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O Dalai Lama vigilante

por Nuno Castelo-Branco, em 30.04.08

A inesperada reacção mundial à situação no Tibete, levou os dirigentes pequineses a uma hábil e bem conhecida manobra desmobilizadora. Propuseram conversações ao supremo chefe tibetano, o Dalai Lama que com a sua habitual mestria  e conhecimento profundo da verdadeira natureza do governo chinês, respondeu de forma sumária e inequívoca. O líder espiritual está disposto a encetar negociações, como sempre manifestou ao longo das cinco décadas de invasão, ocupação e colonização do seu país. No entanto, sabedor dos meandros ínvios da máquina de propaganda do PCC, tornou bem claro que as anunciadas negociações deverão ter uma base concreta, ou seja, uma agenda para discussão. 

No seu ímpeto expansionista, a China tem procurado controlar os países limítrofes - Laos, Birmânia, Coreia do Norte -, ao mesmo tempo que outros como a Tailândia e Singapura , são fortemente influenciados pela importante presença de comunidades chinesas, ou por directa intervenção nos partidos de governo, como no Camboja. Os acontecimentos no Nepal evidenciam esse avanço para sul, garantindo o acesso às passagens dos Himalaias e estabelecendo um regime satélite nas fronteiras da rival Índia. De facto, Pequim liga-se a todo o tipo de Estados considerados como párias, desde o Irão, à Síria, Coreia do Norte ou Venezuela, sedentos de parcerias técnicas no âmbito militar. Na África, a par das missões económicas, intervém nos conflitos internos de vários países, fornecendo armas e assistência técnica. A recente saga do cargueiro chinês com armamento destinado ao Zimbabué é apenas um episódio de uma longa série  de tomadas de partido pelo ditador de serviço, chame-se este Mugabe ou qualquer outro disposto a garantir o fornecimento de matérias primas vitais ao galopante crescimento económico da RPC.

O Dalai Lama conhece os factos e enfrentou Mao e Chu-Enlai, não claudicando perante Xiaoping e Ziemin. Não será o actual chefe do PC quem o irá vergar. Se os Jogos Olímpicos ofereceram uma oportunidade de exibição do novo poder económico do colosso, colocaram-no todavia, sob o severo escrutínio da opinião pública ocidental. Dos consumidores. E para os chineses isso é o que mais importa. Na verdade, tudo o mais são ninharias.

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publicado às 21:55

Apeteceu-me esta excentricidade alemã de 1972

por Nuno Castelo-Branco, em 30.04.08

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publicado às 21:07

Uma lição negligenciada...

por Nuno Castelo-Branco, em 30.04.08
Para certos amigos que pretendem nada esquecer e nada aprender, uma sugestão de leitura. Já agora, procurem algo sobre o conde de Chambord e mais concretamente, sobre o período da sua vida na década de 65-75 do século XIX. 

