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Algo está podre nesta república

por Nuno Castelo-Branco, em 29.02.08


A notícia conclusiva da semana, foi sem dúvida, a recusa do indigitado director da PJ do Porto, em assumir o cargo que previamente aceitara. É mais um exemplo entre muitos, de recusa do exercício de funções de grande visibilidade pública e responsabilidade política. Não se tratando de qualquer auto-reconhecimento de incapacidade para o cargo, o putativo resignatário - antes da efectiva tomada de posse -, corajosamente alertou a opinião pública, acerca de um dos grandes males que, paulatina mas irreversivelmente, vai corroendo o nosso tecido social: a calúnia e a baixa intriga de contornos difusos e perigosos, porque destrói reputações e ameaça pela coacção moral.

Os portugueses amam a crendice nas teorias da conspiração, nascidas em casas sombrias, onde as senhas, códigos de contacto e juras de segredo, compõem o cenário supersticioso e aterrorizante. Inventam-se sempre cumplicidades inter familiares, intentonas de círculos alegadamente abastados - o ouro alheio é matéria ofuscante das razões - e no pior dos casos, cumplicidades decorrentes dos chamados vícios privados, sem que em contrapartida, se demonstrem minimamente hipotéticas virtudes.

Afastando a mera fé estúpida e a intriga onde em qualquer tasca se arrasta pelo lodo a reputação de quem, pelo seu mérito ou por outra circunstância, sobressai da massa anónima, cremos ser evidente, a existência de grupos interessados na manipulação daquela, sempre permeável a descarregar nos "bem aventurados", as frustrações quotidianas, os complexos de inferioridade e a simples mas mortífera inveja.

Se o ataque se dirige geralmente, à "integridade moral" do alvo a abater - enfim, a tudo aquilo que é precisamente mais discutível e na maioria das vezes, completamente irrelevante -, a ameaça assume por vezes contornos ferozes de violência. Violência esta que em conformidade com o carácter do meliante ou denunciante, atingirá preferencialmente quem mais perto está da vítima, isto é, a família. Nada disto é estranho, nem é exclusivo da comunidade portuguesa, porque existe em qualquer parte do mundo. O que se torna revoltante, é a dimensão que atinge no nosso tempo, propagando-se como fogo em palha seca, através de quem mais devia zelar pela liberdade individual e colectiva, ou seja, a comunicação social. Não há dia em que aspectos absolutamente irrisórios da vida deste ou daquele famoso, seja espiolhada sumariamente em letras garrafais, sem que o conteúdo da notícia, corresponda minimamente ao alerta social. A falta de vergonha, a total insensibilidade, a malvada mesquinhez, deveriam apenas merecer como resposta, o nojo. Aquele nojo propiciador de um acesso de vómitos que nos limpe de vez, de toda a porcaria curiosa, indigente e ácida com que copiosamente somos alimentados no dia a dia.
A baixeza de carácter é uma praga que alastra incontrolavelmente e é uma pena verificarmos que os exemplos venham exactamente de onde sempre são esperados: de cima. Que vergonha, meus senhores!

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publicado às 19:11

Do Combustões

por Nuno Castelo-Branco, em 28.02.08
O grande mito do nosso tempo reside precisamente aqui: o de fazer crer que somos todos iguais. O grande erro é o de fazermos das elites povo, atrelando-as ao estômago e à sardinha a fumegar numa broa saída do forno. Antes, ensinava-se na academia que morrer era um privilégio reservado àqueles que serviam as pátrias. Hoje, ensina-se-lhes tabelas remuneratórias, sociologia e outras fantasias. As estátuas que povoam os nossos jardins, praças e avenidas não são propriamente as de comedores de caracóis ou libadores de néctares.

Miguel Castelo-Branco in Combustões.

