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Ao cuidado do nosso premier Passos Coelho

por João Pinto Bastos, em 30.11.12

"Quando se abana o crivo apenas ficam as alimpas, assim as manchas de um homem ficam nas suas reflexões. A fornalha prova as jarras do oleiro, e a prova do homem são os seus pensamentos. O cuidado com uma árvore mostra-se no fruto, assim a palavra manifesta o que vai no coração do homem. Não louves um homem antes de ele falar, porque é assim que se experimentam os humanos."


Eclesiástico, 27, 4-7

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publicado às 23:38

 

Mario Vargas Llosa, A Civilização do Espectáculo:

 

«Todavia, a autoridade, no sentido romano de auctoritas, não de poder, mas sim, como define na sua terceira acepção o Diccionario da Real Academia Espanhola, de «prestígio e crédito que se reconhece a uma pessoa ou instituição pela sua legitimidade ou pela sua qualidade e competência nalguma matéria», não voltou a levantar a cabeça. Desde então, tanto na Europa como em boa parte do resto do mundo, são praticamente inexistentes as figuras políticas e culturais que exercem aquele magistério, moral e intelectual ao mesmo tempo, da «autoridade» clássica e que os professores, palavra que soava tão bem porque se associava ao saber e ao idealismo, encarnavam a nível popular. Em nenhum campo isto foi tão catastrófico para a cultura como na educação. O professor, despojado de credibilidade e autoridade, convertido em muitos casos, na perspectiva progressista, em representante do poder repressivo, isto é, no inimigo a quem, para alcançar a liberdade e a dignidade humana, era preciso resistir e, até, abater, não só perdeu a confiança e o respeito sem os quais era impossível cumprir eficazmente a sua função de educador – de transmissor tanto de valores como de conhecimentos – perante os seus alunos, como também os dos próprios pais de família e de filósofos revolucionários que, à maneira do autor de Vigiar e Punir, personificaram nele um daqueles instrumentos sinistros de que – tal como os guardas das prisões e os psiquiatras dos manicómios – o establishment se vale para refrear o espírito crítico e a sã rebeldia de crianças e adolescentes.

 

Muitos professores acreditaram de muito boa-fé nesta satanização de si mesmos e contribuíram, atirando baldes de azeite para a fogueira, para agravar o estrago fazendo suas algumas das mais disparatadas sequelas da ideologia do Maio de 68 relativamente à educação, como considerar aberrante reprovar os maus alunos, fazê-los repetir o ano e, até, dar classificações e estabelecer uma ordem de preferências no rendimento académico dos estudantes, pois, fazendo semelhantes distinções, propagar-se-ia a nefasta noção de hierarquias, o egoísmo, o individualismo, a negação da igualdade e o racismo. É verdade que estes extremos chegaram a afectar todos os sectores da vida escolar, mas uma das perversas consequências do triunfo das ideias – das diatribes e fantasias – do Maio de 68 foi que por esse motivo se acentuou brutalmente a divisão de classes a partir das salas de aula.

 

A civilização pós-moderna desarmou moral e politicamente a cultura do nosso tempo e isso explica em boa parte que alguns dos «monstros» que julgávamos extintos para sempre depois da Segunda Guerra Mundial, como o nacionalismo mais extremista e o racismo, tenham ressuscitado e vagueiem novamente no próprio coração do Ocidente, ameaçando uma vez mais os seus valores e princípios democráticos.

 

O ensino público foi uma das grandes conquistas da França democrática, republicana e laica. Nas suas escolas e colégios, de muito alto nível, as vagas sucessivas de alunos gozavam de uma igualdade de oportunidades que corrigia, em cada nova geração, as assimetrias e privilégios de família e classe, abrindo às crianças e jovens dos sectores mais desfavorecidos o caminho do progresso do êxito profissional e do poder político. A escola pública era um poderoso instrumento de mobilidade social.

 

O empobrecimento e desordem que o ensino público sofreu, tanto em França como no resto do mundo, deu ao ensino particular, ao qual por razões económicas só tem acesso um sector social minoritário de altos rendimentos, e que sofreu menos os estragos da suposta revolução libertária, um papel preponderante na forja dos dirigentes políticos, profissionais e culturais de hoje e do futuro. Nunca foi tão verdade o «ninguém sabe para quem trabalha». Julgando fazê-lo para construir um mundo verdadeiramente livre, sem repressão, nem alienação nem autoritarismo, os filósofos libertários como Michel Foucault e os seus inconscientes discípulos agiram muito acertadamente para que, graças à grande revolução educativa que propiciaram, os pobres continuassem pobres, os ricos, ricos e os inveterados donos do poder sempre com o chicote nas mãos.»

