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Manual para uma Promoção Social sadia

por Fernando Melro dos Santos, em 31.10.16

Vem ainda a propósito de uma farsa sob a guisa de concurso a blog do ano na categoria de política, economia, negócios e porque não prostituição à laia de quem lava uma escada para não ficar ao relento.

 

Como é que a esquerda, ou seja os media, o povaléu das idas ao pão em fato de treino num dia selecto pela colmeia, e a casta rançosa de Abril quer o eleitorado? Sentido? Aventando? Limpo, vestido, barbeado, escorreito?

 

Não, poupadinho e com vales, que é como quem diz sedento de senhas, do estipêndio discricionário, da trela mirífica ancorada no caralho que foda os Governos todos, exclusivamente compostos de labregos como Ferro, Costa, Freitas, Jerónimo, e monhés diversos desde 1974, altura em que os paizinhos salteadores das Mortáguas começavam a cogitar largar a ganza e o bacamarte para pô-las sobre o mundo.

 

Nunca odiei nada, activamente, nesta vida; até agora. O meu desejo neste início de quadra Natalícia para Portugal é que se foda todo, expluda, desintegre e num eco de 1755 faça afundar nos quintos da litosfera toda a herança dos últimos 200 anos. Bem hajam.

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publicado às 15:49

In memoriam - Bernardino Gomes

por Samuel de Paiva Pires, em 31.10.16

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O fim-de-semana que se findou fica marcado pela triste notícia da morte de Bernardino Gomes. Como relembraram os vários jornais, foi uma figura incontornável da história do PS, de que foi fundador, e do vector atlântico da política externa portuguesa na III República, ao qual acabou por dedicar boa parte da sua vida após o 25 de Abril de 1974, sendo de destacar o desempenho de funções enquanto chefe de gabinete de Mário Soares em São Bento, director do Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros, administrador da FLAD e Presidente da Comissão Portuguesa do Atlântico.

 

Foi, aliás, no âmbito desta última que tive oportunidade de o conhecer e de com ele colaborar na promoção do seu braço para a juventude, a Associação da Juventude Portuguesa do Atlântico, junto das associações internacionais de que fazem parte, a Atlantic Treaty Association e a Youth Atlantic Treaty Association, organizações ligadas à Divisão de Diplomacia Pública da NATO. 

 

Bernardino Gomes foi uma das pessoas mais cordiais e agradáveis que conheci até hoje, ficando facilmente na memória de todos quantos o conheceram o seu sentido de humor, a sua inteligência, o tacto diplomático com que tratava todos os assuntos e o sentido de Estado que imprimia em todas as suas intervenções ou iniciativas públicas. Que descanse em paz.

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publicado às 13:31

Educação Low-Cost

por John Wolf, em 31.10.16

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A geringonça está totalmente certa no juízo que faz e na decisão que toma. Para quê investir mais na educação se a moda é falsear currículos? Um corte de 169.5 milhões de euros na Educação é o que está em causa. Não vemos o chefe da FENPROF há séculos, mas agora teria uma boa oportunidade para aparecer de um modo indignado. O que se passa em Portugal? É impressão minha ou a Esquerda já não é o que era? O silêncio do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português merecem preocupações da nossa parte. Afinal não é apenas a Austeridade que está a ser branqueada. Os partidos da libertação do jugo opressor de Bruxelas parecem ter respondido ao chamamento de uma qualquer igreja, de um outro quadrante ideológico. Já viram o que aconteceu no Brasil? O Marcelo Crivella pegou na fivela e deu umas cinturadas na Esquerda brasileira. Devemos temer o efeito de chicote. Quando o povão percebe que não estão a chamar as coisas pelos nomes, rapidamente vira o prego e torce por outra equipa. A Esquerda portuguesa arrisca perder a soma das partes que hoje a define, se continuar a falsear as promessas que faz. E essa noção é básica e transversal a qualquer campo ideológico. É a Democracia, estúpido - aqui, acolá ou nos Estados Unidos. O dito por não dito não resulta. Tem a ver com a licença concedida a um governo para avançar causas que afirmava lhe serem queridas, mas que aparentemente não são. Se eu fosse educador respondia à letra. Contudo, as águas estão paradas. Não sei com que divisa se compra a vacuidade.

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publicado às 10:34

Licenciados da tanga

por John Wolf, em 29.10.16

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Há cinquenta anos Portugal estava pejado de analfabetos. Eram mais do que as mães. Eram mais do que 70% da população (oficialmente perto dos 30%, segundo a Pordata). Depois veio a revolução e o acesso à educação terá sido uma das conquistas democráticas. Mas essa prerrogativa não bastou. Não bastava estudar muito, ter boas notas e receber um diploma. Era preciso algo mais. Para ter sucesso ou enriquecer era obrigatório ter ligações. Era condição sine qua non conhecer gente nos mais variados meios sociais ou profissionais. Uma cunha aqui, um tio acolá, e lentamente, aquilo que seria considerado convencional - o reconhecimento pelo mérito -, foi sendo corroído de um modo incontornável pelo desvio ético, pela ganância. Contudo a licenciatura continuava a ser o requisito mínimo para a aceitação social acontecer, para a escalada profissional ser possível. O Dr. Português (único no mundo académico! - trata-se apenas de um B.A....Bachelor of Arts) passou a conferir uma acreditação atípica. Emprestava a falsa aura de vantagem intelectual, de competências acrescidas. Enfim, a ilusão de que se seria melhor do que o par contemplado com uma mera educação secundária de liceu com nome de fadista. Essa licenciatura tornou-se valiosa ao ponto de ser assaltada a qualquer preço. Rapidamente essa patologia das aparências minou outras categorias. Os engenheiros passaram também a reclamar um tratamento diferenciado - também queriam ser doutores. E nessa cavalgada de pretensões, as competências, se alguma vez existiram, foram pelo cano. Portugal padece, cronicamente, de um qualquer complexo de inferioridade. Mas essa síndrome não obedece a um quadro típico. É endémico, miseravelmente consanguíneo. É uma competição de faianças de ostentação, sem que uma vez a qualidade intrínseca seja evocada. Basta o prefixo. Que se lixe o sufixo. Estou há mais de 30 anos em Portugal, e a cura não aparece. Um país ainda versado na arte do apelido e título académico não pode ir longe. A descoberta e demissão dos dois falseadores dos diplomas perdidos não nos deve surpreender. Esses dois são iguais a tantos outros. A única diferença é que estes queriam mandar. Estes faziam parte de um governo. E em vez de lá ficarem foram para o olho da rua. Adiante. Venham de lá os próximos. Estes são bem piores do que os analfabetos de há meio século atrás.