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publicado às 19:37

A Esquerda, a Direita e o Antes Pelo Contrário

por Nuno Castelo-Branco, em 29.04.08

Escutadas as notícias no telejornal da RTP-2 às 10 da noite, fui acometido de uma fúria súbita. A diseuse de serviço abriu o noticiário com a eterna lengalenga da alta dos preços do combustível, onde o despudor das petrolíferas encontra forte apoio - mesmo que tácito - nos perturbantes silêncios governamentais. Prosseguindo o rol de pequenas misérias, passei a saber do futuro e brutal aumento dos bens alimentares, num mundo onde mais cem milhões de seres humanos entrarão no auspicioso clube dos famélicos. O arroz, o trigo, a soja, o milho ou a colza, todos servem para mitigar ainda que de forma ténue, os bestiais apetites das indústrias energéticas. O facto de o sector alimentar se encontrar ligado de forma ostensiva e escabrosamente íntima a certos grandes interesses da área da banca, das farmacêuticas e do investimento, conduz ao imediato e simplista raciocínio da conspiração velada. Não sei nem me interessa saber a verdade desta hipótese, mas a despreocupação, a imbecil e alvar naturalidade com que estas desgraças são oralmente defecadas, fazem transbordar o copo mais fundo.
Já tinha decidido que nas próximas eleições gerais, não ir votar na nossa direita. Para dizer a verdade, jamais votei PSD - velhas contas relativas à descolonização - e assim, oscilei sempre entre o PPM - hoje liquidado pelo buraco negro em que se transformou -, o CDS, o MPT e confesso, nas últimas municipais, no MRPP. Esta última participação eleitoral nada teve que ver com opções ideológicas - nunca fui nem poderei ser comunista -, mas tão só devido á personalidade de Garcia Pereira, meu antigo e excelente professor de Direito do Trabalho na FDL.  A sua honestidade, competência e a recordação da forma cativante e próxima como tratava todos os alunos, pesaram naquela aparentemente despropositada decisão. Não me arrependo e até poderei repetir a ousadia.
Estamos todos a ficar fartos da Situação, tal como ela hoje se apresenta. Quando ouvi o discurso da dona Manuela Ferreira Leite, concluí que finalmente alguns responsáveis do regime reconhecem o facto do descrédito total a que os partidos e seus titulares chegaram. Continuo a acreditar que a chamada democracia burguesa é o sistema constitucional que melhores garantias de progresso e justiça propicia à comunidade. Nada me demove desta crença infantil. No entanto, esta actualidade  de tugúrio de escroques, de gentalha impiedosa, medíocre e de baixo calibre, enoja qualquer um e sinto-me tentado a considerar que aquilo que vivemos - a Europa inteira, excluindo dois ou três casos -, é uma simples e grotesca macaqueação da Democracia que oficialmente é letra de lei. Basta.
Se os grandes interesses económicos pretendem continuar a medrar e a lucrar com o sistema que gostosamente aceitamos como ideal, deve encontrar soluções. Deve prescindir da autêntica usura a que submete os contribuintes-consumidores. Deve moderar o exibicionismo dos alardeados lucros escandalosamente feitos à custa de milhões esmagados pela coacção imposta pela simples necessidade de sobreviver. Os detentores dos órgãos de Soberania, devem dar o exemplo, cortando radicalmente nos gastos que são visíveis e perfeitamente elimináveis. 
Eles que se ponham de acordo, do BE e PC, ao PS, PSD ou CDS. O tempo urge e neste corpo esquálido da Pátria, encontrem um derradeiro fôlego de vida que nos leve a um futuro melhor e mais digno daquilo que fomos e poderemos vir a ser.
A alternativa é muito simples: insurreições generalizadas, invasão e destruição da propriedade, terrorismo urbano e finalmente, uma segunda oportunidade ao fascismo. Estão preparados?

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publicado às 22:52

Até já

por Cristina Ribeiro, em 29.04.08

Como estas ainda estão assim, vou em demanda de outras paragens, onde possam já ter florido...
Se pudesse, mandava um Gin Tónico do Peter's. Fica a intenção.

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publicado às 17:49

Não resisti a roubar ao nosso caro confrade Demokrata esta bela peça humorística:

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publicado às 13:24

(Ler ainda o artigo do Tiago sobre o desajustamento estratégico de Washington. Em conjunto elaborámos estes dois artigos para o Pacto, jornal do Núcleo de Estudantes de Relações Internacionais do ISCSP, também publicados no Nostrum Symposium, aqui e ali)

Embora a realidade do declínio da hegemonia dos Estados Unidos da América seja evidente aos olhos de todos, algo desde há muito teorizado sobre a forma dos ciclos de poder e hegemonia internacional, até porque empiricamente observável em termos de domínio material pelo hard power, tal não significa no entanto que os interesses dos Estados Unidos estejam ameaçados, tal como procuraremos demonstrar sucintamente.

Se com o fim da Guerra fria entrámos na era da unipolaridade no sistema internacional, com Francis Fukuyama a clamar pelo Fim da História através do aguardado mas (ainda?) não concretizado efeito dominó de expansão das democracias liberais a todo o mundo, com um claro domínio material do sistema internacional por parte dos Estados Unidos e da aliança vencedora, isto é, a NATO, com o advento dos ataques terroristas ao World Trade Center em 11 de Setembro de 2001, ganharia um reforçado ênfase a tese do Choque de Civilizações de Samuel Huntington, implicitamente exaltada em Precisará a América de uma Política Externa, obra em que Henry Kissinger procura responder às necessidades de reajustamento norte-americano às rápidas mudanças no panorama internacional.

