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O Lebensraum russo

por Nuno Castelo-Branco, em 13.08.08

A última semana trouxe-nos com histriónico som de trombetas de guerra, o regresso da velha Rússia de sempre. Mal habituados a duas décadas de aparente declínio do colosso das estepes, ei-lo que ressurge mais decidido e poderoso que nunca, fazendo valer os seus direitos ditados por uma já longa história de grande e incontestada potência mundial. 

 

A caminhada do Homo Sapiens na sua vertente de tribo politicamente organizada, tem-se caracterizado pela demarcação de territórios considerados como reserva de caça e de segurança para o seu círculo mais íntimo, seja ele a família, ou de forma mais lata, a tribo. O mesmo aconteceu com essas tribos alcandroadas à condição de nações-reino ou de impérios. Pela nossa reserva de caça ou esfera de interesses bombardeámos as cidades costeiras do Malabar, enviámos os Bandeirantes  rasgar pela praxis o Tratado de Tordesilhas e tivemos, em 1890, de sofrer o evitável Ultimatum. Ao longo da sua existência como potência imperial, Portugal exerceu o seu alegado e auto-assumido direito de prevalência sobre territórios, povos ou mares e isto, inevitavelmente, pelo sibilar das granadas disparadas pelas colubrinas e canhões dos navios de linha. 

 

Desde Pedro o Grande, a Rússia vem sacudindo o marasmo da sua interioridade e provou à Europa as suas habilitações como Estado com poder, influência e desejo de intervir e conquistar o seu direito a um lugar ao sol entre os maiores. Alexandre I esmagou Bonaparte; o seu irmão Nicolau I banalizou a derrota na Crimeia e Alexandre II e III, expulsaram os turcos dos Balcãs, conquistaram os confins da Ásia, ameaçaram a hegemonia britânica nas remotas fronteiras do norte da Índia do Raj e estabeleceram firmemente a Rússia no Pacífico.  Mesmo derrotado - pela impossibilidade técnica de uma vitória inatingível pela distãncia - na guerra de 1905, Nicolau II salvou a França de infalível colapso no Marne (1914) e uma vez mais, em 1916  - na ofensiva Brussilov, o canto do cisne das vitórias czaristas - , impediu a conclusão da I Guerra Mundial com um total e inequívoco triunfo austro-alemão. O rolo compressor russo, mal vestido, calçado e deficientemente armado, foi por si só, capaz de obstar à vitória dos dois kaisers, oferecendo-a paradoxalmente, aos principais inimigos do seu sistema de organização social do Estado, ou sejam, a França republicana e as plutocracias democráticas-ocidentais. 

 

Eterna adversária dos desígnios expansionistas dos otomanos, os russos foram durante séculos, um dos principais obstáculos à imparável jihad da Sublime Porta, podendo o seu tremendo esforço de contenção, comparar-se à resistência austríaca que logrou - com o auxílio precioso de Jan Sobieski, o Grande -, impedir a invasão da Europa central pelos janízaros do Sultão.

 

O Congresso de Viena consagrou o estabelecimento da zona de influência russa, que se manteve durante mais de um século desde a Finlândia ex-sueca, à Bessarábia que se subtraiu à soberania de Istambul. No Cáucaso desapareceu o reino georgiano dos Bagration que foi integrado no domínio dos Romanov-Anhalt-Zerbst. Já a alemã Catarina II estendera as fronteiras ao coração da Polónia e às margens do Mar Negro, desenhando a ocidente, aquelas que seriam as fronteiras russas  que conhecemos - com algumas oscilações - até 1990-91.  A construção do transiberiano diluiu o poder local das tribos e de vagos emiratos ou clãs herdeiros das arcaicas hordas que no seu tempo aterrorizaram a Europa. O comunismo seguiu a tradição e esquecendo os heróis das matanças de Ekaterinburgo e dos kulaks, apelou em 1941-43 à Santa Mãe Rússia e a todos os starets e popes do hagiógrafo ortodoxo. A cruzada vermelha de Estaline chegou a Berlim, devastou a Polónia, Roménia, Hungria e Checoslováquia. Alargou a esfera de interesses de uma Rússia habilidosamente camuflada de União soviética, sob o diáfano manto do "internacionalismo proletário", sofrível disfarce para a realidade da instalação de feudos de tal forma submissos que deles só encontramos paralelo na Idade Média. 

