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A propósito do post de João Quaresma

por Nuno Castelo-Branco, em 26.08.08

 

O post de João Quaresma no "Regabophe", coloca-nos perante a questão fundamental quanto ao (in)sucesso das sucessivas delegações portuguesas aos Jogos Olímpicos. Se procedermos a um sucinto trabalho de pesquisa, não tardaremos em concluir que os países mais medalhados  em termos mais abrangentes de todas as modalidades - ou das mais importantes -, são exactamente aqueles que têm uma longa tradição no campo da educação física. Assim, não é estranho que a Alemanha, a Inglaterra e a generalidade dos países do norte da Europa consigam grandes feitos nas mais prestigiadas provas, desde a natação á ginástica, esgrima e atletismo. É um trabalho de formação cultural de gerações e neste domínio, o nosso país ainda está ainda na infância. Todos os recursos disponíveis são aparentemente dedicados ao futebol, actividade que se tornou numa indústria onde os interesses políticos e económicos são dificilmente destrinçáveis do desporto. A alienação é por demais conhecida para procedermos a mais comentários, mas nesta matéria, apenas desejo deixar algumas questões para os especialistas.

 

1. Porque razão, sendo Portugal um país com escassos recursos financeiros, foi permitida a construção de uma enorme quantidade de novos estádios de futebol, onde não existe qualquer possibilidade da sua utilização e aproveitamento para outros desportos? Assim, não seria possível reconverter alguns dos menos utilizados - o Estádio do Algarve, por exemplo - para a prática ou estágio de outro tipo de competições? Seria então possível propiciar melhores condições de treino, isolamento e concentração dos atletas, racionalizando-se recursos, entre os quais o tempo não é factor menosprezável.

 

2. As provas olímpicas deixaram há muito, de ser fruto da "carolice" deste ou daquele fulano, ou do amadorismo de uns quantos obcecados por medalhas. Tornaram-se num vital assunto de prestígio para as nações, de promoção de países e da sua clara visibilidade em termos globais. Desta forma e adequando os recursos financeiros às especificidades/capacidades físicas das gentes, não nos surpreende observar como a Etiópia - país com mutíssimas mais dificuldades financeiras que Portugal -, arrecadar uma honrosa colecção de medalhas de ouro olimpíada após olimpíada.  O mesmo se poderá dizer do Quénia, Zimbabué (!), Jamaica, Trinidad e Tobago, Eritreia, Cuba,, etc.  Esta lista torna-se demasiadamente embaraçosa e quanto a isto, o C.O.P. deverá ser chamado às suas responsabilidades. Na verdade, estas modalidades obedecem a critérios muito rígidos de profissionalismo e total concentração, não sendo estranha a presença constante de instrutores/psicólogos que acompanham os atletas caso a caso. Tem sido investido muito dinheiro público na preparação de atletas, mas tal não é suficiente para o êxito nas grandes competições, porque salta à vista a falta de preparação psicológica da nossa gente, alastrando este problema ao próprio "menino de ouro" do desporto nacional, o futebol: nos momentos cruciais, verifica-se o curto-circuito e um súbito e incompreensível desmoronar da vontade. A propósito desta última palavra, lembremos o título que Riefenstahl deu ao seu filme dos Jogos de Berlim, ou seja, "O Triunfo da Vontade".  É disto mesmo que se trata.

 

3. A educação física. É certo que os portugueses de 2008 são bastante mais altos e robustos que os seus antepassados do início do século XX, mas muito há para fazer. Sem querer iniciar qualquer polémica acerca das características ou aptidões físicas dos indivíduos, temos de reconhecer que a constante e habitual prática de desporto inevitavelmente trará sensíveis transformações  - e aptidões físicas - ás gerações vindouras. As aulas de Educação Física nas escolas sempre foram o "parente pobre" de todas as outras disciplinas e pecam sobretudo, por falta de tempo. Uma ou duas horas semanais são totalmente insuficientes para a formação do espírito de equipa e de vontades para a competição com outrem. Assim, percebemos o porquê da atenção dos regimes totalitários às organizações de juventude. No entanto, creio que em democracia poderíamos colher ainda mais benefícios de um melhor enquadramento das camadas mais jovens, pois a obrigatoriedade  inseparável daquele tipo de regimes, seria na escola democrática, substituída pela negregada disciplina. A disciplina não pode ser encarada como repressão, fonte de abuso de poder e outras falácias dos agentes do politicamente correcto. Sem disciplina, não existe aproveitamento em qualquer matéria a leccionar e infelizmente, os senhores da Situação ainda não ousaram passar o Rubicão. A escola deve ser revista de forma global, desde a primária ou até mais cedo, instaurando-se de vez com a normalidade. Não existe no mundo país mais democrático que a Inglaterra, onde os alunos são identificáveis pelo uniforme, onde existem actividades extra-curriculares amplamente participadas e sobretudo, onde é possível incutir aquilo que foi e é o grande falhanço da república: o civismo. Reveja-se o que foi feito na África Portuguesa dos anos 50, 60 e 70 e poderão ter uma ideia do enorme progresso aí alcançado.

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publicado às 02:17


1 comentário

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De João Quaresma a 26.08.2008 às 21:35

Obrigado pela citação do meu post.

Excelente texto. O problema em Portugal, neste como em muitos outros assuntos, é que não há verdadeira consciência das coisas. A expressão 'Educação Física' diz tudo: a correcta formação anatómica, para criar um corpo equilibrado e saudável. É uma coisa tão necessária quanto a vacinação das crianças. A manutenção de hábitos de exercício físico ao longo da vida devem ser uma continuação dessa boa educação do físico. Mente sã em corpo são. E, é claro, o desenvolvimento da personalidade e da inteligência pela prática de desportos, tanto individuais como colectivos.

Tudo coisas que já se sabiam na Antiga Grécia e que são ignoradas ou desprezadas no Portugal do Séc XXI.

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