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As peixeiradas no autocarro 38: 1986

por Nuno Castelo-Branco, em 29.10.08

 A nossa amiga e frequente visitante Isabel Moreira, teve a gentil desfaçatez de me enviar esta foto (1)  do meu último ano na FLL (1986), recordando também um episódio que há muito esquecera, mas que não deixa de ser característico daquela época. Apenas pouco mais de uma década decorrida desde o 25 de Abril, o espírito partidário ainda efervescia e as agremiações eram encaradas como hoje são vistos os clubes de futebol, arrebanhando fanáticos incondicionais. Os militantes davam tudo o que tinham e trabalhavam noites inteiras na azáfama do servio nas sedes e nas colagens de rua, fizesse frio ou calor. Era um labor desinteressado, sem recompensa material e talvez por isso mesmo, um tanto irracional, como convém.

 

A Isabel recordou-me um desses casos de burburinho politiqueiro a que eu e o meu irmão - espero que ele não se importe de aqui relatar o caso - nos entregávamos frequentemente. Costumávamos ir treinar a um ginásio de bairro na Álvares Cabral, o ACM. Quase todas as tardes lá arranjávamos a conjugação de horários necessária para passarmos duas horas entretidos com o exercício que na altura, era também um prazer e oportunidade de convívio com amigos e conhecidos que nos explicavam os truques dos pesos e halteres, a alimentação desejável e uma certa disciplina na perseverança. Geralmente utilizávamos o machimbombo (2) 38 da Carris para regressar a casa, ao Campo Grande. Não havia dia em que não provocávamos um pequeno motim a bordo, pois já conhecíamos a táctica infalível para a previsível explosão. 

 

Começávamos por abordar um assunto relativo à situação política do momento, ou referíamos esta ou aquela personalidade, podendo também estender a armadilha a temas  ainda escaldantes, como a descolonização ou a mal negociada adesão à CEE. Falávamos de forma audível, aparentando distracção, mas seguros de sermos escutados. Nem tínhamos ainda chegado ao Marquês e alguns rosnares eram já audíveis, iniciando-se discussões paralelas à nossa. Uns manifestavam o desagrado ou o apoio ao que dizíamos e tudo isto, sem nos dirigir palavra. Quase estourávamos de tanto conter o riso e sabíamos exactamente como deitar mais gasolina ao fogo, disso dependendo a evolução das conversas alheias. 

 

Naquele dia, a Isabel tinha tomado o transporte na paragem da Fontes Pereira de Melo, junto à EDP e assim que entrou, viu-nos e cumprimentou-nos, sentando-se um pouco mais atrás. É claro que naquele momento a coisa já ia grossa e a adjectivação muito pesada, enquanto o Miguel e eu próprio fingíamos continuar a nossa amena cavaqueira. A certa altura, parece que no banco detrás, dois fulanos se pegaram numa violenta quezília, com insultos mútuos e ameaças de pancadaria de criar bicho. A coisa foi alastrando pela camioneta e quando chegámos ao Saldanha, o 38 já se assemelhava mais a um manicómio rolante, numa gritaria ensurdecedora, com o motorista a ameaçar chamar a guarda. Evidentemente e cumprido o papel incendiário, os dois maninhos já se limitavam a rir e a ocasionalmente lançar mais uma ou outra atoarda que mantivesse o vulcão prestes a sofrer uma explosão piroclástica.  Neste momento, o palavreado daquela gente atingira os píncaros da ordinarice, com copioso recurso a mães putativas e respectivos aparelhos reprodutores, num afã prodigioso de utilização do calão de que a nossa sagrada língua é tão maravilhosamente  generosa. 

 

Chegados à paragem diante do Tatú, no Campo Grande, despedimos-nos calmamente da Isabel e saímos como se nada se tivesse passado. Para nós, aquilo era normal e quase rotineiro e para os outros, habituados às peixeiradas de que os "grandes" eram exemplos que a RTP nos metia casa adentro, apenas um descarregar de adrenalina. Bons tempos, aqueles...