 

Leitura complementar: O mito do individualismo extremo do nosso tempoA insustentável leveza da literatura do nosso tempoA banalização da políticaDa arte modernaDo erro da equivalência entre culturas à difusão da inculturaDa proliferação de Igrejas à substituição da religião pela alta cultura e aos escapismos contemporâneosDa libertação sexual ao erotismo como obra de arteA ausência dos intelectuais da civilização do espectáculo

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publicado às 23:12

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publicado às 22:28

Porque temos memória e desconhecemos a ingratidão

por Cristina Ribeiro, em 30.11.12

 

"Ha hoje provas, devidas a aturadas investigações, de que nunca, durante o dominio de Hespanha, a casa de Bragança affrouxara em suas justas pretenções. D. Theodorico protestara contra o acto iniquo, que entregava a Filipe II a corôa de Portugal. ( ... ). Sondou-se a opinião das pessoas de Lisboa, quanto ao animo dos povos, e se obteve a certeza da affeição delles á casa de Bragança. ( ... )


- Margarida de Saboia, duqueza de Mantua, governava então Portugal, na qualidade de vice-rainha, titulo brilhante a que a corte apenas dava um poder limitado. O segredo dos negocios, e quási toda a auctoridade, tinha-a Miguel de Vasconcellos, portuguez, que exercitando as funcções de secretario d'estado da vice-rainha, era ministro absoluto e independente. Recebia elle directamente as ordens do conde-duque, cuja creatura era, e a quem se tornara bem-quisto e necessario pela habilidade com que tirava de Portugal grandes quantias de dinheiro. Manejando a arma do enredo, realisava os seus mais occultos desejos, promovendo odios e inimisades entre os grandes do reino, nisso assentava a segurança e tranquillidade do ministro, pois estava persuadido que em quanto os cabeças d'estas familias allimentassem odios e vinganças particulares, não se lembrarião de tramar contra o governo.


Em Portugal,só o duque de Bragança podia inquietar Hespanha. D. Theodosio, seu páe, dotado de caracter impetuoso e cheio de foge, deixou-lhe como legado todo o seu odio aos hespanhoes, que fizera sempre olhar como usurpadores da corôa. ( ... )


D. João passava, com justa rasão, por ser um dos homens mais instruidos do seu tempo, havendo rasões para crer que fôra o gosto pelos estudos sérios que o determinou a ligar á sua casa João Pinto Ribeiro, um dos homens mais eminentes d'esta epocha. Este habil jurisconsulto, descendente d'uma familia nobre d'Amarante, de raros conhecimentos, possuia animo ardente, o coração verdadeiramente patriotico, e ia tornar-se o principal agente d'uma conjuração meditada, desde longo tempo, que surgiu de repente por ter sido o resultado de longa combinação politica. ( ... )


Mantinha-se o duque indeciso, e passou ao quarto da duqueza, cuja firme resposta mais o decidiu - « Antes perecer reinando, do que viver obedecendo. Quanto a mim, senhor, prefiro ser rainha uma hora, a ser duqueza toda a vida. Pedro Mendonça, alcaide-mór de Mourão, que fôrra a Villa Viçosa sondar as disposições de D. João, transmitiu aos conjurados uma resposta que muitos delles não esperavão. ( ... )


Chegára enfim o momento dos grandes successos.


Derão nove horas : todas as lojas se conservavão abertas, e nada fazia suppor que ia começar uma grande alteração politica, no bairro onde habitava a duqueza de Mantua. No terreiro, ou largo do paço, havia tanto socego como nos tranquillos dias de Filipe III. D. Miguel d'Almeida, fidalgo velho que visitava a miude o paço, atravessava o limiar d'este quando de repente se ouviu um tiro de pistola. Era o signal convencionado, dado o qual sairão centenares de homens das carruagens, enchendo-se a praça de cavalleiros. O conspirador octogenario, e que representa a antiga fidalguia portugueza, apparece na varanda, e com a espada em punho vbradou ao povo: - « Viva D. João Iv, até agora duque de Bragança, e morrão os traidores que nos roubarão a liberdade ». ( ... )


Pinto Ribeiro, que tinha sido o homem de conselho maduro, e de alta previsão politica, foi também homem de acção na hora do perigo. Os conjurados tinham-se dividido, de modo a que pudessem obstar a qualquer resistencia. Encaminharam-se alguns dos mais ousados, com Pinto á frente, ao quarto de Miguel de Vasconcellos. Encontraram-no escondido num armario. Vasconcellos morreu sem proferir palavra, sendo Antonio Tello quem lhe deu o primeiro tiro de pistola. Os demais conjurados se arremeçaram ao cadaver do indigno ministro, e o lançarão da janella abaixo."

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publicado às 22:14

Sir Winston Leonard Spencer-Churchill

por João Pinto Bastos, em 30.11.12

Winston Churchill


Churchill tinha, entre as suas incontáveis qualidades, um predicado que sobressaía claramente: uma ironia aristocrática única e inimitável. Se há algo que falta nas sociedades atomizadas e pós-moderninhas dos nossos dias é, justamente, uma dose bem carregada de ironia. Uma ironia fina que atinja o âmago das coisas. Uma ironia que questione radicalmente o mundo presente. Uma ironia que destempere e fira a banalidade do quotidiano. Sem ela o debate intelectual torna-se invariavelmente num sucedâneo mísero do célebre adágio hobbesiano do "homo homini lupus". Por outras palavras, a morte do pensamento. O sono goyano da razão. Churchill conhecia bem o carácter do homem democrático, posto que temeu, como poucos, as suas deformidades mais nefastas. Mas, foi, também, um dos poucos políticos que ousou, durante toda a sua vida política, lutar contra os vícios inerentes à democracia, usando sempre a ironia. No dia do seu aniversário, recordar a sua memória é, acima de tudo, retomar uma tradição perdida. Um ideário desaparecido nas brumas da memória. Como diria Churchill o fracasso não é fatal, o que importa é tão-só a coragem para continuar a perseverar. Um bom liberal, sobretudo nos dias lassos que correm, sabe que esta é a única alternativa que resta ao ocaso da razão.

