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Os monárquicos e a Resistência

por Nuno Castelo-Branco, em 01.10.08

 

 

"Vivemos a crise dia a dia, vendo as suas dimensões e rezando para que haja lideranças à altura dos desafios" (Teresa de Sousa, em o Público de quinta feira, 2 de Outubro de 2008).

 

 

Há apenas uns dias, ouvi alguém dizer na conferência de imprensa de lançamento da plataforma do Centenário da República, que a ideia monárquica é o mais perene movimento de resistência de que há memória em Portugal. 

 

É uma inesperada e claríssima verdade que teve inicio mesmo no período final de vigência do regime da Monarquia Constitucional, quando o projecto de D. Carlos I e de João Franco, parecia capaz de proceder a uma efectiva regeneração do regime, adequando-o à modernidade dos mais avançados sistemas eleitorais, solidamente alicerçados na simplificação do aparelho do Estado,  saneamento das finanças públicas, progresso da rede de escolas e estabilização da vida política parlamentar. O crime de 1908 e aquele outro que se lhe seguiu em 5 de Outubro, desfizeram a ilusão, fazendo o país retroceder a tempos que emulavam os da guerra civil sete décadas antes. Os monárquicos resistiram nas incursões, nas correrias de rua, nas universidades e nas forças armadas. O país viu a sua representação nacional reduzida a um simulacro parlamentar, muito radical, muito violento e sem correspondência com a vontade da nação. Bem conscientes do mortal golpe desferido à legitimidade das instituições violentamente derrubadas por uma minoria, os monárquicos não souberam  unir--se naquilo que era essencial e comum a todas as facções: a legalidade histórica. Dividindo--se em grupos de amigos ou correntes de opinião, prosseguiram no erro que já se verificara durante a vigência do regime Constitucional, disputando primazias político-ideológicas que já não tinham razão de ser. A questão legitimista minara gravemente a coesão da maioria monárquica e os efeitos desastrosos não tardaram a verificar-se em todo o imbróglio que desnecessariamente envolveu a sucessão de D. Manuel II. A Monarquia e sua aparentemente inevitável restauração, foi prejudicada e disso mesmo se serviu habilidosamente a sucessora do regime costista, a chamada 2ª república ou Estado Novo. Clamando o país inteiro por ordem, muitos monárquicos lealmente serviram aquilo que unanimemente se considerava ser o interesse nacional, mas o fim da II Guerra Mundial, a Lei da Sucessão promulgada por Franco e o natural envelhecimento de Salazar, indiciavam boas possibilidades de recondução do país à normalidade constitucional quebrada há já mais de três décadas.  Um trânsfuga realista, o prof. Marcelo Caetano, ambicionando a própria sucessão de Salazar, foi talvez o principal responsável pela liquidação das veleidades restauracionistas dos membros de uma Assembleia Nacional que na sua maioria se inclinariam para esta solução e serviu-se para isso, do Congresso da União Nacional, onde participavam membros da Causa Monárquica.  Talvez tenha sido neste momento que se deu o progressivo mas irreversível afastamento dos monárquicos relativamente à situação política estado-novista, muitos deles também conscientes da clara preferência do então Duque de Bragança, D. Duarte Nuno,  por uma solução política próxima do modelo britânico, que logicamente para todos significava o fim do regime instituído em 28 de maio e consagrado na Constituição de 1933. 

 

