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Memórias de Moçambique

por Nuno Castelo-Branco, em 08.09.10

"A minha mãe não é uma figura literária nem uma muleta ideológica, uma bandeira ou uma frase-feita. Existe. Nasceu em África há setenta e sete anos, viveu no mato e cresceu, como qualquer filha de quadro administrativo colonial, numa casa branca de dois andares, com um jardinzinho à frente e o pau da bandeira onde, todas as manhãs, o meu avô fazia continência à bandeira portuguesa que subia no mastro enquanto o corneteiro soava a ordem de respeito. Durante anos, foi a única criança branca num concelho do tamanho do Baixo Alentejo, pelo que aprendeu os idiomas locais e brincou com as crianças negras das aldeias vizinhas. Em vez das bonecas, encontrou no desenho e na pintura companhia para os seus sonhos e fez-se artista sem frequeentar academias. Pinta há setenta anos. Teve o seu momento de consagração em 1973, quando realizou na Casa Amarela de Mouzinho de Albuquerque, em Lourenço Marques, uma exposição que concitou os maiores aplausos. Foi com o dinheiro dessa exposição que saímos de África para não mais voltar, pois o cataclismo abateu-se sobre todos, nós os que partimos para o exílio, eles que ficaram entregues ao que sabemos. Da sua boca nunca ouvi um lamento, uma frase ditada pelo ódio. Aliás, se há pessoa menos racista neste mundo, mais amante de África e daquilo que a África é para nós - nossa pátria - essa será certamente a minha mãe. Aos setenta e sete anos continua a cultivar o seu jardim de memórias. Vive em África em pleno Alto do Lagoal, em Caxias. Tudo o que a cerca - os objectos, os livros, as fotografias - são o magro espólio desse século em que por lá esteve a minha família. Finalmente, depois de 37 anos de silêncio, os seus quadros voltarão a ser expostos, agora na Fundação Marquês de Pombal, em Linda-a-Velha. A sua obra é já considerada única, pois constituiu a mais extensa galeria de memórias coloniais existente em Portugal. Estou certo que a minha mãe, aos 77 anos, será uma revelação para muitos, ela que nunca teve lóbis nem nunca andou atrelada a grupos e galeristas que fazem o sucesso postiço de tanto artista. O tempo acaba sempre por chegar, mesmo que seja aos 77 anos. Parabéns, Ana Plácido."

 

in Combustões

 

"Memórias de Moçambique"

Fundação Marquês de Pombal, Palácio dos Aciprestes

Av. Tomás Ribeiro 18, Linda-a-Velha

11 Setembro-2 de Outubro

 

"Ana Maria (Plácido Castelo Branco Graça Ferreira) nasceu no povoado Errego, sede da circunscrição do Ile, Província da Zambézia, na então colónia portuguesa de Moçambique, a 27 de Abril de 1933. É filha de Arlindo Dias Graça, por sua vez filho de um brasileiro, proprietário, de Ouro Preto (Minas Garrais) e de uma portuguesa de Valadares (Vila Nova de Gaia); a Mãe, Alice Augusta Castelo Branco, nasceu em S. Miguel de Seide  (Famalicão) naquela que é hoje a Casa-Museu Camilo Castelo Branco sendo, por esta via, bisneta de Camilo Castelo Branco e de Ana Plácido. O Pai, funcionário administrativo, era um curioso amante das artes e na família materna há vários artistas amadores, quer de Pintura, quer de Escultura.