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publicado às 21:15

Croniquetas Republicanas (3)

por Nuno Castelo-Branco, em 28.02.08

A Camioneta Fantasma

Caía a noite a 1 de Fevereiro de 1908, quando um exultante Machado Santos, procurava secundar o Regicídio, sublevando a guarnição do quartel de Campo de Ourique. O assassinato de D. Carlos e do príncipe Luís Filipe, era uma oportunidade para os republicanos que embora tivessem a cidade coagida pelo medo, não conseguiram derrubar o regime.

Naquela noite de 19 de Outubro de 1921, Machado Santos não terá porventura, recordado esse já longínquo final de dia de há catorze anos. No entanto, tal como o rei que odiara, caiu varado por balas assassinas, mas bem consciente do fim que se avizinhava. Junto ao chafariz de Arroios - ainda existe e foi recentemente restaurado -, foi fuzilado sumariamente, às mãos de um bando de marinheiros sublevados e de homens da guarda pretoriana do regime, a GNR.

Sob o comando do famigerado rufia radical Abel Olímpio - o Dente de Ouro -, e procedendo a uma recolha sistematica daqueles que haviam apoiado ou nutrido simpatias pelo sidonismo, a Camioneta Fantasma percorreu as ruas de Lisboa, num trajecto que teve como terminal o Arsenal da Marinha, ao Terreiro do Paço. Aí, após insultos e agressões físicas, caíram crivados de balas, Carlos da Maia, o ex-primeiro ministro António Granjo, o comandante Freitas da Silva e o coronel Botelho de Vasconcelos.

Este Portugal alegadamente de "brandos costumes" que a auto complacência nacional propagandeia como virtude singular, estava desde os anos 80 do século XIX, habituado à violência verbal, às correrias, distúrbios e algazarras sediciosas. A conspiração, a manufactura de bombas e a eliminação de partidários da ordem Constitucional, eram actividades naturalmente consideradas pelos responsáveis do prp, como acções necessárias à instauração do novo regime. Ao longo de três conturbadas décadas, criou-se o estado de espírito tendente a aceitar todo o tipo de violências, depredações e a recusa reflexiva de qualquer poder constituído. Não tinham os chefes republicanos ido em constantes romagens, homenagear o Buíça e o Costa ao coval do Alto de S. João?

Na fase final da Grande Guerra, o chamado Sidonismo tinha ensaiado uma reformulação do regime, num sentido presidencial e autoritário, e enfrentou de imediato, a férrea oposição do partido de Afonso Costa e dos sectores jacobinos mais radicais. A GNR era muito diferente daquela que hoje conhecemos e na região de Lisboa - o centro político onde tudo se decidia -, contava com mais de 14.000 soldados, poderosamente armados com metralhadoras e artilharia, surgindo como uma garantia da república contra sublevações populares ou do exército.

Com a colaboração de jornalistas - detalhe interessante e elucidativo do clima subversivo que os media inculcaram na sociedade -, foram assim eliminados, alguns dos vultos mais proeminentes do 5 de Outubro de 1910.

O regime que dentro de alguns meses esta 3ª república pretenderá comemorar, assentou palafitas num lago de sangue, onde soprou desde a sua turbulenta génese, o vendaval da violência, livre arbítrio, coacção física e moral.

A situação de então, é eloquentemente justificada pelo republicano Cunha Leal que diria ..." o sangue correu pela inconsciência da turba, a fera que todos nós, e eu, açulámos, que anda à solta, matando por que é preciso matar (...) é esta maldita política que nos envergonha e me salpica de lama"... Jaime Cortesão acrescentaria: "sim, diga-se a verdade toda. Os crimes que se praticaram, não eram possíveis sem a dissolução moral a que chegou a sociedade portuguesa".

Lendo os jornais diários e escutando os actuais chefes políticos, questiono--me acerca do futuro. Portugal vive um momento propiciador de uma erupção violenta que irrompendo inesperadamente, mais catastrófica poderá ser. Quantos Dentes de Ouro andarão por aí?