Em termos militares é claro o domínio norte-americano e transatlântico através da NATO, que se tem transformado para dar resposta a novas problemáticas numa bipolaridade entre o Ocidente e seus aliados contra o Terrorismo Internacional. Mas é também claro que o conceito de segurança abarca hoje áreas tão distintas como os direitos humanos, energia, ambiente ou desenvolvimento, o que faz com que os instrumentos de Washington estejam cada vez mais desadequados à realidade vigente, sendo insuficientes para responder a todos os inputs do sistema internacional.

Porém, em termos ideológicos é facilmente colocada em perspectiva a noção de que os ideais norte-americanos presidem à construção da Ordem Internacional vigente, em que o surgimento e/ou ressurgimento de novos actores como potências com um papel importante a desempenhar, acontece segundo as regras do jogo e da arena construída a partir do ponto central, os Estados Unidos, sendo de assinalar que em termos políticos a legitimidade internacional é construída com base nas formas democráticas de governo e nas economias de mercado.

Todo o sistema financeiro, económico e comercial a nível mundial tem a intervenção dos Estados Unidos, quer em termos públicos e directos através de organizações como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, quer através de meios privados, pela bolsa, pela banca e pelas suas empresas transnacionais que além fronteiras se instalam por todo o mundo e constituem o motor produtivo da economia mundial.

No recente artigo The Future of American Power, publicado na Foreign Affairs de Maio/Junho 2008, Fareed Zakaria faz um paralelismo entre a hegemonia norte-americana e a hegemonia do Império Colonial Britânico, onde demonstra que enquanto a queda do Império Britânico se deveu a termos económicos, ultrapassado no fim do século XIX pelos Estados Unidos e Alemanha, e posteriormente devassado com duas Guerras Mundiais, no caso dos Estados Unidos o seu declínio explica-se precisamente em termos políticos, pela falta de ajustamento de Washington às transformações no sistema internacional.

A influência sob a forma de hard power que os Estados Unidos têm vindo a perder é natural à luz do surgimento de outros actores e das transformações de um sistema internacional com centros de poder cada vez mais difusos, mas se o mundo está a mudar, é no sentido dos ideais norte-americanos, pelo que normativamente nos parece que o ajustamento dos instrumentos de Washington se deve dar por forma a permitir o domínio em termos de soft power.

Como refere Zakaria, estamos a entrar numa era pós norte-americana, em que os Estados Unidos continuam a ser o actor central decisivo para o funcionamento do sistema mas que têm que se adaptar para ocupar menos espaço e permitir que o jogo funcione segundo as regras por si criadas, onde os seus interesses não se encontram ameaçados porque são simultaneamente os interesses de todos os outros actores, que hoje em dia se pautam pela constante necessidade de desenvolvimento para os seus países, populações e organizações.

Para concluir, parece-nos salutar, em altura de eleições para a Presidência norte-americana, relembrar Paul Kennedy em A Ascensão e Queda das Grandes Potências ao considerar que a natureza liberal e muito pouco estruturada da sociedade americana (…) lhe dá provavelmente maiores hipóteses de se reajustar a circunstâncias mutáveis do que as que teria uma potência rígida e dirigista. Mas isso, por seu turno, depende da existência de uma liderança nacional que consiga compreender os mais amplos processos em funcionamento no mundo actual e que tenha consciência tanto dos pontos fracos como dos fortes da posição dos Estados Unidos enquanto procura ajustar-se ao contexto global em mutação, até porque, por ter tanto poder quer para o bem, quer para o mal, por ser a pedra angular do sistema ocidental de alianças e o centro da economia global actual, aquilo que faz, e o que não faz, é muito mais importante do que aquilo que qualquer das outras potências decide fazer.

Agora é esperar para vermos o que nos aguarda.

