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O re-escrever tendencioso da História

por Nuno Castelo-Branco, em 18.08.08

Neste aborrecido e nublado fim de semana, passei distraidamente os olhos pelo Portugal na Segunda Guerra de António Telo. Além da atenta e exaustiva enumeração de factos ocorridos antes e durante o conflito, o livro oferece uma perspectiva de interpretação da política externa portuguesa durante os difíceis anos da Guerra Civil de Espanha e do progressivo desmoronar do edifício versalhesco de segurança das potências vitoriosas em 1918. 

 

Inevitavelmente, a obra tem como figura central o Presidente do Conselho Oliveira Salazar que foi quem verdadeiramente conduziu os negócios estrangeiros nacionais durante o conflito. Desde o início da quebra dos laços de submissão que mantinham Portugal refém da indulgente política do Foreign Office, Salazar conseguiu talvez, a reputação  de integridade e de inegável patriotismo que indelevelmente marcariam a sua acção de homem político. Não apenas na vertente interna - onde efectivamente enterrou o longo desvario fratricida da I república -, mas também na política externa, gozou do reconhecimento dentro e além fronteiras, mesmo por aqueles que se encontraram em campos opostos durante o conflito mundial.

 

A posição do Estado português é internacionalmente conhecida, sendo a aliança inglesa - hoje atlântica - , o pilar fundamental para a manutenção de uma independência que não encontra qualquer  contestação de relevo internamente. A consolidação da fronteira terrestre e a desmesurada expansão no Ultramar, granjearam o reconhecimento internacional, solidificaram a consciência nacional e garantiram a Portugal, uma permanente presença nos mapas. 

 

Após a vitória de Franco - aliás gostosa mas discretamente celebrada em todo o Ocidente -, poucos meses decorreram até à eclosão da grande conflagração ,na qual o principal e único aliado do nosso país - a Inglaterra -, se envolveu. Tendo recentemente saído de uma profunda crise económica e social que se arrastou por mais de dez anos, o Reino Unido jamais recuperara da posição privilegiada anterior a 1914 e apesar da vitória contra os Impérios Centrais, foi duramente atingido na sua solidez de hegemónica potência imperial. A sua marinha já tinha rivais, o seu comércio declinou e Londres foi substituída por Nova Iorque como principal praça financeira planetária. Esse declínio fez-se sentir igualmente em todas as forças armadas britânicas que em 1938, não podiam obstar aos avanços alemães na Áustria e indicaram ao governo, a necessidade de contemporizar em Munique. 

 

Para Portugal, a fraqueza britânica  trazia imediatas consequências, pois, se por um lado afrouxava o nó górdio que reduzia o nosso país a um sub-Império da Commonwealth, por outro, expunha o nosso património colonial às investidas dos novos imperialismos que poderiam tentar uma nova partilha de África, adiando uma vez mais, a eclosão da guerra na Europa. Contudo e apesar dos rumores quanto a uma entrega forçada de pelo menos uma parte de Angola aos alemães, Hitler jamais mostrou um verdadeiro interesse na recuperação de um espaço colonial. Influenciado por doutrinas como as de Haushoffer, considerava o espaço euro-asiático como o natural campo de expansão de uma Alemanha que pela sua população e potencial económico, inevitavelmente dominaria o continente.

 

A guerra confirmou aquilo que todos sabiam, porque as fulminantes vitórias da Wehrmacht devastaram  os campos de batalha, aterrorizaram as cidades expostas  e à mercê da nova arma aérea e pior que tudo, provaram a inutilidade da velha ordem internacional garantida por tratados ora caducos.

 

O dilema que se apresentava ao governo de Lisboa, não  era de molde a forçar a intervenção na guerra, mas punha-se sobretudo, quanto à política mais acertada a adoptar para a preservação dos territórios além-mar. Jamais considerada a hipótese de integração no Eixo - apesar da irritante  e abusiva insistência com que certos e muito parciais estudiosos de História querem fazer crer -, Portugal permanecia dentro da esfera de interesses britânicos e a simples verificação no mapa das possessões ultramarinas demonstrava essa dependência. A extensão de fronteiras comuns em Angola e Moçambique, tornavam inevitável a estreita colaboração com as autoridades coloniais britânicas, principalmente com as da África do Sul, onde existia uma corrente pró-intervencionista em Moçambique, no caso de Portugal de alguma forma se furtar à sua tradicional política exterior.

 

Nas horas subsequentes ao início do conflito, Salazar proferiu um discurso na Assembleia Nacional, onde a aliança inglesa foi reafirmada, apesar da manifestação da neutralidade portuguesa.  É este talvez, um acto que caracterizará toda a movimentação diplomática nacional durante a guerra e mais relevante se torna, quando foi universalmente anunciado. Hitler e Mussolini tomaram conhecimento do teor daquele discurso e decerto compreenderam a inevitabilidade do mesmo. A primeira fase das hostilidades no ocidente, pareceram tranquilizar muitos daqueles que, devido às claras afinidades existentes entre o franquismo espanhol e as potências do Eixo, receavam o envolvimento do país vizinho o que infalivelmente conduziria ao ataque e ocupação de Portugal, dada a sua fundamental posição estratégica e a privilegiada situação dos portos nacionais, essenciais à guerra naval alemã.

