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Quem foram eles?

por Nuno Castelo-Branco, em 18.07.11

Sempre me divertiram essas republicanas susceptibilidades. Agora, tratou-se do caso do funeral de Otão de Habsburgo, onde um desconhecido Presidente vienense foi obrigado a comparecer, devido à presença de numerosos Chefes de Estado estrangeiros. A República austríaca, já suficientemente mesquinha quanto à sua nula identidade - foi proclamada em 1918, reivindicando a sua pronta adesão à Alemanha e sob o nome de Deutschösterreich - , não podia ficar de fora. Além da constante e quase obsessiva perseguição à pessoa do Grande Homem que há dias partiu deste mundo, a República austríaca vive em boa e regalada forma de parasitismo, às custas do legado dos Habsburgos. Desde Schönbrunn à Hofburg, do Ring à Ópera, do belíssimo edifício do Reichsrat aos grandes Museus e à valsa que se tornou no símbolo do país, tudo gira em torno da lembrança da dinastia daquele Império que foi o essencial elo do perdido equilíbrio europeu. Os Habsburgos estão presentes a cada esquina, em cada jardim ou praça. O país não medra sem eles, estejam ou não estejam sentados no trono. Mais que a presença das pedras e das telas ou o som das orquestras que transportam os turistas para um outro tempo cheio de memórias, os Habsburgos significam uma certa ideia de Europa que a República austríaca jamais conseguirá impor. Pior ainda, do seu democrático Parlamento chegaram ecos de ódio "contra os estrangeiros" que um dia foram todos denominados de "portugueses", numa abusiva generalização que nem sequer tem em conta, a fraquíssima presença dos nossos nacionais naquele pequeno país.

 

Desde há um século, quem são os grandes nomes do Estado austríaco? Quem se lembra ou retém como saudosa evocação, o nome de um Presidente ou de um 1º Ministro? É preciso o recurso a uma dose cavalar de fosfoglutina para avivar a memória, principalmente quando as referências são tão escassas. Senão, vejamos:

 

Francisco José foi Kaiser durante a maior parte do século XIX e marcou indelevelmente o ocaso do Império, falecendo em 1916. Os seus retratos estão por todo o lado, dos cafés de Viena, Praga, ou Budapeste, às casas particulares. O velho Senhor concitou o respeito e saudade por um tempo em que o Império significava um certo esbater de fronteiras e a possibilidade da vida em comum. 

 

O segundo austríaco, foi o sucessor Kaiser Carlos I, soberano efémero mas cujo patriotismo e grande dignidade são um exemplo. Este descendente de D. Nuno Álvares Pereira, é hoje um Beato da Igreja e a Áustria disso beneficia, no seguimento daqueles outros homens que se tornaram em símbolos dos seus países, como São Luís em França, Santo Estêvão na Hungria, São Venceslau na Boémia. Ainda há pouco tempo, Otão de Habsburgo dizia que jamais permitiria a trasladação de Carlos I, pois a Madeira tinha-o acarinhado nas horas trágicas da pobreza no exílio, protegendo a família e tornando aquele descendente dos Reis de Portugal, num dos seus. Por vontade da Casa de Áustria, o Beato Carlos I para sempre repousará na Igreja do Monte e isso interessa-nos enquanto portugueses. É talvez o elemento mais importante de proximidade entre o nosso país e a Áustria.

 

O terceiro austríaco com fama mundial, foi o Chanceler Adolfo Hitler, dispensando qualquer tipo de considerações.

 

O quarto, já na obscuridade bem própria dos políticos que não deixam marca notável, foi Kurt Waldheim. Quem dele ainda se recorda? Com um passado nebuloso e perdido no período de ocupação da Jugoslávia de 1941-44, Waldheim "reciclou-se" às mãos chantagistas da ditadura soviética, sendo um precioso peão que ascenderia a Secretário-Geral da ONU. Foi um dos mais terríveis inimigos de Portugal e sem honra ou glória, conseguiu alçar-se a Presidente da Áustria, para grande consternação de um mundo subitamente consciente da sua controversa personalidade. Já então se conhecia o seu passado bipolar e muitos aproveitaram o ajuste de contas por actos políticos no pós-guerra, nomeadamente aqueles praticados durante a sua permanência nas Nações Unidas.

