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O anti-barrosismo da moda

por Nuno Castelo-Branco, em 15.07.08

 

 

Na sua habitual cegueira  e hipocrisia deslavada, existe um certo sector da auto-proclamada opinião comentadeira dos assuntos domésticos, que se assanha à simples menção da pessoa do actual Presidente da Comissão Europeia. Não é novidade, pois, como antigo chefe da oposição ao governo Guterres, criticava-se-lhe o penteado, o nariz, o histrionismo vocal ou a cor do fato. Barroso sempre teve as costas largas e não correspondendo minimamente ao conceito esquerdista do beautiful people (?) à imagem de um Zapatero pecava sobretudo, pelo seu passado de militância maoísta. Foi, é e será o argumento basilar para um apressado e oportunista julgamento de carácter, particularmente por parte daqueles que tendo fainado nas águas residuais do sovietismo, nele viram um dos protagonistas do movimento popular que impediu nas ruas um "golpe de Lisboa", à imagem daqueles ocorridos em Praga, Sófia ou Bucareste. É o pecado original de Barroso. Não se trata do decretar de um anátema contra um transfuga do estalinismo, mas sim e principalmente, por ser Durão Barroso, um declarado e pétreo adversário das fantasias hegemonistas do decrépito e quislinguiano PC luso. 

 

Não é segredo para ninguém, a desproporcionada força de certos sectores político-ideológicos na imprensa, televisão e centros criadores de "opinião". É a chusma herdada do contar de piolhos das farfalhudas barbaças dos meninos de 68, bem instalados nos cadeirões de institutos, bibliotecas e universidades. Entram-nos pela casa logo pela manhã, comentando a imprensa de que são os principais escribas. Participam e pontificam em fóruns da tv pública, são omnipresentes na apresentação de obras subsidiadas, são nomeados para esta ou aquela sinecura de prestígio intelectual, a expensas do contribuinte, claro está. É uma praga de aracnídeos que teceu uma inextricável teia de influências, tráfico de compadrios, nomeações de ex, presentes e futuros cônjuges para o tachismo colocado à disposição daquela meia dúzia de centos. 

 

Parece que Barroso "traiu". Os argumentos da tese da alegada traição, alicerçam-se na "falta de coragem" para as indesejadas reformas, na "fotografia dos Açores" e finalmente, na "fuga" para Bruxelas. Quanto a esta dita fotografia dos Açores, todos sabemos que D.B. se limitou a fazer aquilo que qualquer chefe de governo português teria que fazer, pois os interesses vitais de Portugal - a manifestação da solidez das nossas alianças, para o pior e para o melhor -  tinham de se manifestar, estando presente na Cimeira, uma Espanha que se intrometia num ambiente geoestratégico que tradicionalmente rejeitava. Era essa a novidade e o senhor Aznar decerto pretendeu a completa secundarização de Portugal como interlocutor privilegiado dos EUA nesta zona do mundo. Não conseguiu e a posterior e apressada retirada  espanhola da frente de combate, confirmou a constante invariável. Assim, Barroso ficou bem na foto e até creio ter sido nomeado para a presidência da Comissão por isso mesmo. A Europa não pode dar-se ao luxo de prescindir da protecção militar americana e apesar das habituais excentricidades francesas e dos silêncios germânicos, os pequenos Estados sabem bem onde se encontra o ponto forte de apoio em caso de necessidade. Isto transtorna os sectores extremistas e não foi por mero acaso que no Parlamento Europeu, estes usaram o "argumento Açores", como a principal arma de ataque ao candidato português.