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publicado às 19:14

Numa democracia...

por Samuel de Paiva Pires, em 28.02.08
...digna desse nome, com uma monarquia liberal e uma religião de estado, mas onde vivem imensas pessoas com variadíssimos credos (tal como mostra a foto abaixo, pois parece-me que há ali uns senhores que de anglicanos terão muito pouco), e onde encontramos aquele arcaísmo antidemocrático que é a Câmara dos Lordes, segundo Vital Moreira, a quem a Helena Matos respondeu num dos melhores posts da blogosfera nos últimos tempos, acontece isto:

Ministers have been accused of "rank hypocrisy" after it emerged that a third of Gordon Brown's Cabinet are campaigning against Government plans to axe post offices in their own constituencies. The Government said the proposals to close 2,500 branches in Britain were necessary to preserve the Post Office network's £150 million-a-year subsidy, and cut its estimated losses of £4 million a week. However, the move has caused widespread public opposition and The Daily Telegraph can disclose that seven Cabinet members oppose the plans in their constituencies. Some have organised petitions to spare their post offices from closure. The group includes some of Mr Brown's most senior colleagues - Jack Straw, the Justice Secretary; Jacqui Smith, the Home Secretary; and Geoff Hoon, the Chief Whip. Andy Burnham, the Culture Secretary; Tessa Jowell, the Olympics minister; John Denham, the Secretary of State for Innovation, Universities and Skills, and Paul Murphy, the Welsh Secretary, are also campaigning, or have campaigned, to save their local post offices.

(Jack Straw numa manifestação para salvar o posto de correios da sua constituency)

Ainda que Smith, Jowell e Straw sejam acusados de hipocrisia visto terem previamente aprovado a redução dos postos de correio, estando agora a tentar salvar os das suas constituencies, pode-se arguir como tantas vezes se faz no nosso país que as circunstâncias mudam e as opiniões mudam também, ou não tenhamos nós na memória de curto prazo o caso do Aeroporto OTA/Alcochete.

Mas o que realmente nos interessa é que neste Portugal onde a matriz política da alma lusitana é tendencialmente absolutista e repressora das opiniões divergentes, seria impossível algo como isto acontecer. É a diferença entre uma pseudo-democracia e uma verdadeira democracia evoluída onde os partidos não agrilhoam os seus miliantes à disciplina de voto e ao pensamento único, entre uma jovem envelhecida democracia da obediência ao chefe e uma velha jovial democracia que cultiva a rebeldia e a divergência como forma de intervenção política e cívica, entre um verdadeiro país politicamente desenvolvido e um verdadeiro país de políticos desenvolvidamente atrasados e ignorantes na arte de governar.

Ainda haverá por aí alguém a querer dar lições de democracia aos britânicos?

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publicado às 05:32

Numa democracia...

por Samuel de Paiva Pires, em 28.02.08
...republicana e laica, acontece isto:

Um departamento de uma escola pública obrigou um professor a fechar dois jornais humorísticos, onde se satirizava a Igreja e alguns políticos, porque o conteúdo era "desprestigiante" para a escola. O Conselho de Departamento (…) deliberou, numa reunião, que estes meus projectos na blogosfera tinham que ser encerrados. Segundo argumentam, desprestigiam a minha própria imagem, a imagem do departamento e, acima de tudo, a imagem da universidade. Além disso, (…) dizem que eu faço lá coisas que não têm nada a ver com a minha profissão e que um docente universitário não pode ser escritor criativo nem humorista. Portanto, proibiram-me também de participar em eventos ligados ao humor.(...). O visado diz que não recorreu a outros órgãos da Universidade porque essa foi uma decisão tomada em família. Sou casado, a minha mulher não tem emprego, tenho um filho pequeno para criar e preciso do ordenado para pagar a dívida da casa, para pagar o carro e por aí fora.


José Adelino Maltez, in Sobre o Tempo que Passa - ver aqui a notícia relativa ao professor Daniel Luís

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publicado às 05:26

Quando o Conselho de Segurança se porta como deve

por Samuel de Paiva Pires, em 28.02.08
A Rússia está pronta a apoiar o projecto da nova resolução da ONU contra o Irão, se Teerão não suspender, nos próximos dias, o enriquecimento de urânio, disse hoje à imprensa o embaixador russo junto da ONU, Vitali Tchurkin.