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publicado às 13:08

Terapia termal (1)

por Cristina Ribeiro, em 29.04.08

Não sei se o facto de ter nascido numa vila termal, banhada pelo Rio Ave, onde são notáveis os vestígios de balneários romanos, datados de, pelo menos, o tempo do imperador Trajano Augusto, o qual deu nome a um monumento nacional, o Penedo de Trajano, dito da Moura, viria a influenciar neste fascínio que sinto pelos lugares termais.
Vidago, por exemplo, é um lugar mágico, e percorrer os vastos jardins do Palace Hotel, abertos ao público- quando lá fui, ainda o hotel estava em obras- é, por si só, a melhor das terapias.
Mais perto, são famosas as Termas de Vizela e as de Caldelas; a todas elas é comum, além da calma que lhes é, justamente, associada, uma atmosfera da "Belle-Époque", que, também, marcou Portugal.

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publicado às 12:06

O "meu" Paul (2)

por Cristina Ribeiro, em 28.04.08

Eu sei, eu sei que já falei nele; mas foi tão, mas tão, importante para mim, e as alegrias que lá vivi permanecem tão actuais na memória, que, quando há pouco passei lá "prometi-lhe" voltar a falar nele e mostrá-lo na sua decadência...

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publicado às 21:15

Precisamente há 25 anos

por Nuno Castelo-Branco, em 28.04.08

Foi a última verdadeira campanha eleitoral do PPM, com muitas iniciativas de rua, paredes cobertas de cartazes e um bom comício no Villaret. O PPM tinha princípios, foi pioneiro de ideias que hoje fazem parte do nosso dia a dia, propiciou camaradagens para a vida, fez parte da nossa juventude. Bons tempos em que o Partido não era mero objecto de projectos pessoais ou de vaidades extemporâneas.

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publicado às 17:45

"obrigado"?

por Cristina Ribeiro, em 28.04.08
Sempre que oiço uma mulher usar esta forma de agradecimento, como é frequente, por exemplo, na televisão, recordo a minha Professora da Primária, a Dona Maria.
Um dia,estava eu na primeira classe, mandou-me devolver um qualquer objecto a um professor de outra sala, e que não me esquecesse de agradecer. Assim fiz; quando regressei perguntou o que tinha eu dito: "obrigado", respondi, ao que a Dona Maria contrapôs- "então achas que o senhor deve estar agradecido por nos ter emprestado (o tal objecto, que já não lembro o que era) ?".
Há bocado lembrei-me novamente da Dona Maria...

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publicado às 16:09

Se quer casar,

por Cristina Ribeiro, em 28.04.08
três voltinhas ao São Longuinhos há-de dar.

Via Memórias de Araduca, um blogue que se dedica a publicitar tudo quanto a Guimarães respeita, e no passo em que procura estátuas com a característica que particulariza a que serve de símbolo à cidade, as duas caras, soube que também por cá temos um santo casamenteiro.
Encontra-se este no Bom Jesus do Monte , em Braga, e também esta estátua, equestre, ostenta uma cara suplementar, esta no escudo do cavaleiro representado.
Parece que no Brasil é invocado quando alguém perde algo, mas aqui reparte com Santo António as virtudes de arranjar marido a quem a ele recorre,

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publicado às 12:47

Domingo, 27 de Abril, uma da tarde

por Nuno Castelo-Branco, em 27.04.08
Domingo, 27 de Abril, uma da tarde. Na avenida Infante D. Henrique (Cascais), após a segunda rotunda, estava a chegar a casa da minha avó. Ia buscá-la para o almoço de aniversário da minha mãe e trazia comigo o cão dos meus pais, o Rapaz. Circulando a menos de 40 km/hora, fui quase abalroado por um carro de meninos Tunning que devem ter ficado muito contentes com o resultado da brincadeira. Apertaram-me contra o passeio, obrigando-me a embater num poste de electricidade, ao mesmo tempo que o airbag era accionado, deixando-me momentaneamente inconsciente. Fui acordado por uma senhora muito prestável que de imediato chamou o INEM e a PSP. Bastantes pessoas surgiram do nada (hora de almoço) e verifiquei com apreço, a solidariedade e pronta assistência daqueles desconhecidos. O cão estava em pânico e foi o primeiro a ser retirado da viatura, felizmente sem qualquer ferimento. Saliento a extrema prontidão - surgiram decorridos poucos minutos -, competência e amabilidade da brigada da PSP - gente correctíssima - e do INEM. Escoriações nos dois braços e na cara. Parabéns ao visível sucesso dos meninos brincalhões que por sinal, decerto pretendem ver legalizada a brincadeira tunningueira. Comigo obtiveram um full...

