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As necessidades do Trivial Pursuit

por Estado Sentido, em 18.03.13


 

No passado Sábado, dia 16 de Março, na Faculdade de Direito de Lisboa, e durante uma pluviosa manhã, mais de 2000 cidadãos portugueses participaram na primeira prova do concurso externo de ingresso na carreira diplomática, a prova de Cultura Geral.

 

Esta primeira prova consistia num teste escrito em formato de escolha múltipla, que abrangeu variadíssimas temáticas, tais como: o ADN, a batalha de Alfarrobeira sob estranhos pontos de interesse, as acções familiares de Filipa de Vilhena, qual o planeta por onde passaríamos se viajássemos da Terra até Urano pelo caminho mais curto, o que é um amigo do alheio, o que significa ser uma pessoa prognata, o que foi o “estilo chão”, o que é um cefalópode, quem é que não tem ascendência portuguesa conhecida, quem realizou o “Pai Tirano”, qual é a raiz quadrada de 3.141, o que eram os Guelfos e, ainda, uma pergunta sobre Rousseau que envolvia averiguar um romance conhecido deste autor – sendo todas as opções de resposta algo obscuras a quem procuraria responder pelo ponto de vista relevante a este tipo de prova: o da filosofia política.

 

Tratemos objectivamente a situação: um concurso público para uma determinada carreira visa perfilar candidatos com potencial para a mesma através das suas diversas fases, e deve, por conseguinte, adequar todas as suas provas a esse objectivo. Esta prova de nada serviu a esse objectivo essencial. Aliás, como podemos ver por alguns dos exemplos, muitas foram as questões que ocuparam espaço que devia ter sido atribuído a questões bem mais relevantes ao perfil de um potencial diplomata.

 

Por exemplo, pesou a ausência de datas de tratados internacionais, sobre o que estes eram e, até, nomes dos mais relevantes à estruturação do sistema internacional como hoje o conhecemos. Bastariam umas curtas questões sobre dados históricos que são essenciais a provar que o cidadão em teste é de facto sequer adequado ao concurso a que se propõe, mas infelizmente estiveram largamente em falta.

 

Em termos de temáticas que edifiquem de facto a cultura de uma pessoa, e que são relevantes à definição do próprio conceito de cultura, sentiu-se a dor de um vácuo no que concerne a perguntas sobre o Renascimento, História da Fundação de Portugal, História do Estado, Geografia a sério (apenas duas questões do mais trivial possível), Etiqueta, grandes peças e impulsionadores na área da Música (nem os movimentos pré-modernos foram abordados) e o mesmo repete-se no mundo da Arte com as grandes escolas e vanguardas em absoluta falta, e, ainda, apenas constaram duas perguntas que procuravam de facto revelar o conhecimento sobre Literatura do candidato. Diga-se, ademais, que as que estavam presentes em nada testavam a cultura geral do candidato sobre Literatura Universal, a História da mesma e os grandes movimentos que a compuseram.

 

Em termos específicos a área de Relações Internacionais e Geopolítica foi largamente ignorada. Claro está, essa fase será tratada nos testes de conhecimento, mas de forma muito limitada dado o procedimento sobre esses testes e o facto deste pecar por não constituir um complemento mais desenvolto de algo prévio: nomeadamente um teste de cultura geral que testasse conhecimentos elementares sobre estas áreas, provavelmente as mais relevantes a um potencial diplomata.

 

Antiguidade Clássica, Judaísmo e Cristianismo, Império Carolíngio, Fundação de Portugal, a Guerra dos 100 anos e a Crise de 1383-85 e o estabelecimento da Aliança Luso-Britânica, a Ínclita Geração e os Descobrimentos, Conquista de Ceuta, o Renascimento, a Reforma e Contra-reforma, a Guerra dos 30 Anos, a Restauração e a política externa portuguesa, a luta pela hegemonia na Europa, a Paz de Vestefália e os Tratados de Osnabrück e Munster, o Tratado de Utrecht, a Guerra dos Sete Anos, Frederico II e a Prússia, o despertar da Rússia europeia, as Revoluções Inglesa, Americana e Francesa, o Iluminismo e Pombal, o Império Napoleónico, o Congresso de Viena e a Santa Aliança, 1830, 1848, a ascensão dos nacionalismos, a abolição da escravatura, a Guerra Franco-Alemã, Bismarck, Congresso de Berlim, a Restauração Meiji, a corrida para África e os ultimatos (Lisboa e Fachoda), a rivalidade Russo-Japonesa, a Belle Époque e Sarajevo, a I Guerra Mundial, os 14 pontos de Wilson e a auto-determinação, a Paz de Versalhes, a criação da SDN, a Revolução Soviética, a Conferência Naval de Washington, o crash bolsista de 1929 e a ascensão dos totalitarismos, o militarismo japonês, a Guerra Civil de Espanha (1936-1939), a conquista italiana da Abissínia (1936), o Pacto de Aço (eixo Roma-Berlim), a crise dos Sudetas, o pacto Germano-Soviético, a Conferência do Atlântico, a era atómica, a criação da ONU, da NATO e do Pacto de Varsóvia, a Guerra Fria, o advento da China maoísta, o conflito Coreano, a Conferência de Bandung, os Tratados de Roma, a crise dos mísseis de Cuba, a descolonização, as guerras israelo-arábes, os conflitos no sudeste asiático e Kissinger, o choque petrolífero, os Tratados SALT, a Revolução de 1974 e o novo enquadramento internacional de Portugal, a Conferência de Helsínquia, a Revolução Iraniana, a era Reagan e Thatcher, a invasão do Afeganistão, o Solidariedade e o desmoronar do bloco soviético, Glasnost e Perestroika, a Queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, as Guerras do Golfo, Fukuyama e O Fim da História e Huntington e o Choque de Civilizações, os PALOP, a CPLP e a independência de Timor, a ascensão do islamismo, o 11 de Setembro, o declínio do Ocidente e a ascensão dos BRIC e a crise financeira, entre outros elementos da História da Humanidade e da actualidade, foram esquecidos neste teste. Ao invés, tivemos questões como aquelas com que começámos este post, entre outras mais bizarras e/ou mais rebuscadas e obscuras.

 

Desta forma, aqui graciosamente deixamos algumas sugestões para num futuro exame procederem a uma liminar selecção de candidatos com vocação e perfil para servir a diplomacia nacional.

 

Julgamos que o teste de Sábado passado não se coaduna com o propósito de selecção num dos mais importantes concursos públicos para o Estado Português, a sua projecção, a sua continuidade e a sua influência, sendo esta, contudo, uma situação facilmente ultrapassável. Estes considerandos respeitam tão-somente às matérias a avaliar, embora não seja despiciendo referir as dúvidas levantadas pela generalidade dos examinandos no concernente à perfeita identificação dos mesmos e da autoria dos correspondentes testes entregues.

 

João Teixeira de Freitas

Nuno Castelo-Branco

Samuel de Paiva Pires

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publicado às 00:45


32 comentários

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De João Quaresma a 18.03.2013 às 01:41

E assim é que acabam a nomear embaixadores para a República do Kuweit...
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De JJHN a 18.03.2013 às 03:00

Gostaria de saber se o Paulo Portas sabe responder a alguma das perguntas que saíram no dito exame...
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De Miriam a 18.03.2013 às 12:08

Duvido seriamente
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De Cláudio Carvalho a 18.03.2013 às 06:02


Samuel e demais, bem-vindos ao fabuloso mundo dos concursos em Portugal. Dou um exemplo de um procedimento concursal para um cargo de técnico superior numa junta de freguesia:


Operações de adição não é uma coisa que assista ao júri certamente: https://twitter.com/cdsilvacarvalho/status/311175330343825408/photo/1


Aqui, no mesmo concurso, a pessoa que se pretendia que ganhasse o concurso, ultrapassou a escala de 10 na componente da entrevista, tendo 12 valores em 10 possíveis (devia ser muito boa a fulana).
https://twitter.com/cdsilvacarvalho/status/311176040770846720/photo/1


Numa prova escrita de um outro concurso em que participei em mais de quarenta e tal candidatos, fui um dos sete que teve nota positiva, mesmo com um exame com bibliografia recomendada inacessível e de utilidade nula. Fiquei em 5º e 3 dos 4 que ficaram à minha frente já pertenciam à referida instituição. Coincidências ou são certamente todos muito bons naquela instituição pública e os demais candidatos todos uns incapazes. 
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De Nuno Torres a 02.05.2013 às 08:43

Por estas e por outras em que para ser FPúblico é o Factor "C"urricular, é que custa ter pena destes cortes na FP e aliás deveriam ser muito maiores.