Eu que tento sempre analisar os dois lados de qualquer questão tentando partir de um abstracto ponto neutro, não me posso imiscuir de pensar que, se por um lado o Irão está no seu direito soberano de desenvolver armas nucleares, bem de acordo com as premissas realistas, por outro lado a comunidade internacional, esse ente invisível mas omnipotente, também está no seu direito de não permitir a difusão de armas nucleares. E neste campo, o chamado Ocidente e todos os restantes países devem (aqui, estou normativamente a emitir um juízo de valor que confere um carácter subjectivo à análise anterior) realmente conjugar esforços para impedir que o Irão venha a desenvolver armas nucleares, um condicionante estratégico que ameaça de sobremaneira a estabilidade do sistema internacional, e de forma mais grave pode destabilizar ainda mais uma zona do globo que muitos apontam como eventual região onde surgirá o próximo conflito de grande escala.

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publicado às 05:05

Quando o orçamento não chega...

por Samuel de Paiva Pires, em 28.02.08
...ou não é bem gerido como em muitos casos:

Por via das dificuldades económicas de muitas instituições, ou de iminentes alterações às carreiras do sector, é já um dado adquirido que as universidades públicas vão reduzir os seus corpos docentes. Se serão cortes da ordem das dezenas, centenas ou até milhares é a dúvida que neste momento deixa angustiados muitos profissionais da área.

Ainda vamos ver professores universitários na rua a juntarem-se aos do básico e secundário. Quando para se garantir um lugar como professor universitário é necessário ser doutorado, deixa de haver espaço para os restantes. E é que para chegar a professor doutor são necessários uns quantos anos, e entretanto as contas não se pagam do ar. E nem todos têm bolsas da FCT.

Parece que já estou a ver certos professores doutores decrépitos ou que de professores têm muito pouco, a recostarem-se nos seus cadeirões, enquanto os promissores jovens académicos não têm alternativa a não ser desistir da carreira académica.

E não me parece realmente muito viável esta bolonhesa de fazer 3+2 + não sei quantos anos, para se chegar a professor doutor e poder ser docente universitário com lugar garantido. Isto sou só eu a pensar, mas quantos pais estão dispostos a pagar 7 ou 8 ou 9 anos para o filho ser professor doutor?

Ainda por cima, a haver despedimentos em massa serão os mais novos e que menos estejam ligados às redes de caciques das universidades onde leccionam que serão os primeiros a ser despedidos. Mais uma vez vamos assistir à velha rábula de "eu estou cá há mais tempo que tu", ou "eu tenho uma licenciatura desta universidade e tu não", a mostrar como a antiguidade é um posto neste Portugal decrépito onde a meritocracia nunca se fará realmente sentir, não sendo por isso de admirar o crescente brain drain que se vem paulatinamente instalando, esse mesmo síndrome de país terceiro mundista.

Há dias alguém me dizia que me via mais como professor/político do que como militar ou diplomata. Entende porque é cada vez mais difícil viver neste país, especialmente para os jovens, mesmo sendo a carreira académica a que mais me atrai?

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publicado às 04:38

Mistérios da governação

por Samuel de Paiva Pires, em 28.02.08
Lino não lançou o desafio de gestão por parte de privados do Aeroporto Sá Carneiro, mas prefiro acreditar na palavra de Belmiro. É que ao contrário da classe politiqueira capitaleira o Eng.º Belmiro não é conhecido por andar aí a inventar coisas.

O presidente do Conselho de Administração da Sonae, Belmiro de Azevedo, afirmou na terça-feira estar a estudar a possibilidade de criar uma entidade que faça a gestão moderna do aeroporto, respondendo a um desafio do governo.

O ministro das Obras Públicas disse desconhecer esse "desafio" e garantiu não o ter feito.