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publicado às 22:20

A organização do espaço da cidade expressava algumas das preocupações sócio-políticas de Le Corbusier: “o local onde o silêncio e a solidão se conjugam com o contato diário entre os indivíduos”. Em Brasília, estão alguns dos preceitos que Le Corbusier defendia de uma cidade ideal. E de verdade, tudo na capital seria perfeito e hiper-organizado, como ele queria, senão fosse justamente isso: o indivíduo.

Leiam a seguir um bom exemplo desse fato:

Brasília, 31 de outubro de 2005.

3:00 da tarde:

Vou para o trabalho dirigindo calmamente num trânsito em que se você quiser sempre chegará no horário certo. As vias retas, perfeitas, a rapidez do trânsito e o som do AIR no meu ouvido. O dia está fresco, como é raro aqui em Brasília, e o posto de gasolina estava vazio. Chego à escola e tenho que dar uma micro aula sobre Le Corbusier, Bauhaus, Gropius e afins. Me empolgo e acabo falando da casa que um dia quero desenhar com o traçado todo a “la Mies Van Der Rohe”. Lá dentro as coisas vão flutuar como no desenho dos Jetsons e algumas paredes vão ser verde água.

6:00 da noite:

Saio da escola e volto pra casa num trânsito ainda tranqüilo. O dia está totalmente bucólico, o som do AIR continua nos meus ouvidos e as pessoas em Brasília voltam para casa sorrindo sorrisos amarelos depois de mais um dia “tranqüilo” de trabalho.

A trilha sonora que ouço torna tudo alegre e verde água, e eu me sinto numa tarde dos anos 60. Passo vagarosamente olhando alguns blocos antigos e fico imaginando se “Corbu” estivesse sentado aqui, do meu lado no carro.

6:30 da noite:

Estou entrando na quadra comercial da minha super quadra. O trânsito já não é tão tranqüilo neste horário. Entre as quadras os carros se engarrafam e eu começo a olhar, ainda ao som de AIR, o “rapaz” (adoro essa palavra retrô) bonito do carro de trás que está tranqüilo ajeitando o cabelo pelo retrovisor. O som da música nos meus ouvidos está alto e tudo parece cena de filme. Numa das entradas em que estou parada, ainda olhando o “rapaz” bonito do carro de trás, avança um ônibus: ele é verde exército e tem aquele design amebóide dos ônibus antigos que carregavam soldados americanos nos anos 60.

O motorista me pede a passagem e eu cedo. Fico pensando de onde saiu aquele ônibus “retro” maravilhoso, enquanto ainda olho o “rapaz” bonito do carro de trás (ele era realmente bonito). Tudo está calmo demais, o som do AIR ainda toca nos meus ouvidos e o trânsito parece enfim avançar. É quando de repente olho pelo retrovisor lateral e vejo uma moto derrapando no chão, derrapou porque bateu de frente com uma senhora gordinha que atravessava feliz a via com seu cachorro bassê. A gordinha cai no chão derrapando também, o bassê late assustado, uma moça vem e ajuda a senhora a se levantar. O cachorro quase é atropelado por um outro carro que vem em alta velocidade. Então, os dois, cachorro e dona, vão correndo pra um dos canteiros, e eu, tenho que partir sem poder entender direito o que havia acontecido ali. Olho pelo retrovisor e vejo que o “rapaz” bonito, preocupado também, estaciona o carro em fila dupla indo ajudar a gordinha e o bassê. E eu parto para minha quadra, entro no estacionamento e pego o elevador, já sem o som do AIR nos meus ouvidos.

