Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




As Forças Armadas Portuguesas: paradas no tempo

por Nuno Castelo-Branco, em 14.10.08

 No domingo passado, realizou-se uma vez mais, a já tradicional parada militar em Madrid, comemorando o dia nacional do reino vizinho. Os espanhóis gostam destas coisas e sabem organizá-las milimetricamente, nada falhando. A sequência das unidades no desfile é perfeita, a tropa sabe marchar e os passos não claudicam, nem se verifica qualquer tipo de descoordenação. O equipamento exibido impressiona pela modernidade e aspecto impecável e as forças armadas não deixam de orgulhosamente apresentar os nomes das unidades que fazem parte da história e nos remetem para épocas passadas de heroísmo e grandeza. Presidindo à revista, estava o rei Juan Carlos I, a rainha Sofia e o resto da família real, o cimento unificador do Estado. País com sérias dificuldades em lidar com um passado onde o pronunciamiento sempre foi uma constante e o motivo para graves dissensões que desembocaram em fratricidas guerras civis, a Espanha não hesita em demonstrar o seu poder e o prestígio de que desfrutam umas forças armadas que transversalmente sintetizam a sociedade plurinacional que nelas se fundem, tendo como base primeira o interesse comum. E tão importante como isto, têm aquilo que o povo nelas quer ver, o chamado panache que vai do soldado raso à figura que recolhe a unanimidade: o rei de uma democracia.

 

Em Portugal, existe uma patológica e inexplicável timidez em tudo o que se refere à simples visibilidade das F.A.P. Dir-se-ia até serem inexistentes, pois há muito nos desabituámos da sua presença nas ruas e até nos simples transportes públicos, como se um  terrível cataclismo tivesse ocorrido. Quando nas instâncias superiores do regime se fala na aquisição do necessário equipamento, de imediato se levantam vozes escandalizadas e uma atroadora gritaria imbecil enche os noticiários, fazendo correr rios de lava pelas encostas do autêntico vulcão em que se transforma a comunicação social. Assim, tudo é feito de forma envergonhada e subreptícia e não se compreende bem o porquê do dislate. 

 

Paradas enquadrando a comemoração das grandes datas da nossa história,? Não as vemos há décadas! O 10 de Junho foi ridiculamente conotado com o "fascismo". O 1º de Dezembro, inacreditavelmente foi esquecido, quando pelo contrário, propiciou as mais celebradas vitórias - à escala da Europa de então - das nossas armas, representando o triunfo da nossa liberdade como nação independente e secular. Não existe uma simples menção a Aljubarrota ou ao triunfo sobre a chusma bonapartista que aqui viu pela primeira vez, as suas águias morderem o pó do chão dos campos onde foi derrotada. Nada, não existe absolutamente nada! Apenas uma patética celebração do armistício  de 1918, faz bruxulear a luz da memória, talvez piedosamente recordando a mais desastrosa campanha da história do nosso exército. Uma banda desengonçada, uns pelotões que se arrastam sem marchar - ironia das ironias! -ao som do Alte Kamerade do Kaiser Guilherme II e uma cerimónia curta, sem brilho ou a presença de gente cimeira do frágil edifício do sistema vigente. Que tristeza, o que de nós pensarão aqueles adidos militares estrangeiros que cumprem naquela data a sua obrigação de homenagem a este esquecido, fraco e timorato aliado?

 

E o problema reside no simples e corriqueiro facto de as coisas nem sempre terem sido assim. Quem folheie a Ilustração Portuguesa de há mais de cem anos, vê fotografias de tropas a descer a Avenida da Liberdade, aprumadas, bem vestidas - um tanto ou quanto à prussiana, á certo -, o passo coordenado e os regimentos a perder de vista. Era a sempre aparente- o 1º de Fevereiro e o 5 de Outubro deixaram ominosa e indelével nota de laxismo -  demonstração da vitalidade dos defensores primeiros da nação e do Estado. Tal como há dias em Madrid, lá estava o Comandante-em-Chefe, totalmente independente das questiúnculas partidárias e dos grupos de interesses mais ou menos comprometedores. Cumpria o seu papel, e unanimemente era aceite como o natural condutor de quem estava incumbido de zelar pela segurança de milhões.

 

Hoje, o nosso exército serve apenas para preencher o apertado e oportunista calendário intervencionista além-fronteiras, sem que por isso a sociedade - habituada a uma violenta barragem de artilharia anti-castrense - saiba reconhecer quão penhorado deve estar o regime a umas forças armadas a quem tudo deve. Uniformes velhos e pouco marciais, sem brilho e tristes. Veículos ultrapassados e em escassíssimo número e diversidade. Uma marcha pouco cadenciada que mais parece o desfile de uma agremiação de bombeiros de província. No entanto, um fugaz lampejo de energia ocorre quando surgem as tropas especiais, herdeiras de um passado de sacrifício e abnegada devoção a uma glória de antanho e claro está, o povo delira, quando vê desfilar em tropel os corcéis da Guarda, com a tropa uniformizada à grande, o derradeiro resquício daquela monarquia azul e branca que ofereceu a Portugal a última vitória em longínquos campos de batalha. 