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publicado às 17:17

Marcelo Castrol

por John Wolf, em 27.10.16

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No meu entender, mesmo num sistema político não presidencial, um chefe de Estado deve (acima de tudo) defender o interesse nacional. Não consigo perceber o que Marcelo Rebelo de Sousa anda a fazer posando para a fotografia com Fidel Castro (?). Nem sei se existe algum valor simbólico que se possa extrair deste investimento mediático. Será que o presidente da república portuguesa tem uma dívida pendente para com Otelo? Marcelo esbanja Castrol num motor avariado. E o aparelho cubano de inspiração fidelista já era uma máquina questionável. Dar um abraço ao enigmático lider não é muito diferente do que dar um encosto fraterno a Mobutu ou Lenine - ambos (incluindo o remanescente Castro) avançaram as causas da miséria humana, da pobreza e da opressão. Não fica bem a Portugal usar recursos para fins altamente duvidosos. Cuba ainda não realizou a transição para a Democracia e o estender da mão de Obama deve ser interpretado no contexto de outras emergências geopolíticas. A única coincidência linguística-ideológica que se pode espremer deste preparado tem a ver com a ideia de embargo. Quem diz embargo diz sanções. Nessa medida, Marcelo alinha-se com aqueles que sofrem os efeitos de sanções, sejam sevícias da União Europeia, sejam admoestações impostas pela administração norte-americana. Marcelo deve ter algum cuidado para não fazer a figura de urso de Marinho gaivota. Soares fartou-se de viajar à pala não se sabe bem de que ideal. E até se fez transportar de tartaruga numa qualquer ilha perdida.

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publicado às 15:39

Vómito Presidencial

por Fernando Melro dos Santos, em 27.10.16

 

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publicado às 11:21

Revisitar Sarajevo

por Fernando Melro dos Santos, em 27.10.16

 

Serei o único a achar, com toda a seriedade, que Portugal corre o risco (calculado com toda a intenção pelos socialistas desde que Guterres, essa bola amorfa e inútil, partiu) de desintegrar-se numa guerra civil - no sentido mais literal do termo, com vizinhos aos tiros uns aos outros - como aconteceu na ex-Jugoslávia?

As diferenças étnicas que opuseram Sérvios a Croatas são pouco ou nada mais biológicas, logo irreconciliáveis, daquelas que opõem a matilha da esquerda Abrilina (que começa no estivador, passa pela funcionária pública prima do primo que valida ultrajes financeiros no Compete e nos concursos públicos, pelas redacções sibilinas repletas de imberbes histéricos, e desemboca onde se acoita a fina flor das serpentes encabeçadas por Soares) às pessoas normais, ou seja da não-esquerda.

Ontem, o espectáculo mais grotesco e pavoroso não foi o frete de Judite de Sousa, ainda de luto cerrado, a lamber em directo o esfíncter mental do maior mitómano de que há memória nesta aldeia infecta: foi ter caído a noite, passado a madrugada, nascido o novo dia e em toda a manada de labregos não ter havido um que escrevesse na rua, à bala ou com fogo ou até somente com tinta preta sobre uma repartição qualquer das Finanças, aquilo que eu estou a escrever aqui. 

