP), um jornalista á frente do campus da justiça em lisboa questionou um popular acerca do desfecho do processo casa pia(infame caso nacional). Este mesmo, nem sequer soube dizer de que se tratava, nem os intervenientes e muito mesmo a razão para todo aquele aparato de jornalistas em frente do ''campus''.

Pois muito bem, sendo em plena capital, supondo que aquela ilustre personalidade popular residi em Lisboa, posso concluir do mesmo modo que o Caro Nuno Castelo Branco :
- Não será Portugal, uma gigante Lisboa?

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