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publicado às 04:32

Visitem o blog Nocturno

por Nuno Castelo-Branco, em 28.02.08
Nem tudo é tristeza ou prostração. Se quiserem deleitar-se com as melhores fotografias de uma Lisboa que passa quase despercebida diante dos nossos preguiçosos olhos, vão ao blog Nocturno. É esta a cidade que almejamos e talvez um dia, a Luísa possa divulgar imagens de prédios que hoje arruinados, ressurgirão rejuvenescidos e aptos para enfrentar mais uns séculos.

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publicado às 00:15

Do Combustões

por Nuno Castelo-Branco, em 27.02.08
No Ocidente respeita-se ou aprendeu-se a respeitar o valor de tais objectos. Noutras paragens, a reivindicação serve, pelo que vemos, para espicaçar vaidades nacionalistas. Talvez um dia a Sociedade de Geografia de Lisboa veja entrar pela porta adentro um diplomata do Benine reclamando as belíssimas peças de estatuária de fundição que os "portugueses roubaram" nos séculos XV e XVI.

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publicado às 18:09

Viva a insurgência!

por Samuel de Paiva Pires, em 27.02.08
O aparentemente "okupado" O Insurgente está de volta, precisamente no dia em que celebra três anos na blogosfera. Parabéns e um grande abraço a todos os insurgentes, em especial porque foram os primeiros linkar o Estado Sentido, quando ainda estava na sua fase inicial.

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publicado às 17:42

Sapateados, Zapateros e espanholadas noche fuera

por Nuno Castelo-Branco, em 27.02.08
Hoje sinto-me belicoso. Tal não se deve a qualquer notícia do telejornal, conta para pagar ou birra. Na verdade, ontem organizei um pequeno jantar para uma amiga de Madrid que, de férias em Lisboa, trouxe consigo dois "chicos" como acompanhantes. De tchicos* (escreverei tal como eles pronunciam as palavras) tinham muito pouco, pois tratava-se de dois exemplares acabados do marmanjão muito senhor de si, organizado e aquilo a que eu costumo chamar "betus ibéricus", uma subespécie que abunda para cá dos Pirenéus.

O jantar estava bom, confesso, e a conversa iniciou-se de forma aprazível, como convém. Zapateristas ferrenhos, passaram longos momentos a tecer loas à transcendência da sua gubérnáción*, ao diálogo, abertura, enfim, o recorrente discurso a que por cá também nos habituámos. Estes dois espanhóis - um catalão e outro castelhano -, não são propriamente uns pobres diabos das claques do Barça ou do Real Madrid. Enquanto um é professor no liceu, o outro desempenha funções na diplomacia do país vizinho. Apresentados os currículos, a conversa parecia prometer e ajudar-me a aliviar certos preconceitos - pelo menos considerava-os como tal - que quase todos os portugueses enraizaram a respeito destes primos um tanto distantes no tempo e na história.

O verdadeiro problema teve início, quando se começaram a fazer sentir os efeitos do bom vinho. Copiosamente regados, os dois convivas - digo dois, porque só eles falaram à mesa -, iniciaram o famoso discurso de apresentação das vantagens da união ibérica. O mais curioso, é que as vantagens se resumiam apenas ao lado Êpanhol*, porque no que a Portugal diz respeito, nada de proveitoso foi dito. Colocando algumas questões, manifestei uma certa curiosidade acerca da forma como eles encarariam um tal processo de unificação e não fui surpreendido, quando se tornou evidente de que se trata de uma pura e simples anexação sem condições! A todos os argumentos colocados, encontram resposta pronta. A língua portuguesa, logicamente seria marginalizada e de forma muito simples, dada a facilidade que temos para aprender outros idiomas. As nossas leis e ordenamento territorial, submeter-se-iam ao esquema delineado pela Constituição espanhola e nem sequer Portugal existiria como entidade, pois seria dividido em quatro regiões autónomas continentais e duas insulares. A depredação do nosso património é um dado não negligenciável, uma vez que a África Lusófona, terá para eles, o mero interesse comercial que lhes dita a conveniência das suas empresas. Nada mais.

