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"Memórias de Moçambique" (1)

por Nuno Castelo-Branco, em 13.09.10

"Em Movimento"

Existem preconceitos enraizados contra a presença portuguesa em África. Os velhos mitos das Minas do rei Salomão, são acompanhados por uns isolados casos de uma romântica "África Minha" e geralmente, de estorietas acerca de chibatas, sanzalas cheias de tombazanas à disposição do colono, vorazes tubarões à beira-mar, ou megalomanias que cantam o mantra de machambas tão vastas como os dois Alentejos juntos e um pedacinho da Andaluzia, agregado para a caça de elefantes tão altos como qualquer girafa de zoológico.

 

Se a ignorância e o descansado desinteresse pela pesquisa são bem conhecidos, a desinformação grassa, porque torna-se conveniente à manutenção de uma certa moralidade de situação, impedindo o abordar de tópicos incómodos. Curiosamente ou talvez não, aqueles que hoje governam os novos países de expressão portuguesa, são mais abertos em relação aos temas de um passado muito recente e bastas vezes conseguem ultrapassar as vicissitudes de outros tempos. Na realidade, a abordagem de um passado colonial no qual participaram, acaba por legitimar e consolidar os novos Estados e assim, não causa estranheza, a insistência na tentativa do uso extensivo do português, como língua que de imediato identifica uma nação em consolidação. Querem saber mais e olhar com um desapaixonado sentido crítico, para um período que findou há quase duas gerações, mas do qual foram intervenientes.

"Uma banja no mato"

 

Esta exposição serve para demonstrar o interesse que um tema tão esquecido, poderá ainda despertar . Num momento em que as autoridades de todos os governos da CPLP procuram reacender a chama da cooperação - desta vez sem favoritismos de anacronismos de Partido ou de regime -, urge demonstrar que da parte portuguesa, o interesse não se queda pelas transferências de dinheiro, tecnologia, bens de consumo e influência comercial. Para os africanos, sejam eles negros ou brancos, o desconhecimento da sua história, dos seus momentos de felicidade e de tristeza, dos seus costumes e da natureza que não se extingue em reportagens da National Geographic, consiste num problema que impede o seu acesso a um justo lugar no mundo. Não bastam as pedras do Vale do Nilo ou do Grande Zimbabué, para sintetizar em dois exemplos ao gosto euro-americano, aquilo que a África "devia ser". De facto, por ela estamos todos há muito fascinados e desde crianças temos os leões, elefantes, crocodilos ou antílopes, como referência daquilo que é o animal no seu estado selvagem, numa beleza inultrapassável pela fauna de outros continentes. É a África que os de longe imaginam, numa fronteira ténue entre o betão das cidades e a vida animal de uma savana sempre presente e que se imagina tentacular. Mas o que dizer então, daquela outra África que alguns retrataram microscopicamente através de grandes safaris fotográficos, entre os quais destacaria o maravilhoso contributo que Riefenstahl deixou com os seus nubas? Não serve afinal, para um certo aconchego das nossas mentes, sempre à procura do exótico mas refinado meio que uma comunidade pode despertar, sem que isso impeça o negligenciar de outras realidades, bem mais vastas e por isso mesmo comezinhas?

Alguém se lembra de actividades ancestrais como a pesca no Canal de Moçambique, onde um importante sector de actividade encontra a fonte de sustento num passado ancestral e pejado de conhecimentos que se perdem no desfiar do rosário de centúrias? De onde chegaram aqueles panos coloridos que de tão comuns, passam despercebidos, ou a elaborada joalharia de características únicas e que se vai perdendo com o passar do tempo, confinando-a à montra de uns tantos museus e coleccionadores privados? Não importará conhecer melhor aquela gente que bem distante está dos resorts do Bazaruto ou dos fins de semana na Gorongosa ou na Inhaca? O Portugal africano não foi também mais do que aquilo mostrado pelas velhas pedras imperiais da Ilha de Moçambique?