 

Quando da partilha da Reich, Roosevelt não fazia a mais ténue ideia acerca da localização dos territórios da Alemanha oriental, aquiescendo com o seu inimitável sorriso, com a expulsão de milhões dos seus lares ancestrais. Em nome do momentâneo interesse comum, fez tábua rasa daquilo que os europeus sempre consideraram como inevitável princípio da harmonia entre os "grandes", ou seja, a existência de uma zona de segurança que qualquer país  do velho continente - consistente pela história e perenidade do seu Estado e fronteiras - jamais deixou de reivindicar. A França tem a sua zona de reserva alemã na Alsácia-Lorena, assim como a Itália a imita no Tirol do Sul. Os espanhóis não prescindem das suas aquisições do século XV, nem a Inglaterra abre mão da Escócia ou da Irlanda do Norte. É a realidade tacitamente reconhecida e habitualmente costumeira. É a normalidade.

 

Colossal massa continental com fusos horários de igual dimensão imperial, a Rússia possui fronteiras vulneráveis e hoje, mais que nunca, ameaçadas pelos mesmos inimigos do Ocidente. Contando com a fidelidade das comunidades coloniais instaladas na Ásia Central, os russos fazem exercer poderosamente a sua influência e assim continuarão a impôr uma prática já secular.  As ilusórias veleidades de infinito alargamento da NATO, consistem num evidente erro, apenas possível pela inconsistência das sucessivas administrações americanas (*) que subjugadas pelos interesses das grandes companhias que ditam os vencedores dos quadrienais escrutínios eleitorais, procuram competir dentro da tradicionalmente considerada "coutada russa", ou melhor dizendo, zona de influência de Moscovo. Podemos mais propriamente considerá-las como zona de segurança, dado o instável e volátil processo de consolidação das novas realidades nacionais decorrentes da implosão do império soviético. A Rússia vê-se hoje ameaçada pelos ímpetos islamitas no seu ventre-mole da Ásia Central e pelos apetites económicos dos novos e muitas vezes desleais parceiros euro-americanos. No entanto, tarde acabaremos por reconhecer que a os russos são nossos aliados de interesses e principalmente, de destino. É este o dilema que se nos coloca de forma clara: ou reconhecemos a importante missão russa naquela área extra-europeia, ou colaboramos de forma suicida no regresso de uma indesejável Guerra Fria, no preciso momento em que os russos querem "viver à europeia". Esta grande nação  que gostosamente veste as nossas marcas e lota as nossas estâncias turísticas, revê-se não em qualquer khan, emir ou mandarim, mas sim no legado de herdeira do Império Romano do Oriente, considerando-se como parte de uma grande Europa que começa em Lisboa e termina no Estreito de Bering.

 

Em 1975, perante um aparvalhado dr. Cunhal, Brezhnev declarou a esse sátrapa pretendente a  Honnecker ibérico, que Portugal ..."pertence à NATO e assim deverá continuar a ser"... Uma simples frase que pesou tanto, como a derrota da aventura terceiro-mundista dos paraquedistas vermelhos do 25 de Novembro. Os russos conhecem bem a nossa condição de espaço reservado aos interesses da potência atlântica que são os EUA. Podemos hoje  considerar a Geórgia, como uma espécie de "Portugal do Cáucaso". É disso mesmo que se trata. É a realpolitik à qual nos devemos submeter. Questionemos-nos  acerca daquilo que Metternich, ou até, D. João II teriam para nos dizer e ensinar. Sabiam mais de política internacional que os senhores Bush ou Saakashvili. Disso não me resta qualquer dúvida.

 

                                                                           ***

 

Putin aproveitou maravilhosamente a excelente oportunidade oferecida pela abstrusa posição euro-americana relativa ao Kosovo. Os russos podem hoje utilizar exactamente os mesmos argumentos esgrimidos pelos ocidentais quanto ao direito de auto-determinação, relíquia do soterrado Tratado de Versalhes/14 Pontos de Wilson. Não vale a pena sacrificarmos a tranquilidade de centos de milhões, por causa de uma qualquer República Autónoma da Kretínia-Subcarpática, ou de um hipotético ex-Grão Ducado de Shittberg. 

