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Diário de N. White Castle: Lisboa, 3 de Outubro de 1910

por Nuno Castelo-Branco, em 04.10.08

 

Exausto pelo longo jantar e com a mente toldada pelos vinhos e licores que acompanharam e que se seguiram ao repasto, regressei a pé ao Avenida, pois nesta cidade é ainda possível caminharmos distâncias que no mapa parecem grandes, mas que bem vistas as coisas, consistem invariavelmente nuns centos de jardas, ou no máximo, uma milha e meia. 

Tive a oportunidade de conhecer alguns dos mais influentes compatriotas estabelecidos neste país, assim como convidados portugueses que esperava muito diferentes daquela gente que conhecera há umas horas no Rossio. Triste ilusão, pois as fatiotas, gravatas e lustrosas cartolas, serviam apenas de disfarce para as mesmíssimas enraizadas certezas no nada. A vacuidade da argumentação era atroz e não consegui vislumbrar o menor indício de um projecto exequível e baseado em factos que lhe dariam viabilidade. Nada, nada, apenas grandes tiradas sobre a liberdade e a igualdade, não se esquecendo o costumeiro progresso social, sempre na boca de gente que tem assalariados a seu cargo, sem nada se preocupar com condições de trabalho ou direitos de quem lhes dá o sustento. Pelo contrário, pareceram-me estranhamente elitistas, pois tentando compreender, à luz da experiência inglesa e alemã, aquilo que se passa no ainda bastante incipiente operariado português, retorquiram-me apontando a ineficiência dos socialistas, que no seu douto parecer ..."andam conluiados com o rei"... sendo aqui substituídos na função de renovação da sociedade, por um partido republicano - o deles -  que pretendendo meramente alterar a face do regime, julga poder modificar como num passe de mágica, toda a situação do país. Inacreditável, mas absolutamente verdadeiro. À mesa, o mais tagarela foi um conhecido comerciante proprietário de um grande armazém no Chiado que bramia todo o tipo de impropérios contra o regime que afinal, lhe permitia manifestar-se de forma tão aberta e descuidada. Um outro conviva segredou-me que constava que a dita rubicunda criatura, estivera envolvida na conspiração regicida, pelo que tomei de imediato as minhas distâncias.  No entanto, o conviva que mais atenção me despertou, foi um oficial do exército, o coronel Cunha que por várias vezes increpou o exaltado comerciante épicier, no sentido de moderar o tom com que se referia a personalidades públicas da Corte e do parlamento. O que não deixei de estranhar, foi a presença desta gente em ágapes da nossa Legação, sabendo-se que o Reino Unido cultiva as melhores relações com o governo português, além de os soberanos deste país se encontrarem entre os numerosos parentes da casa real britânica. Muito estranho, mesmo muito estranho. porque será?

Questionando o dito coronel Cunha acerca da viabilidade de um golpe subversivo dos republicanos, ele olhou fixamente o seu adversário natural - o comerciante milionário - e afagou a espada, dizendo: "ainda há uns dias estive com S.M. e com o Duque de Wellington no Buçaco, na celebração do primeiro centenário da nossa vitória contra a França de Napoleão. El-Rei D. Manuel é o Chefe do Estado e por inerência, o comandante em chefe das forças armadas. Devemos-lhe a lealdade de camaradas de armas e neste caso, ainda lhe digo mais: devíamos ter tomado rapidamente uma atitude no dia do regicídio, pois o país inteiro conhece quem foram os responsáveis!" Dito isto, apontou com o queixo na direcção do estupefacto negociante que não conseguiu articular qualquer resposta. E continuando, foi dizendo ..."que se tentarem algo, desta vez vão ver como lhes dói, atiramos a matar!"

Julguei o regime perfeitamente seguro, pois este exército tem uma certa experiência de combate. Quem não se recorda das grandes vitórias obtidas ainda há pouco tempo em Angola e Moçambique? Além disso, as celebrações do Centenário das Invasões francesas, consistiram num vibrante testemunho de fidelidade dos militares à Casa de Bragança e ao regime constitucional. 