Pois é, tudo ia perfeito demais entre o bom contato e o mau contato, e é isso que faz da cidade "ideal" uma cidade "normal".

Le Corbusier: “Cidade ideal, o local onde o silêncio e a solidão se conjugam com o contato diário entre os indivíduos”.

Pois é, por mais que tudo pareça perfeito há sempre o contato entre os indivíduos, será que ele se esqueceu disso? Sempre que eu leio os conceitos de Le Corbusier sobre “a vida perfeita nas cidades” me lembro daqueles livros antigos de medicina alternativa, "Beba 2 litros de água, durma 8 horas por dia, caminhe, etc..." Acho engraçado ler os pré-requisitos que ele determinava para que uma cidade fosse “saudável”. E por mais que ele seja radical, às vezes é muito difícil discordar do que Corbu diz. Fico imaginando como seria conversar com ele e tentar entrar em discussão.

Le Corbusier: - As 8 horas de repouso continuado, a prática de esporte deve ser acessível a todos os habitantes da cidade. O esporte deve ser praticado bem ao lado de casa, bla, bla, bla...

Eu: - Mas senhor...Isso tudo é tão obvio, tão claro, e chato, chato demais! Eu adoro Brasília, gosto da facilidade que existe pra se chegar aos lugares (mas só quando é de carro) da ordem milimetricamente calculada das super quadras, gosto dos imensos verdes vazios e etc...Mas toda essa ordem é tão chata, tão chata quanto a voz de um médico dizendo que carne vermelha faz mal pra saúde!

Le Corbusier: - Mas escuta, todas as vezes que a linha for quebrada, interrompida, descontínua, pontuda, nossos sentidos serão afetados, dolorosamente afetados, nosso espírito se afligirá com a desordem, e pensará: ISSO É BÁRBARO! (Bárbaro de bruto mesmo).

Eu: - Eu discordo, senhor Lê Corbusier, acho muito chato ter sempre o mesmo jeito de voltar pra casa sem a possibilidade de mais outros mil caminhos. Acho chata a retidão das ruas sem um beco que apareça do nada ou uma ladeira linda e imensa que dê pra ver lá embaixo os moleques soltando pipa. Acho chato não me deparar de repente com uma rua de paralelepípedos ou uma curva que dê numa via sem saída. Definitivamente, acho chata a retidão da cidade planejada.

Le Corbusier: - Minha filha, o homem caminha em linha reta porque tem um objetivo, sabe aonde vai. Decidiu ir a algum lugar e caminha em linha reta porque é inteligente. Já a mula ziguezagueia, vagueia com cabeça oca e distraída, evita os grandes pedregulhos, busca a sombra, empenha-se o menos possível.

Eu: - Pois então meu senhor, que vivam as ruas desenhadas pelas mulas! Onde possa se vagar com a cabeça oca e distraída!
A mula é um flâneur!!! Eu sou uma mula!

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publicado às 16:24

E já agora comecem a nacionalizar empresas e propriedades

por Samuel de Paiva Pires, em 27.04.08
Jerónimo de Sousa em entrevista ao DN:

Os campeões do liberalismo querem sempre menos Estado, deixar funcionar o mercado. Quando se trata de amassar fortuna a fortuna, com lucros fabulosos, designadamente no sector bancário, aí "alto, o Estado que não se meta". Agora, tendo em conta a especulação mobiliária, tendo em conta as bolhas que existem e as dificuldades, então "aqui d'el rei, venha lá o Estado salvar-nos".

Não sei que liberais é que o líder do PCP conhece ou tem ouvido falar, mas só a um tolo poderá parecer crível tal afirmação. A questão está que em Portugal o Estado anda sempre com os privados atrás, aí não há liberalismo nenhum. Não me recordo de ver algum liberal a clamar pela intervenção do Estado para nos salvar em tempo de crises financeiras ou económicas. Aliás, quanto ao que se passa actualmente nos mercados financeiros mundiais do que tenho lido de diversos liberais é o aviso quanto à injecção abrupta de milhares de milhões de dólares para garantir a liquidez dos mercados, que poderá causar o efeito precisamente contrário ao pretendido. Mas camarada Jerónimo ainda faz melhor:

Em relação à banca, achamos que cinquenta por cento desse sector deveria estar [nas mãos do Estado].