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publicado às 11:03

Não importa que os socialistas tenham governado como governaram entre 2005 e 2011. Porque a esse argumento responde-se não com factos, mas com Durão Barroso e Santana Lopes. Não importa que os socialistas tenham governado como governaram, apesar dos tempos favoráveis, entre 1995 e 2001. A essa evidência responde-se com o fantasma de Cavaco Silva e com a psicologia do "pai do monstro". Não importa que José Sócrates tenha chamado a troika, que tenha negociado (mal) o memorando, que tenha sido o seu Governo a inaugurar a "austeridade" ou que se tenha demitido para não ter de governar em condições que não lhe permitiriam a manipulação psicológica dos portugueses. Porque a esse facto responde-se com a "austeridade má", com os "incentivos à emigração", com o retrato de um País em ruínas. Não importa que o Primeiro-ministro, os membros do Governo e os Deputados da maioria que o suporta mintam todos os dias. Várias vezes, para que ninguém consiga ter tempo de as fazer evidenciar. Não importa que António Costa governe como quem lidera uma associação de estudantes. Nada importa, na verdade. Porque resulta. A psicologia da crise só pesa nos ombros da direita. Houve gente que nunca teve cortes nas pensões ou nos salários que berrou contra a austeridade da direita, passe o pleonasmo, e do "neoliberalismo". Há um mar de gente que não paga IRS que lamenta ter de pagar a crise. Há quem se queixe com razão, claro. Mas hoje queixamo-nos menos. Estamos a ressacar. Não se destrói a narrativa da da "reposição de rendimentos" com factos. Mesmo que as estatísticas, os dados, os números, não batam certo. Nada importa, na verdade. Nós não queremos sair do Euro, mas também fugimos a sete pés das "reformas estruturais". Queremos estar assim, que estamos bem. Não queremos que se combatam os interesses instalados, as corporações, os que vivem encostados à enorme sombra do Estado, porque todos nós somos interesses instalados, todos somos corporações, todos vivemos à sombra do Estado. Não somos um País de comércio - somos um País que, por acaso, também tem comércio. Não somos um País de livre iniciativa - somos um País em que, por mera sorte, existe gente que tem iniciativa e que não espera nada do Estado a não ser que não chateie. Não queremos programas liberais. Queremos que nos deixem sossegados. Do povo às elites lisboetas, só queremos que nos deixem sossegados. A nós e às nossas negociatas. Aos nossos direitos. Não importa perguntar por Arménio Carlos, por Mário Nogueira, por Bagão Félix, por Manuela Ferreira Leite. Eles não voltam tão cedo. Estamos sossegados, a recuperar rendimentos, a gozar a paz social. Não, ninguém quer saber que custos tem essa paz social. Ninguém quer saber se o Metro não anda, se os autocarros da Carris não cumprem horários. Estamos em paz social. Não queremos sequer ouvir falar no que aí pode vir. Novo resgate? O caraças, pá. Logo se vê. Deixa andar, que assim está bom. Se não estiver, olha, logo se vê. Eles é que sabem. O remédio que têm aqueles que, como eu, olham para tudo isto com olhos de bicho assustado e incrédulo, é também deixar andar. Ir dizendo, por descargo de consciência, que o Rei vai nu. Protestar, e tal, sim. Alertar para as incoerências, para as mentiras, sim. Mas que tenhamos a certeza de que grande parte do País não quer saber disso para nada. Não há programa reformista que consiga convencer eleitores. E logo agora, que se percebeu que a direita só volta a governar se tiver maioria absoluta. O que há a fazer é esperar. E poupar. Deixar uns dinheiros de lado, não vá isto dar para o torto. E ir "fazendo oposição" - aquela coisa que, à direita, se assemelha a dar murros nas ondas. Não vale a pena continuarmos a achar que vivemos noutro País. Não vivemos.

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publicado às 15:04

Ruiu o Roque

por John Wolf, em 26.10.16

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A Confederação de Licenciados de Portugal (CLF) vem agora exigir que o governo da República Portuguesa submeta todos os seus membros ao escrutínio de um polígrafo académico. A CLF, numa nota de imprensa tornada pública, vai mais longe e sugere que todos os titulares de cargos públicos do presente e passado sejam sujeitos a um processo de autenticação de diplomas. Por outro lado, a Intersindical de Não Licenciados de Portugal (INLP) reclama idênticas condições no acesso a cargos públicos. Numa nota conjunta reiteram que não se pode continuar a pactuar com uma situação de "nem rei nem Roque" no que diz respeito às burlas agravadas a que são sujeitas tantas portuguesas e muitos portugueses. Já bastava Bob Dylan ter ganho o Nobel sem o merecer, como afirmou a catedrática Alice Vieira, para agora sermos confrontados com esta pouca vergonha. Daqui a nada temos um padeiro-presidente que nunca viu mais gorda ou mais magra uma carcaça. O que podemos concluir, sem prejuízo de outras casas partidárias, é que o Partido Socialista tem um certo fetiche por engenheiros da tanga.

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publicado às 08:30

Querem ir à Web Summit?

por Samuel de Paiva Pires, em 25.10.16

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A Associação Nigéria Portugal e a Five Thousand Miles desenvolveram um pacote para facilitar a participação de empresários nigerianos e africanos na Web Summit 2016. Podem encontrar mais informações sobre este aqui.

 

A delegação que estará presente inclui o CEO da Nigeria Inter-Bank Settlement System, membros do Conselho de Administração do Union Bank, do Access Bank e da angolana EMIS, o CEO da Geyser, uma das maiores empresas do Chade, e o CEO da Gimac, dos Camarões, entre outras empresas nigerianas.

 

O Ministro da Ciência e Tecnologia da Nigéria também participará na Web Summit, a convite do Governo de Portugal.

 

Tendo em consideração que se trata de uma delegação de alto nível, gostaríamos de alargar o âmbito desta nossa iniciativa, permitindo a empresas portuguesas integrar a delegação e a Associação Nigéria Portugal, desta forma tendo a oportunidade única de contactar directamente, durante uma semana, com alguns dos mais destacados empresários nigerianos e africanos.

 

Quem o desejar pode participar nesta iniciativa através do nosso pacote no valor de €2500, que inclui o seguinte:

 

- Bilhete para a Web Summit;
- 5 noites no hotel de 5 estrelas onde ficará alojada a delegação, o que permitirá conviver diariamente com os membros desta;
- Transportes diários de e para o local da Web Summit;
- Um dia extra, 11 de Novembro, no qual terá lugar um breve tour por Lisboa e um almoço em que serão abordadas estratégias de entrada no mercado africano;
- Quota de um ano de membro da Associação Nigéria Portugal.

 

Trata-se de uma oportunidade imperdível que permitirá desenvolver contactos ao mais alto nível.

 

Os interessados podem contactar-me por e-mail para samuel.pires@nigeriaportugal.org ou samuel.pires@fivethousandmiles.com.