 

Alguns factores contribuíram para o progressivo afastamento da ameaça de guerra, desde a derrota na Batalha da Inglaterra, aos pesados reveses italianos no norte de África e na Grécia. A consequente dispersão de forças alemãs em novos e imprevistos teatros de operações, tiveram um reflexo imediato na Península, onde Hitler não conseguiu convencer um nada entusiasta Caudilho, a permitir o desencadear de uma série de operações que conquistariam Gibraltar e mercê de um rápido ataque pelo Alentejo - Operação Isabella -, Portugal. 

 

Com a Europa ocupada dos Pirinéus ao Niémen e dos gelados fiordes noruegueses ao Mar Jónio, o governo português via reduzir-se substancialmente as suas alternativas no campo da política externa. A Inglaterra fora vencida em França, na Noruega e na Grécia. Um após outro, os Estados balcânicos integraram o Eixo e a Grécia, apesar dos esforços dispendidos pelos ingleses, foi rapidamente conquistada, ficando desta forma ameaçado, todo o conjunto defensivo britânico no Mediterrâneo, essencial à prossecução da luta, dadas as directas e rápidas ligações que propiciava À Índia e aos cruciais recursos energéticos do Médio Oriente. 

 

Salazar conhecia bem a realidade do poder terrestre-continental alemão, mas confirmara igualmente, a prevalência britânica no mar, do qual Portugal totalmente dependia para o controle das suas possessões ultramarinas e de onde chegavam os bens de consumo a uma população pesadamente atingida pelo racionamento. Desta forma e com perfeito conhecimento da situação por parte dos aliados ingleses, o governo português procurou desde o início do conflito, impedir a entrada da Espanha no campo do Eixo e as vantagens que Lisboa pôde apresentar em Madrid - especialmente no campo económico -, foram decisivas. 

 

Paradoxalmente, os estudiosos desta época insistem em vislumbrar fragilidades, contradições e posições irrealistas por parte da política externa salazarista, confundindo a paixão ideológica, com a difícil realidade que era apresentada a um pequeno país sem grandes recursos bélicos ou financeiros que susceptibilizassem a tomada de decisões de forma autónoma e com inevitáveis consequências para o todo nacional. A aproximação económica com a Alemanha, foi talvez um preço pouco excessivo para compensar uma aparente neutralidade que afinal, se sustentava na esperança de uma vitória final aliada que garantiria o status quo no Ultramar. No seu livro Roosevelt, Churchill e Salazar, José freire Antunes vem igualmente tentar uma interpretação da história, desta feita à luz da visão norte-americana e em claro detrimento daquilo a que na altura unanimemente se considerava ser o interesse nacional. O constante rebaixar das atitudes do MNE do qual AOS era o titular, alia-se ao menosprezo das dificuldades inerentes a uma situação calamitosa em termos mundiais. Para alguns autores, a visão dos factos e a prática política dos Estados - neste caso Portugal - terão que coincidir perfeitamente com as intenções e caminhos políticos, económicos ou militares de potências que tutelam as suas mentes ou situação pessoal. É a auto-negação da credibilidade do pretenso investigador, parcial na análise, cumprindo um programa político ou ideológico. Enfim, é o re-escrever da História a que já nos habituámos e que tão prejudicial tem sido ao mundo académico português.

 

Apesar das privações económicas e de longos anos de receio perante o espectro da intervenção no país, os portugueses chegaram a 1945, incólumes na sua integridade física, pois apesar dos acontecimentos decorrentes da invasão japonesa em Timor, nenhum dos territórios sob soberania nacional foi atacado ou invadido, nem se perderam cidades e populações sob dilúvios de fogo vindo dos céus.  Portugal  não podia ter procedido de outra forma. Conservou intactos canais de comunicação entre potências em conflito, não cedeu naquilo que era essencial - a soberania - e condescendeu no acessório. Quando o desfecho da II Guerra Mundial ainda não era absolutamente previsível (1943), Salazar permitiu a recondução da política ao claro alinhamento com as potências atlânticas e a cedência de facilidades nos Açores, foi o factor decisivo para a conclusão da Batalha do Atlântico, vital para exércitos e países que dependiam sobretudo da logística. A neutralidade colaborante portuguesa beneficiou o país, em contraste com aquilo que se passara durante a Grande Guerra, onde o mesquinho interesse de uma minoria política ansiosa de reconhecimento internacional, precipitou Portugal no desastre económico-social e na derrota militar.