 

O actual exército português, é o exército de uma democracia, tal como os seus congéneres de Espanha, do Reino Unido, Tailândia, França ou Bélgica. As forças armadas não intervêm na política doméstica, nem apontam o alçamento deste ou daquele caudilho. O serviço militar voluntário, deverá ter em princípio, a vantagem de fazer ingressar nas fileiras, aqueles que gostam e se orgulham do ofício da defesa e que decerto querem apresentar-se  de forma visível e desomplexada. São afinal, o elo mais forte de uma soberania de quase um milénio e que todos querem ver eternizar-se no porvir. Como nota anedótica (?), não será possível recorrer-se aos benefícios de uma certa globalização e encomendarem-se novos uniformes à China, assim como instrutores que ensinem a mancebagem a apresentar-se condignamente? Não será desejável fazer algo para que os nossos oficiais superiores deixem de se parecer com porteiros de casino, passando a ostentar outras vestimentas mais consentâneas com a tradição que hoje encarnam? O país não detesta as forças armadas, mas apenas deixou de respeitá-las, de tão invisíveis se tornaram.

 

Sigam o exemplo espanhol e imponham uma rotina de liquidação dos complexos que não têm razão de ser. No entanto, há que reconhecer que o pódio cimeiro, o do Comandante-em Chefe, continua vazio, porque ao contrário de Espanha, Portugal ainda não é uma monarquia. E isso faz toda a diferença.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:15


6 comentários

Sem imagem de perfil

De LUIS BARATA a 15.10.2008 às 07:46

Apesar de ter já passado o tempo de uma geração sobre a Revolução de Abril, existe ainda uma relação de amor/ódio relativamente às Forças Armadas. Concordo com muito do que dizes, há uma invisibilidade das F.A.P. que não se compreende.
Vemos os nossos militares praticamente só nos aeroportos: quando partem para o Kosovo, para Timor etc.
As comemorações das Linhas de Torres não teriam sido uma boa ocasião para que a instituição militar participasse mais activa e pedagogicamente na vida pública?
Evidentemente que quero umas F.A. submetidas ao poder político, mas não é preciso serem invisíveis.
Todos sabemos que muito do que compõe a soberania é da ordem do simbólico, e a visibilidade do braço armado do Estado não pode deixar de o ser.
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 15.10.2008 às 09:27

As comemorações das Linhas de Torres? A última vez que isso aconteceu, foi nas vésperas do 5 de Outubro e a tropa, dias depois, não cumpriu o que lhe devia: defender a legalidade.
Sem imagem de perfil

De LUIS BARATA a 15.10.2008 às 10:47

Estava a falar das mais recentes, que têm sido muito tímidas e sobretudo académicas.
Sem imagem de perfil

De Paulo Selão a 15.10.2008 às 14:11

Nunca me hei-de esquecer, aquando da transferência da soberania de Macau para a China, a diferença entre a guarda de honra chinesa, desde o físico dos militares (ali não querem soldados nem polícias gordos com os pneus a «escorrerem» para fora das calças arrastando a camisa com eles ficando com a «fralda» de fora), a sua postura, o fardamento impecável, os gestos mecanizadose perfeitamente sincronizados e a guarda de honra portuguesa qual tropa fandanga, fardamento e físico algo descurado, postura demasiado relaxada ficando com o tronco algo encurvado e gestos pouco sincronizados e com pouca tensão.
Aliás gosto de ver a postura de soldados de muitos exércitos em parada - até mesmo aqui em Espanha, que diferença - mas não vou «à bola», não gosto de ver a postura dos soldados portugueses, com exepção dos comandos e das unidades de polícia especial.
Pouca disciplina e o reflexo de um inexplicável envergonhamento e mesmo aversão doentia ao meio castrense por parte de alguns sectores, em particular da esquerda radical. Só nós é que somos um povo de brandos costumes! É uma virtude mas brandura a mais também é nefasto.
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 15.10.2008 às 15:42

Nada disso, pois lembro-m bem da postura das tropas em parada em Lourenço Marques. A actual postura republicana do regime é a de submissão e vergonha. Actrtei em cheio, não?
Sem imagem de perfil

De makepeace a 29.12.2008 às 00:44

para que têm servido as forças armadas nos últimos 200 anos?
Nada.
Extingam-se as forças armadas.

Comentar post







Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Links

Em destaque

  •  
  • Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas