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Memórias de um burro I

por Felipe de Araujo Ribeiro, em 17.05.13

 

 

Desço para cima o Nilo. Deixo atrás Juba-a-cidade, capital que me fascina. Parto rumo à selva que me seduz. Desço para cima o Nilo, instalado numa barca velha, bem estimada, por entre pântanos governados por senhores crocodilos, doutores hipopótamos. Desço para cima o Nilo e encontro soldados de chinelos cor-de-rosa e kalashnikov ao ombro que vagueiam pelos inúmeros postos de controlo da SPLA. Soldados-ex-rebeldes que me interceptam a cada chegada e me recebem com a resplandecente graciosidade daqueles doutores, a tenaz voracidade daqueles senhores. Desço para cima o Nilo, bem para além da civilização, pouco aquém, ainda, do Sudão. E chego ao meu destino.

 

Malakal é a terra dos burros. Dos burros e da lama. E das carroças puxadas pelos burros, puxados pela lama. Atravesso a pé a cidade, num passo ligeiro, ligeiro coxeio, que adquiri há uns dias resultado de um patético trambolhão. Passo por um miúdo miúdo vestido de trapos de trapos que me aponta o dedo. Dispara. Fixo-lhe os olhos, sangue a escorrer pelo buraco que me cavou no peito aquela bala imaginária. Surpreende-o o meu olhar-resposta e por reflexo dá num quase-salto um passo assustado para trás, deixando cair a máscara de soldado o menino. Ao levantar o braço eu estremece ele, mas mantém firme a perna ancorada na terra. Semi-cerra os olhos como quem se prepara para levar uma bofetada. Ao levantar o braço eu, passo a mão pela cabeça do miúdo miúdo, vestido de trapos de trapos, e sigo caminho num passo ligeiro, ligeiro coxeio. Não resisto o sorriso ao imaginar as hipotéticas reacções perante uma cena semelhante, mas passada numa Alemanha qualquer: um ariano miúdo miúdo vestido de trapos de trapos, disparando sobre um preto, mortífero o seu dedo letal.

 

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publicado às 22:21


6 comentários

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De Duarte Meira a 17.05.2013 às 23:04


Caro Felipe Ribeiro:

Obrigado pela magnífica fotografia e pelo texto: é um arejo de vida natural que nos traz a esta cada vez mais virtual em que a humanidade se nos some nesta parte do mundo.

Trocávamos esses burros pelos que ornejam por cá, como ainda hoje na fétida cloaca parlamentar.

Continuação de boa viagem, com passo direito, ligeiro, restabelecido e melhorado do trambolhão.
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De Felipe de Araujo Ribeiro a 17.05.2013 às 23:52

Obrigado Duarte, continuo a coxear ligeiramente mas já estou quase em forma :)
Os burros tambem muito agradeciam, coitadinhos, tao maltratados que sao!
Um abraço
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De Cristina Ribeiro a 17.05.2013 às 23:09

Gostei de ler Felipe. Ficou uma invejazinha, que a boa escrita aligeirou :)
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De Felipe de Araujo Ribeiro a 18.05.2013 às 00:02

:) Obrigado Cristina!
É uma viagem fantástica, mesmo que exija prescindir-se de alguns confortos...
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De Pedro Quartin Graça a 18.05.2013 às 10:04

Grande texto. excelente reportagem! Abraço
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De Felipe de Araujo Ribeiro a 20.05.2013 às 06:36

Obrigado Pedro! Um abraço

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