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publicado às 20:16

A Árvore da Vida

por Fernando Melro dos Santos, em 30.11.12
É fim-de-semana, yipee-ay-ey. Não vos tomo muito tempo.

A Câmara Municipal de Lisboa mandou vir uma árvore interactiva, adjudicada parte a parte por ajuste directo. Salda-se o moderno arbusto em 230 mil euros, mais T.O.D. (taxa oficial de derrapagem) perfazendo 479 mil do erário.

Os pedaços mais suculentos do lanche são estes: a concepção do electrónico mastodonte ficou a cargo de Leonel Moura.

E que diz este? Cito: "Leonel Moura baseia-se na ideia de que "as pessoas são a árvore" ... A imagem dos visitantes vai ser projectada na árvore, construída em forma de pirâmide com três lados".

Tal ode à urbanidade só pode emanar de um autêntico arúspice social.

Vejamos, senão, como para este ser já se vaticinava um auspicioso futuro ao serviço da sociedade: "já em 2009 a Câmara de Lisboa lhe tinha entregue 74 mil euros igualmente por ajuste directo, para pagar 45 oliveiras plantadas em estruturas de fibra e com rodas. O "jardim portátil", como lhe chamaram, começou por estar no Terreiro do Paço e foi transferido mais tarde para o Cais do Sodré. Há muito que as rodas encravaram, tornando a mobilidade das oliveiras praticamente impossível", e continuo a citar a peça de hoje no Público, que não é conhecido por qualquer afinidade às convicções pessoais que já nestas páginas verti, portanto insuspeito.

Pergunta #1: será constitucional, logo impune, coarctar a mobilidade das oliveiras?

Pergunta #2: a qualidade do ar no Terreiro do Paço não estará agora em desigualdade face ao Cais do Sodré? O que diz a ASAE?

Pergunta #3: as fibras usadas na árvore falante serão certificadas, homologadas, ecológicas, igualitárias, e representativas de todas as pessoas? Ou a comunidade de Cantautores Transgender Nepaleses terá ficado de fora, abrindo um perigoso precedente?

Vocês todos sabem que neste dia saíu, no mesmo jornal que cito, uma outra notícia que dá conta de haver centenas de miúdos que já não têm comida no bucho quando vão para a escola. Mesmo que admitamos haver metade desses casos em que os pais poderiam, vá, ter gerido ou gerir melhor o seu dinheiro, ainda assim todos vocês, da esquerda à direita, sabem que já deixou de valer a pena apontar o dedo aos casos de incúria, perante a maré de miséria que se agiganta. Não sabem?

Pergunta #4: vocês lêem as duas notícias lado a lado e não mandam o edil de Lisboa para o raio que o parta?

Então eu acrescento, para irem todos descansados para o pára-arranca até casa: "totalizam mais de dois milhões de euros os 118 ajustes directos efectuados nos últimos seis meses pela Egeac. Uma das firmas contratadas para fazer a árvore de Natal, a Megarim, à qual vão ser pagos 4226 euros pela montagem e desmontagem da iluminação, está numa situação financeira complicada: fechou as últimas contas com capitais próprios negativos e foi declarada pelo tribunal a insolvência da empresa que a controla, cujos corpos gerentes incluem gestores da Megarim".

Da mesma fonte.

Eu na vossa pele, enquanto não emendasse o resultado destes 38 anos a votar com os pés, não era capaz de olhar-me ao espelho.

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publicado às 16:43

Marcelo Rebelo de Sousa que se cuide

por Samuel de Paiva Pires, em 30.11.12

 

Assisti a este belo momento de António Costa, ontem, na Quadratura do Círculo. Começa finalmente a dizer coisas acertadas. E nós, portugueses, em vez de nos deixarmos enredar na narrativa germânica da total e exclusiva responsabilização da nossa parte e consequente penitência - se é certo que os governantes erraram em muita coisa nas últimas décadas, também não deixa de ser porque o sistema financeiro europeu e as políticas da UE contribuíram em larga medida para os desvarios - devíamos começar a levantar a cabeça e a voz, porque a história não é bem como os alemães a querem fazer parecer: 

 

«A situação a que chegámos não foi uma situação do acaso. A União Europeia financiou durante muitos anos Portugal para Portugal deixar de produzir; não foi só nas pescas, não foi só na agricultura, foi também na indústria, por ex. no textil. Nós fomos financiados para desmantelar o textil porque a Alemanha queria (a Alemanha e os outros países como a Alemanha) queriam que abrissemos os nossos mercados ao textil chinês basicamente porque ao abrir os mercados ao textil chinês eles exportavam os teares que produziam, para os chineses produzirem o têxtil que nós deixávamos de produzir. E portanto, esta ideia de que em Portugal houve aqui um conjunto de pessoas que resolveram viver dos subsídios e de não trabalhar e que viveram acima das suas possibilidades é uma mentira inaceitável. Nós orientámos os nossos investimentos públicos e privados em função das opções da União Europeia: em função dos fundos comunitários, em função dos subsídios que foram dados e em função do crédito que foi proporcionado. E portanto, houve um comportamento racional dos agentes económicos em função de uma política induzida pela União Europeia. Portanto não é aceitável agora dizer... podemos todos concluir e acho que devemos concluir que errámos, agora eu não aceito que esse erro seja um erro unilateral dos portugueses. Não, esse foi um erro do conjunto da União Europeia e a União Europeia fez essa opção porque a União Europeia entendeu que era altura de acabar com a sua própria indústria e ser simplesmente uma praça financeira. E é isso que estamos a pagar!»