 

*Apesar de todas as iniquidades cometidas contra Portugal (1941-74), continuo pró-americano. Não há alternativa.

 

 

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publicado às 18:27


15 comentários

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De Samuel de Paiva Pires a 13.08.2008 às 21:59

"Questionemos-nos acerca daquilo que Metternich, ou até, D. João II teriam para nos dizer e ensinar. Sabiam mais de política internacional que os senhores Bush ou Saakashvili. Disso não me resta qualquer dúvida."

Também não tenho qualquer dúvida Nuno, o mundo tem vindo a ser deixado aos bichos, os estados cada vez mais se deixam governar por cowboys...
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De João Quaresma a 13.08.2008 às 23:08

De acordo. Mas os russos também estão a fazer uma limpeza étnica. Queimar cidades e - a acreditar nos relatos - massacrar a população não é exactamente 'the European way'. Os russos são uns rufias, que não concebem outra situação satisfactória que não o domínio dos outros. E vivem num nível civilizacional em que o poder se afirma pela força bruta.

Tivémos o precedente do Kosovo, agora o da Geórgia (e não da Ossétia e da Abkázia, que isso são detalhes): agora toda a gente percebeu que a força bruta e o facto consumado continuam a ser uma forma válida de resolver os seus problemas. Resta saber quem, a seguir, vai querer seguir a mesma via.

E é bem possível que os russos cortem o gás natural à Ucrânia este Inverno se a NATO não recuar no seu alargamento.

NATO humilhada, UE uma vez mais reduzida ao patético, EUA a quererem desforra, mais tarde ou mais cêdo. Isto está a correr bem.
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De isabel david a 13.08.2008 às 23:51

o nível civilizacional dos russos é só este: Stravinsky, Gogol, Pasternak, Rimsky-Korsakov, Rachmaninov, Malevitch, Chagall, Tolstoi, Tchekhov, Dostoievsky, Tchaikovsky, etc, etc, etc... Não fale do que não sabe nem seja preconceituoso!
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De Paulo Soska Oliveira a 14.08.2008 às 08:38

E 'mai nada.

Volto a afirmar: Kosovo sempre foi Sérvia. Ossétia foi praticamrnte sempre Rússia.

E agora, senhores da charada europeia?
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De Zé da Burra o Alentejano a 14.08.2008 às 14:42

A COMUNIDADE INTERNACIONAL DEVERIA RECLAMAR A MESMA SOLUÇÃO PARA OSSÉTIA DO SUL E ABECÁSIA QUE RECLAMOU PARA O KOZOVO: AUTO-DETERMINAÇÃO, DE OUTRA FORMA SÓ FICA CONFIRMADA A HIPOCRISIA QUE REINA NO MUNDO E A VERDADE É QUE AS PESSOAS NÃO VÊEM OS MESMOS PROBLEMAS SEMPRE DA MESMA MANEIRA, MAS APENAS CONFORME OS SEUS INTERESSES (E POR VEZES NEM ISSO...).

AS AUTORIDADES DA GEORGIA DEVERIAM TAMBÉM PAGAR PELOS CRIMES PRATICADOS CONTRA A OSSETIA DO SUL, TAL COMO SE SUJEITAM OS RESPONSÁVEIS DA SÉRVIA.

SE A BÓSNIA E O KOZOVO TÊM DIREITO À INDEPENDÊNCIA, PORQUE NÃO ACONTECE O MESMO COM A OSSÉTIA DO SUL E A ABECÁSIA?

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De Paulo Soska Oliveira a 14.08.2008 às 15:56

Caro Zé,

Concordando com o conteúdo do seu post, julgo ser importante salientar o seguinte:

1) Não existe necessidade de escrever tudo em maiúsculas.

2) Já lemos a mesma opinião em posts anteriores.

Cumprimentos,
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De João Quaresma a 14.08.2008 às 22:44

Caríssima Isabel David,

Esqueceu-se do Schostakovich, do Topol, do Sikorsky, do Seversky, da Sharapova e da Milla Jovovich. Imperdoável.

