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Comentadores, fantasias e Obamas

por Nuno Castelo-Branco, em 05.11.08

 

 

O garante das liberdades e da Liberdade não são as repúblicas oligárquicas, mas as monarquias, imparciais, não subornáveis, indiferentes aos interesses do momento e fiéis intérpretes do interesse colectivo, do interesse do estado e da unidade nacional.

(in Combustões)

 

Todos os povos têm as suas características expressões culturais e rictus facialis que imediatamente os identificam diante de outros que não pertencem à mesma comunidade. Se os portugueses sofrem de crónicas variações no tom de voz e os franceses entremeiam as frases com longos Ââââ...., os americanos, esses, são mais exuberantes e tão mais notórios se tornam, quando se encontram hegemonicamente a partilhar as nossas horas caseiras. Estão em todos os canais de televisão, escutamos desenfreadamente a sua música e até as nossas pernas já se ajustaram para sempre à conveniência dos jeans. Todos os povos estão até certo ponto infestados de americanismo e no fundo, reconheçamos, já todos partilhamos um pouco dessa condição de longínquos cidadãos da Super-América em que se tornou o planeta Terra.

 

Não segui com atenção a campanha para a eleição presidencial norte-americana. Não me interessou a pré-selecção dos candidatos e apenas manifestei parvamente alguma predilecção - sem saber verdadeiramente porquê - pela Clinton. Os últimos dias consistiram num autêntico festival de comentários, programas biográficos, pivots destacados para cobrir o acontecimento in loco, numa tremenda banalização daquilo que é na verdade, banal. Trata-se apenas de um normal render da guarda, sem consequências de maior.  Os senhores McCain e Obama, interessam-me tanto como os senhores Aníbal, Jerónimo, Manuel ou Francisco: nada.

 

O que se tornou extraordinário, foi o voraz apetite com que certas franjas do incipiente espectro político nacional, se atirou à costumeira adesivagem ao "seu candidato". Se alguma coisa ia sabendo acerca das desditas da campanha tardio-adolescente de Palin e da sua paixão pelo escorchar de animais, isso deveu-se à ocasional leitura de um ou outro blog. A direita, submergida pelo maremoto mediático anti-Bush, timidamente quase sussurrava o nome do émulo yankee, o senhor McCain, ainda por cima dotado de discutível presença em palco, posições "liberais" pouco agradáveis aos militantes do partido do elefante e pior que tudo, herói de guerra. A direita portuguesa treme de pavor perante um qualquer condecorado por feitos bélicos, não aguenta o embate do preconceito inculcado na sua transcendente timidez. Assim, remeteu-se à defensiva ou ao puro e simples silêncio, quando pelo contrário, Obama era um candidato tão ou mais do seu agrado, como Cavaco Silva o fora há uns dois anos.

 

O que se tornou evidente, foi a descarada colagem de uma certa esquerda do sector politicamente correcto - a esquerda é em Portugal a epítome daquilo que é aceitável em situacionismo ideológico -, ao candidato Obama. O simples facto do nome Partido Democrático, se para alguns políticos portugueses, remete para uma época de certa hegemonia caceteira, onde o monopólio do poder e a obrigatoriedade da militância eram quase o verdadeiro móbil do regime, para outros é suficiente para uma rotulagem de contornos ineditamente abusivos. Quem escute uma meia dúzia de jangadeiros do PC, BE e principalmente do PS, julgaria o senhor Barack como um lídimo defensor dos já há muito esquecidos princípios da Internacional Socialista. A histeria varreu uma parte da blogoesfera e o facto do candidato do PD ser "de cor", mais entusiasmou à imediata sintonia com os príncípios (quais?) da sua campanha. O homem é bonito, fala e veste-se bem, é profunda e assumidamente burguês high-class, mas é "negro", ou melhor, mulato (1). Num país que possuiu um enorme império colonial durante quase cinco séculos e que não conta com um único deputado ou ministro "de cor", estranho o desvanecimento que raia a mais rasteira patetice, das comentadoras e correspondentes adereços masculinos que têm pontificado à hora dos telejornais.  O paternalismo, durante décadas um insulto arremessado à memória dos hábitos existenciais do Estado Novo, ressurgiu num resplendor que faz inveja a qualquer colosso talhado no mais exuberante estilo barroco. O chamado pretismo é apenas aplicado a quem, mesmo que remotamente, se possa identificar com "os pobres". Como se o Partido Democrático USA fosse um partido de pobres! Não há a mínima hipótese de brincar ao paternalismo, se em questão estiverem personalidades renegadas como a senhora Condoleezza Rice  ou o general Colin Powell que aliás, são bem mais escuros que Obama. Negros republicanos? Que vergonhosa incongruência...., embora tenham sido os republicanos que dominantes no norte industrial, desencadearam a guerra contra dos Estados da Secessão, fervorosos defensores  - com o Partido Democrático à frente - do status quo da ignomínia esclavagista. 