"O M'zingo sulcando o Zambeze"

Os barcos de pás que sulcando o grandioso Zambeze - nome mítico e que por si só, podia ter sido oferecido a um país - ligavam o interior de Moçambique à costa do Índico, ainda  existiam no tempo das nossas vidas. Onde estarão, o que lhes aconteceu? Há notícias da sua presença em alguns pontos de África e entre nós, alguns deles, ainda persistem em velhas fotos feitas por pais e avós, imortalizando-os em albuns de recordações.

"O Feiticeiro"

 

O que tem sido esquecido, é o incontornável factor humano, pois envolve emoções, onde a afectividade anda sempre irmanada pela injustiça, sacrifício, alegrias e tristezas. É disso mesmo que esta pequena exposição trata. Um olhar sobre um Moçambique que bem dentro de si, talvez ainda não tenha desaparecido. A imensa riqueza humana que se espalha em locais tão díspares como a Zambézia, Manica e Sofala ou o Sul do Save, onde as vestimentas, o som da música e a própria organização das gentes, não são "tudo a mesma coisa". Ninguém fala dessas comunidades e muito menos ainda, da sua convivência com a presença europeia naquilo que de positivo ou negativo possa ser apontado. São os eternos ignorados por quem apenas se ocupa da Cidade no seu sentido mais restrito.

"O Lobolo" (acordo nupcial)

 

Foi sem surpresa que verificámos uma genuína curiosidade, onde as dezenas de visitantes procuravam encontrar por si, as explicações para os quadros onde múltiplos aspectos da vida comunitária e familiar iam surgindo, numa sucessão que longe de mostrar exaustivamente uma realidade vivida pela autora - apenas 46 imagens, de uma colecção que quase roça as duas centenas -, oferece uma ideia daquilo que foi o derradeiro período da soberania portuguesa em Moçambique. Os portugueses estão preparados para conhecer o seu passado naquelas paragens, tão importante quanto foram os feitos dos grandes nomes imortalizados em estatuária heróica espalhada pelas nossas cidades. Se Debret deixou uma obra de divulgação do Brasil pré-independência, os portugueses e moçambicanos têm este "novo Debret", uma despretensiosa mulher que possui o profundo conhecimento da terra onde viveu e que para sempre amará. Os documentos não se guardam ou se deixam esquecidos para um futuro longínquo, ou pior ainda, à mercê dos acasos familiares. São um legado para Portugal.

Ana Maria e Tito Iglésias

 

Ana Maria e o neto Nuno Miguel

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publicado às 12:16


2 comentários

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De Anónimo a 13.09.2010 às 17:29

Parabéns à pintora. Esta Exposição merece bem ser visitada. Todas e cada uma das pinturas são uma amostra real do que foi a serena e feliz vivência daquele povo pré-independência. Povo, diria melhor, povos que viviam em paz e trabalhavam lado a lado com brancos e mestiços - não importa se nascidos na então Metrópole ou em qualquer das Províncias Ultramarinas - e que produziam riqueza e desenvolvimento em conjunto, povos que não morriam à fome nem sofriam de doenças crónicas e na sua maioria mortais, por falta d'assistência médica e medicamentosa. Povos que não se guerreavam entre si. Povos esses que foram assassinados aos milhares de milhares e os que conseguiram sobreviver foram reduzidos a nada - este o pior dos destinos. A descolonização tal como foi engendrada por gente diabólica, foi um crime contra a humanidade. Afinal, contràriamente ao que sempre se ouviu dizer e tomando como exemplo a Justiça que se praticava no anterior regime, desde há 36 anos a esta parte o crime compensa e de que maneira.
Maria
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De CArlos Eugénio F. L. Monteiro de Sousa a 17.04.2011 às 18:56

Os meus sinceros parabéns à Srª Dª Ana Maria.

Os quadros aqui colocados são lindíssimos e trazem-me à memória recordações antigas.

Muito obrigado por nos ter proporcionado tão belos quadros.

Lamento só hoje ter tido conhecimento desta exposição pois gostaria de ter tido a oportunidade de a ter visto in loco.

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