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publicado às 16:00

Internacionalismo da extorsão

por Nuno Castelo-Branco, em 30.11.12

O internacionalismo foi isto, ainda é isto. Durante anos, a China despejou milhões em armas, dinheiro e vitualhas destinadas à Frelimo. Ainda me recordo das periódicas exposições de inacreditáveis montões de material capturado pelo Exército Português, onde se apresentavam metralhadoras ligeiras e pesadas, lança-foguetes, espingardas, granadas, minas, uniformes, munições e uma infinidade de outros artigos militares. Boquiaberta, a população de Lourenço Marques visitava essas autênticas feiras de armas e compreendia que Portugal não estava em guerra com bandos desgarrados que cruzavam o Rovuma, mas pelo contrário, enfrentava entre outros, dois temíveis inimigos: a União Soviética - e os seus colaboracionistas portugueses dentro e fora de portas - e a China do Sr. Mao Tsé. 

 

Hoje sabe-se o que representou essa interesseira ajuda, onde até pontificou o risonho Olof Palme, esse mesmo que acabaria numa esquina de Estocolmo e às mãos de um terrorista. Traduziu-se naquilo a que numa primeira fase pós-1974 se denominou de "cooperação", logo chegando em tropel manadas de búlgaros, russos, chineses, suecos e outros nórdicos "nossos aliados" - tubarões da pior espécie que tomaram de assalto as florestas e o sector de transportes -, alemães da zona ocupada, checos e cubanos. Repimpadamente se instalaram nas suas novas colónias de exploração e ditaram a lei a um país que decorridos dez anos, tinha visto a população reduzir-se em mais de um milhão de pessoas mortas à fome e pela guerra civil.

 

O saque não se cingiu a Moçambique, pois em Angola ainda foi mais radical e em todos os sectores, sabendo-se por exemplo, o que sucedeu ao hospital central de Luanda. Perfeitamente equipado pelo governo português, foi de todo o seu material despojado pela gente de Fidel Castro, colocado em contentores e enviado para Havana.

 

Continua a senda do internacionalismo, desta vez com a quase exclusiva benemérita acção da China. O sector das madeiras é um dos alvos mais apetecíveis, assanhadamente destruindo florestas e complementando outras malfeitorias que durante décadas arrasaram as pescas, a vida selvagem - elefantes, crocodilos, rinocerontes -  e cavocando o solo, extraíram prodigiosas quantidades de  minérios. 

 

O internacionalismo, esse belo investimento com garantido retorno usurário.

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publicado às 13:00

77.º aniversário da morte de Fernando Pessoa

por Samuel de Paiva Pires, em 30.11.12

 

«Cada um de nós, na sua vida realizada e humana, não é senão a caricatura da sua própria alma. Somos sempre menos do que somos. Somos sempre a traição daquilo que quisemos ser e que, por isso, intimamente e verdadeiramente somos. A nossa vida é a nossa deselegância, o bobo eterno que a acompanha, e às vezes diverte, a divina Realeza.»

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publicado às 12:33

Fotos que marcaram a história - 2

por Pedro Quartin Graça, em 30.11.12

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publicado às 12:12

O Rato que Ruge

por Fernando Melro dos Santos, em 30.11.12
Hoje senti na pele um dos problemas mais graves que assolam, e assolarão ainda mais, os Portugueses.

Levei o meu carro, que tem quatro anos, à inspecção obrigatória. Devia talvez ter pedido um parecer ao constitucionalista Jorge Miranda, porque segundo o mesmo, se é obrigatória devia ser gratuita. Mas não foi, larguei lá 28 euros.

O meu carro, que está em perfeito estado de conservação exterior e mecânica, tem à frente um pneu 225/45 marca Yokohama, e um pneu 225/45 marca NanKang, a única que havia em Alcains quando lá tive um furo nesta Páscoa, por acaso na Sexta-Feira Santa. Ambos os pneus são novos, com cerca de 8 mil km feitos.

Ora o meu carro chumbou. Os pneus são novos e da mesma medida, mas não são, de acordo com as normas, iguais. E agora tenho que optar entre deitar fora um pneu novo de 120 euros, ou esperar que não me multem, na estrada, no valor de 250 euros.

Eu, graças a Deus, posso (embora não queira nem deva) comprar um pneu novo de 100 euros. Até poderia pagar (embora não quisesse nem devesse) pagar a multa de 250 euros. Portanto vou agir como se não pudesse, que é o caso da grande maioria dos condutores (e demais pessoas de bem) a quem são impostos regulamentos do Primeiro Mundo, numa realidade do Terceiro: estradas esburacadas que obrigam a manutenção acrescida, preços da manutenção e do próprio cumprimento das normas desconexos com os níveis salariais, e assim por diante.

Isto é mais ou menos a mesma brincadeira do IMI. E se ninguém pagar? Penhora-se 50 mil casas? Apreende-se 50 mil carros? E a populaça, continua a dizer, de ombros encolhidos, "olhe, eles é que mandam" mesmo sabendo que o dinheiro esbulhado nem sequer dura quinze dias nos cofres do Estado, que depressa o rebentará num banquete qualquer?