Acompanhou o Pai e a Mãe, nas diversas funções paternas exercidas ao serviço da administração colonial; viveu, então, nos distritos da Zambézia, Lourenço Marques, Gaza e Inhambane, por vezes, em pequenos povoados em que era escassa a presença portuguesa, bem como os indianos e mestiços, sendo a grande massa populacional de origem africana da etnia prevalecente na região.
Nesses pequenos povoados (anos 30, 40 e 50 do último século) faltavam, muita vez, as comodidades que se viviam nas vilas e cidades coloniais; sobrava, porém, a vida tranquila nesses largos espaços, propícios a quem se interessasse pela pujança da Natureza e pelos usos e costumes locais. Volta e meia passavam viajantes que estavam ao serviço do governo, de grandes empresas coloniais, no trato comercial ou, ainda, em demanda de paraísos cinegéticos.
Esses contactos eram, por vezes, inesperados como aconteceu quando o grande actor e declamador João Villaret passou por Panda (Inhambane), refeiçoando e pernoitando na casa do administrador; agradeceu aos Castelo Branco-Graça e aos seus pouco convidados, com um magnífico recital de poesia portuguesa à luz dos "Petromax" que alumiavam o interior da casa, momentos retidos, para sempre, na retina e nos ouvidos da jovem Ana Maria.
Esta, apreciava, muito, os tons rosa, amarelo e laranja, por vezes o vermelho vivo, do pôr do sol que  ao cair das tardes trazia o ruído da  terra, a brisa da vegetação pujante e o encantatório das vozes dos animais da selva ou, também, os gritos dos macacos que viviam em traquinices e malandrice no quintal.
A família e um ou outro funcionário sentavam-se na varanda que circundava a casa, conversando ou vendo revistas (por cuja data de edição tinham passado semanas) que chegavam da Europa, via Lourenço Marques: StudioNational Geographic, Saturday Evening Post, Paris Match, Século Ilustrado, etc. Era o contacto com a distante Europa.
Vivia-se em casas de alvenaria cobertas a zinco (Panda) ou na "Residência do Chinde", uma grande casa colonial de zinco, com o interior forrado a madeira e que ia sendo mudada de local, quando as águas do delta do Zambeze comiam a terra, ou, ainda, em outras habitações mais modestas cobertas a madeira e zinco, mesmo, até, a colmo. Levava-se uma vida que favorecia a reflexão e a estima pelos valores da paz, da concórdia familiar, da criatividade e, também, em alguns casos - não tantos como se possa imaginar -, a observação do que passava em redor..., apreendendo a alma, as práticas, as práticas e os usos africanos.
Na casa do administrador Graça também havia, para além de  revistas, livros, em especial de aventureiros viajantes por todo o Mundo, com atenção para aqueles que nos séculos XVIII desbravaram o Brasil, o far-west americano e os sertões de África e, aqueles outros, que navegaram pelas Índias, Chinas e Japões.
Começou a pintar a guache e a óleo, e a desenhar à pena, por volta dos 12 anos de idade. Autodidacta, teve, apenas cerca de duas semanas, aulas no ateliê de Mestre Frederico Ayres - um discípulo de Carlos Reis -, pintor que viveu largos anos em Moçambique, onde leccionou dezenas de alunos.
Expôs, individualmente, no Chinde, em Lourenço Marques, Johannesburg (União Sul Africana) e em Famalicão, aqui, uma exposição dedicada a Camilo no 1.º Centenário da sua morte), participando, ainda, em várias exposições colectivas.
Em Dezembro de 1973, apresentou uma exposição sobre temas africanos na lendária "Casa Amarela", na Pç. 7 de Março (Lourenço Marques), a última que efectuou na, então, cidade colonial. Dado o êxito da exposição, logo do dia da inauguração, obrigou-se a seleccionar para a colecção familiar, uma série de trabalhos de que alguns chegam, agora, ao público português. Depois de um largo período de pausa, retomou os pincéis e, também, as imagens do quotidiano da sua vivência moçambicana, tanto mais que se trata da rememorar uma vida que passou, a curiosidade e a paixão pela terra natal - a saudade tão portuguesa! - já que mantém viva a percepção visual e mental dos tempos vividos.
Calma, tímida até, sempre repousada, esta é a imagem da autora que nos traz a ardência, o mistério, o perfume de uma terra de sabores e cheiros que nunca se esquecem."
Vítor W. Ferreira

 

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publicado às 10:33


4 comentários

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De João Afonso Machado a 08.09.2010 às 14:29

Parabens Nuno.´
É uma surpresa para mim, e desde já lhe afianço que VBF terá todo o gosto em receber a obra da Senhora sua Mãe. Há interesse numa exposição lá?
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De Nuno Castelo-Branco a 08.09.2010 às 14:42

Desculpe-me a ignorância João, mas diga-me o que é a VBF?

Creio que seria interessante fazer-se algo em S. Miguel de Seide, por razões óbvias. No entanto, temo um pouco "surpresas" familiares. A última vez que lá estive, disseram-me que existia a intenção de transformar o local num "parque temático". Fiquei boquiaberto. Até o Jorge ficava e montava logo no Teófilo, pondo-se a andar!
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De João Afonso Machado a 08.09.2010 às 20:37

Descukpe lá a gralha. É VNF, Famalicão. Hoje mesmo falei com o responsável da Cultura: a sua Mãe fica convidada para expor na Casa de Camilo.
Mais precisamente no edifício anexo (do outro lado da rua), dotado de auditório, sala de exposições, etc.
É só dizer e ponho-o em contato com a Casa da Cultura da Càmara Municipal.
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De Nuno Castelo-Branco a 08.09.2010 às 21:41

João, o meu endereço net é ncb@sapo.pt. Peço-lhe que me contacte, de modo a acertarmos agulhas. O nosso colega João Borges está dono e senhor da situação aí no norte. Obrigado por tudo!

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