Isso não é o nível civilizacional dos russos: são as excepções à regra.

Há muitos anos, um ex-governante português aterrava em Moscovo a bordo de um avião da Lufthansa. O piloto teve de fazer a aterragem por si só, sem qualquer ajuda da torre de controlo. Porquê? Porque todo o pessoal da torre estava perdido de bêbado e recusava-se a falar Inglês: diziam que na Rússia falava-se russo e pronto. Na placa já estavam um Airbus checo em chamas devido a uma colisão. Isto também é a Rússia.

Por alguma coisa os russos não têm boas relações com os vizinhos. Do Atlântico ao Pacífico, ninguém os grama.
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De isabel david a 15.08.2008 às 15:17

Sim, os russos comem criancinhas ao pequeno-almoço... Ouvia essa história até à queda do Muro de Berlim... e agora os russos voltaram a ser maus novamente, depois de já terem sido uns pobres coitados que era preciso ajudar...
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De João Quaresma a 15.08.2008 às 22:15

Não exageremos: comer criancinhas é mais coisa de ingleses de férias na Tailândia. O pequeno-almoço dos russos é mais vodka.

Os russos nunca foram bons, nem depois da Guerra Fria. Pergunte aos estonianos, ucranianos ou georgianos, como é que é ter minorias russas no seu território herdadas da URSS, e o que é que a rádio russa diz a essas minorias para fazerem. Pergunte-lhes como é que é ser vizinho dos russos.

Pergunte aos angolanos que memórias é que guardam da passagem dos russos por lá. Vai ver que muda de opinião.

O problema é que na Europa Ocidental toda a gente anda entusiasmadíssima com a "Nova Rússia" e o seu gás natural e petróleo, sem dar ouvidos aos avisos dos estados bálticos, dos polacos ou dos ucranianos sobre a verdadeira natureza da política russa.
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De isabel david a 16.08.2008 às 01:00

Eu não preciso perguntar a ninguém como são os russos porque conheço vários. E foi precisamente por conhecê-los pessoalmente que consegui anular as mentiras que me contaram até 1989. E muito menos confundo os russos com os seus líderes políticos. Tal seria confundir-me com o Sócrates ou o Cavaco. E já que fala nas minorias russas nos Estados saídos da URSS, é bom relembrar que essa política de colonização foi gizada por um líder não russo - o camarada Stalin, por acaso georgiano...
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De João Quaresma a 16.08.2008 às 19:26

Não confunde os líderes russos com o povo russo, mas está a confundir os georgianos com Stalin. Quer dizer então que essa política de colonização com populações russas foi feita para benefício da Georgia?

Cara Isabel, não se enterre mais. :))
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De isabel a 17.08.2008 às 00:27

olhe que não, olhe que não... vê-se bem que não sabe esgrimir argumentos. É preconceituoso, percebe mal ou não percebe ou, pior, deturpa aquilo que eu escrevi. E é óbvio que não conhece muito sobre aquela área do mundo. Para além de russos, também conheço georgianos e não os confundo com o Pai dos Povos. Aliás, se o Saakhashvili tivesse metade da inteligência do Comissário para as nacionalidades não tinha metido a pata na poça.
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De Nuno Castelo-Branco a 13.08.2008 às 23:18

De acordo, João Quaresma, até porque este ano é o 70º aniversário de Munique. Mas, o que andou o exército georgiano a fazer na tal aldeia/cidade russa da Ossétia? Pois..., o senhor Putin aproveitou a ocasião.
Os russos são selvagens? São: são brutos? Também. Mas temos que viver bem com eles e não vale a pena indignarmos-nos apenas quando nos convém. O Kosovo ainda nem nos passou dos gorgomilos e a Europa já está com as queixinhas de sempre. Memória curta.

Samuel: não duvides. Achas que existe alguem capaz de calçar as botas do D. João II? LOLOLOLOL!
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De Xico a 13.08.2008 às 23:31

Nunca pensei dizer isto mas começo a ter saudades de Thatcher e de Nixon...
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De Nuno Castelo-Branco a 14.08.2008 às 00:22

Xico, tanto a baronesa como o Nixon seriam hoje seres d'outro mundo.

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