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publicado às 18:54

O lápis azul do Orçamento de Estado

por John Wolf, em 25.10.16

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Desde quando é que o Partido Socialista decide o que é útil e o que é fútil? Os alegados pais da democracia libertária de Abril não querem mostrar as cartas do seu jogo. Recusam mostrar as estimativas de execução orçamental por entenderem que estas podem denunciar de morte as suas opções administrativas. Não era este o governo-maravilha que tinha um plano quinquenal ao quadrado, uma visão para a década? O checks and balances na sua plenitude também implica a total transparência dos números do Estado. O modesto cidadão comum não tem o direito de saber de que modo o seu dinheiro é gerido? Será que Portugal está a inverter a sua abertura de espírito e a tender para regimes políticos questionáveis? Mas esta história leva água no bico. Se a geringonça pretende esconder um mais que provável descalabro, não tem nada a temer. A Grécia acaba de ver aprovado mais um pacote adocicado de ajuda. Mas Ilusão e decepção parece ser o modo operativo. Querem convencer-me que não fizeram o due diligence  adequado (expressão cara, esta) em relação ao adjunto de António Costa. A saga dos engenheiros da tanga parece não ter fim para os lados do Rato. Mas não nos afastemos do essencial. O Orçamento de Estado, na versão lápis azul da geringonça, pretende escamotear a verdade. E a verdade é a seguinte: os impostos sobem em toda a linha. Mas não convém que se saiba.

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publicado às 09:33

O Abrantes, Pedro Dias, ajustes directos e o mal que não existia

por Fernando Melro dos Santos, em 23.10.16

Durante cerca de sete anos tive um amigo, advindo à minha esfera por laços neo-familiares, com quem partilhava, sobretudo, os meus raros momentos de circunspecção e o apreço pelos maltes de Islay. Almoçando amiúde à mesa onde se ria de tudo e de todos, era por natureza inevitável e lidada com bonomia a deriva para o debate político, se bem que tão ígneo quanto fugaz, e isto tudo em pleno consulado Socrático.

 

À primeira salva de aviso, usualmente espoletada pela menção em surdina de trivialidades mediatizadas in illo tempore - a legalização do assassinato in utero, o controle dos media, a matilhização da sociedade portuguesa da qual, ainda hoje, ninguém me convence que irá terminar de forma diferente daquela que sobreveio à ex-Jugoslávia - assumíamos, como cavalheiros que somos, a postura adequada a quem sabe vir dali mais uma discussão amena, mas acesa, e tão iterativamente regrada quão certa era a demanda pelos cálices que ao trinar do ponteiro-mor (normalmente a minha cunhada) seriam trazidos para que neles fossem vertidas libações de apaziguar.

 

Dizia o meu amigo à data que não via mal algum naquilo que se escrevia no Câmara Corporativa, esse hostel de viés meláceo e insidioso pago, sabe-se agora, pelo dinheiro que não chega para aumentar as pensões mínimas. Ao que eu retorquia, mas olha que ali deve haver fundos públicos. E dizia ele que isso, a ser verdade, até seria justificável uma vez que ao perpetuar no poder "governos equilibrados", e obviamente cito, era uma forma de investimento nas políticas de auxílio aos mais necessitados.

 

Referia-se, aqui, o meu amigo às diversas castas onde se ancora este recife asquerosamente paralisado no tempo e que tornou impossível, aos seus, crescer e a velhos como eu muito difícil respirar: a pensionistas cujos alquebrantar de costelas e carreira contributiva desde os 11 ou 12 anos de idade lhes valeram pensões de cinquenta ou sessenta contos, contentáveis pela distribuição de missangas resquiciais - da merda que Sócrates, Barroso, Guterres, Cavaco e os governos todos desde a adesão à UE defecavam após devida assimilação; a funcionários públicos conduzidos pelo sonho inefável de pilotarem uma secretária, tementes ao Deus Estado, não fosse algum azar propeli-los a todos para o tempo dos trisavós em que se andava descalço e o patrão bebia o vinho, ora luxo sobretaxado.

 

Qual é o mal?, perguntava cândido. O mal é que esse dinheiro, nas mãos de quem o ganha, não seria gasto em propaganda de agitação ideológica. Não é da cúria, é nosso. E Trás-os-Montes parecia sempre chamar-me a que lá fosse edificar um reduto, quando a coisa adentrava a segunda iteração.

 

Depois argumentaria, o meu educado e circunspecto amigo, que mentira alguma ou incorrecção factual - sempre por omissão - apanagiariam o timbre das postas lá vertidas, que até seriam consentâneas com, e novamente cito pois somente assim me apanhareis a escrever tais autismos, aquilo que os jornais e a rádio noticiavam. E aqui dá-se um cisma, há uma cisão na fé de ambos até ali fundeada em princípios de não aleivosia; é que ao menos para mim, as distinções entre nesciência, ignorância, má-fé e desespero manipulativo foram sempre bem claras, à luz da única estrutura que pode ser vista até de satélite, a par da Muralha da China, e que é o grande deserto de sal português onde nada viceja, tudo que brote é de imediato calcado, e onde até a chuva pensa duas vezes antes de cair - uma cloaca impossível de desinfestar, honra à Câncio um coio de malucos. 

 

Entretanto toda a gente sabe que as migalhas pagas ao jovem Galamba, a quem gostaria de ver passar o Natal em Calais, nada representam, são despiciendas face àquilo que sugam Manuel Alegre, Mário Nogueira, Mário Soares, Jorge Sampaio, Vítor Constâncio, Durão Barroso, Cavaco Silva, a bolinha Guterres, e a miríade de miríades que cascata piramidalmente por suas sinecuras a baixo. Basta ver, quotidianamente, os concursos públicos cujas alocações de dinheiro porvindo a ciclovias, museoetnoplasticotretas, e levantamento de ruas à força de labregos temporários conduzem, a aritmética o dita, a leilões do IGCP que condenam já netos, trinetos, e pentanetos - os quais, felizmente, serão à data em que a factura vencer cidadãos britânicos, australianos, canadianos ou marcianos inimputáveis e incobráveis.