 

A esquerda europeia, muito segura das suas imorredoras e infalíveis certezas, jamais compreendeu a complexa realidade do próprio sistema político e eleitoral norte-americano. O Partido Democrático de que se sente parente próxima, é um conglomerado de gentes que por vezes se situam nos antípodas entre si e até uma superficial análise do seu eleitorado, denota uma clivagem profundamente racista, onde certos Estados "tradicionalmente democratas", votaram McCain para presidente - o branco, o protestante, o WASP ariano e republicano  - e, pasme-se, enviaram o correspondente senador do PD para o Capitólio. É uma esquerda americana que oscila entre o Ku Klux Klan,  as trade unions e o capital financeiro mais avassalador  que controla a Wall Street, a grande indústria da informação e do cinema. Em Portugal, o próprio CDS sentir-se-ia coagido perante o forte pendor conservador, radicalmente capitalista e anti-intervencionista na economia que o Partido Democrático manifesta. Alguns eflúvios remanescentes do baladismo de Joan Baez ou as nostálgicas glórias do Easy Rider ou The Deer Hunter, não são suficientes para o ocultar de uma verdade tão cristalina como a inscrição In God We Trust impressa nas notas de dólar. Na América continuarão a mandar os mesmos, aquela administração permanente que fica no conforto dos seus escritórios e que é composta por lóbis, funcionários não sujeitos a escrutínios eleitorais e que acaba por submeter as Novas Fronteiras e os New Deals à conveniência muito lata do interesse político, económico e militar dos EUA. Como é possível imaginar que o futuro presidente dos EUA poderá um dia sentar-se à cabeceira de Fidel, segurando-lhe a algália enquanto lhe segreda os seus projectos de concórdia com gente do calibre de Ahmadinedjad, Morales, Mugabe ou Bin Laden?

 

Ontem lá cedi à curiosidade do momento e pensando porque razão sou capaz de esperar longos momentos por uma soap opera como as Donas de Casa Desesperadas, não seria agora paciente para partilhar de uma certa mundialização do acontecimento que transbordou fronteiras e obcecou as mentes? O zapping tem destas coisas, como o de permitir a breve análise do andamento das situações e assim, decidi-me por aquilo que pensava ser uma análise abrangente por quem deveria ter a obrigação de comentar com perfeito conhecimento da situação. O trio Pacheco Pereira, Lobo Xavier e António Costa, é um velho conhecido da caixinha intrusa e foi sem espanto que deparei com uma autêntica canção do bandido, que ditava a inconsciente extrapolação daquilo que se passava na América, com os pouco evidentes paralelismos relativos ao que se passa no espectro partidário nacional. Costa estava satisfeito, pois era tacitamente reconhecido como "o vencedor" da coisa. No entanto, a conversa aflautada e quase farinellesca de Pacheco Pereira, teve o condão de me irritar de sobremaneira, pois subrepticiamente fazia voar os seus punhais, minimizando ou menosprezando o previsivelmente eleito Obama. Pouco digno de consideração é, quem não seja capaz do logicamente necessário distanciamento da paixão ou obediência partidista, acabando por troçar do espectador que se digna a prestar-lhe a atenção. O botãozinho do controle remoto opera maravilhas e passei a outros canais, onde doutourais conhecedores dos meandros da política USA, lá iam fazendo as suas previsões, sacando de blocos de notas com referências a eleições passadas e às possibilidades que este ou aquele Estado ofereciam de vitória garantida. Como se tal trabalho valesse a pena, pois bastava-lhes aguardar a informação das cadeias televisivas americanas!

Foi também bastente curioso ir observando as notas escritas que iam passando em rodapé, informando constantemente acerca das imprescindíveis opiniões de gente tão insigne e relevante como os senhores Fidel Castro, Hugo Chávez e mullahs xiitas,  reconhecidos inimigos dos Estados Unidos e outras insignificâncias mais. Se para Castro, Obama "é uma luz que surge no horizonte", para outros já se reveste com imaculados cafetãs de um verdadeiro Messias que fará cair dos céus o maná do pão, leite, mel e sobretudo, liquidará a condição de superpotência do pais que o elegeu presidente.  Os políticos portugueses manifestaram o seu regozijo e até o "presidente" já manifesta o desejo de um ainda maior estreitamento de relações com o vizinho trans-Atlântico, como se Portugal hoje dependesse fortemente dos investimentos ou ajudas materiais provenientes do centro de decisão de Washington. Para os nossos senhores, um bom presidente americano deve ser suficientemente fraco como Wilson, mentalmente depauperado como o Roosevelt de 1943-45, mafioso-chic como Kennedy, ou pelo menos, um risonho imbecil como Carter. 