 

Esta rasteira catilinária não resiste ao mais leve sopro de qualquer eflúvio gasoso, pois os habituais denunciantes do crime, trombeteavam dias antes da nomeação para a UE, alguns nomes bem conhecidos e mais grados ao "parece bem" da Situação. Quem não se lembra do cantochão entoado quando da hipótese de presidencialização de Mário Soares no Parlamento Europeu, vencido afinal, pela sra. Nicole Fontaine, a quem, aliás, o ex e omnipresente chefe do Estado alegadamente apodou de doméstica? Alguém porventura já se esqueceu na logorreia escutada quando dentro de portas se considerava o sr. Guterres como o genial chefe da Europa, para logo segundos depois ser substituído pelo inigualável Vitorino? Quando os fazedores de opinião pronunciavam os nomes grados à sua opção partidária-profissional, proferiam então, os mais entusiásticos encómios, num tonitruante ribombar de gongorismos  exaltadores das excelências putativamente candidatas. Homem de grande dimensão moral, competência insofismável, homem generoso, aberto ao progresso, fresco de ideias, desanuviado e descomprometido com interesses..., enfim, os habituais decalques já vistos e revistos na Ilustração Portuguesa de há cem anos, onde se exaltavam as virtudes cívicas de gente do calibre de um Afonso Costa ou de um Machado qualquer.  O conclave dos decisores estatais europeus, faria ruir estas promessas de mais viagens, comissões e cargos bem remunerados, elegendo o "pérfido porteiro dos Açores", o "indefectível da Inglaterra", o incapaz que fugiu à grande obra de desbravar os caminhos condutores a um progressista El Dorado que não chega. Restou-lhes a consolação de ver o engenheiro a palestrar acerca dos sacos de farinha da US Aid no Darfur e pelo menos, obtiveram o prémio de consolação de terem o sr. Sampaio emulando a rainha D. Amélia, tratando do problema da tuberculose que como se sabe, sempre foi a grande preocupação da sua presidência de influência. Ocupado o atelier da grande soberana nas Necessidades ao módico preço de 750 mil Euros de restauro (imprensa dixit), a república pode respirar, pois tem o prémio linha do bingo do prebendismo internacional. Habituem-se...

 

Nunca compreendi a lógica chã do favoritismo partidista, porque o interesse nacional é na maioria dos países, o argumento chave para a tomada ou aceitação de grandes decisões. Neste regime não é assim, pois o que conta  é uma hipotética, quimérica e longínqua afinidade na irmandade, seja ela qual for. A síndrome da Casa dos Vinte e Quatro, tem ditado a vida do nosso país ao longo de cinco séculos, com as consequências que são conhecidas por todos.  Se a escolha tivesse recaído num Solana ou num qualquer Gonzalez, Fabius ou Zapatero, os fazedores de opinião entoariam cânticos de louvor ao novel presidente da Comissão Europeia. Barroso é-lhes insuportável, pois além de representar  a tradicional e imutável estratégia política portuguesa nas relações internacionais - o atlantismo, condição sine qua non da independência nacional -, é a consagração daquele que nos idos anos de 74 e 75, dizia de Cunhal, aquilo que quase todos pensavam, embora  temessem dizer. É este o verdadeiro crime de Durão Barroso.

 

Não sou um pessimista e tenho uma fé inabalável na preservação de Portugal como entidade cultural e política. Não é uma crise de transportes, um governo em estertor pré-eleitoral ou um tiroteio na Buraca leste que liquidará uma obra de nove séculos. Portugal cumpriu brilhantemente o seu destino e possui um património histórico apenas comparável à Inglaterra, França, Rússia ou Espanha. É a pura e incómoda verdade para alguns que tudo criticam, tudo iconoclasticamente liquidam para satisfazer a libido. Criticam, arrasam e envenenam, sem nada de consistente propor. O país não morrerá, disso tenho a certeza absoluta.

 

Barroso é uma figura chave e central na prossecução da defesa daquilo que entendemos ser o interesse nacional. Esta oportunidade não pode ser desprezada ou contrariada, pois os próximos anos serão difíceis e tendo um português no lugar cimeiro de uma "união" que se vai paulatinamente desfazendo, urge garantir o futuro. Não conheço o actual presidente da Comissão, nem sequer jamais votei no PSD. O partido de Durão Barroso, as suas amizades políticas, não me interessam, são apenas instrumentais. De uma coisa tenho a certeza: do seu patriotismo. Isso basta.

 

 

 

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publicado às 10:46







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