Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Joana de Vasconcelos em Versalhes

por Nuno Castelo-Branco, em 21.06.12

Como em qualquer exposição, esta apresenta peças que nos agradam mais que outras. De facto impressiona não apenas pelo impacto que ocasiona entusiásticas adesões, como pela posição contrária, aquele estupor pela ousadia quase iconoclasta. No entanto, nem tudo o que parece, é. Bem ao contrário de riscos, borradas, rabiscos, lixo acumulado em instalação do nada, telas sem pingo de cor ou mictórios transformados em novas Vénus de Milo de uma época sem futuro, esta exposição de Joana de Vasconcelos, é uma chamada de atenção à magia que Versalhes ainda exala.

 

Há quem se atreva a dizer que um tour a Versalhes, é suficiente para abalar a postiça grandeza da república francesa. Quem passeie pelo Palácio, ali vê Maria Antonieta sala após sala, hoje uma mulher mais heroína que jamais, para sempre enterradas as maledicências, invenções e ódios onde estava sempre presente a estupidês diplomada de burrice e uma forte frustração sexual dos detractores da grande vítima dos acontecimentos pós-1789. Há que compreender o papel que a Rainha desempenhou  na sociedade francesa dos finais do Ancien Régime, ditando a moda, alterando os gostos, estabelecendo novos padrões estéticos que a Europa apressadamente copiaria.

Joana de Vasconcelos compreendeu bem a clara sobreposição da mulher Maria Antonieta, ao papel desempenhado pela mesma senhora enquanto Rainha de França. Na mulher se ensimesmou o ódio açulado à populaça, o ataque ao bom gosto, consciência da sua posição, beleza e presença central da princesa austríaca na França do ocaso do século XVIII. Se podemos arbitrariamente decidir que algumas obras que J.V. expõe em Versalhes parecem deslocadas no grandioso conjunto que é desde há muito o mais representativo monumento francês, outras há que em tudo se coadunam com o espaço e mais ainda, existe mesmo uma clara intencionalidade de invasão portuguesa do mesmo. Os belos leões numa renda que vista de longe "é" de porcelana, declaradamente apelando ao nosso património imperial asiático e que decerto teriam extasiado a sempre inovadora Rainha. Os colossais corações-lustre que nos remetem para as maravilhosas filigranas portuguesas - uma pena Maria Antonieta jamais ter vislumbrado um desses corações em ouro -, deverão embevecer a nossa gente que tem aquele país como terra de acolhimento. Se possuísse uma fábrica de cristais, estaria hoje mesmo a propor a Joana de Vasconcelos, uma edição de lustres coloridos que fariam furor nos mais exigentes mercados.

 

Longe vão os tempos em que Charles Bohmer, joalheiro da Corte de Versalhes, apresentou como vendedor ao embaixador português representante de D. Maria I, o famoso colar de diamantes que ditaria o injusto opróbrio de uma Maria Antonieta que firmemente o recusara em tempos de economias. Algumas das peças das Jóias da Coroa guardadas na Ajuda, fizeram a inveja e admiração dos nomes mais sonantes da Corte francesa, tendo mesmo a famosa caixa de rapé de D. José I, passeado entre os dedos de uma atónita Mme. de Pompadour. Era a época em que o ouro e os diamantes brasileiros prodigalizavam compras e encomendas em Paris e neste momento de tantas dificuldades, podemos considerar-nos felizes por possuirmos uma boa quantidade de riquezas sem par, enquanto na própria França, devastada por quedas de regimes, guerras, roubos e invasões, as peças - coches, baixelas, móveis, jóias - foram desaparecendo ao longo de mais de um século.

Estamos perante algo de novo e embora exista uma certa contestação quanto ao local escolhido para esta grande exposição, devemos atender à oportunidade da mesma, principalmente tratando-se de um país onde Portugal é, tal como em Espanha ou na Holanda, geralmente desprezado. Esta é uma realidade que umas tantas exposições podem fazer desabar e ainda temos bem presentes, os comentários dos incrédulos estrangeiros que em coortes de curiosos, há duas décadas visitaram O Triunfo do Barroco. Uma exposição pode liquidar velhos preconceitos ditados pela ignorância acerca de um Portugal que deu a Europa a conhecer ao mundo e mais ainda, enriqueceu-a com novidades até então desconhecidas. Pois bem, imaginemos então os portugueses dos arredores de Paris, esfusiantes pelo resultado de uma obra que decerto teria agradado às máximas personagens que habitaram Versalhes e que ainda hoje, mais de dois séculos decorridos, facilmente ofuscam exércitos de Pompidous, Chiracs, Mitterrands, Sarkozys ou duvidosos Hollandes: Luís XIV, Madame de Pompadour e Maria Antonieta, esses três tigres da moda, do bom gosto e da inovação no estilo de que a França deste século XXI, ostensivamente tira proveito. Se fosse apenas por isso, esta exposição já teria valido a pena. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:40


3 comentários

Sem imagem de perfil

De Luis Cerqueira a 21.06.2012 às 19:09

Gostei de passar por aqui e encontrar um bom texto. O Nuno parece compreender a arte.
Sem imagem de perfil

De Isabel Metello a 22.06.2012 às 02:29


Não é para dar graxa, que eu sou da Brigada anti- sabujo, mas o Nuno Castelo-Branco é um grande pintor, assim como a Senhora Sua Mãe- não os conheço pessoalmente, mas vi obras suas que fariam tb um furor no Palácio de Versailles, até porque são de Almas Africanas! :)
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 22.06.2012 às 08:21

Obrigado pela simpatia, Isabel, mas... pobre de mim! 

Comentar post







Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Links

Em destaque

  •  
  • Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas