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90 anos de um esquecido Armistício: 1918-2008

por Nuno Castelo-Branco, em 12.11.08

 Passaram ontem 90 anos da assinatura do armistício firmado entre as potências da Entente e o Império Alemão. A curta cerimónia na floresta de Compiègne, punha fim à hegemonia da Europa sobre o planeta Terra e inaugurava um século XX de violência e extremismos sem precedentes.

 

Em Portugal, um dos derrotados de facto da I Guerra Mundial, o Armistício apenas tinha algum significado para o cada vez mais escasso número de antigos combatentes, que empurrados por um regime ignóbil para uma frente de guerra longínqua, foram sacrificados ao fugaz interesse de uns quantos políticos do momento, sequiosos do reconhecimento das Potências. O Armistício e as cláusulas de Versalhes consagraram essa derrota política e militar, pois o nosso país não obteve qualquer compensação territorial e materialmente, as indemnizações foram de pouca monta. Contando reequipar a marinha de guerra - o bastião armado da I república - com alguns dos despojos da Hoch See Flotte do Kaiser Wilhelm II, chegaram ao Tejo, apenas uns fracos cascos de escolta da liquidada armada austro-húngara. Compreende-se assim, obliteradas pela hodierna informação as grandes tiradas e piedosas pagelas  dedicadas ao "Soldado Milhões", este conveniente esquecer que o regime vota à efeméride. 

 

A História da participação portuguesa na Grande Guerra está ainda eivada dos mitos endeusadores da iimplacável propaganda a que o país esteve sujeito ao longo de mais de três quartos de século. Se as Memórias de Chagas ou os Diários de Relvas os desmentem cabalmente,  as resmas de livrinhos, opúsculos e revistas que enaltecem essa autêntica saga de derrotados, impuseram a falsidade como norma. O Poder sempre viu como uma necessidade, um reescrever de uma História que lhe era e é , sem dúvida, totalmente adversa. Desde o mito de Tancos, até à "reconquista de Quionga" (Moçambique), teceram-se lendas, falsearam-se números, esconderam-se realidades. Estas ditas realidades são facilmente descortináveis no meio do autêntico matagal de cipós e trepadeiras parasitas com que o regime enredou o incauto aventureiro nestas actividades do conhecimento. Até há pouco, era unanimemente aceite como facto, o clássico duelo de um punhado de bravos que teve de enfrentar a colossal máquina guerreira engendrada pelo militarismo prrussiano e pelas novas artes de matar propiciadas pela fabulosa Revolução Industrial. 

 

A verdade é bem mais comezinha e típica daquele conturbado período que uma população indefesa teve de suportar estoicamente. A falta de organização, o desleixo e abandalhamento de umas forças armadas fatalmente atingidas pelo vírus desagregador do 5 de Outubro, colocaram desde o início em causa, a própria colaboração de Portugal com a sua formal  aliada, a Inglaterra.  O corpo de oficiais encontrava-se profundamente dividido quanto à forma do regime e pior que tudo, participava agora activamente nos combates políticos na arena de S. Bento. O efeito dissolvente sobre o sentido de hierarquia, seria absolutamente fatal no momento em que a tropa teve de enfrentar as disciplinadas, e aguerridas divisões alemãs. Os últimos anos da Monarquia tinham feito chegar aos arsenais armas novas, desde espingardas modernas  com as quais o exército se armou durante o próximo meio século, ao famoso canhão de 75mm francês. Comprado em importante quantidade e acompanhado por pessoal bem treinado, era talvez a única arma susceptível de prestar eficientemente o serviço na frente. Contudo, uma parte dos efectivos foi deixada em Portugal, com o estrito fim de controlar as crónicas sublevações políticas e militares que ensanguentavam o país e tornavam periclitante a república. Assim, o desastre foi total, desde as trincheiras de Armentières ao sul de Angola e a todo o norte e centro de Moçambique. Não se ganhou uma só refrega - por muito secundária que fosse -, a doença grassou com inaudita ferocidade, acompanhada pela fome, frio e parasitagem de toda a ordem. Resumidamente, foi este o palmarés que a república honestamente devia ter apresentado como seu, exclusivo, único. Mas não, não procedeu de acordo com o rigor histórico, porque colocou os seus publicistas ao serviço e de sentinela, escrevinhando-se mirambolantes feitos épicos de canhoneiras contra submarinos, de um soldado que sozinho aguentou vagas de Sturmtruppen, não se esquecendo no plano da valentia política, apresentar como glorioso feito, o apresamento das sete dezenas de navios alemães internados nos portos nacionais. A verdade foi outra e decorreu, como é óbvio, do acicate britânico ditado pela premente necessidade, no momento em que a guerra submarina fazia perigar o equilíbrio de forças a favor dos Impérios Centrais. 

 

Após a assinatura do Armistício, assistiu-se a uma patética correria na imprensa, tendente a fazer crer da inevitabilidade de uma portentosa recompensa territorial ao esforço da república. Assim, a Ilustração Portuguesa apresentava num dos seus números e na capa, um orgulhoso Afonso Costa que empunhando um mapa, mostrava o Tanganica (Tanzânia), como a natural anexação para a criação de um Grande Moçambique. 