 

Otão é o homem que transversalmente corta o tempo de todos os precedentes, desde a conhecida foto de criança que abraça as pernas do tio-bisavô, até à saga dos exílios - que foram muitos - e da generosidade da dádiva de uma Europa que ele quis diferente e que hoje lamentamos não se ter erguido por cobiça de muitos, desrespeito dos vorazes burocratas e frustração das bem instaladas nulidades que nos comandam

 

São estes, os homens de Estado que o século XX austríaco marcou. Consegue recordar-se de outros?

 

Como Otão dizia, "as feridas do dinheiro nunca são mortais. As políticas, sim".

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publicado às 10:20


9 comentários

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De editor69 a 18.07.2011 às 16:32

Nuno...
deixo-te aqui um video sobre o casamento dos pais do recem falecido arquiduque...O Kaiser Carlos e Kaiserin Zita e com a particularidade de também aparecer a infanta portuguesa Maria Antónia mãe da noiva.
Além do herdeiro de Franz Joseph (que tb aparece) e depois assassinado em Sarajevo Franz-Ferdinand.
http://www.youtube.com/watch?v=whDQfFyoGEE
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De Nuno Castelo-Branco a 21.07.2011 às 14:40

Já vi, Zé. Obrigado.
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De Anónimo a 19.07.2011 às 01:42

Extraordinário libelo! E que brilhante tributo aos ilustres  descendentes daqueles outros Nobres guerreiros que, dando um exemplo que só aos Heróis pertence,  combateram com destemor e valentia nas frentes de batalha. Glória aos Grandes e Ilustres Soberanos que  consquistaram  as Nações  que formam  o Continente  Europeu.
 
A Europa tal como está concebida foi obra de ilustres antepassados dos Reis que ainda estão.  Contudo, com o passar do tempo, traidores houve (e há)  que,  vendendo a alma ao diabo  a troco d'alguns milhões - o equivalente aos trinta dinheiros  que Judas então recebeu para trair Jesus Cristo - passo a passo têm vindo a destruir o que foi àrduamente conquistado por um punhado de Valentes guerreiros do passado.

E é assim que lenta mas inexoràvelmete os outrora países  europeus livres e independentes, como o nosso  foi, têm vindo a perder a soberania e a territorialidade. Esta foi a mais vil e diabólica traição perpetrada por alguns em nome de  todo um povo,  aos  seus  Maiores.
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De Anónimo a 19.07.2011 às 02:34

Peço desculpa por não ter assinado o comentário  anterior.
 
E acrescento mais uma linha que por lapso não incluí no mesmo. Parabéns Nuno, pelo belíssimo  texto que aqui nos deixou.
Maria
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De Miles a 19.07.2011 às 10:45

Tem plena razão no que escreve. Há muito que sustento que o Império Austro-Húngaro de finais do século XIX, bastante mais do que o próprio Império Britânico, personifica o zénite da civilização europeia, o momento de mais alto esplendor desta. A sua desaparição política, num certo sentido, é a desaparição política da própria Europa.

Relativamente às figuras da República Austríaca, falhou-lhe uma, talvez duas:

- Engelbert Dolfuss, o chanceler católico antinazi, admirador de... Salazar;

- Bruno Kreisky, o chanceler social-democrata dos anos 70, símbolo máximo de uma Áustria depressiva, ainda que rica, e quase finlandizada face à União Soviética.
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De José Tomaz de Mello Breyner a 19.07.2011 às 12:27

Nuno

GRANDE texto. Parabens, e claro está que vou divulgar.


Abraço


Zé Tomaz
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De João Saldanha a 19.07.2011 às 13:34

Excelente texto, de facto a Áustria republicana o deu á civilização? Hitler? Também têm retratos dele nos cafés.
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De WZD a 19.07.2011 às 18:42

Excelente prosa!
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De Nuno Castelo-Branco a 19.07.2011 às 19:08

Obrigado a todos, mas embora o Tempo indicasse a hora, ainda estou aturdido pela morte de Otão.

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