Quem cá ficar e estiver mal preparado, do deambulador forumalmadense até às hordas de mortos-vivos que encalham no estupor da noite lisboeta, nem uma fronteira para a Colômbia terá onde ir buscar pão. O futuro aqui é de arame farpado, guaritas fiscais e vigilância local, leia-se vizinho contra vizinho. 

 

De resto só duas coisas: uma, porque estará Pedro Dias, um tipo aparentemente libertário cujo único fito vislumbrável de vida é ser deixado em paz, enleado numa história que tresanda aos mesmos eflúvios nauseabundos onde flutuam mortes hospitalares, bombeiros sem meias, escolas fechadas, e sicários a soldo de uma seita sinistra entranhada na falsa revolução dos pobres de espírito? E duas, porque insistem os autóctones no miserável bucolismo de tomar, por comparação, a Finlândia quando o sol brilha e a Somália quando lhes vão ao cu por via da Autoridade Tributária?

 

Daqui a nada vou reencontrar uma amiga de longa data, tenho de ir barbear-me. Faço votos de que a chuva se intensifique, o vento sopre, a neve caia, a economia faleça a par de António Costa e de todo o séquito histriónico que lhe afaga as banhas. 

 

O plano do PS, desde que Sócrates vendeu o encéfalo ao Diabo, foi sempre encontrar um bode expiatório que permitisse a Portugal sair do Euro, nacionalizar terra, economia e povo, e mais tarde, paulatinamente, vir com os proveitos da jogada comprar, literalmente, aquilo que como é dos cânones jamais poderá ficar sempre nas mãos do Estado. É uma grande jogada de forex e tem tudo para resultar. Eu sei, porque se pudesse, tê-la-ia feito eu mesmo. 

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publicado às 11:34

Portugal, DBRS e cães amestrados

por John Wolf, em 23.10.16

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Que raio de construção é esta? Portugal está dependente de avalistas como a DBRS para garantir a continuidade dos financiamentos do BCE? Há aqui diversos elementos miseráveis. Um Estado alegadamente soberano está nas mãos de uma casa de rating que nem sequer é um Estado. A DBRS não tem governo, não tem território, não é uma nação, não tem um exército, embora tenha uma língua, mas dá ordens ao BCE. A Europa da União, com tantos anos de casa, nem sequer foi capaz de se auditar internamente, nem sequer é capaz de ter a sua própria agência de rating. Recorre a uma casa de apostas canadiana. Por outro lado, Portugal tem um governo de ficções. Uma entidade tri-partidária que inventou o boato de que acabou a austeridade, mas que efectivamente a eterniza. Mário Centeno e António Costa decepam os gargalos de espumante Raposeira como se o mais recente carimbo da DBRS, que mantém Portugal junto ao portão da lixeira, valesse alguma coisa e fosse fruto do grande empenho e competência deste governo. O BCE sabe muito bem o que está a fazer. Em vez de validar a emancipação de Portugal, prolonga a bengala. As facilidades concedidas agora (e desde sempre) implicam agravamentos mais adiante. Mas há mais vida para além de Draghi e Centeno, que com este diálogo de vencedores, apenas compram mais 6 meses de validade. Os homens defendem os seus empregos, sem dúvida alguma, contudo, lá fora, no mundo dos tubarões, todos sabem que Portugal derrapa porque o alegado piquete de emergência pôs travão às verdadeiras reformas de que o país necessita. Centeno quer fazer boa figura nas reuniões do Conselho junto dos seus pares da União Europeia e até usa uma linguagem de cão amestrado - "se calhar até vamos cumprir melhor os compromissos do que outros países e pode ser que depois se entretenham com outros países e não connosco" (...)

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publicado às 09:34

Pedro Dias e José Sócrates

por John Wolf, em 20.10.16

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Acho absolutamente notável que no caso de José Sócrates as forças de segurança fossem capazes de capturar o foragido sem demoras. Deve ser por ser VIP. O Pedro Dias, um cidadão comum, sem pergaminhos excepcionais, está a ser tratado de um modo repugnante. Anda por aí há mais de 10 dias. Visitou Carro Queimado, esteve em Constantim (a fama que vem de longe) e só Deus sabe por onde andará. Estão a dar lenha para o homem se queimar. No caso do 44 o tratamento foi outro. Quarto, comida e roupa lavada durante 11 meses! - pagos pelos contribuintes. Onze meses não são nove semanas e meia.

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publicado às 10:31

Centeno pica o ponto da austeridade

por John Wolf, em 19.10.16

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Os políticos europeus andam equívocados há algum tempo. Desde que meteram na cabeça a ideia de Austeridade, não existe nada que os possa demover das suas convicções. Não é que os Estados Unidos da América (EUA) sejam desprovidos de falhas graves, mas neste capítulo dão cartas. Trabalham mais do que os europeus. Trabalham mais horas do que os italianos e os portugueses, mas assemelham-se aos suiços e alemães. E isso tem uma explicação clara. A carga fiscal muito menos acentuada, do que aquela montada em tantos países europeus, funciona como um incentivo ao trabalho. A ausência de reformas e pensões substanciais nos EUA também obriga a esforço adicional - penso na carga de trabalhos em que Portugal está metido com as centenas de milhares de funcionários públicos a que tem de dar de mamar. Os sindicatos europeus inventados para proteger os trabalhadores também contribuíram para um certo estado de alma perdulário. Sinto muitas vezes em Portugal, nos vários domínios profissionais em que me movimento, que existe uma certa falta de entusiasmo - um "estou a trabalhar para aquecer". E é isso que este Orçamento (e os restantes) ajuda a eternizar. Ao desgastarem os contribuintes corroiem a natureza intrínseca do empreendedorismo, da livre iniciativa, mancham a alma voluntariosa do indivíduo que acredita que pode mudar o mundo. E é curioso que o Web Summit esteja prestes a começar em Portugal. Aqueles visionários atracam em Lisboa porque a recepção será maravilhosa e as condições ideais, mas atentemos ao seguinte. Os criadores que aí vêm foram gerados em países com um software mental e fiscal adequado. Não sei se o impacto da cimeira será notável. Para os que vêm é apenas uma escala de um processo de desenvolvimento maior. Investir em Portugal? Perguntem ao Centeno e ao Costa.