 

Nunca fui republicano, não o sou e espero descer ao túmulo sem jamais o ter sido. Todo este jogo presidencial-eleiçoeiro de sombras chinesas para divertimento de plateias roedoras de pipocas e salgadinhos, não consegue esconder a realidade omnipresente. Terminada a stand up comedy, tudo voltará a ser como era: os agiotas alegremente manipularão nas Bolsas, o petróleo continuará a infernizar os nossos dias de penúria e claro está, dentro de uns poucos meses Barack Obama mandará abrir os alçapões dos bojudos B-52, fazendo chover toda uma nova geração de bombas. Desta vez são bombas Democratas, pela paz, liberdade e como sempre, instauradoras dos direitos humanos em remotas paragens. Tal como Clinton o fez muitas vezes e com total impunidade mediática. 

 

Calcula-se o que a blogosfera, a televisão e a imprensa euro-portuguesa dirá: nada.  

 

(1). É verdade, fui surpreendido. Antes de ver a sua foto e já tendo escutado o nome, pensava tratar-se de mais um descendente de irlandeses, talvez um O' Bahma, na esteira dos O' Reilly e O' Connor.

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publicado às 22:25


16 comentários

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De Samuel de Paiva Pires a 06.11.2008 às 01:36

Nuno, em minha opinião este post merecia vencer um qualquer prémio de post do ano da blogosfera portuguesa, é dos melhores textos teus que já li! BRILHANTE!

Um abraço
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De Nuno Castelo-Branco a 06.11.2008 às 13:33

Puxa, Sam... e eu que fiz isto para preencher calendário, lol!
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De JMB a 06.11.2008 às 03:35

Há mais impresso nas notas de dólar. Hoje não que é tarde (refiro-me à hora).

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De JMB a 06.11.2008 às 03:42

Brilhante.
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De JMB a 06.11.2008 às 04:01

Essa do Farinelli é de morte ! o PP vai gostar.
Ainda ando por aqui porque de facto vale a pena ler e ler e ler ...
Fantabuloso !
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De Nuno Castelo-Branco a 06.11.2008 às 13:34

Qual dos PP's JMB? :)))
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De Aaoiue a 06.11.2008 às 09:08

Formidable análisis. Ayer al levantarme oí un discurso triunfal de Obama y me recordó por su tono a King África (http://www.youtube.com/watch?v=jY48iTyLrmk), pero la comparación no es una ironía, que conste.
Seguiré sintiendo atentamente este estado. Les envío mi gratitud por enlazarme como estado soberano.
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De Nuno Castelo-Branco a 06.11.2008 às 13:35

eheheheh, the king of Africa, esa es buena... Los españoles son siempre muy bienvenidos. Escribanos algo de España, las autonomias, por exemplo.
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De Aaoiue a 06.11.2008 às 14:06

¿Por qué será que a los políticos conforme avanza la campaña electoral se les va poniendo cada vez una voz más descomunal, entre el comentarista deportivo y King África, sí?
He tocado en mi blog algún aspecto suelto de las autonomías españolas (especialmente los desmanes del gasto público y el proteccionismo cultural exacerbado de unos oligrofrénicos a sueldo), pero mi ojo cítrico o crítico no se corresponde con las dimensiones del tema, que excede la capacidad de mi lente y ya no digamos de mi mente. No me acompleja mi opinión -que seguramente sería tildada al instante por alguien de anticatalanista, españolista, etc.- más bien es que no me considero bastante pertrechada de argumentos para hacer un buen análisis. Por esto su post me causa admiración, por su rigor y sin embargo su soltura.
Si alguna vez escribiera algo al respecto de las autonomías que fuera una aportación real, te tendré informado.
Un saludo.
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De Cristina Ribeiro a 06.11.2008 às 12:24

Dizer o quê, depois de um texto destes? Repetir uma das frases fulcrais "tudo voltará a ser como era".
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De Nuno Castelo-Branco a 06.11.2008 às 13:35

Claro, the party it's over!
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De Margarida Pereira a 06.11.2008 às 20:09

..."preencher calendário", Nuno?...
Consta que se paga bem na imprensa por crónicas bem mais pequeninas do que esta.
A espada incandescente alguma vez arrefecerá?

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De Nuno Castelo-Branco a 06.11.2008 às 22:21

Oi Maggie... não faço parte de qualquer tugúrio de interesses. esta espada só serve para mostrar em cerimónias, ehehehehehe
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De De Puta Madre a 06.11.2008 às 21:31

Muito acima daquilo que eu tb zappinguei por aqui y ali. Mas bato na tecla: o Obama não é ingénuo ... eh eeehe y sabe que é preto (!) y sabe de cor a "Engrenagem" do Sartre... por isso: a surpresa vai ser outrinha.
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De Nuno Castelo-Branco a 06.11.2008 às 22:22

Oi, espertalhona, também me parece que tens razão. Quanto ao sartre, sou completamente nulo na matéria. Além do caviar e do Béria, do que mais gostava ele? :*
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De De Puta Madre a 06.11.2008 às 23:05

É um livrinho que se lê rapidinho ... Y uma outra forma de referir o trocadilho do "tudo muda para ficar tudo na mesma" ... Y aí estará a surpresa .... eh ehe heh

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