Pensei que as rivalidades entre castelhanos e catalães, pudessem de qualquer forma, mitigar ímpetos que outrora bem conhecemos. Uns copos de tinto, afogam num ápice, todas as querelas - que verifiquei serem de simples disputa tributária - e ameaças de secessão. A agressividade, o espalhafato intrínseco, a certeza absoluta de certas convicções - para as quais Cervantes bem alertou -, pairam acima dos eflúvios vinhosos, como nuvem ameaçadora. É que aqueles senhores, um dos quais é diplomata, pouco ou nada conhecem do mundo e menos ainda, do seu vizinho mais próximo. A ignorância é espantosa, roçando o achincalhamento daquilo que pensávamos ser o ensino em Êpanha*. Esgravatando ao de leve o passado de conflitos de interesses que fizeram eclodir constantes guerras entre os dois países, podemos facilmente concluir que a visão maniqueísta e desdenhosa que do nosso país têm, atinge dimensões verdadeiramente assombrosas. O simples exemplo da Guerra da Restauração, é por eles explicado como uma total ausência da presença portuguesa nos campos de batalha, infestados, isso sim, de ingleses, franceses e holandeses. E não se ficam por aqui. Com o ar mais sério deste mundo, foram grunhindo enormidades acerca do poderio do reino, desde a sua inigualável e poderosa frota, até ao verdadeiro peso que tem nos destinos mundiais. Pareciam dois russos pré-Perestroika e a verdadeira trovoada de arrotos de postas de pescada, não cessava. Tudo é por lá inacreditavelmente superior, desde a Pintura, até à Música, debitando, claro está, créditos aos senhores Gaudi, Calatrava e Bofil. A mão êpanhola*, conduz a humanidade à perfeição. Incrível, só visto! Nem as suas antigas colónias, vistas como países sem razão histórica e política de existir, são poupadas ao vendaval de desprezo avassalador: os índios da América do Sul, não passam de chinchetas (alfinetes de escritório), cujas caras achatadas denunciam de imediato a impossibilidade de organização como nações. Os mexicanos, eses gorditos , servem apenas para garantir a preponderância da língua espanhola, nuns Estados Unidos em acelerado processo de hispanización*.

E poderia continuar a descrever este pretenso jantar-comício, durante horas. Os homens não se calavam e nós, pobres portugueses mudos de espanto, ouvimos com curiosidade redobrada. Na verdade, o pior foi o entremear do discurso, com a habitual gritaria da sua musica précioça*, que finalmente nos fez render à evidência: a língua é cavernosa e roça bastante aquilo que designamos como pirosa. O ruído canoro, com os ay ay ay ay ayyyyy, acompanhado pelo infernal clapaclapaclap das palmas, nada tem de comum connosco. Aquela pose de mão na anca e queixo erguido, entre o toureiro e um goyesco retrato de Fernando VII, espelha bem o que lhes vai na alma. Ficámos todos elucidados. São incorrigíveis. Vivem convencidos da sua incomparável grandeza e entretanto, não compreenderam que o mundo mudou.

Embora a chamada classe empresarial teça os habituais e interesseiros elogios a uma tal "União Ibérica", os políticos - porventura tentados a uma saga de tamanho jaez -, poderão ir contanto com uma inevitável jacquerie lusitana. E não digo mais, porque concedo o benefício da dúvida: seriam apenas dois parvos?

* A foto foi feita ontem, pouco depois da penosa retirada dos dois toros e da bastante atónita acompanhante.

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publicado às 14:59

Secularização e laicismo na Irlanda

por Samuel de Paiva Pires, em 27.02.08
Ou a secularização e laicismo na Irlanda estão a caminho, ou qualquer dia ainda vamos ver uns quantos quantos missionários a caminho da Irlanda para espalhar a fé anglicana, ou o Vaticano arranja forma de não perder um dos grandes bastiões da fé católica. Parece que até já estou a ver Vital Moreira aos pulos de contentamento quando souber disto:

Ireland, a country that used to export its Catholic clergy around the world, is running out of priests at such a rate that their numbers will have dropped by two thirds in the next 20 years, leaving parishes up and down the land vacant.

