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O que é que me assusta

por Samuel de Paiva Pires, em 09.10.08

 

Não, não sou do signo Balança. E sim, acho bastante piada a essa coisa dos signos. Embora sendo nativo de Sagitário e, portanto, impetuoso, essa característica tem-se vindo a atenuar com o passar dos tempos. Isto porque, tal como representada pelo símbolo de uma balança, uma das coisas que mais prezo é a racionalidade.

 

Não me vou pôr a discorrer academicamente sobre o que é a racionalidade e as suas diversas abordagens. Direi simplesmente que é na prática a capacidade de nos abstrairmos e analisarmos de forma o mais desapaixonada possível todos os actos, acções ou omissões tomadas ou a tomar por via de uma ponderação realista quanto a custos, benefícios e resultados de cada acção ou omissão.

 

A racionalidade pura é o que distingue um politólogo de um político, um académico de um opinion-maker, ainda que na mesma pessoa se possa encontrar estas quatro qualidades, mais ou menos acentuadas consoante as máscaras que se colocam como forma de adaptação a cada circunstância. 

 

Mas muitas vezes há em que perdemos a racionalidade, ou pelo menos a reduzimos. Acontece por exemplo quando nos apaixonamos por alguém e passamos a condicionar as nossas acções a variáveis que normalmente não entrariam no cálculo mais preciso, tendencial e desejavelmente imparcial, que assim se torna a mais das vezes impreciso, incalculado e consequentemente tendo resultados imprevistos devido à elevada margem de erro e probabilidade de insucesso que passa a ser transversal a qualquer eventual previsão, quando não mesmo a uma qualquer acção irreflectida.

 

Acontece também quando se tem que descer do patamar académico e encetar certa actividade, não tanto irracional, mas menos racional e mais natural, isto é, diria até quase mais artística e irreflectida, menos analítica e calculada, com resultados imprevistos por não se saber o que vai do lado de lá, do nosso interlocutor, que tomará uma decisão mais ou menos calculada e reflectida quanto ao nosso futuro, baseado em dados imperfeitos e não necessariamente representativos.

 

Sentir que perco a racionalidade causa-me um certo sentimento de vulnerabilidade que me provoca uma "ligeiríssima" irritação. Principalmente com a frequência que tem tido desde há uns meses para cá, actualmente relativamente a duas determinadas situações.

 

Vou deixar o que devia estar a fazer para o fim-de-semana. Escrever à romancista arrebatador para um âmbito académico faz-me uma tremenda confusão. Sonhos e esperanças, demonstrar personalidade e interesse? Pois, está bem, que remédio...

 

E a outra? Que remédio também... Costuma-se dizer que "não me arrependo de nada do que fiz". Pois eu arrependo. De tudo o que fiz sem racionalidade, ou pelo menos com uma racionalidade reduzida. Torna-me vulnerável, incoerente e envergonha-me a mim próprio perante a minha pessoa normalmente racional, quando não mesmo perante os outros.

 

E é portanto isto que me assusta terrivelmente: perder a racionalidade.

 

Vou dormir, até amanhã.

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publicado às 01:58


8 comentários

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De LUIS BARATA a 09.10.2008 às 09:51

E até os génios a perdem. Entre outros, Nietzsche e Auguste Comte.
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De Nuno Castelo-Branco a 09.10.2008 às 12:19

Coisa enigmática, essa tal racionalidade que tento te rala. Eu tenho sido perfeitamente irracional e ao longo da minha vida só tenho feito asneiras umas atrás das outras. Que estranho, porque será?*

*Bah, não penses nisso, vê bem no que deram os "sistemas racionais"!
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De Luísa a 09.10.2008 às 14:11

A mim, Samuel, o que me assusta não será tanto perder a racionalidade, como perder o controlo. O agir impulsivo não me incomoda, desde que não perca o domínio das rédeas. Se as perco, então sim, sinto esse mal-estar de que fala. De mistura com algum medo de cair no ridículo. :-)
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De Nuno Castelo-Branco a 09.10.2008 às 16:04

Ora Luísa, aquilo que a pensa ser "ridículo" em qualquer atitude sua, pode por outros ser julgado como genialidade, eheheheheeh. Who cares?
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De Maite a 09.10.2008 às 22:31

Caro Samuel de Paiva Pires

Está a esquecer-se de um pequeníssimo pormenor. Os humanos têm o direito de ser irracionais de quando em vez. Well...desde que não seja muitas vezes :) (e não é que estes bonecos verdes da (o) sapo (qual glutões do presto) são giríssimos :) (espero que os dois pontos e o parêntese também se transformem, por magia, num boneco :)

Tenha uma excelente noite
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De mike a 09.10.2008 às 22:36

Samuel, está a ser demasiado severo consigo. Perca-a quando lhe der na veneta, mas desde que não o impeça de escrever textos destes.
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De Lady-Bird a 10.10.2008 às 16:04

Oh Samuel, esqueça lá isso...como dizia Pascal:
O coração tem razões que a própria razão desconhece.

Seja racional ou irracional, mas seja você mesmo.

um beijinho
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De Samuel de Paiva Pires a 10.10.2008 às 19:13

Caro Luís não que eu me queira comparar a qualquer génio, de todo, mas esse é de facto um elemento comum, a genialidade e a loucura andarem de mãos dadas! Talvez esteja de facto a ser um pouco severo comigo como diz o Mike, coisas minhas e arrependimentos quanto a certas acções. Concordo com a Luísa, agir impulsivamente não significa perder a racionalidade, perder o controlo sim, e isso então é que é mesmo o fim da picada! Mas como dizem a Maite e a Lady Bird, todos temos direito a ser nós próprios e por vezes irracionais. Espero é que sejam sempre poucas vezes, pelo menos quanto a mim!

Enfim, obrigado a todos pelas simpáticas palavras e desculpem-me o post semi-intimista semi-misterioso e enigmático como diz o Nuno!

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