Pois claro, saudades dos tempos do PREC não é camarada?

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publicado às 15:23

Fins-de -Semana

por Cristina Ribeiro, em 27.04.08

"Caro Fabrizio, estou a escrever-te num estado de extrema prostração. Lê as terríveis notícias que vêm no jornal. Os Piemonteses desembarcaram. Estamos todos perdidos. Esta mesma noite, eu e a família toda vamos refugiar-nos nos barcos ingleses. Decerto quererás fazer o mesmo."
(«O Leopardo», de Giusepe Tomasi di Lampedusa)

Sentada no sofá, muitas foram as vezes em que os olhos paravam neste título, na lombada de um livro fininho, há muito tempo na estante, sem vontade de o abrir, com receio de me decepcionar, tanto gosto do filme protagonizado por Burt Lancaster.
O normal é o contrário: decepção com a adaptação cinematográfica da obra literária; mas este filme de Visconti está num pedestal tão alto...; acontecera uma coisa assim com «Despojos do Dia», em que tive medo de o livro não ser digno das interpretações de Anthony Hopkins e Emma Thompson...
Até que ontem o livrinho venceu esses receios, e já vou a meio, sem que tivesse ainda vontade de o pôr de lado.

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publicado às 14:58

Pedaços do Minho

por Cristina Ribeiro, em 27.04.08

Adeus ó lugar de Ervelho,
Pequenino e airoso,
Quem n'elle tomar amores
Póde-se dar por ditoso.

A agua do rio Minho
Corre por baixo da ponte,
Quem quizer o cravo louco
Ponha-lhe a rosa defronte.

Alta serra do Gerez
Onde a neve se detem,
Chamo, ninguem me responde,
Olho, não vejo ninguem.

O' alta serra da Estrella
Onde se tece a cambraia,
Se d'esta me vejo livre
Não temas que eu n'outra caia.

(in «O Minho pittoresco»)

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publicado às 10:10

Pensamento (3)

por Cristina Ribeiro, em 26.04.08

Ainda do Diário de João Bigotte Chorão

Em Portugal, o desprezo pelo outro tornou-se de tal sorte que suspeitamos ser norma consagrada constitucionalmente.

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publicado às 19:27

Quando pela primeira vez fui turista no Estrangeiro

por Cristina Ribeiro, em 26.04.08
Acabara a Quarta Classe da Escola Primária, quando, nas férias grandes, o meu pai nos meteu- a mim e aos meus quatro irmãos mais velhos, todos rapazes, - num velhinho Vauxhall Victor, e fomos, um bocado sem destino, apenas com a ideia de ir até França. Levávamos uma tenda connosco, provisões, e os utensílios necessários para prepararmos as nossas refeições. Uma grande aventura.
Foi um grande périplo, que nos levou até a Normandia, vale do Loire, e Paris.
Da Normandia lembro bem, além do Mont Saint Michel, o termos visitado o Museu do Desembarque Aliado; recordo ter visto, projectado num grande ecrã, o lançamento de centenas de pára-quedistas, e a reconstituição , em maquete, do desembarque dos tanques. Foi nessa altura que pela primeira vez ouvi falar no soldado Milhões, não sei bem porquê, pois que aquele é um museu dedicado à Segunda Guerra: mas o meu pai aproveitava sempre para fazer associações históricas...
Do Vale do Loire lembro, claro, os castelos que pareciam ter saído direitinhos de um conto de fadas, e de Paris lembro todos aqueles museus e monumentos. Recordo Versailles, o Palácio e os jardins fabulosos.
Já lá voltei várias vezes, mas esta imagem é a que permaneceu, indelével...

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publicado às 09:59

Comemorações abrilistas ao som de Chico Buarque

por Samuel de Paiva Pires, em 26.04.08
Em tempo de comemoração do 25 de Abril, atentemos na homenagem prestada por um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira, pelas músicas Tanto Mar e Fado Tropical:




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publicado às 01:41

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