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Data: 1 de Setembro de 1974

por Nuno Castelo-Branco, em 01.09.08

 

Local: Praça dos Restauradores, Lisboa.

Após um dia inteiro a visitar os locais mais emblemáticos da parte Baixa da cidade, o Castelo de S. Jorge, a Avenida, o Marquês e a Estufa Fria, o meu pai permitiu-se à excentricidade de mandar parar um taxi que nos remetesse à faustosa residência  que um familiar nos emprestara. A roulotte para dois que serviu para cinco, mais um cão e um gato, lá nos esperava no Parque de Campismo de Monsanto. Estávamos  um pouco desiludidos por Lisboa não corresponder exactamente à imagem que nos foi cultivada ao longo de muito tempo, pois imaginávamos a capital imperial como um local impecavelmente limpo, grandioso, monumental. Pelo contrário, deparámos com um arremedo de cidade indescritivelmente imunda, cheia de cartazes até aos segundos andares, com os vidros dos apartamentos colados com cartazes, varandas embandeiradas de panejamentos de um vermelho já mortiço mas ainda bastante sinistro. As paredes dos principais edifícios de referência - o Terreiro do Paço, o Castelo, o Palácio Almada, o teatro D. Maria II - , confirmavam a situação vergonhosa do Chiado, Bairro Alto, Madragoa, Graça. Riscos, rabiscos, palavras de ordem inócuas, imbecis e muitas a roçar a traição miserável, enchiam pedestais de estátuas, muros de ministérios, colunas de igrejas. Pela primeira vez tomávamos contacto com a "nova tropa", os éme-éfe-ás,  um bando grotesco de gente mal uniformizada, que arrastando metralhadoras pelas calçadas e escarrando sem cessar, abandonava os Jeeps nos passeios e enchia esplanadas dos cafés da Baixa numa longa farra de cervejas, caracóis e cadelinhas. Inevitavelmente, estas caricaturas de soldados, estavam sob o acicatante fogo verbal de populares sedentos do sangue deste ou daquele improvável sabotador "fáscita", "feixista", reaccionário ou capitalista, incentivando-os a usar as G-3 a torto e a direito, num cego mata-mata.  Que contraste com o aprumo dos militares do exército plurirracial português que víamos de licença nas avenidas e jardins de L.M.!

 

Nas ruas de Lisboa, pululava a gente da moda com um horrendo aspecto rasputiniano, barbuda, piolhosa e caspenta, de uma desarmante e boçal grosseria, olhar ameaçadoramente fero e dentadura arreganhada em esgares de um ódio que se cheirava a cada golfada de oxigénio e que badalhocamente deambulava sem destino (1).

Logo no primeiro dia na Europa, tivemos o indesejável privilégio de travar conhecimento com a fauna governante, omnipresente horas a fio numa RTP mais que nunca a preto e branco. Duvidosos generais de facies patibular, coroneizecos de baixo coturno, ministros cantineiros - alguns velhos famosos protagonistas de conhecidíssimas vigarices além-mar -, pressagiavam o pior. Alguns surgiam agora como grandes "democratas e pacifistas", quando em Moçambique eram bem conhecidos pelo seu radical racismo, prepotência no comando e corrupção na administração dos recursos. Compondo o quadro lúdico que já vislumbráramos nos telejornais, escutávamos in situ os berros, a megafonagem, somando-se à odiosa, dissolvente, irritante e medíocre cacofonia da voz entaramelada e ranhosa de um gajo Zeca qualquer-coisa, propiciando-nos naquela breve e elucidativa incursão ao centro do poder nacional, o simulacro daquilo que Portugal viveria nos próximos anos e que inexoravelmente nos empurraria a todos para o coval em que hoje ainda nos encontramos.

 

Tendo viajado num Boeing 707 dos TAP no dia em que o Miguel comemorava o seu 12º aniversário - 30 de Agosto de 1974 -, sabíamos todos sem nisso falarmos, que o capítulo primordial das nossas vidas se rasgara para sempre. Para trás ficaram cinco gerações em Moçambique, com trisavós, bisavós e avós enterrados em cemitérios de Lourenço Marques. Não mais visitaríamos as suas campas para a nossa mãe avivar a negro as letras debotadas pelo sol calcinante. Acabaram-se as flores, as conversas que nos contavam episódios de um passado agora para sempre perdido e que convinha esquecer. À nossa partida no aeroporto Gago Coutinho da capital moçambicana, estavam familiares e amigos de sempre que, contagiados pelo vendaval de loucura que varria o até então Portugal pluricontinental, nos increpou de traições ou medos injustificados. Aos nossos pais acusavam de cobardia e de "fascismo" de espírito colonialista derrotado e fujão, além de uma farta panóplia de dislates de difícil compreensão para qualquer mente equilibrada. Foi assim, a nossa saída de Moçambique, mas apenas uma semana decorrida, os desastres do 7 de Setembro justificavam plenamente os argumentos debalde esgrimidos pelos nossos progenitores.

 

Desembarcando no caótico aeroporto de Lisboa, esperava-nos um razoavelmente contrariado primo-"engenheiro" - primeiro contacto com a evidente e perene monomania titulesca nacional -, visivelmente incomodado por estes inoportunos intrusos, tanto mais que á época, os portugueses do Ultramar já eram prática e oficialmente considerados como os contra-revolucionários potenciais que fariam perigar a prometedora, ridente e baladeira revolução dos cravos. Assim, remetendo-nos para o Parque de Campismo, este local surgia como uma possibilidade de possível  refúgio semi-selvagem, longe de comícios, megafones ou palavras de ordem. Aí chegados, deparámos com um grotesco quadro que em tudo se assemelhava à algazarra comicieira, onde em plenas patuscadas de churrasco e no meio de forte gritaria, logo vimos os centos de roulottes onde tremulavam as asquerosas bandeiras da foice e do martelo, com vidraças quase invisíveis pelos autocolantes testemunhando medos e alinhamentos de última hora. O Avante Camarada, Avante! ouvia-se repetidamente em gira-discos portáteis, a par dos Tordos, Fanhais, Letrias, Tonichas, Correias de Oliveira e do vociferar ordinário e tasqueiro de um Ary dos Santos, fraco e repugnante  reflexo de Elijah Ehrenburg do aprendiz de Estaline parolo, também ele recém-retornado da sua gelada pátria de eleição. Portugal tornara-se numa lixeira de 89.000 Km2.

 

A loucura generalizara-se, parecia irremediável e assim, as advertências do nosso pai, sempre no sentido de contemporizar com o estado de coisas, acautelavam-nos para os dissabores que as nossas  juvenis e afiadas línguas podiam trazer ao conjunto familiar. Era a recomendação do medo, provisoriamente assumido como necessário. Habituados a ler e a ouvir, os 12 anos do Miguel e os meus 15, conheciam instintivamente a já longa, mortal e abjecta carreira internacional do comunismo e sentíamos agora o terrível perigo que se abatia sobre o todo nacional, já infectado pelo bacilo vermelho do Minho a Timor. Não conseguíamos imaginar o condenar do resto da nossa existência, à submissão a um despotismo que já há anos conhecíamos e até então,  irredutível inimigo de Portugal.

 

Finalmente conscientes da situação do momento, aquele taxi parecia a solução ideal para nos remeter ao isolamento e anonimato da roulotte, onde decerto evitaríamos o contacto com a vizinhança de fim de semana, pois durante os chamados cinco dias úteis, tínhamos as árvores, bancos e até a piscina onde raramente podíamos ir, reservada para gente que como nós nem casa tinha. Sábados e domingos eram obrigatoriamente os dias de poucas palavras. Ficámos também a saber o que era o tal medo, esse irmão-gémeo da humilhação que podemos perdoar, mas não se esquece jamais.

 

No seu perfeito português sem qualquer particularismo regionalista, o nosso pai lá informou o chauffeur acerca do local para onde devia conduzir a família, mas chegados à entrada da Rua do Ouro, a nossa tagarelice, entrecortada com expressões de dialecto do Sul do Save, denunciou a nossa origem, propiciando-nos de imediato a primeira experiência revolucionária.

 

"Filhos da p..., faxitas (sic) do c..., agora vêm para aqui f... - nos a vida! Vão para a vossa terra, os pretos (2) deviam era matar-vos a todos! Fora do meu taxi já, antes que chame gente para vos f... aqui mesmo!" (3)

 

Foi este o primeiro contacto com o bom povo da "promissora revolução", que nesse dia conseguiu angariar mais dois inimigos ferrenhos e que nos próximos anos não faltariam a um comício, a uma manifestação, e ás actividades de propaganda. Acabámos por vencer na rua, mas continuamos derrotados no espírito. Aquela gente de que o taxista era um pobre exemplo,  continua a mandar, desta vez enfarpelada de colarinho branco. Continua a conduzir um Mercedes de empresa, gere a banca, tem o seu círculo de influências na Europa,  nos media e nos negócios do Estado. Recauchutados em neo-liberais, há muito se esqueceram daqueles emblemas de lata cunhados com a foice e o martelo, ainda escondidos numa caixa de sapatos encafifada no fundo de um baú da família. Para o que der e vier.

 

 

 

(1) No Museu Carnavalet em Paris, podemos ver pinturas alusivas aos acontecimentos de 1789-93, onde o mesmo tipo de subespécie humana se encontra implacavelmente imortalizado em telas. 

 

(2) O racismo evidente deste tipo de arremedo revolucionário-leninista manifestava-se sempre ao menor pretexto.

 

(3) Ler o magnífico texto de António José Saraiva "Os retornados, os novos judeus"

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publicado às 14:35


1 comentário

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De Zé Pikeno a 01.09.2008 às 22:09

Eu que nunca fui a essa África portuguesa...nunca lá tive familiares...mas não sei porquê sempre sonhei com ela...sempre a iamginei como me a descrevem...e sempre a vi como a coisa mais aproximada da minha ideia de Portugal...possivelmente por ter o bom de Portugal mas potenciado pelas grandezas africanas.
Os meus pais foram imigrantes pobres...e decidiram voltar porque pensaram que o país deles seria melhor daí em diante...até hoje estão á espera...e vão morrer pobres...esperando.
Quanto á sua descrição...do país de então...levou-me...mais uma vez a sentir...o nojo...o asco...que eu muito sinto diáriamente...por essa corja ter feito o que fez...já em 1910 e depois em 1974...estaremos a pagar ad eternum...esses filhos de puta que por cá continuam.
A inveja...o ódio...a cobardia guiam-lhes a vida.
Ratos.

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