 

1) Por acaso, a Cristina Mendes, a minha colega que é prima da Isabel, já me tinha oferecido uma cópia. Estávamos na época do Footloose e do Dirty Dancing do Patrick Swaize e claro, seguia a tendência, desde a roupa ao corte de cabelo com risco ao meio. O local situa-se na rua da Misericórdia, diante da galeria S. Francisco. O restaurante ainda existe. Publico a foto, porque gosto dela, tomem-na como uma Vanitas. Sem crime.

 

2) Autocarro no dialecto do Sul do Save, província de Lourenço Marques

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publicado às 18:14


7 comentários

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De mike a 29.10.2008 às 20:56

eheheheheh... belo post, este, Nuno.
Há que tempos que não ouvia, e muito menos lia, a palavra machimbombo. E não tente abarbatar-se que em Angola se chamava o mesmo.
Abraço.
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De Nuno Castelo-Branco a 29.10.2008 às 22:04

Ai é, Mike? Olhe que eu sempre estive convencido da autoria sul do sávica do termo! Que giro...
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De Samuel de Paiva Pires a 29.10.2008 às 21:15

AHAHAHA genial :p) Adoro também fazer esse tipo de provocações, mas nesses tempos deviar ter um gozo acrescido, sem dúvida!
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De Nuno Castelo-Branco a 29.10.2008 às 22:05

eheheheeh, havias de ver a reacção dos gajos. A coisa ficava mesmo brava, pá!
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De João Quaresma a 30.10.2008 às 21:42

Muito curioso. Eu também andei no ACM, lá para 1988-9. O trânsito era na altura tão caótico, com engarrafamentos tão prolongados que vinha para casa a pé.

Não sei como é agora, porque raramente os uso, mas naquela altura os autocarros eram autênticos laboratórios de psicologia popular. Aprendi muito acerca do povo português a prestar atenção às conversas/discussões de autocarro (andava no Liceu Francês, sentia-me muito estrangeiro em Portugal). Em altura de eleições (sobretudo as presidenciais de 1986), bastavam umas poucas palavras para acender um rastilho político. Era evidente para toda a gente que na altura não havia liberdade de expressão, que o pré-1974 era tabu absoluto, mas que o descontentamento com o pós-1974 era imenso (foi nesses anos a famosa sondagem encomendada pelo Eanes em que 60% dos portugueses indicavam Marcello Caetano como o melhor dos PMs mais recentes; foi por causa dessa sondagem que surgiu o PRD). Era também óbvio que as opiniões veiculadas pela imprensa eram muito diferentes da opinião pública real. Uma coisa que concluí nas discussões de autocarro, acerca do povo português, é que mais do que uma maioria silenciosa, existe sempre uma maioria de cobardes. Muitos ficavam calados o tempo todo a ouvir, e só ganhavam coragem para dar uma opinião ou um insulto quando já estavam na saída, com as portas abertas, a dois degraus da fuga. Se se falar baixo, armam-se em fortes; mas basta falar mais alto que amocham logo. Povinho bunda, como dizem os brasileiros.
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De Nuno Castelo-Branco a 30.10.2008 às 22:53

ehehehehe, João, mas acredite que apesar de tudo, conseguíamos pôr aquela gente a latir bem alto. O que nós rimos à conta dos palermas, nem imagina!
Muito provavelmente até nos cruzámos - salvo seja, ehehehe - no ACM, porque foi o meu ginásio até 1999! Só que sem ver a sua cara, não sei dizer :P

O Metro era outro local propício a realizar um rápido comício, mas o 38 era excelente, porque andava devagar. A Fontes Pereira de Melo e a Ressano Garcia (vulgo av. da república) estavam infestadas de carros que entupiam o trânsito e assim, tínhamos o tempo todo para ir aquecendo os ânimos. Quando a coisa estourava a sério, chegávamos à nossa paragem de saída e "tchauzinho, até amanhã"...
Era de morrer a rir!
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De João Quaresma a 31.10.2008 às 19:04

Imagino! Naquela época as pessoas tinham mais sangue quente do que hoje e as ideologias estavam mais à flor da pele. Bons tempos, nesse aspecto.

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