Creio que o Concurso Diplomático no Brasil não tem Entrevista.
É na Entrevista que se decide tudo: os "C"onhecidos levam nota máxima e perguntas fáceis; os des"C"onhecidos passam pela Inquisição e são queimados.
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De Miriam a 18.03.2013 às 12:07

Eu estive lá e realmente concordo com vocês. Foi a primeira vez que me candidatei e sempre pensei que o que interessava para o MNE eram conhecimentos de RI, TRI, Geopolítica, entre outras e não quem realizou o "pai tirano", que agora descobri que errei e o que é um cefalopode, que por acaso até acertei.
Tenho de confessar que em algumas das questões foi mesmo a pontaria que ditou a resposta, e disso tenho vergonha.
Sei que é importante eliminar candidatos, que havia imensa gente a concorrer mas para a proxima tenham em conta o que verdadeiramente interessa para os futuros adidos ou embaixadores de Portugal.
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De Anónimo a 18.03.2013 às 17:17

Partilho a sua opinião, foi a 1º vez que concorri, e confesso que fiquei incrédula com a prova.  A Prova oscilou entre perguntas a roçar o ridículo e perguntas de dificuldade extrema. Sou licenciada em Relações Internacionais, sinto-me ultrajada com o teor das Perguntas, lamento profundamente que tenha sido esse o caminho escolhido para " escolher" os futuros diplomatas. Não passarei à fase seguinte, pois não me parece que tenha respondido acertadamente a pelo menos 63 perguntas.
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De ze luis a 18.03.2013 às 19:13


Devem ter em conta que isto é só para licenciados, ninguém abaixo disso estará apto a responder a tanta Cultural Geral... Foi a conclusão a que cheguei, com o 12º ano tirado em 1981, ao ver o cardápio de testes (Português, Inglês, Relações Internacionais) de resposta múltipla tão ambígua quanto os textos apresentados. Acredito que tiraria o mínimo de 140 pontos (em 200), mas à partida estou logo excluído. No caso, já agora, são os testes feitos a 14/3/2009 que encontrei quando procurava outras coisas no âmbito do MNE e que se podem extrair do site incluindo os de anos anteriores. Mas a verdade é que não tem nada sobre Cultura Geral e alguns testes até são exigentes em termos de conhecimentos.

Conclusão, o Paulo Portas abandalhou a noção de mérito e sabedor para passar, tal como o CDS deixou de ser o partido dos contribuintes.
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De PG a 18.03.2013 às 21:36

Partilho do sentimento generalizado de descrença e estupefacção em relação ao conteúdo do exame de cultura geral.

É impressionante a cobardia de quem organizou este concurso ao se querer livrar desta maneira dos candidatos. Claramente que premeiam a aleatoriedade ao invés do mérito. Aposto que só passam para a fase seguinte 2 grupos de candidatos:

1 - os que por mero acaso, tiveram sorte ao acertar no número necessário de respostas (63);
2 - os amiguinhos dos funcionários do MNE que já tinham tido dicas com antecedência.

Hesito sequer em comentar esta situação com amigos estrangeiros (que trabalham no MNE dos respectivos países), uma vez que considero vergonhoso que para a profissão de adido seja exigido passar num exame que testa não o conhecimento, as qualificações e a vocação dos candidatos para a profissão, mas sim a arbitrariedade e o factor sorte.

No que me compete, na próxima abertura de concurso, desencorajarei todos aqueles que quiserem participar, desde que se mantenha este modelo injusto e absurdo da prova de cultura geral.
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De Anónimo a 20.03.2013 às 04:34

Concordo inteiramente com este comentário, que subscrevo na íntegra.
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De Carlos Velasco a 18.03.2013 às 23:45

Que mais se pode esperar? Do ponto de vista de quem manda por cá, faz todo sentido esse tipo de exames, afinal, quanto mais ignorantes e receosos de uma vida fora do guarda-chuva estatal, mais facilmente os candidatos se adaptarão à função de promotores dos interesses que movem a união europeia e a ONU. Podia ser diferente? Sim, num outro regime... 
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De Rui a 19.03.2013 às 10:01

De facto fiquei surpreso com as temáticas abordadas no exame e pela pouca relevância dada a questões de protocolo e missão da carreira diplomática, pela maior incidência em detalhes da história portuguesa do que em tratados e história diplomática propriamente dita. Mesmo as questões relevantes de arte e cultura eram de caracter mais universalista do que nacional.
Talvez procurem diplomatas mais generalistas do que especializados...
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De João Portugal Vieira a 19.03.2013 às 12:34

No último concurso em que participei fiz a prova de português em 25 minutos, e a de inglês em 20. O átrio estava vazio quando saí, assim deu para falar com os diplomatas seniores que lá estavam a inspecionar as provas, que pediram a minha opinião sobre o concurso e os testes realizados. Fui cândido ao ponto de afirmar que aquilo era mesmo demasiado fácil, e que procurar perceber melhor o grau de cultura geral dos candidatos e das candidatas seria uma evolução positiva. Afinal o novo teste de Cultura Geral foi algo a roçar o bizarro e o bizantino, espero que o MNE reflicta bem antes de repetir esta gracinha.

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