O que se torna relevante sublinhar, é a inflexibilidade desta resistência à aceitação de uma pretensa república de todos os desmandos e de todas as violências. Uma república incapaz de formar o espírito cívico, logo incapaz de educar. Uma república impotente no plano externo, logo inepta para a defesa do verdadeiro interesse do Estado português no concerto das nações do ocidente que sempre integrámos. Uma república que se iniciou ao parodiar tragicamente a comédia de um regime constitucional onde todas as violências e despotismos foram lei nas ruas e no poder. Uma república que pretendendo regenerar-se, caiu numa longa e modorrenta tirania de duas gerações, originando no seu estertor às mãos dos parteiros - também republicanos - da sua sucessora, o maior desastre da história portuguesa,  a chamada descolonização. É uma república que tendo irremediavelmente enfraquecido a energia de um país antigo de oito séculos, tem contado com a colaboração de monárquicos assumidos e que nas universidades, fundações, entidades financeiras, na arte, medicina e até nos próprios partidos políticos, têm contribuído com a sua discrição, saber fazer e competência, para o progresso material de Portugal. Cientistas de renome internacional,artistas plásticos,  escritores, poetas, filósofos, eminentes professores, juízes, militares, embaixadores e tantos outros, continuam  fiéis a uma ideia de Portugal que para muitos significa a pura e simples garantia da sobrevivência do próprio Estado neste mundo cada vez mais incerto e ameaçadoramente perigoso. Hoje será um lugar comum afirmar que a intenção oficial - ou melhor dizendo, oficiosa, dada a clara vergonha dos promotores - em comemorar os 100 anos de "república", não passa de um breve, discreto e forçado preenchimento de calendário, recorrendo-se à mentira já secular, à fraude na leitura e interpretação de documentos e acontecimentos passados. Como é evidente, estaremos uma vez mais perante uma versão da história que é mais consentânea com as divagações rosadas de um Disneyworld caseiro e onde afinal, a bruxa má é mesmo a heroína envenenadora de maçãs. No entanto, vozes categorizadas que outrora enfurecidamente exaltaram a iconoclastia vigente na nossa triste e esquecida Belle Époque, hoje, aproximando-se a fatal hora do encontro com a grande segadora de vaidades, recolhem-se mesmo que timidadamente, ao exercício da reposição da verdade. Que vitória magnífica e quiçá imerecida da nossa causa! A falsa república - a pior de todas, pois carece da legitimidade daquela, a verdadeira, que entre nós vingou até 1910 - mantém-se quase sem republicanos. Equilibra-se na corda bamba do negócio de ocasião, da choruda mordomia, da mobilidade fulanista dos beneficiários da exclusividade do exercício do poder, afinal tomado por uma inegável minoria de arrivistas, entre os quais, é certo, coexistem homens de bem. A "república" é fraca e de facto está morta, pois não suscita entusiasmos, abnegadas fidelidades. Não tem, nem pode sequer propor um caminho para o povo que somos. Contradiz-se nos postulados e alardeando igualdade e generosidade, acolhe quem de fora vem - mesmo aqueles que connosco partilham laços de sangue -, para logo em seguida os deixar à mercê dos controladores da máquina do regime, aqueles que os exploram sem lhes dar sequer um simples papel que os impeça da nova escravidão: a do medo da expulsão e do regresso a um mundo de fome e de violência. É esta a ética republicana dos nossos dias e que salta à vista de uma sociedade preocupada apenas pela última lambidela na gamela do consumismo. O símbolo máximo, o barrete frígio, é afinal, um capuz de ladrões.

 

Quase cem anos decorridos desde o subversivo golpe de Estado que esbulhou Portugal de uma relevante parte da sua própria razão de ser, urge concitar esforços para unir aqueles que em casa, entre amigos ou colegas, se dizem monárquicos. A lista é longa e os nomes são conhecidos, impressionantes e poderosos. Vivemos um momento  de viragem numa ordem internacional fragilizada pelos excessos do século XX e a própria salvação das derradeiras hipóteses de resgate da nossa liberdade ameaçada, seriam por si, motivo suficiente para o fim de absurdas quezílias ou rivalidades, ou pior ainda, de um laxismo comprometedor com uma situação que se tornou espúria. A resistência continuará, disso os monárquicos não duvidam. Mas essa resistência só terá fundamento, se existir a ambição de conquistar o futuro, onde uma nova Constituição e um Portugal mais educado, mais ordenado e avaro quanto a desnecessárias despesas sumptuárias - mesmo aquelas crismadas de obras públicas - , possa ser capaz  de se salvar. É o dever de cada um . É o dever de todos.

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publicado às 15:26


3 comentários

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De Margarida Pereira a 02.10.2008 às 09:27

Pasto para muitas chamas, este estupendo texto.
Imprimi, para o ler demorada e reiteradamente.
Para recordar factos e questionar outros pensamentos.
Usá-lo-ei por estes dias, evocando o período da nossa História em que tanto mudou.
Are royalties in order?...
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De Nuno Castelo-Branco a 02.10.2008 às 10:10

Yes Ma'am, but my cash flow it's always very short, ehehehehehehe
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De João Amorim a 02.10.2008 às 13:16

Bravo, Nuno. É com essa paixão que se conquistam adeptos. E a razão.

abraços

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