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publicado às 05:51

A falta de qualidade dos políticos

por Samuel de Paiva Pires, em 27.02.08
Como nos diz o Miguel:

Os velhos políticos, de vista gasta nas noitadas de leitura, nas provas académicas, na barra dos tribunais, nos escritórios da banca, viram-se despidos, ridículos e incapazes de compreenderem o que se passava. Um a um, foram desaparecendo. Hoje, desses catões já não há um só no Parlamento.

E é por isso que acontecem umas palhaçadas para entreter o povo, como esta de Paulo Portas querer processar Jaime Silva por alegadas insinuações ou coisa que o valha. Triste fado o deste país. Será que esta nação merece mesmo estes "líderes"?

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publicado às 05:10

Reforço de peso

por Samuel de Paiva Pires, em 27.02.08
Uma das vozes mais influentes na academia e no mundo dos negócios norte-americano, Alvin Toffler, o sociólogo que popularizou o conceito de adocracia, que o nosso Paulo Cardoso tanto aprecia, veio a público revelar que votará em Obama.

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publicado às 04:47

E não é que há mesmo apitos de ouro no Apito Dourado?

por Samuel de Paiva Pires, em 27.02.08
Ainda de acordo com a versão de Rui Mendes, "entendi que era necessário beneficiar o Gondomar. Não sou burro, mas não vacilei" e o encontro terminou empatado. Precisou que ninguém lhe tinha formulado pedidos, não recebendo qualquer prenda. Isso aconteceu em outros desafios, "doçaria da região, relógios" e, até, "uns apitos pequeninos em ouro". Ou seja, "Apitos Dourados", não resistiu o juiz ao lance de ironia.

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publicado às 04:45

Pontapés na gramática portuguesa

por Samuel de Paiva Pires, em 27.02.08
A propósito disto lembrei-me de um episódio que aconteceu há uns dias. Estava eu a conversar com uma licenciada em Língua Portuguesa que me dizia que a a palavra "inverdade" não existe, não é correcta. Logo de seguida diz-me que "gordurosa" é um arcaísmo que também não está correcto segundo o português moderno, revelando-me que deveria dizer "gordurenta". Passado uns segundos estávamos a falar já nem sei de quê e diz-me ela "Ele fê-ze-as".

A maioria das pessoas normalmente conjuga mal os verbos quando devem dizer por exemplo "fê-las". Mas uma licenciada em Língua Portuguesa armada em sabichona e a seguir para além dos "bués", que ainda se leva como normal hoje em dia, diz-me "fê-ze-as" ou "fêze-as" que eu nem sei como isto se escreve, porque aliás não se escreve nem se diz, porque isso sim não existe, e "o burro sou eu?". Correndo o risco de plagiar Vital Moreira, só dá vontade de dizer "um pouco mais de rigor s.f.f".

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publicado às 04:16

O que distingue a esquerda da direita

por Samuel de Paiva Pires, em 27.02.08
Recordo-me de uma personagem que não sei se ainda anda pelos corredores lá da faculdade, um ilustre arregimentador ao serviço da xuxaria, que para levar os caloiros a filiarem-se na JS atingia-os logo nos primeiros dias, antes que aprendessem alguma coisa com os poucos bons professores que por lá andam, com a seguinte pergunta: "Preocupas-te mais com o económico ou com o social?". Se o visado respondesse que se preocupava mais com "o económico" era veementemente repudiado. Se, pelo contrário, se mostrasse mais preocupado com "o social", era logo elogiado e convidado a fazer parte da JS. Alguns dos melhores argumentos de que me recordo eram ainda os fantásticos "vem para a JS pelo convívio" ou "vem para a JS fazer amigos".