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publicado às 09:42

Os Carlos Santos Silvas das Autárquicas

por John Wolf, em 18.10.16

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Ainda não tinha percebido quais eram os atributos intelectuais ou políticos de Ana Catarina Mendes. Mas agora percebi. Não os tem. Limita-se a seguir o quadro ético do seu partido, que se inspirou no precedente de Sócrates que afirma ter tido a boa fortuna de ter o amigo Carlos Santos Silva para lhe emprestar umas coroas. A fórmula vencedora parece servir na perfeição os intentos do Partido Socialista. O Largo do Rato, falido que está, agora pede aos autarcas para contribuírem com a dízima para as eleições que se avizinham. E quais serão as contrapartidas? Porque almoços grátis não há. Mas a distorção desta prática levanta outras lebres. Discrimina, dentro do próprio partido, os dadores dos forretas. Alimenta a ideia (errada) de que a política apenas se faz com dinheiro quando faltam ideias vencedoras. Se não vai a bem, vai a notas. Quando chegaram as legislativas como vai ser? Também vão ter uma entidade e uma referência de valores morais?

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publicado às 20:12

Sou um economista da treta

por John Wolf, em 18.10.16

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Não sou economista. Fiz uma cadeira do curso no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) - a casa-mãe-fornecedora de uma grande leva de economistas-socialistas - pensem Constâncio. Curiosamente, a única cadeira que completei antes de mudar de curso (para Relações Internacionais) era considerada um bico de obra: Estatística (I). Ou seja, sou a última pessoa à face da terra para oferecer modelos de salvação económica, seja de inspiração Chicagiana, ou seja com o sopro bafejado por Hayek. Em termos de mercado, posiciono-me do lado da oferta de perguntas, esperando que os técnicos de serviço possam procurar e conceder a resposta. O Governo de inspiração orçamental afirma que todos os pressupostos de aprovação do mesmo foram apresentados nesse mesmo documento. A minha pergunta é simples: quanto custa? Qual o custo de oportunidade de cada empregado? E qual o rendimento marginal de cada pensionista? Eu sei, eu sei. Depende de muita coisa. Blá blá blá, blá blá blá. Então simplifiquemos. Nesse caso, peço apenas uns rácios (sim, de racionalidade). Qual a relação entre a colecta de impostos e a geração de emprego? Em que medida as receitas fiscais impactarão a procura de emprego? De que modo os fundos provenientes do imposto sobre valores patrimoniais acima dos 600 mil euros contribuem para a dinamização de empresas? Talvez esteja a perguntar aos cientistas errados. Estas questões de linearidade talvez pertençam a outro domínio de pensamento directo. Cada vez que emitem uma nova guia de remessas tributárias atravessa-se-me pelo espírito uma sensação estranha - de vazio comportamental. Ninguém me conseguiu explicar cabalmente as ligações sinápticas entre uma coisa e outra. A gordura que sai do pêlo de cada um vai exactamente para onde? Para um aterro de margens de erro? Os economistas-políticos, ou o contrário, são uma espécie perigosa. São experimentalistas com cobaias avulso. Prefiro uma estirpe distinta. Os puros. Aqueles que pensam e dissecam, mas não se pôem a inventar soluções governativas à custa do freguês.

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publicado às 10:29

Padre Vieira da Silva

por John Wolf, em 17.10.16

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A bíblia do Orçamento de Estado 2017 tem santos de toda a ordem. Os padres da geringonça apresentam-se com sermões de encantar na mesmíssima paróquia. Por um lado, Centeno invoca os caminhos da justiça e das escolhas - a justiça de tirar e a escolha de não admitir -, e Vieira da Silva, que está junto ao altar, vem com o choradinho demagogo do excedente de pobreza. O ministro da solidariedade e afins refere a pobreza infantil numa espécie de chantagem emocional para justificar a carga contrubutiva. Em nome da criança a extensão de Austeridade pode ser justificada. Pobreza infantil é um conceito questionável. Sabemos o que quer dizer  Vieira, mas não sabe expressar-se. É a pobreza dos progenitores que conduz à precariedade infantil. As crianças não devem ser ricas nem pobres. Não devem trabalhar. É bom saber que o convento das belas intenções tem o apoio da Fundação Francisco Manuel (dos Santos!). A gerin do PS e a gonça do BE e PCP subscrevem esta fórmula de intensificação da miséria para ver se o povo engole a pílula de mais austeridade. Mas algo não bate certo. Não era suposto o desemprego estar a baixar e a economia a crescer? Se isso fosse verdade, o Vieira da Silva não vinha com esta cantiga de orfanato. O excelso ministro já teve diversas oportunidades para governar e erradicar a pobreza, mas qualquer coisa falhou ou faltou. É de uma baixeza franciscana servirem-se dos pequenotes para galgar as margens contributivas dos portugueses. Parece aquela conversa de ocasião com que nos cruzamos por aí: não é para mim, é para uma criancinha.