Bom, era só. Podem vir os anónimos malhar.

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publicado às 09:57

Andamos todos enganados

por Samuel de Paiva Pires, em 30.11.12

Os liberais apontam o dedo aos socialistas, estes apontam o dedo aos primeiros, e os constitucionalistas (os verdadeiros e os putativos) gritam "isso é inconstitucional" a toda a hora quando se formos a ver bem, há muitas coisas que se fizeram nas últimas décadas que são inconstitucionais. O Dragão resume bem esta loucura, num texto que já li umas quantas vezes e que aqui deixo na íntegra:

 

«Há marasmos mentais que eu, de todo, dispenso. Certas palhas de rebanho, em espécie de psico-ração de comveniência, essas, então, repugnam-se. Por exemplo, aquela muito fresca e repetida: a saber, que foi o socialismo que nos trouxe até aqui, a esta bela bancarrota nova e reluzente. Suponho que se referem ao "socialismo prático", do estilo União Soviética,  (e não ao socialismo angélico que, como todos sabemos, paira, sublime e diáfono, incólume a chacinas e genocídios, à espera da encarnação perfeita num qualquer amanhã chilreante). Este socialismo angélico, de resto (e não esqueçam o que eu ia dizer), é irmão gémeo daquele liberalismo inefável que também flana e flui, em subtil destilaria celestial, aguardando o dia da perfeita e não menos chilreante aurora. Para os seus adeptos e catecúmenos, o liberalismo puro nunca existiu na prática ( e por isso ele é eternamente puro): o que tem pululado e tripudiado pelo mundo é perversões, natural e fatalmente socialistas, daquela imaculada e pulcra essência. Certos espíritos menos benevolentes até já se interrogam se não derivará tudo duma má relação de ambos com a realidade: enquanto o liberalismo não vislumbra quaisquer orifícios nesta, o socialismo  aproveita e viola-a de todas as maneiras possíveis e imaginárias.  Voltando agora onde eu ía, terá sido mesmo através duma dessas maneiras, nitidamente imaginária, que acordámos, um belo dia, nesta esplêndida bancarrota. 
Ora, foi público e notório que o país, nos últimos decénios, se entregou a desregramentos mais que típicos dos antigos paíse socialistas, como, por exemplo (e só para citar os mais emblemáticos): orgias gerais de crédito bancário; consumo desenfreado de gadjets, bugigangas e artigos de luxo; importação desaustinada de tudo e mais alguma coisa; abolição eufórica de fronteiras;  cornucópia de televisões, revistas e jornais em torrencial dilúvio de toda a casta de incitamentos publicitários à ganãncia e luxúria épicas e salvíficas; liberdade de expressão em barda; subsídio generoso a toda a espécie de minoria da moda internacional,; imigração selvagem; destruição metódica e excternamente patrocinada de todo o aparelho produtivo; desindustrialização ufana; multipartidarismo infestante; parlamentarismo incontinente; turismo obsessivo;, agrofobia histérica; financeirização transcendental; etc, etc. Em suma e síntese: como podemos constatar, a exacta réplica de todos os vícios e taras soviéticas (ou de quaisquer dos seus satélites de leste), não é? Ou mesmo de Cuba, da Albânia, da Coreia do Norte, da China Maoista, senão mesmo do Camboja de Phol Pot!... Ressalta à vista e entra pelos olhos a dentro. Especialmente, untado a vaselina, pelo mais cego de todos!... Porque, repito e trepito, como todos estamos cansados de saber, à data do colapso do paraíso terreal socialista, toda aquela gente, um pouco à semelhança do Império Romano lá das antiguidades, chafurdava em toda a variedade de orgias, sobretudo consumistas, opinorreicas e plutofaccientes. Até metia nojo!
Bonito; e segundo os entendidos, qual o principal factor para esta nossa queda ininterrupta no pecado socialista em larga escala?  É que temos uma constituição socialista, proclamam eles, esgazeados e com a coifa ao desalinho; assedia-nos um tabu legal e atávico  que nos inibe de abraçarmos os redentores hábitos capitalistas e nos constrange, tirânico, ao caminho da perdição. De guarda a este hediondo santuário do mal, patrulham demónios e ogres retintamente socialistas, desde o patriarca Soares até ao último guincho Sócrates, ou seja, desde o proto-socialismo até ao metro-socialismo. O mesmo Soares que, nas suas próprias palavras, guardou o "socialismo na gaveta" e tirou a democracia liberal e palramentarista do armário, onde ela estava escondida desde o 25 de Abril, cheia de medo dos comunistas e à espera que a descolonização passasse; e o mesmo Sócrates cujo paradigma inspirador era um marxista-leninista empedernido chamado Tony Blair, imagine-se. Conseguem imaginar? E já agora, imaginem também a mesma choldra mascarada de povo, entre eleiçados e eleiçores (representação, babam eles), que se entregou a todos os desregramentos, que converteu todas as leis e códigos legais numa nova espécie de papel higiénico regimental, que se marimbou para quaisquer regras milenares do civismo, vá lá, só mais um pequenino esforço, e tentem imaginar toda essa ciganagem cheia de inibições com a Constituição. A cultivar traumas e stresses...fobias angustiantes... O Código Penal não os inibe; as próprias leis da natureza não os inibem, o Diário da República funciona por conta, balcão, recreio e encomenda. Mas a Constituição inibe-os, coitadinhos. Revista e descafeinada, podada e recauchutada, ainda os inibe. Demove-os. Causa-lhes aquela disfunção eréctil mental em que vivem diante da realidade. Com a inteligenciazinha mirrada, a moral descartável e a coluna vertebral gasosa, assistindo, frustes e gelatinados, às contínuas violentações socialistas. A constituição é que não os deixa, é que os impede, é que os obriga a ficar assim, hirtos, meros portadores dum acessório inútil, triste, pendente.. Todavia, uma gaitita mágica, fadada misteriosamente, intimamente agregada ao futuro da nacinha.  Este só se endireitará quando eles endireitarem aquela. Mas  primeiro, detalhe crucial, condição sine qua qua, há que lhes tirar a Constituição da frente. Porque então, então sim, livres dessa maldicinha, a realidade vai ver e, sobretudo, eles vão conseguir ver e encarar a realidade.Sem complexos. E a economia vai trepar nos gráficos à medida e ao ritmo com que a sapiência protuberante for capaz de lhes trepar na barriga, à conquista do umbigo. E ninguém duvide: no mínimo, será vertiginoso!...
Só que até lá vamos penar. Vamos pagar. Vamos expurgar-nos e penitenciar-nos nesta procissão de flagelantes. Temos que mostrar ao mundo, aos mercados, às feiras, às praças e até aos lugares de hortaliça que estamos arrependidos, compungidos, sinceramente pesarosos de todos este tempo estéril em que nos entregámos, de corpo e alma, ao deboche socialista. Na esperança paciente e godótica do dia radioso e deslumbrante em que a inteligência solene dos nossos formidáveis gestores ganhe vigor vertical e deixe de apontar, murcha  e engelhada, ao olho do cu. Da Europa tanto quanto da tribo.»