Amigos, pois está bem. Não sei se é pelo meu ar de poucos amigos ou se transpiro que sou de direita, mas pelo menos a mim nunca me interpelaram com tais argumentos ou convites para me filiar. E a pena que eu tenho, que eu gostava mesmo era de ir abanar bandeiras com os velhotes de Cabeceiras de Basto trazidos até Lisboa por altura das eleições que António Costa venceu para a Câmara Municipal de Lisboa..

Mas continuando, o episódio que relato demonstra a precariedade de uma distinção primitiva entre esquerda e direita que de forma demagógica vai servindo os propósitos da arregimentação. Porém o que nos interessa é que depois da chamada "bomba" de Vargas Llosa, símbolo da direita em Espanha, que o El País reporta:

"Me considero liberal, me siento cercano al Partido Popular desde el punto de vista económico" y de su “defensa de la unidad española", pero "no me siento en absoluto representado por las actitudes conservadoras, opuestas por ejemplo al laicismo, la separación de Iglesia y Estado y de la creación de una sociedad laica", escribe Vargas Llosa.

El novelista, de 71, considera que "el matrimonio homsexual, el derecho a adoptar de las parejas homsexuales son medidas progresistas que aumentan la libertad y los derechos humanos". Es en nombre de la defensa de la laicidad que se ha unido a UPD (Unión, Progreso y Democracia), un partido fundado por la exeurodiputada socialista Rosa Díez, y un filósofo, Fernando Savater. Vargas Llosa apoyó la fundación del partido en septiembre de 2007.

Acontece que um ou uma tal jornalista de nome Cadi Fernandes escreveu um daqueles artigos que só dão razão a muitos dos que dizem que alguns jornalistas são muito ignorantes. Prima é pela originalidade pois distingue que quem apoia o matrimónio de homossexuais é de esquerda, quem não apoia é de direita. Ficamos esclarecidos.

Sem mais, limito-me, tal como o AMN, a citar o Pedro Marques Lopes:

Para a jornalista ou jornalista Cadi Fernandes o facto de se apoiar a adopção por homossexuais ou casamentos entre pessoas do mesmo sexo, quer dizer que se é de esquerda. Pronto. Cadi descobriu a pólvora. A partir de agora basta perguntar se se é a favor dos casamentos entre homossexuais para se ficar a conhecer todo o pensamento político de um indivíduo. Vem isto a propósito de uma tomada de posição de Mário Vargas Llosa acerca destes dois temas. Cadi não hesita: Llosa é de esquerda. As posições do escritor sobre o papel do Estado na educação, cultura, saúde, segurança social, as liberdades individuais, o papel do indivíduo, os impostos, a segurança, questões das migrações, para só ditar algumas, não interessam nada. O que conta são os casamentos dos homossexuais e as adopções. O facto do autor peruano dizer que, segundo a sua opinião, são medidas que aumentam a liberdade e os direitos humanos faz Cadi reforçar a sua ideia: Liberdade e direitos humanos, logo esquerda. Sim senhor, estou esclarecido.

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publicado às 03:44

Entendam-se pá!

por Samuel de Paiva Pires, em 26.02.08
Vai na volta o pessoal da especialização de Segurança e Informações da licenciatura de Relações Internacionais do ISCSP ainda arranja emprego. É que com a crescente falta de qualidade dos serviços de informações por esse mundo fora, algumas cabeças vão ter que rolar:

The U.N. nuclear monitoring agency presented documents Monday that diplomats said indicate Iran may have focused on a nuclear weapons program after 2003 — the year that a U.S. intelligence report says such work stopped.

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publicado às 05:26

Durão prepara-se para segundo mandato

por Samuel de Paiva Pires, em 26.02.08
E já com o apoio dos espanhóis, para além de Portugal, obviamente. Descansem que Durão ainda vem a tempo de ser Presidente da República depois do segundo mandato de Cavaco. Ah, ainda há Guterres pelo meio. E também há altos cargos da ONU para distribuir. Eles lá se decidirão entretanto.

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publicado às 04:50

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