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publicado às 09:52

Macro Centeno

por John Wolf, em 15.10.16

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O Orçamento de Estado de 2017 (OE) contempla, mesmo que remotamente, naqueles tais cenários Macro que o Centeno andou a declamar, o impacto do Brexit? Já agora o impacto das eleições presidenciais nos EUA? E o que está para acontecer na Grécia? E o que poderá acontecer com a suspensão de fundos da União Europeia (UE)? Portugal não é uma ilha. Há tanto que não parece ter sido "inputado" nos cálculos fiscais do governo. É esta incapacidade de ter uma perspectiva panorâmica que trama Portugal. São lideres com vistas curtas que comprometem o futuro deste país. Poderemos concluir, sem reservas, que o OE é um instrumento para obedecer ao normativo da UE e da Comissão Europeia. Aquele tom irreverente de queimada incendiária de Bruxelas foi pelo cano. Se ainda não perceberam, ainda vão a tempo. A geringonça está feita com os chefes neo-liberais da Europa. A geringonça tomou o gosto pelo poder. O trio Martins, Mortágua e Matias, pura e simplesmente desapareceu de cena. Fingem a exigência dos dez paus do aumento das pensões, mas genericamente pactuam com a ideologia inimiga. Nada mudou em termos macro-económicos, mas a cantiga de bate-pé à Alemanha foi-se. Estranho. Não. Primeiro ganha-se e depois entranha-se. É assim em política.

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publicado às 07:28

1983

por Nuno Castelo-Branco, em 14.10.16

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 Estávamos em 1983, na fase final da Guerra Fria. Não costumo falar das minhas experiências, mas neste caso abrirei uma excepção. Fui convidado pelo então deputado Borges de Carvalho, para participar num seminário da NATO a realizar-se em Pont-à-Mousson, nas cercanias de Nancy, numa abadia magnífica e adaptada para este tipo de encontros. Um serviço onde a gastronomia e civilidade francesa era acompanhada por um horário de trabalho intenso com professores e militares provenientes de alguns dos países-membro da coligação ocidental. Como colegas portugueses tive um sobrinho do presidente da A.R. de então e o actual primeiro-ministro António Costa. 


Naquele momento a NATO encontrava-se sob esmagadora pressão militar, política e mediática após uma fase de refluxo da presença do ocidente em todo o mundo, perda de influência à qual não foi estranha a derrota americana no Vietname e mais importante ainda, como então sublinhei a quem pacientemente quis ouvir-me, a catastrófica perda de todas as possessões de um dos países fundadores da Aliança Atlântica, deixando assim oaqueles que deveriam ter sido os interesses euro-americanos perigosamente fragilizados nas vias de acesso do grande comércio internacional marítimo, para além da evidente segurança militar que a existência de portos, costas e ilhas amigas representavam. Abertamente o afirmei a quem do outro lado do Atlântico ali chegou para um misto de doutrinação, aulas e talvez prospecção de futuros quadros de confiança. Nunca mais fui convidado para coisa alguma e muitos anos mais tarde percebi o porquê, mea culpa,  quando os outros dois portugueses, então muito mais parcos nas palavras, bem depressa chegaram aos lugares que pretenderam. Nestas reuniões aparentemente procuravam alguns yes, Sir! e a minha personalidade não lhes pareceu cumprir este requisito. 

O que lhes terei dito que tenha soado tão mal aos seus ouvidos? 

Começando por criticar rispidamente toda a política norte-americana quanto ao seu relacionamento institucional com um aliado formal como era, sempre foi e é Portugal, foi em silêncio que escutaram a minha longa lista de protestos plenamente justificados com números e factos e sempre em termos comparativos com as outras prioridades internacionais das administrações que teoricamente se sucederam na Casa Branca. A posição dos EUA na Indochina, os erros crassos, quando não abusos descarados, na relação americana com todos os países da zona, confirmando o fetiche soviético pelo dominó; o disparatado boicote do esforço de guerra português na guerra em África, precisamente em três frentes onde o ocidente poderia ter feito a diferença; o estranho caso da quase gratuita Base das Lajes, sempre em comparação com o despejar de biliões de dólares para sempre irremediavelmente perdidos em Subic Bay e Cam Rahn; a total falta de informações relevantes, obrigatoriamente no âmbito da aliança a fornecer a Portugal e bem pelo contrário, a passagem delas para o campo adversário por intermediários vizinhos dos portugueses. 

Em algumas conversas fora das salas, dois dos militares então presentes concordaram com praticamente tudo o que lhes dissera e encolhendo os ombros - não encontro imagem mais apropriada - disseram-me que não podiam corrigir o mal já feito e ultrapassado em quase uma década. O pior é que estes reconhecidos erros terão durado o tempo suficiente para serem corrigidos ou minorados, atendendo à evolução claramente negativa do conflito na Indochina e a duas consecutivas guerras no Médio Oriente, onde Israel em 1973 seria salvo in extremis, mercê de uma massiva ponte aérea na qual os Açores jogaram uma parte muito relevante, sem que por isso Washington sequer aconselhasse o seu preferencial aliado a moderar a retórica anti-portuguesa nas Nações Unidas. Retorquiu um deles que para o Pentágono, Portugal apenas era uma landing beach a saturar com bombas e mísseis antes do desembarque dos G.I. Assim mesmo, a seco e um tanto ou quanto já sem paciência para a repetição do reconhecimento dos apontados erros. 

