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Samuel, a premissa central do teu texto - que percebo a ser a antecedência do homem face a Deus -, da qual resulta a noção de que Deus é uma criação humana, bem como o deísmo antropomórfico que caracterizas, parece-me padecer de um problema de base, brilhantemente sumariado em Being John Malkovich. Se nós vemos o mundo pelos olhos de Malkovich, o corpo de Malkovich age de acordo com o que cada um de nós quer experimentar. A realidade de "ser John Malkovich" torna-se assim no paradoxo do relativismo absoluto: John Malkovich passa a ver e agir como cada um de nós quer.

Serve a metáfora para dizer que tudo pode ser entendido como uma construção humana, se entenderes que por ser visto pelos teus olhos, humanos, passa a ser uma realidade construída por ti. Naturalmente que foi o homem quem escreveu sobre Deus, porque a escrita é um exercício humano. Faz isso de Deus uma criação humana? Da mesma forma faria de cada mesa uma mesa diferente, consoante quem passasse pelo interior da mente de John Malkovich, e olhasse para a dita mesa. A falácia "post hoc ergo propter hoc" enviesa o conhecimento: não é por a reflexão humana sobre Deus, e a escrita do homem sobre Deus, anteceder uma epifania que admitas como válida, que essa epifania passaria a ser uma construção tua. Ou todo o conhecimento se tornaria relativo, e, como tal, nulo. O que não é o caso! 

No domínio da geometria euclidiana, o Teorema de Pitágoras é uma verdade à espera de ser descoberta, que não muda por ter sido Pitágoras a descobri-la. Fosse outro qualquer, mudasse o nome ao teorema, ele continuaria a conter uma relação indesmentível entre os comprimentos dos lados de um triângulo rectângulo, inscrito num plano.

O Teorema de Pitágoras foi verbalizado por homens. Tornar-se-ia diferente a cada um que passasse pelos olhos de John Malkovich? Não me parece, e por isso não me parece também que toda a verdade seja humana como afirmas. A Matemática é uma colecção de verdades que existem e da qual nos é dado vislumbrar pedaços da sua beleza de tempos a tempos. As verdades ainda não descobertas não são verdades inexistentes. E as existentes são idênticas para qualquer olhar que sobre elas se debruce. Mesmo o último teorema de Fermat sobreviveu séculos, apesar de não demonstrado até recentemente.

 

Se a Verdade existe então, para além do humano, o Absoluto tem também de existir. Porque a Verdade é absoluta. A nossa missão muda radicalmente. Tentamos apreender a verdade, como dizia Newton, trabalhando como anões nas costas de gigantes. Santo Agostinho separava de forma clara a matéria criada da que não o foi. Deus cria. Não é ele próprio matéria criada, e por isso antecede a matéria criada. A concepção humana de Deus pode-lhe ter conferido, em muitos cultos, rostos humanizados. Da mesma forma que estilizamos as representações de extra-terrestres a partir do nosso universo de conhecimento morfológico. Mas o Cristianismo, no que me parece ser um ponto que ilude a tua reflexão, não o faz. Jesus Cristo não é a humanização de Deus, nem a representação de Cristo pretende ser a representação de Deus. Cristo é Deus que veio ao mundo como Homem. E para interagir com os homens. Por isso, numa forma reconhecível pelos homens. Nenhum Homem, diz-nos Jesus, alguma vez viu Deus, na sua vida terrena. Quando muito, alguns tiveram a Fé para reconhecer Deus no homem Jesus Cristo.

Vale a pena recordar o episódio da sarça ardente, em que Moisés interage com Deus na montanha. Pede-lhe para o ver, para o poder apresentar ao povo que tirara do Egipto. E Deus permite-lhe apenas ver a sombra de umas costas numa pedra. Santo Agostinho, em Da Trinidade, conclui que essa sombra é a sombra das costas de Jesus, pois será essa a forma humana que Deus tomará quando vem ao nosso encontro no Novo Testamento.

Não podemos, por isso, confundir antropomorfismo deísta com Cristianismo. É assumido no Cristianismo que não conhecemos o rosto de Deus, nem sabemos se o tem. Foi-nos dado, pelo Seu Amor, conhecer a Cristo, Deus que veio a nós na forma humana. Mas que não consiste na forma (se o conceito se aplica?) do próprio Deus, pois Ele não é matéria criada, nem se situa neste plano de morfologias reconhecíveis. O Deus dos Cristãos é a Trindade Santíssima: uma união perfeita de três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) que são uma só, pois cada uma está em todas as outras e são consubstanciais. O Deus é uno e trino. Consubstancial porque todo é Amor. Só se distinguem nas relações recíprocas, mas todos um mesmo Deus.

Convirás, Samuel, que há pouco de antropomórfico, na percepção de um Deus uno e trino, pois essa é uma realidade desconhecida e mesmo misteriosa no nosso plano vivencial....

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publicado às 18:31


9 comentários

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De th a 06.06.2012 às 23:00

Eish que pessegada. Parabéns pelos malabarismos de "lógica".
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De Carlos Santos a 06.06.2012 às 23:18


Quer referenciar o tipo de lógica a que se refere, para podermos construir um argumento? O meu quadro de referência é a lógica bivalente. O seu? Ou era simplesmente para dizer qualquer coisa?
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De Anónimo a 07.06.2012 às 13:57


Caro Carlos,

Há aqui uma tipo de pessoas que vêm comentar e dizem coisas como "isto é um disparate", "Deus não existe", "isto não tem lógica" ou similares e não apontam um argumento, uma falha, porque a sua posição é dogmática materialista pura... Gente espectacular e com certezas tão absolutas que se diria de uma estranha seita.

Não se dê a esse trabalho.

O Corcunda
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De Carlos Santos a 07.06.2012 às 23:23


Obrigado pelo incentivo!:) Abraço!
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De th a 07.06.2012 às 17:27

Aí sou eu o dogmático?
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De Carlos Santos a 07.06.2012 às 23:23


Primeira diga o que entende por dogma.
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De Anónimo a 08.06.2012 às 00:18

Sem dúvida. Se alguém diz que tem a certeza que Deus não existe, é porque tem uma visão do além e conseguiu vislumbrar aí o Vazio, que como é evidente é metafísica. Os ateus, pelo menos os inteligentes e que compreendem problemas filosóficos acima do elementar, sabem que afirmar que não existe divindade tem implicações metafísicas indiscutíveis: que o mundo material não tem princípio nem fim, que a vida é apenas um conjunto de interações materiais.

O Corcunda
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De Anónimo a 08.06.2012 às 00:27

Excelente argumentação.
Será, aliás, exactamente por isso que o comentador "do contra" não se atreve a contra-argumentar e limita-se a escrever umas vacuidades insignificantes - vulgo "bocas".

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