Terminado o jantar e a natural sequência de cigarros, brandy e Porto, manifestei visivelmente o meu cansaço, que plenamente se justificava pela viagem e longa caminhada que já fizera na cidade. Tive a infelicidade de ser forçado a aceitar a carruagem do comerciante que pressurosamente se ofereceu para me conduzir ao Avenida. Pelo caminho, foi incessantemente palrando acerca das virtudes propiciadas pelo regime novo que ardentemente quer ver alvorecer em Portugal. Fala-me da liquidação da Igreja e de uma súbita modernização do tecido produtivo nacional. Segundo o seu infalível ponto de vista, a simples proclamação da república, susceptibilizará uma rápida queda dos preços, a instrução das massas e a consequente industrialização do país que passará a rivalizar com uma Bélica ou uma Suíça. O delírio da propaganda - decerto eficaz no Gelo, mas que em mim, experiente como sou na análise da situação económica e social dos países que visito e onde tenho interesses -, produziu o efeito exactamente contrário. Este homem sonha com uma esquadra de couraçados que esmague a espanhola em poder e número. Julga possível alfabetizar o país inteiro em apenas alguns poucos anos e declara muito senhor de si, que os recursos do Estado - os impostos - têm sido malbaratados pelo actual regime e são suficientes para servir de alavanca ao que ele designou por novo fontismo, isto é, um amplo programa de modernização das estruturas nacionais, desde o ensino, aos transportes e à indústria. Conhecendo a dependência portuguesa relativamente ao exterior, interrogo-me se este homenzinho possui a mais ínfima ideia acerca dos problemas que levantou, pois sendo de difícil resolução em países mais poderosos, aqui, sem o regresso de um longuíssimo período de estabilidade, encontram-se mais longe que qualquer estrela do firmamento apenas vislumbrável por potente telescópio. 

Aliviado por me furtar ao diluviano discurso de inanidades e pétreas certezas, recolhi-me ao meu quarto, sem que antes me tivessem avisado na portaria, que  ..."qualquer coisa se está a passar". O que será agora? Mediante o pagamento de algumas moedas, fiquei ciente de que o porteiro está a par de tudo aquilo que de estranho se passa nas redondezas e desta forma, não deixará de me fornecer informações. 

 

Após o almoço, soube-se que um médico de loucos, um tal dr. Bombarda fora abatido por um dos seus doentes, mas já corria célere o boato apontando o dedo aos jesuítas que neste preciso momento, parecem ir ocupar o lugar que a sociedade durante séculos reservou aos filhos de Israel. É claro que diante do Gelo já pude verificar a concentração de todos os vadios do costume, em forte gritaria e clamando por sangrenta vingança. A certo momento, um dos mais exaltados berrou que era necessário ir à sede do partido republicano buscar armas e bombas. Não podia acreditar no que escutava. Que país é este onde se permite a transformação de uma sede partidária em arsenal de subversivos? Uma simples rusga policial teria decapitado o dito partido em apenas alguns minutos, pensei eu. Contudo, um numeroso bando lá foi em desalvorada correria em direcção ao Largo de S. Carlos, onde diante da Ópera, se situa a dita sede. Como curiosidade, devo acrescentar que concomitante a este largo, situa-se o próprio Governo Civil de Lisboa, local pejado de policias e funcionários governamentais que pelo que ouço, pretendem ignorar aquilo a que chamam de "picardias". Pretendem isso sim, acalmar os exaltados e segundo as suas preclaras cabeças decidiram, é melhor ignorar as provocações, porque ..."essas coisas morrem por si"...

No meio da grande confusão  e desta vez para minha satisfação, voltei a encontrar o comerciante que conhecera na Legação e que parecia estar plenamente ciente de tudo o que se passava. Mais, confessou-me com ar de altiva importância, que os republicanos escutavam todas as conversas telefónicas efectuadas pelo governo e pelo palácio real, pois algumas das telefonistas estavam incumbidas desse serviço de espionagem. Desta forma vim a saber  que o chefe do governo contactara telefonicamente a rainha Amélia, ausente  em Sintra, inteirando-a do que se passava na capital.  O rei recebia o presidente brasileiro num banquete oficial em Belém e pensei que tudo isto não passava de mais um abortado devaneio dos amigos de alguns dos meus convivas de véspera. Esperava ver a todo o momento o exército a ocupar os pontos nevrálgicos da cidade, liquidando quaisquer intentos de desacato da ordem pública. Estranhamente, nada aconteceu. Fiquei também na posse da informação que dava como certo o refúgio dos chefes republicanos nos estabelecimentos de banhos de S. Paulo, ao Cais do Sodré. Toda esta bernarda parecia de antemão comprometida e decerto acabaria em rotundo fiasco. Num súbito impulso, lembrei-me que na véspera o coronel Cunha me oferecera o seu cartão, colocando-se à minha inteira disposição para aquilo que julgasse necessário. Dirigi-me ao local da sua residência, no Príncipe Real, onde me disseram que sua excelência estava de prevenção no quartel. Tranquilizado pelas palavras da esposa do oficial, resolvi retirar-me convencido de que a manhã seguinte traria a esperada novidade do desvanecimento da combatividade revolucionária.

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publicado às 04:17







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