Neste período cheio de incertezas, a Base das Lajes vai sendo notícia de forma discreta, não procurando - e bem - as autoridades de Lisboa agitar oceanos que apenas poderão muito prejudicar o nosso país no seu todo territorial. Tem alguém a mais pequena dúvida disso? A viagem de Costa à China não serviu apenas para o estreitamento de relações comerciais luso-chinesas, disso deveremos estar tão certos como o Sol despontar a leste todos os dias.

Existe um facto incontornável que pela sua perenidade de imediato deverá estar sempre presente a quem, seja quem for o partido que domine o poder em Lisboa, se encontre em qualquer tipo de negociações em relação à preciosa possessão portuguesa situada em pleno Atlântico norte: mesmo que os EUA retirem todo o pessoal que tem povoado a Base das Lajes, decerto Washington ali manterá um corneteiro e um soldado que ali diariamente hasteie a bandeira estrelada. Os símbolos conformam toda a importância que têm e neste caso, a Base é de facto um local privilegiado no preciso momento em que o alargamento do Canal do Panamá promete intensificar ainda mais as ligações marítimas do resto do mundo com a até hoje abastada Europa, agora, apesar da censura dos media, sob um ataque total proveniente do exterior. Poderão argumentar os portugueses e os seus hipotéticos convidados, venham eles de onde vierem, com  intenções meramente científicas ou comerciais, mas deverão sempre ter em conta que os americanos jamais admitirão um único corneteiro, para além do seu, naquelas ilhas. Muito menos ainda, aviões, navios, blindados, mísseis, soldados ou técnicos militares que sequer de longe possam representar uma passagem de testemunho. Esta é a realpolitik com que temos de nos conformar e se são totalmente desejáveis e imprescindíveis as novas relações de comércio e troca de conhecimentos entre Portugal, a China, a Índia, a Rússia, o Brasil e até outros países europeus que connosco ainda participam na bastante incerta U.E., a questão da posse militar do arquipélago açoriano é um escolho imenso, intransponível. Para além da praticamente segura perda dos Açores, o nosso país não pode ser um alvo de qualquer tipo de campanha hate ou ter Lisboa a servir de alvo como foi Belgrado. 

Hoje a NATO tal como existe é questionável, urge mesmo a sua rápida reforma após as colossais decepções decorrentes da queda do comunismo soviético. Há que avisar todos os nossos aliados acerca desta urgência incontornável e de preferência, numa reunião magna, diante do mundo.

Previa-se a anexação do território da zona soviética da Alemanha e a neutralização ao estilo finlandês dos países do Pacto de Varsóvia, outrora servos de Moscovo. Não foi isso o que aconteceu, para grande desilusão russa, preparada como estava para aceitar a retirada do território da RDA, mas que hoje vê com legítima inquietação a grotesca, aberrante tentativa de incluir a Ucrânia numa aliança que parece cada vez mais tentacular e devemos dizê-lo sem rebuços, unilateral e capa de desculpa para acções que apenas a um dos seus membros interessam. Muito legitimamente, os russos sentem-se ameaçados directamente e para isso bastará passarmos nós, os aliados ocidentais, as nossas vistas sobre a lista de bases ocidentais espalhadas de ocidente a leste e a sul da Rússia. Em política, a psique funciona e nalguns casos é mesmo um factor determinante.

A NATO surgiu com propósitos defensivos, até de garantia de progresso material e liberdade numa Europa destruída pela guerra e ódios seculares. Cumpriu plenamente o seu papel e obteve, graças à persistência e claras insuficiências e contradições internas do sistema soviético, uma vitória certamente esperada. Nos anos de 1989, 1990 e 1991 bateram-se palmas de alegria, cantaram-se hinos, unificou-se uma nação dividida arbitrariamente e num ápice desapareceram os Estados totalitários que oprimiam os próprios povos, mantendo-os numa abjecta sujeição a um suserano externo, fatalmente incompetente no que interessava - o conforto material, a liberdade de expressão e circulação -  e brutalmente impiedoso. 

Hoje começamos a ouvir ao longe o inconfundível rufar dos tambores da guerra. Num momento em que os russos nunca viajaram tanto, num momento em que os russos livremente lêem e escrevem tudo o que entendem, num momento em que os russos são uma sociedade de consumo muito exigente e valiosa para o conjunto europeu, num momento em que os russos investem, compram e viajam na Europa, estamos perante aquilo que durante os anos de chumbo que foi a Guerra Fria jamais sucedeu: a iminência de um conflito militar de larga escala, onde, queiram ou não queiram os mais optimistas, as armas nucleares serão usadas, mesmo que pontualmente. Não serão apenas utilizadas na Europa, mas também além Atlântico, ...precisamente onde mais lhes dói, segundo o dizer de um conhecido russo.  A Síria será então um pretexto tão ínfimo como o Caso Gleiwitz. 

Em 1939, o governo então presidido por Salazar encontrou-se perante o dilema de se situar entre a potência tutelar, o então enfraquecido Reino Unido que connosco fazia fronteiras na África e na Ásia e uma Alemanha plena de vigor e espírito expansionista. Salazar sabia que não podia quebrar com os ingleses como sempre prepotentes na chantagem sobre o nosso império e em simultâneo, também tinha a plena consciência do que poderia advir para Portugal ao antagonizar-se com o Reich.

Declarada a guerra a 3 de Setembro, o Presidente do Conselho foi à Assembleia Nacional e ali manifestou a fidelidade portuguesa à Velha Aliança e em simultâneo declarou a neutralidade. Pois é disso mesmo que os nossos aliados têm a imperiosa necessidade de recordar e que o então meu colega de três semanas, António Costa, hoje primeiro ministro, deverá, em caso de inopinada e impensável necessidade,  integralmente copiar. Mesmo morrendo, salvaremos a face em relação aos poucos que ficarem para contar a história. 




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