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publicado às 00:18



Há na montanha, ao vivo, a História Viva.

Recalcaram sôbre ela as as várias gentes:

Peregrinos, ou nómadas, ou bárbaros

Condusidos por Átilas e Césares;

Mas passaram: lá vão...Nos seus recóncavos

- E como o liquem agarrado à pedra -

Para sempre ficou a Raça estóica.


Reboa na montanha uma só fala,

Primígenas raizes dum só verbo.


Não assim a falaz babel oceânica,

Onde todos os rios balbuciam

A língua natural das várias fontes.


A montanha é estável, fidelíssima;

Subversivo é o mar, confuso e múltido.


As vagas - quási sem nenhum desígnio -,

Estas atrás daquelas acorrendo,

Embatem, no recontro, a espúmea fúria

Das que voltam na espuma da ressaca...

Desordenadas tribus do Deserto!


Não apenas um íncola, seu hóspede,

Mas terrantês, extático aborígene, 

Há na montanha um impassível povo.


Há nela um bem sei quê de Majestade,

De Realeza a todo o fundamento.


Formando pátrias, enfrentando pátrias,

Já soberanas Dinastias houve.

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E também a montanha é religiosa.

Tem a soidade mística de ascetas,

Nos fundos ermos meditando e orando


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Antonio Corrêa d'Oliveira, « Elogio da Monarquia »


                        Toda a razão, Duarte Meira: " Ao nível do melhor que se escreveu na literatura portuguesa em todos os tempos. "

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publicado às 21:55

As boutades dos alienados

por João Pinto Bastos, em 29.11.12

Das duas, uma. Ou João Proença vive num mundo à parte, ou, o que é bem pior, é intelectualmente desonesto. Creio que a segunda opção é a mais acertada. Afirmar, com toda a fleuma deste mundo, que a UGT desaprova a utilização do fundo de estabilização financeira da Segurança Social como garantia para empréstimos do Estado é decididamente o último grito do anedotário político. Resta perguntar, assim como que à maneira de Baptista Bastos, onde estava João Proença quando o Governo do exilado parisiense dissipou os recursos desse mesmo fundo na garantia de empréstimos do Estado?

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publicado às 20:21

Zorba, o Grego

por Fernando Melro dos Santos, em 29.11.12
Portugal não é a Grécia, é pior.

No filme que dá a este post o título em epígrafe, Zorba e o seu companheiro de aventura, chegados à almejada mina, descobrem que só mediante um empreendimento verdadeiramente lunático poderão lograr um desfecho viável para o seu périplo. Até aqui, as histórias confluem: também cá no burgo se quis cavalgar o que não existia (o unicórnio do dinheiro fácil, e depois a quimera do euro) numa espécie de roleta russa - mesmo russa, senão volte-se a essa autêntica hemeroteca do PREC que são os media de hoje - a expensas das gerações nascituras.

As semelhanças, porém, terminam neste mesmo ponto. É certo que os problemas gregos na origem do défice que assola o berço de Protágoras, ele que foi o primeiro a prever o advento do socialismo (para cujos próceres não existe nada nem ninguém mais alto que a Humanidade) são muito semelhantes aos de Portugal: fuga dos campos e das minas rumo ao deslumbramento citadino, envelhecimento e esterilidade por causa do hedonismo subsidiado, bolhas de consumo em torno da apetência pela futilidade e pelo acessório, e nepotismo ramificado numa orgia horizontal de compadrio.

Mas dirão, temos cá isso tudo. Okay. Então, em que é que Portugal está pior?

