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Mario Vargas Llosa, A Civilização do Espectáculo:

 

«A cultura estabeleceu sempre categorias sociais entre aqueles que a cultivavam, a enriqueciam com contributos diversos, a faziam progredir e aqueles que não se entendiam com ela, a desprezavam ou ignoravam, ou dela eram excluídos por razões sociais e económicas. Em todas as épocas históricas, até na nossa, numa sociedade havia pessoas cultas e incultas e, entre os dois extremos, pessoas mais ou menos cultas ou mais ou menos incultas e esta classificação tornava-se bastante clara para o mundo inteiro porque regia para todos um mesmo sistema de valores, critérios culturais e maneiras de pensar, julgar e comportar-se.

 

No nosso tempo tudo isso mudou. A noção de cultura alargou-se tanto que, ainda que ninguém se atreva a reconhecê-lo de maneira explícita, se esfumou. Tornou-se um fantasma inapreensível, multitudinário e simbólico. Porque já ninguém é culto se todos julgarem sê-lo ou se o conteúdo do que chamamos cultura for de tal forma adulterado que todos possam justificadamente julgar que o são.

 

O sinal mais remoto deste processo de empastelamento e confusão progressivos do que representa uma cultura foi dado pelos antropólogos, inspirados, com a melhor boa-fé do mundo, numa vontade de respeito e compreensão pelas sociedades primitivas que estudavam. Eles estabeleceram que cultura era o conjunto de crenças, conhecimentos, linguagens, costumes, vestuário, usos, sistemas de parentesco e, em resumo, tudo aquilo que um povo diz, faz, teme ou adora. Esta definição não se limitava a estabelecer um método para explorar a especificidade de um conglomerado humano em relação aos outros. Queria também, à partida, abjurar do etnocentrismo preconceituoso e racista de que o Ocidente nunca se cansou de se acusar. Porque uma coisa é acreditar que todas as culturas merecem consideração dado que em todas há contribuições positivas para a civilização humana, e outra, muito diferente, acreditar que todas elas, pelo simples facto de existirem, se equivalem. E esta última parte foi o que espantosamente acabou por acontecer devido a um preconceito monumental suscitado pelo desejo de abolir de uma vez para sempre todos os preconceitos em matéria de cultura.

 

A correcção política acabou por nos convencer de que é arrogante, dogmático, colonialista e até racista falar de culturas superiores e inferiores e até de culturas modernas e primitivas. Segundo esta arcangélica concepção, todas as culturas, a seu modo e na sua circunstância, são iguais, expressões equivalentes da maravilhosa diversidade humana.

 

Se etnólogos e antropólogos estabeleceram esta igualação horizontal das culturas, diluindo até à invisibilidade a acepção clássica do vocábulo, os sociólogos, pelo seu lado – ou, melhor dizendo, os sociólogos empenhados em fazer crítica literária -, levaram a cabo uma revolução semântica parecida, incorporando na ideia de cultura, como parte integral dela, a incultura, disfarçada com o nome de cultura popular, uma forma de cultura menos refinada, artificiosa e pretensiosa do que a outra, mas mais livre, genuína, crítica, representativa e audaz.

 

(…)

 

Bakhtin e os seus seguidores (conscientes ou inconscientes) fizeram algo mais radical: aboliram as fronteiras entre cultura e incultura e deram ao inculto uma dignidade relevante, assegurando que o que podia haver neste discriminado âmbito de imperícia, vulgaridade e descuido era compensado pela sua vitalidade, humorismo e pela maneira desempoeirada e autêntica com que representava as experiências humanas mais partilhadas.

 

Deste modo foram desaparecendo do nosso vocabulário, afugentados pelo medo de incorrer na incorrecção política, os limites que mantinham a cultura separada da incultura, os seres cultos dos incultos. Hoje já ninguém é inculto ou, melhor dizendo, somos todos cultos. Basta abrir um jornal ou uma revista para encontrar, nos artigos de comentaristas e articulistas, inúmeras referências à miríade de manifestações dessa cultura universal da qual todos somos possuidores, como por exemplo «a cultura da pedofilia», «a cultura da marijuana», «a cultura punk», «a cultura da estética nazi» e coisas do estilo. Agora somos todos cultos de alguma maneira, ainda que não tenhamos lido nunca um livro, nem visitado uma exposição de pintura, ouvido um concerto nem adquirido algumas noções básicas dos conhecimentos humanísticos, científicos e tecnológicos do mundo em que vivemos.»

 

Leitura complementar: O mito do individualismo extremo do nosso tempoA insustentável leveza da literatura do nosso tempoA banalização da políticaDa arte moderna

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publicado às 20:25


2 comentários

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De Miguel CB a 19.11.2012 às 17:18

Samuel
Comprei o livro após ler os seus posts e gostei. É, na verdade, um belo texto.
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De Samuel de Paiva Pires a 19.11.2012 às 20:27

Só é pena o acordês, mas enfim, ultrapassa-se. Vale bem a pena.

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