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"Darfur sem Fim"

por Felipe de Araujo Ribeiro, em 16.08.13

Do Darfur, deixo um pequeno relato do Pe. Feliz da Costa Martins, Missionário Comboniano em Nyala, que me chegou através do blogue Jirenna, do também Missionário Comboniano e amigo em Juba Pe. José Vieira.

 

 

     Que se ouçam disparos aqui e além, de noite ou de dia, intermitentes e passageiros como muitas outras vezes os temos ouvido é banal e comum nestas terras. Porém, naquela noite de quarta para quinta-feira o tiroteio foi demasiado longo e não se esperava e muito menos se desejava que se transformasse numa tão assanhada batalha de vários dias. A parte central da cidade e o bairro de Malaja sofreram maiormente. Mas quase não houve lugar em Nyala que tenha escapado à violência militar naquela semana, de forma muito especial nos dias 4 e 5 de Julho de 2013.

 

     Já tinha chegado a maioria dos alunos do curso de língua inglesa que funciona nas instalações da paróquia católica. Não houve tempo para sugestões nem anúncios mas também não foi necessário, pois num abrir e fechar de olhos o recinto ficou literalmente vazio. A mesma coisa aconteceu nas outras escolas da cidade, estabelecimentos ou instituições onde diariamente se juntam pessoas em grande número. As lojas, como também os muitíssimos e grandes mercados ao ar livre, seguiram o mesmo rumo: salve-se quem puder. Os cidadãos retiraram-se para dentro de casa, dando campo livre aos dois grupos rivais que tentavam eliminar-se mutualmente como crianças no jogo do esconde-esconde. Com a diferença fatal de que este era um jogo bélico verdadeiro em que as armas eram de fogo real. Além disso, acrescente-se que um grande número de pessoas também não foi poupado à despiedada crueldade dos soldados que destruiram e fizeram pilhagem das suas lojas e armazéns a seu bel-prazer.

 

     Para nós os três missionários da comunidade comboniana a situação não foi diferente da do comum cidadão em Nyala. Optámos por não arriscar sair de casa, à espera que passasse a tormenta do tiroteio que se ouvia ora de mais longe, ora de mais perto ou mesmo a poucos metros de distância da missão, por vezes distinguindo-se também o som de armas pesadas.

 

     Dois dias depois, quando o perigo pareceu ter diminuido consideravelmente, saí à rua, muito cautelosamente e com algum temor. Havia pouca gente e o mercado quase não tinha vida. Tinha apenas acabado de pagar o quilo das lentilhas à vendedeira quando esta se levantou de um salto e nos encontrámos com toda a outra gente correndo na direcção oposta donde viera o som da rajada de metralhadora.

 

     Passados que foram cinco dias o som ameaçador da guerra tinha praticamente deixado de se ouvir. No entanto, o recolher obrigatório continuava em vigor desde as sete e meia da tarde até às sete horas da manhã. Tive ocasião de observar alguns dos sinais devastadores e profundamente tristes do pós-combate nas ruas de Nyala.  Paredes baleadas, vidraças estilhaçadas, mercados arrasados. Ambos os hospitais, o civil e o militar, ainda continuam a cuidar dos feridos mais graves, entre eles um grande número de civis inocentes. Ouve-se o lamento das mais de trinta famílias enlutadas. Já sem lágrimas para chorar, grita enraivecida a mãe duma criança atingida por fogo cruzado: “Não foi suficiente a miserável situação das doenças, da pobreza e da fome em que nos deixaram os janjauides e o seu ‘patrão’ de Cartum para, além disso, termos também agora de chorar os nossos mortos caídos em mais uma batalha sem sentido!”

 

     O combate foi entre o exército das fronteiras – cujos membros foram sempre conhecidos por janjauides – e o exército da segurança nacional. Duas instituições governamentais sudanesas. O líder máximo dos janjauides, Ali Kusheib, um dos quatro criminais sudaneses indigitados pelo Concelho de Segurança da ONU foi atingido gravemente, permanecendo até hoje entre a vida e a morte.

 

     No segundo dia do referido combate o vice-presidente do Sudão, Ali Osman Taha, chegou de Cartum a Nyala. Depois de várias horas entre discursos e reuniões de mesa redonda não conseguira produzir o desejado cessar-fogo. O governo sudanês continua a não poder ou a não querer (?) solucionar o colossal problema da região do Darfur que muita tinta e muito sangue fez correr. Quando se verá a solução deste velho conflito? Quem poderá trazer a paz? No profundo do meu ser ouço ecos da simplicidade e inocência de uma criança que, segura de si mesma, responde: Deus, porque Deus tudo pode. Porém, no diálogo com a mesma criança ouço também o próprio Deus que, carinhosamente, acrescenta: eu dei esse poder aos homens mas eles não têm tido vontade de o utilizar devidamente.

 

     Engajada seriamente no diálogo com o Todo-poderoso, a criança comprometeu-se rezar para que os homens venham a ser pessoas de boa vontade e queiram trazer a paz ao Darfur. Deus apreciou a solidariedade humana daquele pequeno coração de ouro. Mas, por fim, despediu a criança com estas palavras: o teu modo de rezar faz-me muito prazer. Todavia, deixa que te ajude a completar o que falta à tua oração. E o pequeno coração de ouro escutou as palavras de Deus que disse: vai por toda a terra e fala aos responsáveis e políticos de todo o mundo. Ergue a tua voz e diz-lhes que me reservem um lugar nas suas conferências e reuniões de mesa redonda. Então sim, a paz irá chegar!

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publicado às 08:20







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