Os gregos, que conheço bem e com intimidade tendo amigos de longa data oriundos das mais diversas classes sociais naquele país, não esperam nada do Estado. São desenrascas profissionais, e não estão habituados a olhar para cima em busca da Voz do Dono. O que têm do Estado, é porque o sacam, em bom português, e sabem bem que se o saque não for feito com arte, amanhã acabou. Até nisto estamos na cauda da Europa. Ora por cá ainda ontem ouvi um indignado sindicalista encolher os ombros e dizer "eu ando aqui [na manifestação] mas eles é que mandam".

Eu vergo-me. Isto é obra maior. Fazer engenharia genética em todo um povo removendo-lhe por completo a coluna vertebral e as gónadas, não é pequena coisa.

O que Portugal tem a menos do que a Grécia são "cojones" e rapidez de raciocínio, que os menos embotados de entre o eleitorado tentam compensar procurando esclarecimento e alternativas. Contudo, a máquina partidária e a sua rede tentacular, alicerçada na desinformação e na intimidação fisco-judicial, depressa fazem gorar qualquer arremedo de dissonância. Fascismo! Violência! Egoísmo! Interesses! De gabinetes ubíquos irrompe a sombra de todos os medos, capaz de engelhar até o mais galhardo entre os tugas.

Alie-se isto ao fantasma da sardinha para três, que pode ser sempre pior, e eis o legado dos últimos quarenta anos.

Se não surgir, rápida e certeiramente, um movimento ou partido impoluto, à direita do CDS, com valores, com ética, com deontologia, e que se afirme destacado do lodaçal vergonhoso e medíocre - não, nojento e reles em que a Babilónia Parlamentar nos tornou, então bem podem vedar janelas e encher despensas. O que virá não vai ser bonito.

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publicado às 19:48

In England (Fischer-Z)

por Fernando Melro dos Santos, em 29.11.12
Um rebuçado ao primeiro que perceber quanto tempo e que espaço medeiam a crise de valores Portuguesa e a Inglaterra de John Watts aquando da lavra desta canção, e o que significa não aparecer ninguém que se digne a preencher o vácuo à direita do CDS, num deserto Musiliano sem ideias nem qualidades ao qual, oremos, não lembre aos radicais socialistas (os quatro partidos à esquerda do CDS, que é "apenas" socialista) aproveitar de alguma forma inovadora.

http://www.youtube.com/watch?v=5lImBGVxU7o


Colourful compartments
Desert island views
Elusive in England
Forget the fabrications
Give us all a clue
Have faith in horizon

Intercity interlude
Jack and Jill rub thighs and think it's rude
Keeping close along the line
Lovers losing sense of time

In England
Ooooooo that's nice, Ooooooo paradise

Many manifestos
Nailed up on the wall
Out of the blue
Only for you
Printed regulations
Quick to disapprove
Restrictions,... restrictions

Skin and bones can't find a way
The British blues today
Underneath the surface laughter
Voices quiver in the dark

In England
Ooooooo that's nice, Ooooooo paradise

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publicado às 19:15

Mao Tse Passos 毛泽东的步骤

por Pedro Quartin Graça, em 29.11.12

 

毛泽东的步骤

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publicado às 18:56

Chinoiseries académicas

por Nuno Castelo-Branco, em 29.11.12

 

Gosto de chinoiseries europeias e daquelas outras originais e que luxuosamente nos apresentam porcelanas, pedras-sabão, forros, cerâmicas, jades rendilhados, caixas lacadas, ou algum daquele mobiliário vermelho e dourado, do mais discreto. Também desde sempre soube apreciar um luso-tique imperial que agora a quase todos passa despercebido nas ruas da reconstrução da Baixa de Lisboa, esquecidos os portugueses do olhar para aqueles tectos de esquinas em bico, talvez inspirados na nossa antiga presença em Macau. Mas este é um exclusivo pelouro das nossas incompetentes Câmaras Municipais olissiponenses, esses verdejantes pastos de saloísmo militante.

 

Falando de política, o caso é outro.

 

Parece estar a surgir um lobby pró-chinês em Portugal e vai obedecendo ao percurso das etapas que normalmente se verificam antes da expansão ao sector político. Surgem alguns comentadores nos telejornais - lembram-se do lobby pró-árabe do Dr. Ângelo Correia? - e depois, dando alguma seriedade académica aos assuntos, teremos uns tantos professores defendendo o impossível.

 

A notícia da redução da presença americana nas Lajes despoletou um sem número de opiniões, algumas delas roçando a fábula da raposa e das uvas. Numa entrevista ao Expresso, José Filipe Pinto coloca a questão da Base das Lajes no plano de contrapartidas a receber por um Portugal que tem sido demasiadamente modesto nas suas reivindicações. Há muito desaparecida a chantagem que Washington sobre nós exercia durante o Império, deveu-se à falta de ambição, comodismo, desinteresse ou simples inépcia das autoridades de Lisboa, o não encetar de conversações para um novo e proveitoso acordo entre o nosso país e os EUA. Pior ainda, o fim da URSS e do Pacto de Varsóvia serviu perfeitamente os desígnios americanos, apresentando estes algum aparente desinteresse pela base. Todos sabem que a realidade é outra e a sugestão deixada, é tão credível ou equivalente a uma imaginada cedência britânica da Base de Gibraltar à marinha chinesa, ou, cumprindo aquilo que os Aliados de 1914 prometeram ao Czar, entregar-se Constantinopla aos russos. Enfim, um académico "jornal do incrível".