 

Não foi a participação da república portuguesa  no conflito, aquilo que mais interessa reter neste aniversário. O que realmente importou, foi o tremendo erro e claro engano imposto aos vencidos que acreditando à letra no próprio significado político e militar da palavra Armistício, foram alguns meses depois, obrigados a submeter-se a uma jamais vista humilhação universal que para sempre mudou o conceito que os povos tinham da diplomacia e das relações internacionais. Decorridos à época, quase exactamente cem anos após a esmagadora derrota do império napoleónico, à Alemanha não lhe foi permitido conservar o regime político, nem sequer teve o direito de negociar qualquer cláusula, fosse ela de índole militar, económica ou territorial. Estava-se num momento, em que mesmo que o Reich contasse com uma horda de Talleyrands, esta não teria exercido qualquer influência no desfecho daquilo a que se designou por Tratados. A guerra tinha sido dolorosamente longa e mercê dos equipamentos colocados à sua disposição pela magia tecnológica dos novos tempos, irredutibilizou os ânimos, fomentou ódios irreconciliáveis e lançou as sementes para um futuro e mais devastador conflito.

 

A I Guerra Mundial significou a liquidação da Europa como espaço político, económico e militar que durante séculos ditara uma hegemonia global. Os americanos entraram na guerra, precisamente para esse arrebatar  de testemunho, revertendo a seu favor o esforço de terceiros, drenando recursos, subsidiarizando economias e o espírito criador. Territorialmente, os 14 Pontos de Wilson significaram o fim da tradicional fidelidade dinástica que durante séculos e até 1918, fez com que os exércitos do Kaiser de Viena, congregasse nas suas fileiras  mais de quinze povos, unidos pela história e pelo interesse que uma situação geográfica vital, impunha  a necessidade da união, mesmo que pessoal. De facto, o destruir da Áustria-Hungria, jubilosamente gizada em Paris e  Washington, representou um irremediável desastre para a Europa que hoje, tenta encontrar um modelo que lhe reabra o trilho de progresso e poder que foi seu ao longo de meio milénio.

 

Seria interessante saber qual teria sido a participação portuguesa, no caso de o 5 de Outubro - e logicamente o Regicídio - jamais terem ocorrido. É um trabalho para os historiadores que dispondo da informação contida  nos arquivos nacionais e chancelarias estrangeiras, poderão assim avaliar cabalmente um enigmático "se" da nossa História.

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publicado às 23:27


2 comentários

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De António de Almeida a 13.11.2008 às 17:29

-O que eu gostava mesmo de perceber é como se partiu dum acontecimento "menor", um assassinato para uma carnificina até então inigualável, e como se manteve uma guerra de trincheiras sem que ninguém avançasse durante muito tempo. Mas o começo da I guerra é algo estranho, como se chega a envolvimento da quase totalidade dos países europeus.
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De Nuno Castelo-Branco a 13.11.2008 às 18:18

O assassinato foi o pretexto, mas a engrenagem das alianças estava há muito montada pelas potências. Os Balcãs eram uma área instável e a Sérvia pretendia engrandecer-se à custa de uma grande potência, a Áustria-Hungria. O famigerado "princípio das nacionalidades" foi aplicado como norma nas relações internacionais. O problema é que esse princípio não devia ter sido aplicado na "Jugoslávia", como muito mais tarde se percebeu, pois de facto, a convivência croato-esloveno austríaca era bastante profunda. Embora sérvios e croatas partilhem idêntica língua, tudo o mais os divide.
Quanto à condução da guerra, creio que o problema do impasse, residiu precisamente na equivalência de forças na frente ocidental e não nos podemos esquecer do limitado espaço de manobras. Limitado, para os recursos enormes disponibilizados pela indústria e pelos exércitos de massas. na frente oriental, o colosso russo defrontava contingentes alemães mais modestos, mas a Áustria tinha uma certa capacidade de mobilização e o terreno era amplo, possibilitando manobras de envolvimento, etc. Se a Rússia se tivesse rendido mais cedo (1916-17, os Centrais tinham a partida vencida no Continente, disso não existem dúvidas, porque o reforço da frente ocidental, a liquidação da Itália (a Roménia e a Sérvia já tinham caído) e o fim da frente otomana no Cáucaso, teriam sido elementos novos a considerar. Duvido que a entrada dos EUA tivessem alterado substancialmente a situação. Os alemães venciam a França, tal como em 1940, mas esta última beneficiou por duas vezes cruciais (Marne, 1914 e Verdun, 1916), do sacrifício russo em Tannenberg (ofensiva Rennenkampf) e na Galícia austríaca (ofensiva Brussilov). Ironia das ironias, a França comemoraria a queda do czar que a salvara.

Curiosidade será decerto o movimento diplomático de D. Carlos, no sentido de aproximação à Entente Cordiale e a rainha D. Amélia parece que mencionou nas suas cartas e diário, as negociações para a nossa participação no conflito possível com os Centrais. Ao que parece, Portugal entraria com 100.000 homens na frente ocidental, isto é, cerca de 10% dos efectivos dos franceses. Creio contudo que a política real seria em África. Hoje existiria mais um Palop? Sabe-se lá...

Tenho é a absoluta convicção - monarquismo à parte - de que a participação nacional teria sido muito diferente do desastre que a república nos impôs. O exército contaria com uma chefia unida, estaria mais preparado e o comandante-em-chefe não "brincava em serviço" (passe a expressão). Sabemos do esforço do D. carlos para a rápida modernização do equipamento e de facto, Portugal fez a guerra das trincheiras com a artilharia mais moderna do seu tempo. Nota amarga para a república, junto das culatras dos 75mm, lá estava - e está - o monograma C.I. , ou seja, Carlos I.

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