 

Aos detractores contumazes da "política de neutralidade do Estado Novo", conviria deixar algumas questões para reflexão. O que teria sucedido no teatro de guerra europeu/norte-africano, se com Portugal ocupado e os seus portos abertos às marinhas da Alemanha e da Itália, a Inglaterra tivesse perdido Gibraltar e consequentemente, o Egipto e os recursos petrolíferos do Médio Oriente? Como teria o Reino Unido sobrevivido ao corte dos abastecimentos marítimos, agora sob o controle férreo dos cardumes de submarinos que decididamente infestavam o Atlântico norte e que das costas de Marrocos às da Noruega, impunham a lei do vencedor antecipado? Como teria evoluído a guerra a leste, se empenhado a ocidente na liquidação do esforço britânico, Hitler tivesse decidido adiar sine die o início as hostilidades com a URSS?  Mais tarde, iniciando-se a "Operação Barba-Ruiva" em condições estratégicas e logísticas muito favoráveis, teriam os Estados Unidos prosseguido a política tendente ao intervencionismo, ou render-se-iam à evidência do estabelecimento de uma Nova Ordem mundial? Os militares do nosso tempo, não deixarão de ter a última palavra na análise de uma situação estratégica, tornada insustentável pela conquista pelo Eixo, das principais vias de comunicação com a Europa. O mundo seria hoje muito diferente.

 

Tentar encontrar indícios criminalizantes nas relações com o Eixo, não deixa de ser extemporâneo e completamente contrário à decência do estudo da história tal como ela foi e não podia deixar de ser. Desacredita o historiador e rebaixa-o à condição de panfletário de uma facção. Infelizmente, esse tipo de curiosos ou serviçais de alguns interesses ou complexados ansiosos de protagonismo no mundo do "politicamente correcto", ainda abundam entre nós. Até quando?

 

 

 

 

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publicado às 15:26


3 comentários

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De Samuel de Paiva Pires a 19.08.2008 às 03:39

Precisamos de um novo regime Nuno, um cuja legitimidade e afirmação não se baseie na oposição a um fantasma que criou acerca de outro regime, talvez nessa altura a cegueira ideológica dê lugar ao estudo da história sem vieses ideológicos ou de outro tipo.

É-me completamente exasperante ter conversas sobre o período do Estado Novo com a maioria das pessoas que normalmente profere um sem número de lugares comuns e acha que está inegavelmente certa chegando ao ponto de se exaltar. Já desisti, é um assunto que está para mim quase ao mesmo nível da discussão sobre religião, também já não me dou a esse trabalho. Talvez um dia escreva algo sobre isso, mas também há por aí tanto material que as pessoas teimam em ignorar ou classificar de fascista só porque não analisa as questões da forma que dá jeito ao regime da situação, veja-se por exemplo a obra do Professor Jaime Nogueira Pinto.

E depois há muito boa gente que acha que o que faz se pode considerar ciência, enfim...
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De Nuno Castelo-Branco a 19.08.2008 às 11:06

Já agora, recomendo a leitura do último livro de Fernando da Costa. O tema é muito interessante e centra-se na vida das personalidades do círculo de Salazar.

Tens razão, trata-se mesmo de uma religião que legitima muitas coisas. Falta é a verdade histórica, mas quanto a isso, não nos preocupemos. De Pombal disseram bem pior!
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De Nuno a 24.08.2008 às 14:33

A questão em torno da politica externa do estado novo entronca na questão primordial dos seus objectivos primordiais. Estes eram como é sabido "Deus, Pátria, Liberdade e Família ". A ajuda a Franco e a não participação na segunda guerra mundial foram medidas de largo alcance no que respeita à manutenção da integridade e independência nacionais. A titulo de exemplo, um dos objectivos dos republicanos espanhóis era a constituição de uma União das Republicas Socialistas Ibéricas (projecto este muito acarinhado pelo PCP). Posteriormente no que respeita à teimosia Salazarista para descolonizar, esta radicava na sua luta pela viabilidade de uma nação portuguesa forte e independente. Um Portugal "amputado" pouco mais poderia na sua opinião do que depender completamente de terceiros mais poderosos. A sua aposta e esperança lógicas , foram desde sempre a eclosão de um novo grande conflito mundial, onde Portugal pudesse jogar um papel proveitoso que lhe permitisse manter o controle das províncias ultramarinas. A crise do mísseis de Cuba e a guerra do Vietname , mostram que a sua esperança era plausível Agora é fácil criticar a politica externa do Estado Novo. A premissa da inevitabilidade da descolonização é inegável, no entanto ficará sempre por explicar claramente a lógica de uma descolonização de emergência em 12 meses. A situação não justificava fugas quaisquer desenfreadas, só os interesses da URSS e dos EUA. Tendo em linha de conta os objectivos do Estado Novo, estes foram em larga medida alcançados, refiro-me à pacificação, desenvolvimento económico e fortalecimento de Portugal. A alteração do contexto internacional com a derrota definitiva das potencias europeias nas duas guerras mundiais foi o grande responsável pela destruição completa do projecto grandioso do Estado Novo. A avaliação deste deve ser feita em contraponto com o do 25 de Abril, Descolonizar (ver resultados), Democratizar (ver a percentagem de eleitores que votam), Desenvolver (veja-se a divida nacional sem o ónus da guerra colonial, a média de crescimento do PIB ou a posição relativa em termos de desenvolvimento de Portugal na Europa).

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