 

O professor da omnipresente Lusófona declara agora o interesse chinês na expansão para ocidente, como se isso fosse pela ainda potência global considerado como um acto sem consequências de maior. Pois estará totalmente enganado, se por um momento julgar possível o hastear dos pendões maoístas em qualquer das ilhas do Atlântico Norte. Poderá aventar-se a hipótese de os chineses connosco estabelecerem acordos de exploração dos imaginados recursos que a chamada Zona Exclusiva possa propiciar, mas daí à presença de militares no arquipélago, vai uma incomensurável distância. Os americanos logicamente poderão aplicar a há muito esquecida Doutrina de Monroe e ainda tirarem o pleno proveito da numerosa comunidade açoriana radicada nos EUA. Em suma, corremos o real perigo de perdermos as ilhas num curto espaço de tempo. Teríamos então uma reedição do "efeito Barros Gomes" que nos seus perigosos jogos de sedução do Kaiser, nos propiciou o malfadado Ultimatum. Qualquer subalterno nas Necessidades disso tem a plena consciência. 

 

O estabelecimento de uma base militar chinesa nos Açores consiste num cenário Kriegspiel muito imaginativo e apenas conjecturável no caso de uma súbita catástrofe que reduzisse os Estados Unidos a uma potência menor e sem qualquer capacidade de resposta. Tal situação pressuporia igualmente a inexistência da NATO e a finlandização completa da Europa, no caso de uma bastante improvável aquiescência russa aos desígnios de Pequim. Estamos no plano das catástrofes e  das suposições que para alguns, não deixarão de ser um wishful thinking sem nexo. Não valerá a pena José Filipe Pinto evocar os interesses da lusofonia, se estes nos forem apresentados como simples instrumentos da China. 

 

Podemos aceitar que muitos desejam - da esquerda dos festivais até aos habituais salivados apetites por negócios - a ruptura da nossa relação privilegiada com os Estados Unidos e existem bons argumentos históricos para tal: as quase indecentes pressões lobbistas exercidas sobre o nosso país durante a década de trinta - visando a cedência de Angola para a instalação de um possível Estado judaico, sugestão que partiu de gente ligada a Roosevelt -; os ímpetos belicosos que após o deflagrar da IIGM pretenderam a ocupação violenta dos Açores e o despojar das nossas possessões na Ásia-Pacifico; o envolvimento da gente de Kennedy no assunto Goa; o descarado, vergonho patrocínio de movimentos terroristas em Angola e Moçambique; o ostensivo boicote e a série de proibições quanto ao uso de equipamento militar durante a Guerra de África; o escandaloso desleixo que permitiu ao partido soviético a descolonização exemplar; a tese Kissinger que em 1975 julgou possível um Portugal que "servisse de exemplo" ao resto da Europa; o Caso Timor e o envolvimento da administração Ford; a falta de assistência quanto às imperiosas necessidades de modernização das nossas Forças Armadas - desde o equipamento até à própria doutrina e reformulação do nosso conceito de Defesa Nacional -, etc, etc. A lista é longa, quase infame, mas a realpolitik exige-nos a moderação das pulsões, aspecto nada negligenciável nas relações entre Estados, principalmente quando um deles, Portugal, terá por estes dias atingido o ponto mais baixo da sua já longa história.

 

O governo apresentou ontem uma obra relativa ás nossas reivindicações atlânticas e parece ter chegado o momento das palavras darem o esperado lugar aos actos concretos. Há que ter obsessivamente presente o facto de os Açores serem a primeira linha de defesa americana no Atlântico e assim continuarão por muito tempo.

 

Os Açores encerram importantes potencialidades de âmbito económico e a sua privilegiada situação nas grandes rotas marítimas, decididamente confirmam o seu valor estratégico. É precisamente no capítulo da economia que as decisões deverão ser rapidamente tomadas, angariando-se investidores - europeus, americanos, chineses, japoneses, da CPLP, todos servirão -, dando os nossos governos carta branca e fundos à investigação e inevitavelmente num futuro não muito distante, à criação das infra-estruturas que as virtualidades económicas tornarem urgentes. 

 

Tudo o mais não passa de uma chinoiserie ao gosto que tão em voga esteve nos dourados salões palacianos setecentistas. 

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publicado às 13:55

Programa para hoje

por Samuel de Paiva Pires, em 29.11.12

No âmbito do projecto "Educar", promovido pela Causa Real, decorrerá hoje, pelas 16h30m, na Escola Superior de Educação João de Deus, a primeira de uma série de conferências e debates dedicados às temáticas da democracia, regime político e cidadania em Portugal no século XXI. Os oradores serão o Professor José Adelino Maltez e eu próprio. Naturalmente, a conferência é aberta ao público e a entrada é livre.



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publicado às 11:36

Ainda o concerto de The Black Keys

por Samuel de Paiva Pires, em 29.11.12

Eu assisti a Jack White e a The Black Keys. E alguém na Blitz só pode ter andado a beber qualquer coisa esquisita, porque nem de perto, nem de longe "foi quase tão incendiário quanto Jack White no Coliseu." E "Auerbach deu ainda à audiência lisboeta outra coisa que ela muito preza: conversa e alguma bajulação" é simplesmente mentira. Mal interagiram com o público. Que artigo mais intrigante...

 

Leitura complementar: Um concerto aquém das expectativas.

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publicado às 10:49

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